Mudanças Constantes https://www.mudancasconstantes.com/ Blog de viagens para inquietos e irrequietos Sun, 29 Sep 2024 09:20:43 +0000 en-GB hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0.2 https://www.mudancasconstantes.com/wp-content/uploads/2018/10/cropped-Untitled-design-1-32x32.png Mudanças Constantes https://www.mudancasconstantes.com/ 32 32 Ushguli a Mestia: três dias pelas aldeias perdidas do Cáucaso https://www.mudancasconstantes.com/2024/09/10/ushguli-mestia-trilho-georgia/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=ushguli-mestia-trilho-georgia https://www.mudancasconstantes.com/2024/09/10/ushguli-mestia-trilho-georgia/#respond Tue, 10 Sep 2024 20:17:25 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9674 O percurso de Mestia até Ushguli é o santo graal da caminhada na Geórgia. 62 quilómetros de trilho, que passam por aldeias isoladas, glaciares gigantes, vales, rios e montanhas.   A caminhada pode ser feita ao ritmo que quiseres, há guesthouses espalhadas por toda a parte. A maioria das pessoas demora cerca de quatro dias. Nós fizemos em dois dias e meio.   A melhor dica que posso dar a quem queira fazer este percurso é: fá-lo ao contrário! Juro que não percebo porque é que 95% das pessoas decide fazer Mestia – Ushguli em vez de Ushguli – Mestia. São menos 500 metros de elevação e apesar de ter uma ou outra subida mais intensa, não se compara às subidas (muitas delas bem chatas) da “direcção oficial”.  Assim sendo, aqui fica o relato dos nossos dias pelos píncaros do Cáucaso.   Dia 0.5: Ushguli a Lalkhori (Iprali) 13.5km em três horas e trinta  Saímos de Kutaisi às seis e pouco da manhã. Tínhamos um longo dia de viagem pela frente. Quatro horas de carro até Mestia, uma hora de táxi até Ushguli e três horas de caminhada de Ushguli até Lalkhori.   A estrada começa a transformar-se à medida que nos vamos aproximando de Svaneti. As planícies dão lugar às montanhas e nós transformamo-nos num pequeno pontinho na imensidão da paisagem.   Há vacas na estrada e o acesso à rede movel desaparece.   Chegados a Mestia, comemos os nossos lanchinhos pré-preparados agarrámos nas mochilas que tinham só o essencial para os próximos dias. Afinal, íamos ter de as carregar durante 60 quilómetros.   Com algum esforço, lá encontrámos o nosso motorista, que falava cerca de cinco palavras de inglês, e começámos a viagem até Ushguli. Durante aquela hora, embrenhámo-nos ainda mais pelas montanhas e chegámos àquela que é certamente uma das aldeias mais panorâmicas do mundo.   Mas não nos podíamos desleixar e começar a tirar fotografias a tudo o que nos rodeava. Tínhamos que chegar à nossa guesthouse antes do anoitecer! Com poucas subidas e descidas, este troço fez-se facilmente e em três horas e meia, incluindo algumas paragens curtas, estávamos na Betegi Guest House. Uma das minhas partes preferidas destes dias de caminhada é o sentimento de dever cumprido, seguido de um duche e de uma cerveja e snacks enquanto se espera pela chamada para o jantar! Sabendo que no dia seguinte faremos tudo outra vez.     Dia 1.5: Iprari a Adishi 21km em sete horas e quinze  Neste dia obriguei os meus amigos caminhantes a sair às seis da manhã. Não como forma de tortura, mas porque a previsão do tempo dava chuva para a tarde e por isso o objectivo era chegar antes de ficarmos ensopados.   As primeiras horas deste dia foram quase a subir, felizmente uma subida gradual onde nos aproximávamos lentamente da vista mais épica da caminhada: o Chkhunderi Pass. No topo somos confrontados com uma massa de gelo gigante que trepa pela montanha acima. Aqui estamos rodeados por alguns dos maiores picos de Geórgia.   Antes de seguires para baixo, para Adishi, há um pequeno “detour” à direita que continua a subir e que te leva a um ponto onde vais encontrar aquela que é, na minha opinião, a vista mais bonita da Geórgia. O lugar ideal para parar e recuperar as forças enquanto se absorve a magnitude da paisagem.   A partir daí é sempre a descer e foi a primeira vez que ficámos mesmo satisfeitos por termos escolhido fazer o caminho ao contrário. No sentido contrário vinham muitos caminhantes ofegantes enquanto nós seguíamos leves e frescos, aproveitando as vistas sobre o vale.   Por fim, tínhamos chegado à famosa travessia do rio. Esta travessia pode ser feita a pé ou a cavalo. Havia pessoas a fazer ambas, mas para a fazer a pé é recomendado ter sandálias e caminhada e batons de caminhada. Como não tínhamos nem um nem outro, fui negociar com os senhores da travessia.   Os preços são fixos e não há muito por onde negociar (entre 20GEL a 25GEL por pessoa). Creio que no fim nos consegui poupar cerca de sete ou dez euros, mas foi uma negociação de vinte minutos!   Já do outro lado, seguimos calmamente por um caminho sempre a direito sabendo que Adishi já não estava longe e que as nuvens negras que se aproximavam não nos iam apanhar.   Esfomeados, assim que deixámos as nossas mochilas na guesthouse, fomos procurar almoço. O melhor é ir perguntando às poucas pessoas que estão na rua, porque nem todas a guesthouses servem almoços. Lá encontrámos um pequeno café/supermercado que nos salvou com uma refeição quente.   Estava naquela hora do dia de descansar as pernas e aproveitar o silêncio de uma aldeia perdida no tempo.   Dia 2.5: Adishi a Mestia  27km em nove horas e vinte   Não vou mentir, este dia foi um esticão. Combinei dois dias de caminho num dia só e como tal, quando finalmente chegámos a Mestia, parecia que tínhamos completado uma maratona.   Mais uma vez, saímos cedo, desta vez porque tínhamos quase trinta quilómetros pela frente. Uma das coisas boas de acordar cedo é que temos o caminho só para nós durante as primeiras horas. Uma coisa má é que como ainda ninguém passou pelo caminho, levas com teias de aranha na cara.   Este dia está repleto de montanhas verdejantes, com alguns picos nevados e glaciares distantes. Acho boa ideia fazer tudo num dia, porque a nível de paisagem não varia muito e assim fica despachado!   A maioria das pessoas fica em Zhabeshi, mas como não precisávamos de parar lá continuámos por outro caminho. Problema: não há quase mais nada nas redondezas. Estávamos cansados, esfomeados e a começar a ver a nossa vida a andar para trás.   Até que passámos por uma casa que mencionava comida num pequeno cartão. Da casa saiu uma senhora com um grande sorriso que não falava inglês nenhum, mas que disse a palavra mágica: khachapuri.   Para além do khachapuri, tivemos direito a queijo, tomate, pepino, iogurte fresco e compota caseira. Foi uma das melhores refeições da minha vida. Ainda por cima num relvado, à sombra, num vale com uma vista linda para as montanhas.   A parte mais tortuosa de toda a caminhada ainda estava para vir, a subida final, 400 metros de elevação debaixo de um sol tórrido. Eventualmente estávamos na última descida e Mestia cada vez mais perto. Tínhamos cumprido o nosso objectivo!   De volta ao centro, comprámos gelados e seguimos até ao nosso alojamento. Era fora do centro, mas tinha reviews tão boas que parecia valer a pena. E valeu mesmo! Os donos eram super simpáticos, a comida absolutamente deliciosa e a localização perfeita. Precisas é de ter um 4×4 para lá chegar ou acordar com eles para tratarem do transporte. Estávamos prontos para o nosso merecido descanso.   Dia Extra: Cascatas e Glaciares   O dia de descanso foi mais lento, mas mesmo assim, repleto de lugares bonitos. Fizemos caminhadas curtas.   Shdugra Waterfall: a maior cascata da Geórgia. Este percurso pode continuar até um glaciar, mas nós fizemos só cerca de uma hora ou uma hora e meia para cada lado para ver a cascata. O trilho é fácil, só tem uma subida no final e está bem marcado.  Link no All Trails Chalaadi Glacier: Esta é uma caminhada muito descontraída, especialmente se não perderes o rasto ao caminho como nós. Penso que uma pequena parte do trilho era um pouco enganadora porque o nível da água estava alto e acabámos por nos meter por uns caminhos um pouco loucos antes de encontrarmos novamente o rumo. A volta foi muito mais fácil, nem sei como nos enganámos! Por isso, mantem-te no trilho e consulta o GPS se necessário!  O fim do passeio acaba mesmo em frente a um glaciar gigante!   Link no All Trails  Os nossos dias em Svaneti terminaram com uma bela refeição no nosso alojamento local com a típico vinho caseiro de oferta e o alívio de saber que a próxima caminhada ainda estava a alguns dias de distância.   Dicas rápidas  Transporte   Alojamento  Dinheiro  Outras dicas  Link para o trilho Ushguli-Mestia

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O percurso de Mestia até Ushguli é o santo graal da caminhada na Geórgia. 62 quilómetros de trilho, que passam por aldeias isoladas, glaciares gigantes, vales, rios e montanhas.  

A caminhada pode ser feita ao ritmo que quiseres, há guesthouses espalhadas por toda a parte. A maioria das pessoas demora cerca de quatro dias. Nós fizemos em dois dias e meio.  


A melhor dica que posso dar a quem queira fazer este percurso é: fá-lo ao contrário! Juro que não percebo porque é que 95% das pessoas decide fazer Mestia – Ushguli em vez de Ushguli – Mestia. São menos 500 metros de elevação e apesar de ter uma ou outra subida mais intensa, não se compara às subidas (muitas delas bem chatas) da “direcção oficial”. 

Assim sendo, aqui fica o relato dos nossos dias pelos píncaros do Cáucaso.  


Dia 0.5: Ushguli a Lalkhori (Iprali) 
13.5km em três horas e trinta 

Saímos de Kutaisi às seis e pouco da manhã. Tínhamos um longo dia de viagem pela frente. Quatro horas de carro até Mestia, uma hora de táxi até Ushguli e três horas de caminhada de Ushguli até Lalkhori.  


A estrada começa a transformar-se à medida que nos vamos aproximando de Svaneti. As planícies dão lugar às montanhas e nós transformamo-nos num pequeno pontinho na imensidão da paisagem.  

Há vacas na estrada e o acesso à rede movel desaparece.  

Chegados a Mestia, comemos os nossos lanchinhos pré-preparados agarrámos nas mochilas que tinham só o essencial para os próximos dias. Afinal, íamos ter de as carregar durante 60 quilómetros.  

Com algum esforço, lá encontrámos o nosso motorista, que falava cerca de cinco palavras de inglês, e começámos a viagem até Ushguli. Durante aquela hora, embrenhámo-nos ainda mais pelas montanhas e chegámos àquela que é certamente uma das aldeias mais panorâmicas do mundo.  


Mas não nos podíamos desleixar e começar a tirar fotografias a tudo o que nos rodeava. Tínhamos que chegar à nossa guesthouse antes do anoitecer! Com poucas subidas e descidas, este troço fez-se facilmente e em três horas e meia, incluindo algumas paragens curtas, estávamos na Betegi Guest House. Uma das minhas partes preferidas destes dias de caminhada é o sentimento de dever cumprido, seguido de um duche e de uma cerveja e snacks enquanto se espera pela chamada para o jantar! Sabendo que no dia seguinte faremos tudo outra vez.  

 

Dia 1.5: Iprari a Adishi 
21km em sete horas e quinze 

Neste dia obriguei os meus amigos caminhantes a sair às seis da manhã. Não como forma de tortura, mas porque a previsão do tempo dava chuva para a tarde e por isso o objectivo era chegar antes de ficarmos ensopados.  


As primeiras horas deste dia foram quase a subir, felizmente uma subida gradual onde nos aproximávamos lentamente da vista mais épica da caminhada: o Chkhunderi Pass. No topo somos confrontados com uma massa de gelo gigante que trepa pela montanha acima. Aqui estamos rodeados por alguns dos maiores picos de Geórgia.  


Antes de seguires para baixo, para Adishi, há um pequeno “detour” à direita que continua a subir e que te leva a um ponto onde vais encontrar aquela que é, na minha opinião, a vista mais bonita da Geórgia. O lugar ideal para parar e recuperar as forças enquanto se absorve a magnitude da paisagem.  


A partir daí é sempre a descer e foi a primeira vez que ficámos mesmo satisfeitos por termos escolhido fazer o caminho ao contrário. No sentido contrário vinham muitos caminhantes ofegantes enquanto nós seguíamos leves e frescos, aproveitando as vistas sobre o vale.  

Por fim, tínhamos chegado à famosa travessia do rio. Esta travessia pode ser feita a pé ou a cavalo. Havia pessoas a fazer ambas, mas para a fazer a pé é recomendado ter sandálias e caminhada e batons de caminhada. Como não tínhamos nem um nem outro, fui negociar com os senhores da travessia.  


Os preços são fixos e não há muito por onde negociar (entre 20GEL a 25GEL por pessoa). Creio que no fim nos consegui poupar cerca de sete ou dez euros, mas foi uma negociação de vinte minutos!  

Já do outro lado, seguimos calmamente por um caminho sempre a direito sabendo que Adishi já não estava longe e que as nuvens negras que se aproximavam não nos iam apanhar.  


Esfomeados, assim que deixámos as nossas mochilas na guesthouse, fomos procurar almoço. O melhor é ir perguntando às poucas pessoas que estão na rua, porque nem todas a guesthouses servem almoços. Lá encontrámos um pequeno café/supermercado que nos salvou com uma refeição quente.  

Estava naquela hora do dia de descansar as pernas e aproveitar o silêncio de uma aldeia perdida no tempo.  


Dia 2.5: Adishi a Mestia  
27km em nove horas e vinte  

Não vou mentir, este dia foi um esticão. Combinei dois dias de caminho num dia só e como tal, quando finalmente chegámos a Mestia, parecia que tínhamos completado uma maratona.  

Mais uma vez, saímos cedo, desta vez porque tínhamos quase trinta quilómetros pela frente. Uma das coisas boas de acordar cedo é que temos o caminho só para nós durante as primeiras horas. Uma coisa má é que como ainda ninguém passou pelo caminho, levas com teias de aranha na cara.  


Este dia está repleto de montanhas verdejantes, com alguns picos nevados e glaciares distantes. Acho boa ideia fazer tudo num dia, porque a nível de paisagem não varia muito e assim fica despachado!  

A maioria das pessoas fica em Zhabeshi, mas como não precisávamos de parar lá continuámos por outro caminho. Problema: não há quase mais nada nas redondezas. Estávamos cansados, esfomeados e a começar a ver a nossa vida a andar para trás.  

Até que passámos por uma casa que mencionava comida num pequeno cartão. Da casa saiu uma senhora com um grande sorriso que não falava inglês nenhum, mas que disse a palavra mágica: khachapuri.  

Para além do khachapuri, tivemos direito a queijo, tomate, pepino, iogurte fresco e compota caseira. Foi uma das melhores refeições da minha vida. Ainda por cima num relvado, à sombra, num vale com uma vista linda para as montanhas.  


A parte mais tortuosa de toda a caminhada ainda estava para vir, a subida final, 400 metros de elevação debaixo de um sol tórrido. Eventualmente estávamos na última descida e Mestia cada vez mais perto. Tínhamos cumprido o nosso objectivo!  

De volta ao centro, comprámos gelados e seguimos até ao nosso alojamento. Era fora do centro, mas tinha reviews tão boas que parecia valer a pena. E valeu mesmo! Os donos eram super simpáticos, a comida absolutamente deliciosa e a localização perfeita. Precisas é de ter um 4×4 para lá chegar ou acordar com eles para tratarem do transporte. Estávamos prontos para o nosso merecido descanso. 
 


Dia Extra: Cascatas e Glaciares  

O dia de descanso foi mais lento, mas mesmo assim, repleto de lugares bonitos. Fizemos caminhadas curtas.  

Shdugra Waterfall: a maior cascata da Geórgia. Este percurso pode continuar até um glaciar, mas nós fizemos só cerca de uma hora ou uma hora e meia para cada lado para ver a cascata. O trilho é fácil, só tem uma subida no final e está bem marcado. 

Link no All Trails


Chalaadi Glacier: Esta é uma caminhada muito descontraída, especialmente se não perderes o rasto ao caminho como nós. Penso que uma pequena parte do trilho era um pouco enganadora porque o nível da água estava alto e acabámos por nos meter por uns caminhos um pouco loucos antes de encontrarmos novamente o rumo. A volta foi muito mais fácil, nem sei como nos enganámos! Por isso, mantem-te no trilho e consulta o GPS se necessário! 

O fim do passeio acaba mesmo em frente a um glaciar gigante!  

Link no All Trails

 
Os nossos dias em Svaneti terminaram com uma bela refeição no nosso alojamento local com a típico vinho caseiro de oferta e o alívio de saber que a próxima caminhada ainda estava a alguns dias de distância.  

Dicas rápidas 

Transporte 

  • A forma mais rápida de chegar a Mestia é com o teu próprio veículo. Contudo, podes apanhar um comboio ou autocarro até Zugdidi e depois uma marshrutka (pequeno autocarro) até Mestia.  
  • Já em Mestia podes pedir ao teu alojamento para te marcar um táxi até Ushguli (que foi o que nós fizemos). O custo foi de 65€ para os três. Creio que de Ushguli para Mestia o preço standard são cerca de 15 a 20€ por pessoa.  

 
Alojamento 

  • Ficámos sempre em guest houses onde jantámos por cerca de 12€ por pessoa.  
  • Levámos connosco alguns mantimentos para o pequeno-almoço. Saíamos sempre mais cedo do que quando o pequeno-almoço era serviço e as “lunch boxes” não costumam ser grande coisa.  
  • Os jantares são sempre bastante substanciais e partilhados com os outros turistas. A comida era bastante boa e variada!  
  • Nós reservámos todos os alojamentos uma ou duas semanas antes. Contudo, não me pareceu que estivesse sempre tudo cheio, mesmo em Agosto. Talvez em 2023 não tenha sido um ano muito popular por causa da guerra com a Ucrânia, mas parece-me que vais sempre encontrar alojamento.  

Dinheiro 

  • Não existem multibancos depois de Mestia, tudo é pago com dinheiro, por isso leva o suficiente. Talvez isto mude eventualmente, mas fica a dica!  

Outras dicas 

  • Podes deixar a bagagem que não precisas em Mestia. 
  • O tempo nas montanhas muda rápido e muitas vezes mesmo que pareça que está a chover todos os dias, só chove/troveja durante umas horas.  
  • Nós fomos na segunda quinzena de Agosto e só passámos mais calor num dia. De resto estava entre 12/15 graus à noite e máximo 20/24 de dia.  

Link para o trilho Ushguli-Mestia

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Roadtrip de duas semanas na Argélia (+ extensão deserto) https://www.mudancasconstantes.com/2024/08/07/roadtrip-duas-semanas-argelia/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=roadtrip-duas-semanas-argelia https://www.mudancasconstantes.com/2024/08/07/roadtrip-duas-semanas-argelia/#respond Wed, 07 Aug 2024 20:32:50 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9653 A Argélia não costuma figurar nas listas de melhores países para uma viagem de carro de sonho. Provavelmente, porque mais ninguém olha para aquele país gigante e pensa “giro, giro era fazermos 4000+ quilómetros em duas semanas”. Mas foi isso mesmo que pensei e apesar dos longos dias na estrada, acho que não há melhor forma de viajar pela Argélia!  Durante a viagem passámos por cidades lindas, maravilhas da natureza, desertos sem fim, ruínas romanas e ainda tivemos tempo para um mergulho furtivo no mediterrâneo. Claro que o melhor de tudo foram as pessoas que conhecemos e a sua hospitalidade. Fomos recebidos de braços abertos, com mesas a transbordar de comida deliciosa, alguns olhares curiosos e sorrisos de orelha a orelha.  Esta é a Argélia que surpreende todos os seus visitantes:  Dia 1: Argel Argel é uma das cidades mais bonitas que já visitei. Paris caiada à beira-mar! Desde as ruas estreitas e encruzilhadas do Casbah às grandes avenidas francesas, aqui misturam-se arquitecturas, culturas e histórias.  Podes encontrar o meu post sobre Argel aqui.  Dia 2: Djemila No segundo dia saímos de Argel e seguimos para Constantine, mas tínhamos uma paragem importante a fazer pelo caminho: Djemila, as melhores ruínas romanas que vimos durante toda a viagem. Aconselho-te a sair cedo de Argel para teres tempo de fazer tudo com calma, já que provavelmente vais poder ter Djemila o seu museu só para ti (ou quase!) Tempo de condução: 5.5 horas até Constantine, passando por Djemila Podes encontrar o meu post sobre Djemila aqui.  Dia 3: Constantine A cidade das pontes é linda de todos os ângulos. Vais encontrar palácios reais, pontes que abanam por todos os lados (é suposto) e até cascatas secretas dignas de um filme do Avatar.  Podes encontrar o meu post sobre Constantine aqui.  Tempo de condução: 2.5 horas de Constantine a Batna  Dia 4: Timgad & Ghoufi  Estava na altura de rumar ao deserto! Começámos numa zona verdejante, onde há ruínas romanas com fartura (incluindo o grande complexo de Timgad) e acabámos num desfiladeiro onde as únicas árvores que sobrevivem são as palmeiras.  Esta região também marca o lugar onde se travou a primeira batalha da revolução contra a colonização francesa.  Podes encontrar o meu post sobre Timgad e Ghoufi aqui.  Tempo de condução: Cerca de 4 horas de Batna a Biskra passando por Timgad e Ghoufi  Dia 5 e 6: Ghardaia e o Vale do M’zabe Nestes dias, viajámos não só no espaço, mas também no tempo. É no Vale do M’zabe que se encontram cinco aldeias cujo modo de vida dos seus habitantes e as suas práticas culturais se preservam quase intactas, ignorando muitos progressos sociais, tecnológicos e judiciais. Um lugar para absorver, reflectir e aprender.  Nota de estrada: De Biskra para Ghardaia o Google dá duas opções de caminho. Um deles é bastante mais curto, mas é um desvio, por uma “estrada” com muitas pedras que demora muito tempo a fazer – especialmente se tiveres um carro normalíssimo como nós e não um jipe.  A coisa boa é que a estrada é deserta e não tem checkpoints da polícia, por outro lado são umas duas horas de solavancos. Fica o aviso!  Podes encontrar o meu post sobre o Vale do M’zabe aqui.  Tempo de condução: 7.5 horas de Biskra a Ghardaia Dia 7 e 8: Timimoun  Chegámos ao deserto “a sério” onde os pontos de distração na estrada não passam de dunas e camelos. Timimoun, a cidade vermelha, tem uma arquitectura única e muitos mercados onde se cruzam várias culturas e etnias subsarianas.  Aconselho explorar o centro de Timimoun durante algumas horas, idealmente com alguém local e tirar um dia para ir com um guia, de jipe, ver o que os arredores têm para oferecer.  Podes encontrar o meu post sobre Timimoun aqui.  Tempo de condução: 7.5 horas de Ghardaia a Timimoun.  Dica: Para este tipo de dias longos de condução no deserto, recomendo levar comida, água e um tanque cheio de gasolina. As estradas têm muito pouca gente, por isso as pausas para casa de banho são onde quiseres!  Dia 9 e 10: Taghit  Mais uma longa viagem por milhões de grãos de areia. Antes de chegarmos a Taghit, passámos por Beni Abbès e a sua duna gigante. Em Taghit encontrámos a paz do deserto, descobrimos que é possível andar de kayak num oásis e passeámos por pedregulhos com desenhos rupestres milenares.  Aqui, seguimos os guias do alojamento local num tour que combinava um pouco de tudo. Se quiseres fazer por ti, podes encontrar o meu post sobre Taghit aqui.  Tempo de condução: 5.5 horas de Timimoun a Taghit passando por Beni Abbès  Dia 11: El Gour  Este dia foi tão cheio de aleatoriedades que é difícil de descrever. Entre cavernas subterrâneas, pôres-do-sol esquivos e esquadras da polícia em pijama, esta foi a aventura mais épica da nossa roadtrip.  Podes encontrar todos os pormenores sobre El Gour aqui.  Tempo de condução: 5.5 horas de Taghit a El Gour  Dia 12 e 13: Oran  Depois de mais de uma semana no deserto demos à costa! Chegámos a Oran já quase ao fim do dia e assim que vimos o mar pedimos aos nossos amigos para irmos dar um mergulho.  Digamos que mulheres de biquini não é exactamente ilegal, mas também está longe de ser comum. Já quase em Novembro, as praias estavam vazias e lá fomos nós, para deleite e surpresa de uns rapazes mirones que nunca devem ter visto tal coisa.  Nessa noite, como já era hábito, fomos convidados para jantar na casa de um amigo do nosso amigo onde nos esperava um banquete feito pela mãe dele, que nunca chegámos a conhecer.  Oran, mesmo assim, é a cidade mais liberal da Argélia. No dia seguinte vimos a sua influência espanhola, o centro histórico e até descobrimos uma pastelaria francesa toda chique onde decidimos gastar mais num éclair do que a média de todas as refeições diárias – afinal, tínhamos dinheiro a mais já que toda a gente nos alimentava!  Na última noite, conhecemos a “nata” da sociedade Argelina através do Couchsurfing. No topo de um hotel – onde o álcool era permitido – conversámos com um grupo de amigos, todos fluentes em inglês e francês, com estudos no estrangeiro. As raparigas expressavam-se com uma liberdade que ainda não tinha visto.  O que me surpreende na Argélia é a pacificidade com que culturas tão diferentes co-existem. Todas as pessoas mais jovens, principalmente mulheres, que anseiam por mais liberdade têm, ao mesmo tempo, um imenso respeito e até orgulho pelo lado mais tradicional do seu país.  Tempo de condução: 6 horas de El Gour a Oran com uma paragem em Sidi Bel Abbès. Dia 14: Tipaza  O último dia de estrada. Saímos cedo de Oran porque queríamos ir pela estrada junto ao mar em vez de pela auto-estrada. Asneira. Achava eu que ia ver lindas paisagens costeiras com praias idílicas, mas não foi o caso. A estrada costeira passa por mil e uma aldeias, é MUITO lenta e tem pouco interesse. Fica a dica.  A única coisa boa foi termos dado com o Aqueduto “Maurétanien de Cherchell”, mas já é tão perto de Tipaza, que podes ir pela auto-estrada à mesma e fazer só um pequeno desvio para trás.  Por fim, Tipaza, o nosso último ponto antes de voltarmos a Argel. Aqui ficam as ruínas Romanas à beira-mar. Talvez não sejam tão impressionantes como Djemila ou Timgad, mas a sua localização geográfica torna a experiência de as visitar muito mais agradável.  Recomendaram-nos o restaurante “Le Dauphin” que não desapontou! Comemos que nem uns reis com direito a camarão grelhado e calamares fresquinhos.  Por fim, seguimos para Argel, onde celebrámos os 4,200km feitos em duas semanas. Mas a noite ainda mal tinha começado! O nosso host, o Mok, que já nos tinha acolhido nas primeiras noites, levou-me a conhecer a noite de Argel onde os restaurantes se transformam em bares e os vinhos argelinos fazem furor.  Uma coisa que adoro em países muçulmanos é a vivacidade com que os homens dançam! Não podia ter pedido melhor maneira de fechar esta viagem.  Tempo de condução: 6 horas de Oran a Argel passando por Tipaza Dia 15: De volta a Argel  O último dia foi um pouco mais lento. Meia ressacada ainda fui mostrar ao meu companheiro de viagem, o centro de Argel, que ele não tinha tido a oportunidade de ver. Se tiveres tempo, aconselho um saltinho à Flaxen Beach, não por ser particularmente bonita, mas porque sabe sempre bem pôr os pés na areia e ver casais a namorar sorrateiramente.  Assim termina uma viagem de carro épica que talvez um dia figure nas famosas compilações de blogues e sites de viagens!  Como a Argélia é um país absolutamente gigante, segue a sugestão de uma semana de viagem extra, desta vez no deserto profundo. Semana Extra: Sahara Profundo  Gostei tanto da Argélia que em menos de dois anos estava de volta, desta vez para descobrir os segredos do Sahara. De Argel voámos para Djanet, onde ficámos quatro noites e de Djanet para Tamanrasset onde ficámos mais quatro noites.  Aqui, estamos em casa dos Tuareg, as gentes do deserto. A sua terra não tem princípio nem fim. As rochas, a areia, o vazio, estendem-se por uma área para além da compreensão.  Os dias são passados a descobrir paisagens indescritíveis, muitas delas com mais história que todos os museus europeus juntos. Uma viagem a um mundo que não sabias que existe!  Por fim, se gostas de caminhar, há a possibilidade de fazer uma expedição a Sefar, a maior colecção de pinturas rupestres do mundo. São seis/sete dias a caminhar e a acampar.  Fomos com esta agência e recomendo: Matrath Voyage Dicas e Informações Úteis Visto: O visto é o maior entrave a viajar para a Argélia. Se fores só para o sul tens que ir com uma agência e eles tratam de tudo. Super fácil, nem tens que pôr os pés na embaixada.  Se viajares de forma independente é mais chato. Só podes fazer o visto no país da tua nacionalidade ou residência, tens que imprimir e preencher vários papéis, ir entregar à embaixada juntamente com o passaporte e duas semanas depois tens que o ir buscar. Custa cerca de 90 euros. Como tal, é boa ideia fazer uma viagem relativamente longa para justificar o custo.  Aluguer de carro: O aluguer de carro foi uma batalha. Se és mulher, não contactes agências com o teu nome! Recebi zero respostas! O Pina lá conseguiu propostas e acabámos por escolher a Free Car – um nome original! Apesar de terem um representante de vendas que ignorava o que eu dizia quando o meu francês era melhor que o do Pina (provavelmente é o mesmo que não responde a emails de mulheres), prestaram-nos um óptimo serviço e um HYUNDAI i20 que sobreviveu à viagem toda! Pagámos 500€ por 15 dias de aluguer, um preço bastante bom quando comparado com a maioria das pessoas que conhecemos. É boa ideia tentar marcar carro com alguma antecedência. Não há muitas agências e se te calha viajar numa altura em que está a acontecer um grande evento na cidade pode ser difícil arranjar carro. Custo da gasolina: O custo da gasolina é muito baixo na Argélia, o que dá muito jeito quando se faz 4000+ quilómetros. Da primeira vez que visitei eram cerca de 14 cêntimos por litro. Creio que agora são cerca de 30 cêntimos.  Chegar ao aeroporto: A melhor forma de viajar do aeroporto para o centro da cidade é de táxi. Os preços rondam os 3-5€ no máximo. O comboio custa 80 cêntimos, mas nunca se sabe bem quanto tempo vai demorar. Nós experimentamos uma vez e arrependemos-nos. Cartão SIM: Definitivamente um bem essencial para quem quer viajar de forma independente. A cobertura de rede é melhor do que pensava, em todas as cidades e vilarejos há internet. Os Argelinos ligam para toda a gente a toda a hora, por isso ter um número local também dá imenso jeito. Comprámos...

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A Argélia não costuma figurar nas listas de melhores países para uma viagem de carro de sonho. Provavelmente, porque mais ninguém olha para aquele país gigante e pensa “giro, giro era fazermos 4000+ quilómetros em duas semanas”. Mas foi isso mesmo que pensei e apesar dos longos dias na estrada, acho que não há melhor forma de viajar pela Argélia! 

Durante a viagem passámos por cidades lindas, maravilhas da natureza, desertos sem fim, ruínas romanas e ainda tivemos tempo para um mergulho furtivo no mediterrâneo. Claro que o melhor de tudo foram as pessoas que conhecemos e a sua hospitalidade. Fomos recebidos de braços abertos, com mesas a transbordar de comida deliciosa, alguns olhares curiosos e sorrisos de orelha a orelha. 

Esta é a Argélia que surpreende todos os seus visitantes: 

Dia 1: Argel

Argel é uma das cidades mais bonitas que já visitei. Paris caiada à beira-mar! Desde as ruas estreitas e encruzilhadas do Casbah às grandes avenidas francesas, aqui misturam-se arquitecturas, culturas e histórias. 


Podes encontrar o meu post sobre Argel aqui


Dia 2: Djemila

No segundo dia saímos de Argel e seguimos para Constantine, mas tínhamos uma paragem importante a fazer pelo caminho: Djemila, as melhores ruínas romanas que vimos durante toda a viagem. Aconselho-te a sair cedo de Argel para teres tempo de fazer tudo com calma, já que provavelmente vais poder ter Djemila o seu museu só para ti (ou quase!)


Tempo de condução: 5.5 horas até Constantine, passando por Djemila

Podes encontrar o meu post sobre Djemila aqui


Dia 3: Constantine

A cidade das pontes é linda de todos os ângulos. Vais encontrar palácios reais, pontes que abanam por todos os lados (é suposto) e até cascatas secretas dignas de um filme do Avatar. 


Podes encontrar o meu post sobre Constantine aqui

Tempo de condução: 2.5 horas de Constantine a Batna 


Dia 4: Timgad & Ghoufi 

Estava na altura de rumar ao deserto! Começámos numa zona verdejante, onde há ruínas romanas com fartura (incluindo o grande complexo de Timgad) e acabámos num desfiladeiro onde as únicas árvores que sobrevivem são as palmeiras. 

Esta região também marca o lugar onde se travou a primeira batalha da revolução contra a colonização francesa. 

Podes encontrar o meu post sobre Timgad e Ghoufi aqui

Tempo de condução: Cerca de 4 horas de Batna a Biskra passando por Timgad e Ghoufi 


Dia 5 e 6: Ghardaia e o Vale do M’zabe

Nestes dias, viajámos não só no espaço, mas também no tempo. É no Vale do M’zabe que se encontram cinco aldeias cujo modo de vida dos seus habitantes e as suas práticas culturais se preservam quase intactas, ignorando muitos progressos sociais, tecnológicos e judiciais. Um lugar para absorver, reflectir e aprender. 


Nota de estrada: De Biskra para Ghardaia o Google dá duas opções de caminho. Um deles é bastante mais curto, mas é um desvio, por uma “estrada” com muitas pedras que demora muito tempo a fazer – especialmente se tiveres um carro normalíssimo como nós e não um jipe. 

A coisa boa é que a estrada é deserta e não tem checkpoints da polícia, por outro lado são umas duas horas de solavancos. Fica o aviso! 

Podes encontrar o meu post sobre o Vale do M’zabe aqui

Tempo de condução: 7.5 horas de Biskra a Ghardaia


Dia 7 e 8: Timimoun 

Chegámos ao deserto “a sério” onde os pontos de distração na estrada não passam de dunas e camelos. Timimoun, a cidade vermelha, tem uma arquitectura única e muitos mercados onde se cruzam várias culturas e etnias subsarianas. 


Aconselho explorar o centro de Timimoun durante algumas horas, idealmente com alguém local e tirar um dia para ir com um guia, de jipe, ver o que os arredores têm para oferecer. 

Podes encontrar o meu post sobre Timimoun aqui. 

Tempo de condução: 7.5 horas de Ghardaia a Timimoun. 

Dica: Para este tipo de dias longos de condução no deserto, recomendo levar comida, água e um tanque cheio de gasolina. As estradas têm muito pouca gente, por isso as pausas para casa de banho são onde quiseres! 


Dia 9 e 10: Taghit 

Mais uma longa viagem por milhões de grãos de areia. Antes de chegarmos a Taghit, passámos por Beni Abbès e a sua duna gigante. Em Taghit encontrámos a paz do deserto, descobrimos que é possível andar de kayak num oásis e passeámos por pedregulhos com desenhos rupestres milenares. 

Aqui, seguimos os guias do alojamento local num tour que combinava um pouco de tudo. Se quiseres fazer por ti, podes encontrar o meu post sobre Taghit aqui. 

Tempo de condução: 5.5 horas de Timimoun a Taghit passando por Beni Abbès 



Dia 11: El Gour 

Este dia foi tão cheio de aleatoriedades que é difícil de descrever. Entre cavernas subterrâneas, pôres-do-sol esquivos e esquadras da polícia em pijama, esta foi a aventura mais épica da nossa roadtrip. 


Podes encontrar todos os pormenores sobre El Gour aqui. 

Tempo de condução: 5.5 horas de Taghit a El Gour 


Dia 12 e 13: Oran 

Depois de mais de uma semana no deserto demos à costa! Chegámos a Oran já quase ao fim do dia e assim que vimos o mar pedimos aos nossos amigos para irmos dar um mergulho. 

Digamos que mulheres de biquini não é exactamente ilegal, mas também está longe de ser comum. Já quase em Novembro, as praias estavam vazias e lá fomos nós, para deleite e surpresa de uns rapazes mirones que nunca devem ter visto tal coisa. 

Nessa noite, como já era hábito, fomos convidados para jantar na casa de um amigo do nosso amigo onde nos esperava um banquete feito pela mãe dele, que nunca chegámos a conhecer. 


Oran, mesmo assim, é a cidade mais liberal da Argélia. No dia seguinte vimos a sua influência espanhola, o centro histórico e até descobrimos uma pastelaria francesa toda chique onde decidimos gastar mais num éclair do que a média de todas as refeições diárias – afinal, tínhamos dinheiro a mais já que toda a gente nos alimentava! 

Na última noite, conhecemos a “nata” da sociedade Argelina através do Couchsurfing. No topo de um hotel – onde o álcool era permitido – conversámos com um grupo de amigos, todos fluentes em inglês e francês, com estudos no estrangeiro. As raparigas expressavam-se com uma liberdade que ainda não tinha visto. 

O que me surpreende na Argélia é a pacificidade com que culturas tão diferentes co-existem. Todas as pessoas mais jovens, principalmente mulheres, que anseiam por mais liberdade têm, ao mesmo tempo, um imenso respeito e até orgulho pelo lado mais tradicional do seu país. 

Tempo de condução: 6 horas de El Gour a Oran com uma paragem em Sidi Bel Abbès.


Dia 14: Tipaza 

O último dia de estrada. Saímos cedo de Oran porque queríamos ir pela estrada junto ao mar em vez de pela auto-estrada. Asneira. Achava eu que ia ver lindas paisagens costeiras com praias idílicas, mas não foi o caso. A estrada costeira passa por mil e uma aldeias, é MUITO lenta e tem pouco interesse. Fica a dica. 

A única coisa boa foi termos dado com o Aqueduto “Maurétanien de Cherchell”, mas já é tão perto de Tipaza, que podes ir pela auto-estrada à mesma e fazer só um pequeno desvio para trás. 


Por fim, Tipaza, o nosso último ponto antes de voltarmos a Argel. Aqui ficam as ruínas Romanas à beira-mar. Talvez não sejam tão impressionantes como Djemila ou Timgad, mas a sua localização geográfica torna a experiência de as visitar muito mais agradável. 

Recomendaram-nos o restaurante “Le Dauphin” que não desapontou! Comemos que nem uns reis com direito a camarão grelhado e calamares fresquinhos. 

Por fim, seguimos para Argel, onde celebrámos os 4,200km feitos em duas semanas. Mas a noite ainda mal tinha começado! O nosso host, o Mok, que já nos tinha acolhido nas primeiras noites, levou-me a conhecer a noite de Argel onde os restaurantes se transformam em bares e os vinhos argelinos fazem furor. 

Uma coisa que adoro em países muçulmanos é a vivacidade com que os homens dançam! Não podia ter pedido melhor maneira de fechar esta viagem. 

Tempo de condução: 6 horas de Oran a Argel passando por Tipaza


Dia 15: De volta a Argel 

O último dia foi um pouco mais lento. Meia ressacada ainda fui mostrar ao meu companheiro de viagem, o centro de Argel, que ele não tinha tido a oportunidade de ver. Se tiveres tempo, aconselho um saltinho à Flaxen Beach, não por ser particularmente bonita, mas porque sabe sempre bem pôr os pés na areia e ver casais a namorar sorrateiramente. 

Assim termina uma viagem de carro épica que talvez um dia figure nas famosas compilações de blogues e sites de viagens! 

Como a Argélia é um país absolutamente gigante, segue a sugestão de uma semana de viagem extra, desta vez no deserto profundo.


Semana Extra: Sahara Profundo 

Gostei tanto da Argélia que em menos de dois anos estava de volta, desta vez para descobrir os segredos do Sahara. De Argel voámos para Djanet, onde ficámos quatro noites e de Djanet para Tamanrasset onde ficámos mais quatro noites. 

Aqui, estamos em casa dos Tuareg, as gentes do deserto. A sua terra não tem princípio nem fim. As rochas, a areia, o vazio, estendem-se por uma área para além da compreensão. 


Os dias são passados a descobrir paisagens indescritíveis, muitas delas com mais história que todos os museus europeus juntos. Uma viagem a um mundo que não sabias que existe! 

Por fim, se gostas de caminhar, há a possibilidade de fazer uma expedição a Sefar, a maior colecção de pinturas rupestres do mundo. São seis/sete dias a caminhar e a acampar. 

Fomos com esta agência e recomendo: Matrath Voyage


Dicas e Informações Úteis

Visto: O visto é o maior entrave a viajar para a Argélia. Se fores só para o sul tens que ir com uma agência e eles tratam de tudo. Super fácil, nem tens que pôr os pés na embaixada. 

Se viajares de forma independente é mais chato. Só podes fazer o visto no país da tua nacionalidade ou residência, tens que imprimir e preencher vários papéis, ir entregar à embaixada juntamente com o passaporte e duas semanas depois tens que o ir buscar. Custa cerca de 90 euros. Como tal, é boa ideia fazer uma viagem relativamente longa para justificar o custo. 

Aluguer de carro: O aluguer de carro foi uma batalha. Se és mulher, não contactes agências com o teu nome! Recebi zero respostas! O Pina lá conseguiu propostas e acabámos por escolher a Free Car – um nome original! Apesar de terem um representante de vendas que ignorava o que eu dizia quando o meu francês era melhor que o do Pina (provavelmente é o mesmo que não responde a emails de mulheres), prestaram-nos um óptimo serviço e um HYUNDAI i20 que sobreviveu à viagem toda!

Pagámos 500€ por 15 dias de aluguer, um preço bastante bom quando comparado com a maioria das pessoas que conhecemos. É boa ideia tentar marcar carro com alguma antecedência. Não há muitas agências e se te calha viajar numa altura em que está a acontecer um grande evento na cidade pode ser difícil arranjar carro.

Custo da gasolina: O custo da gasolina é muito baixo na Argélia, o que dá muito jeito quando se faz 4000+ quilómetros. Da primeira vez que visitei eram cerca de 14 cêntimos por litro. Creio que agora são cerca de 30 cêntimos. 

Chegar ao aeroporto: A melhor forma de viajar do aeroporto para o centro da cidade é de táxi. Os preços rondam os 3-5€ no máximo. O comboio custa 80 cêntimos, mas nunca se sabe bem quanto tempo vai demorar. Nós experimentamos uma vez e arrependemos-nos.

Cartão SIM: Definitivamente um bem essencial para quem quer viajar de forma independente. A cobertura de rede é melhor do que pensava, em todas as cidades e vilarejos há internet. Os Argelinos ligam para toda a gente a toda a hora, por isso ter um número local também dá imenso jeito. Comprámos da Djeezy no aeroporto: 50 GB por 16€. Outra alternativa é comprar um eSIM, mas verifica que o teu telemóvel é compatível com eSIMs.

Controlo de Passaporte: Ao chegar ao controlo de passaporte tens que preencher um formulário que inclui a morada do lugar onde vais ficar. Por isso, se tiveres um host, certifica-te que tens a morada dele e provavelmente será melhor dizeres que é teu amigo. O Couchsurfing nao é ilegal como no Irão, mas os hosts tem que registar as pessoas que ficam com eles, o que é uma chatice. Também podes mostrar o email de confirmação de um hotel como comprovativo de estadia – eu marquei um hotel com cancelamento gratuito para fazer o visto.

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O centro de São Tomé: quantos segredos guarda a floresta? https://www.mudancasconstantes.com/2024/06/21/cascatas-sao-tome/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=cascatas-sao-tome https://www.mudancasconstantes.com/2024/06/21/cascatas-sao-tome/#respond Fri, 21 Jun 2024 14:17:13 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9618 São Tomé é perfeitamente competente como destino de praia, mas se nos ficarmos só pelas suas águas transparentes e cocos na espreguiçadeira, corremos o risco de ignorar o que de mais especial esta ilha tem para oferecer: um mundo mágico de cascatas e uma fauna e flora únicas!É possível que este seja o post mais verde que alguma vez publiquei. Dentro da imersiva floresta de São Tomé, até o céu foi substituído por ramos e folhas que cobiçam a atenção do sol e a catana é imprescindível para abrir caminho. Vamos desbravar o centro de São Tomé? Nível 1: Cascata de São Nicolau “Faz parte do pacote” disseram dois rapazes São Tomenses a rir assim que nos viram, a mim e à Catarina, a olhar para o nosso carro que deitava fumo do motor. Caso não saibas, é responsabilidade do cliente verificar se os níveis de água do carro estão dentro dos limites! Enquanto a Catarina tentava arranjar um carro de substituição, eu lá fui com os rapazes pela floresta até à cascata onde eles vendem artesanato aos poucos turistas que passam por ali. A Cascata de São Nicolau é muito bonita e de fácil acesso, uma boa carta de apresentação às cascatas de São Tomé! Nível 2: Cascata dos Túneis Esta foi a minha caminhada preferida em São Tomé e um dos melhores dias da viagem. Um acumular de surpresas e aventuras! Para encontrar esta cascata precisei de um guia que me veio buscar numa motinha que parecia pouco capaz de subir uma montanha por uma estrada de pedras e lama. Mas depois de muitos solavancos, lá chegámos inteiros e prontos para começar a caminhada. De catana em riste, o Gege levou-me pela floresta dentro enquanto me explicava a que pássaro pertencia cada chilrear que ouvíamos. À nossa volta havia plantações de cacau e de café e fui descobrindo os usos que os São Tomenses foram dando às suas plantas endémicas: umas enrolam-se para fazer um copo, outras têm folhas tão grandes que servem de guarda chuva e até há um género de feto que faz tatuagens. A caminhada não é difícil e é só no fim que faz juz ao nome: há que caminhar por um túnel escuro, cheio de água, para chegar à prometida cascata. Troquei os ténis pelas chinelas e lá fui, meia agachada pelo túnel. Tinha uma lanterna, mas a verdade é que mais vale não usar para não vermos a quantidade de seres rastejantes que circulam impavidamente a poucos centímetros da nossa cara. Do outro lado está uma cascata vinda do céu.Saída do túnel, dou por mim rodeada de paredes rochosas, mais verdes que pretas, com o musgo a tomar conta de tudo o que é superfície. Não há como não ficar embasbacado com este pequeno pedaço de magia geológica! Se estiveres indeciso/a sobre que caminhada fazer em São Tomé, esta seria definitivamente a minha recomendação. Nível 3: Cascata Vale do Rio (?) “Você é motoqueiro?” pergunta a mãe da minha amiga Arminda a um rapaz que parou em frente a nós. Desta vez tinha que arranjar o meu próprio transporte até Monte Café e foi tão simples como sair de casa a acenar às dezenas de condutores de motas que por ali passam. Alguns deles são mesmo motoqueiros (um género de taxista, mas com mota em vez de carro) e levam-te onde quiseres por um preço muito simpático. Saltei para o lugar de trás e em cerca de vinte minutos estávamos no Monte Café, onde um outro guia me esperava para começarmos a caminhada até à Cascata Vale do Rio. Pequeno à parte: A maioria das pessoas visita o Monte Café pelo seu Museu do Café, onde o preço do bilhete (3€) inclui uma visita à Roça com direito a explicação do processo de produção do café e uma bica. Ora bem, esta cascata é uma matryoshka de cascatas. O caminho até à primeira, que acho que se chama Vale do Rio, é bastante fácil mas não tão bonito como o da cascata dos túneis – a floresta não é tão densa. Mesmo assim, vão-se vendo pequenas quedas de água até chegarmos à poderosa Vale do Rio. Mas o trilho não acaba aí. A nível de dificuldade, começa é aqui! Seguiu-se a parte mais complicada de todo o percurso: subir por uma parede de lama! Não sei bem como completei esta caminhada sem me esbardalhar toda (ainda tive que atravessar um pequeno rio), mas a verdade é que meia hora depois estava a nadar numa dupla cascata cujo nome ninguém sabe bem. Que lugares maravilhosos esconde a floresta de São Tomé! Este é daqueles trilhos que só posso recomendar a quem tem experiência de caminhada, mas é um lugar com uma energia muito especial que adorei visitar. E eu que estava com algum receio da descida, acabou por ser bem mais fácil que a subida. Dica extra: se estiveres por estas bandas, existe ainda uma outra cascata (de acesso mais fácil), a cascata de Bombaim. Precisas é de um jipe para lá chegar. Casa Museu Almada NegreirosPor fim, fica a sugestão de um pequeno museu. O museu em si é possível que esteja às escuras por falhas de electricidade, mas a paisagem envolvente é linda e há poesia pintada nas paredes! Se tiveres sorte, ainda encontras uma senhora a vender biscoitos caseiros! Este é o último post sobre a minha viagem a São Tomé, se quiseres ler mais ficam aqui os links para os posts anteriores: O Norte de São ToméO Sul de São Tomé O Príncipe

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São Tomé é perfeitamente competente como destino de praia, mas se nos ficarmos só pelas suas águas transparentes e cocos na espreguiçadeira, corremos o risco de ignorar o que de mais especial esta ilha tem para oferecer: um mundo mágico de cascatas e uma fauna e flora únicas!
É possível que este seja o post mais verde que alguma vez publiquei. Dentro da imersiva floresta de São Tomé, até o céu foi substituído por ramos e folhas que cobiçam a atenção do sol e a catana é imprescindível para abrir caminho. Vamos desbravar o centro de São Tomé?

Nível 1: Cascata de São Nicolau

“Faz parte do pacote” disseram dois rapazes São Tomenses a rir assim que nos viram, a mim e à Catarina, a olhar para o nosso carro que deitava fumo do motor. Caso não saibas, é responsabilidade do cliente verificar se os níveis de água do carro estão dentro dos limites!

Enquanto a Catarina tentava arranjar um carro de substituição, eu lá fui com os rapazes pela floresta até à cascata onde eles vendem artesanato aos poucos turistas que passam por ali.
A Cascata de São Nicolau é muito bonita e de fácil acesso, uma boa carta de apresentação às cascatas de São Tomé!


Nível 2: Cascata dos Túneis

Esta foi a minha caminhada preferida em São Tomé e um dos melhores dias da viagem. Um acumular de surpresas e aventuras!

Para encontrar esta cascata precisei de um guia que me veio buscar numa motinha que parecia pouco capaz de subir uma montanha por uma estrada de pedras e lama. Mas depois de muitos solavancos, lá chegámos inteiros e prontos para começar a caminhada.


De catana em riste, o Gege levou-me pela floresta dentro enquanto me explicava a que pássaro pertencia cada chilrear que ouvíamos. À nossa volta havia plantações de cacau e de café e fui descobrindo os usos que os São Tomenses foram dando às suas plantas endémicas: umas enrolam-se para fazer um copo, outras têm folhas tão grandes que servem de guarda chuva e até há um género de feto que faz tatuagens.


A caminhada não é difícil e é só no fim que faz juz ao nome: há que caminhar por um túnel escuro, cheio de água, para chegar à prometida cascata. Troquei os ténis pelas chinelas e lá fui, meia agachada pelo túnel. Tinha uma lanterna, mas a verdade é que mais vale não usar para não vermos a quantidade de seres rastejantes que circulam impavidamente a poucos centímetros da nossa cara.


Do outro lado está uma cascata vinda do céu.

Saída do túnel, dou por mim rodeada de paredes rochosas, mais verdes que pretas, com o musgo a tomar conta de tudo o que é superfície. Não há como não ficar embasbacado com este pequeno pedaço de magia geológica!


Se estiveres indeciso/a sobre que caminhada fazer em São Tomé, esta seria definitivamente a minha recomendação.

Nível 3: Cascata Vale do Rio (?)

“Você é motoqueiro?” pergunta a mãe da minha amiga Arminda a um rapaz que parou em frente a nós. Desta vez tinha que arranjar o meu próprio transporte até Monte Café e foi tão simples como sair de casa a acenar às dezenas de condutores de motas que por ali passam. Alguns deles são mesmo motoqueiros (um género de taxista, mas com mota em vez de carro) e levam-te onde quiseres por um preço muito simpático.

Saltei para o lugar de trás e em cerca de vinte minutos estávamos no Monte Café, onde um outro guia me esperava para começarmos a caminhada até à Cascata Vale do Rio.

Pequeno à parte: A maioria das pessoas visita o Monte Café pelo seu Museu do Café, onde o preço do bilhete (3€) inclui uma visita à Roça com direito a explicação do processo de produção do café e uma bica.


Ora bem, esta cascata é uma matryoshka de cascatas. O caminho até à primeira, que acho que se chama Vale do Rio, é bastante fácil mas não tão bonito como o da cascata dos túneis – a floresta não é tão densa. Mesmo assim, vão-se vendo pequenas quedas de água até chegarmos à poderosa Vale do Rio. Mas o trilho não acaba aí. A nível de dificuldade, começa é aqui!


Seguiu-se a parte mais complicada de todo o percurso: subir por uma parede de lama!

Não sei bem como completei esta caminhada sem me esbardalhar toda (ainda tive que atravessar um pequeno rio), mas a verdade é que meia hora depois estava a nadar numa dupla cascata cujo nome ninguém sabe bem. Que lugares maravilhosos esconde a floresta de São Tomé!


Este é daqueles trilhos que só posso recomendar a quem tem experiência de caminhada, mas é um lugar com uma energia muito especial que adorei visitar. E eu que estava com algum receio da descida, acabou por ser bem mais fácil que a subida.

Dica extra: se estiveres por estas bandas, existe ainda uma outra cascata (de acesso mais fácil), a cascata de Bombaim. Precisas é de um jipe para lá chegar.

Casa Museu Almada Negreiros
Por fim, fica a sugestão de um pequeno museu. O museu em si é possível que esteja às escuras por falhas de electricidade, mas a paisagem envolvente é linda e há poesia pintada nas paredes! Se tiveres sorte, ainda encontras uma senhora a vender biscoitos caseiros!

Este é o último post sobre a minha viagem a São Tomé, se quiseres ler mais ficam aqui os links para os posts anteriores:

O Norte de São Tomé
O Sul de São Tomé
O Príncipe

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Ilha do Príncipe: à boleia da gentileza e dos sorrisos https://www.mudancasconstantes.com/2024/03/19/ilha-do-principe-sao-tome/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=ilha-do-principe-sao-tome https://www.mudancasconstantes.com/2024/03/19/ilha-do-principe-sao-tome/#comments Tue, 19 Mar 2024 21:10:21 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9586 A Ilha do Príncipe tem praias divinais, paisagens virgens, silêncio e paz absolutos. Tudo muito giro, mas para lá chegares tens que te meter numa caixinha de fósforos com asas e rezar para que as leis da física continuem a desafiar as leis da lógica. Depois de meia hora aos solavancos aterrei (inteira) num mini aeroporto.  Se São Tomé já não é particularmente barato, o Príncipe, uma ilha dedicada ao turismo de luxo, ainda é menos. Como o transporte do aeroporto até ao meu acampamento me iria custar mais do que três dias de estadia (tinham-me pedido 50€), decidi ir a pé. 7km com uma mochilinha às costas não faria mossa.  Boleia 1 e 2: Balalai e deslumbramento  Já tendo estudado o caminho e com o percurso no Google Maps, estava confiante que lá chegaria em menos de duas horas. Pequeno problema: no avião desliguei o telemóvel, que tinha um novo cartão SIM local, e quando o voltei a ligar não sabia o PIN. Tinha o telemóvel bloqueado, inútil, com um cartão que não conseguia remover. Usando a memória, fiz-me à estrada achando que alguém me ajudaria caso fosse necessário. Estava pronta para a aventura!  A primeira coisa em que reparei foi na calmaria que se vive no Príncipe. Com apenas 9000 habitantes, há pouca gente nas ruas. Passados uns vinte ou trinta minutos de caminho, recebo a minha primeira oferta de boleia. Nem sequer estava a pedir! O rapaz ia para a capital, mas até lá passava pela estrada onde eu tinha de virar. Meti-me na parte de trás da mota e seguimos juntos durante alguns minutos para poupar as pernas. Já não muito longe do meu acampamento, cheguei a uma bifurcação onde não sabia bem para onde tinha que virar. Decidi esperar um pouco e vi uma motinha a vir na minha direção. Pedi ajuda e não é que o condutor era o “Balalai da Polícia Judiciária?!”. Isto para mim era chinês, mas felizmente ali toda a gente se conhece e ele lá me levou direitinha à “porta” do Salaszoi.  Uma tenda e uma família  Fui recebida por um Ronaldo sorridente que me apresentou à minha tenda para as próximas três noites. Tinha escolhido este “Wild Camping” porque era o alojamento mais barato do Príncipe, cerca de 18€ por noite. Quando chegámos à clareira onde ficam os bungalows e as tendas nem queria acreditar: aquela tinha de ser uma das melhores vistas do mundo! Fazia-me lembrar a famosa vista do Pão de Açúcar no Brasil, mas intocada. Uma floresta impenetrável que acaba no mar, onde o sol se põe. Esta parte da Ilha do Príncipe é fora do roteiro turístico, por isso não fazia ideia de que tal lugar existia.  Nessa noite, na companhia de um casal italiano/espanhol e do resto do staff do Salaszoi, percebi que ia ganhar uma família. A Marizete, que transportara o nosso delicioso jantar na cabeça, o Vivi que era um belo kizombeiro e conhecia toda a gente e a Linda que também ajudava na cozinha e nas limpezas.  À conversa, com as lanternas do telemóvel a servirem de iluminação, senti que aquele era o melhor lugar do mundo.  Percorrer o Príncipe a pé O dia acordou mal humorado, com uma tempestade e chuva torrencial que ameaçavam os meus planos de ir descobrir as praias do nordeste a pé. Como qualquer bom país tropical, a bonança não tardou em chegar. A seguir ao pequeno almoço em casa da Marizete, partimos: eu e mais os outros dois malucos a quem vendi a ideia de fazer 25+ quilómetros a pé num dia.  Demorámos cerca de duas horas e meia até avistarmos a idílica Praia Banana. No Hotel Belo Monte (um dos dois ou três resorts de luxo no Príncipe), há um miradouro com uma vista espectacular que só aguçou ainda mais o nosso desespero por um banho depois de tanto suor.  Até lá tínhamos passado por várias pequenas aldeias com casinhas de madeira coloridas, uma Roça abandonada que conseguimos visitar (a Roça Paciência) e muita floresta. Ainda vimos algumas crianças a voltar da escola. Nem sei quantos quilómetros têm de andar para lá chegar!  Esta região do Príncipe é maravilhosa e merece mais tempo a marinar nas suas águas mornas. A Praia Boi, Praia Macaco e Praia Grande estão já ali ao lado, mas por termos feito tudo a pé, não tivemos tempo de as visitar.  O longo caminho de regresso estava à nossa espera. Boleia 3 e 4: Reencontros e uma noite de festa  Já tínhamos feito a subida tortuosa de volta ao Hotel Belo Monte e íamos bem encaminhados quando ouvimos um carro atrás de nós. Dissemos todos “Vamos pedir boleia!” e qual não foi o meu espanto ao perceber que tinha conhecido dois dos rapazes que vinham no carro no voo de Lisboa para São Tomé! Saltámos para a caixa do jipe e lá fomos até os nossos caminhos divergirem.  De volta à caminhada, conseguimos encontrar um supermercado que não tinha água, mas tinha Compal de tudo e mais alguma coisa. Depois de andarmos mais alguns quilómetros, tentámos pedir boleia a outro jipe que ia a passar por nós, e não é que conhecíamos o condutor outra vez?! Era irmão do Vivi! Realmente, o Príncipe é uma pequena aldeia.  Quando finalmente chegámos ao acampamento, já perto do pôr do sol, o banho frio de chuveiro improvisado ao ar livre parecia um spa de luxo.  Menos mal cheirosos,  juntámo-nos à nossa recém família para um jantar chez-Marizete: uma sopa maravilhosa, uma moqueca de peixe que não lhe ficava nada atrás e fruta tropical. Qual Avilez qual quê? A acompanhar, vieram as caipirinhas do Ronaldo e acabámos todos a dançar kizomba. Foi a melhor noite da minha viagem. Labirintos sofisticados, mosquitos e lugares secretos  Os meus parceiros de caminhada despediram-se de manhã cedo e como tal tinha o dia para mim. Saí em direção à Roça Sundy para um dia a fazer aquilo que melhor se faz numa ilha paradisíaca: nada!  A Roça Sundy é das mais bonitas e bem preservadas do país, sendo hoje em dia parte hotel de luxo, parte casa para 133 famílias que vivem nas sanzalas da roça. Parece que em breve o grupo hoteleiro HDB vai construir novas casas para estas famílias, o que significa que esta roça histórica vai provavelmente passar a ser de acesso exclusivo a turistas, tal como algumas praias já o são. É triste ver esta privatização e segregação a acontecer nos dias de hoje.  O acesso à Praia Sundy é feito através de um caminho pela floresta muito mal indicado. Creio que a ideia seja desencorajar quem não é hóspede a visitar a praia. Com a ajuda da vista satélite do Google Maps e usando estrados de madeira que possivelmente são propriedade privada, cheguei a uma praia absolutamente VAZIA onde as únicas pessoas que se viam aqui e ali eram funcionários do hotel.  Deixo o link para o site do resort na praia porque parece um set de filme. Como o tempo estava meio farrusco e não apareceu ninguém nas horas que lá passei a ler e a nadar, até parecia que tinha pago 1100€ por noite pelo privilégio de estar ali. Quando a chuva apareceu, sentei-me numa das poltronas cobertas disponíveis e pus-me a imaginar que tipo de pessoas seriam os habituais clientes daquele resort.  Na subida de regresso senti que estava picada por mosquitos e decidi parar para pôr repelente. Asneira! Em dois segundos estava coberta de mini assassinos com asas sedentos pelo meu sangue. Acelerei o passo, mas o mal estava feito: tinha uma colecção de babas infinita!  Mas as caminhadas florestais ainda não tinham ficado por aqui. De volta ao acampamento, o Ronaldo levou-me até à Praia da Pedra Furada, que ficava mesmo por baixo do acampamento. Mais um lugar intocado com uma vista incrível sobre a Baía de Iola.  Boleia 5 e despedidas  A minha estadia neste pedaço de paraíso tinha chegado ao fim. É daqueles lugares tão remotos que uma pessoa nunca sabe bem quando (ou se) vai voltar. Apesar da beleza desta pequena ilha, a minha imagem mental do Príncipe parece quase um quadro. Uma família um pouco disfuncional, mas com sorrisos na cara, à volta de uma mesa a ouvir música e a brincar uns com os outros.  A minha última boleia foi a caminho do aeroporto. Mais uma vez, foi só pedir!  Uma nota sobre a realidade de viver no Príncipe  Sinto que às vezes temos uma certa tendência a glamorizar a pobreza. Talvez por cada vez mais compararmos a nossa vida à de centenas ou milhares de outras nas redes sociais, das quais só vemos uma colagem de “melhores momentos”, há um certo descontentamento impossível de apaziguar. Quão perfeita parece ser a vida de quem tem uma cabaninha à beira mar, com fruta e legumes no quintal, peixe fresco e umas galinhas a passear livremente?” “Quão felizes são aquelas pessoas com tão pouco”, uma frase feita, recorrente.  Contudo, esquecemo-nos de ler nas entrelinhas, o que realmente significa viver num lugar como o Príncipe. Significa perder a mãe numa travessia de barco entre São Tomé e o Príncipe.  Significa perder um filho com poucos anos de idade, possivelmente devido a uma doença erradicada na Europa.  Significa ficar grávida muito jovem e ter filhos para criar sem a ajuda de ninguém. Significa ter sonhos, para nós banais, que provavelmente nunca virão a acontecer.   Estas são algumas das histórias que foram partilhadas comigo nos poucos dias em que lá estive. A vida na pobreza é tudo menos idílica e que estes testemunhos sirvam para nos fazer apreciar um bocadinho mais aquilo que temos.  Dicas rápidas Alojamento: Como mencionei repetidamente, não podia recomendar mais o World’s View Wild Camping Salaszoi, Príncipe Island. Creio que os preços aumentaram desde que lá fui (inflação chega a todo o lado!), mas vale mesmo muito a pena. O conforto não é muito, mas tudo o resto é perfeito!  Aluguer de jipe: Se conseguires, é uma boa ideia alugar um jipe para aceder mais facilmente às praias e aproveitar os dias. Creio que todos os alojamentos podem fornecer este serviço. 

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A Ilha do Príncipe tem praias divinais, paisagens virgens, silêncio e paz absolutos. Tudo muito giro, mas para lá chegares tens que te meter numa caixinha de fósforos com asas e rezar para que as leis da física continuem a desafiar as leis da lógica. Depois de meia hora aos solavancos aterrei (inteira) num mini aeroporto. 

Se São Tomé já não é particularmente barato, o Príncipe, uma ilha dedicada ao turismo de luxo, ainda é menos. Como o transporte do aeroporto até ao meu acampamento me iria custar mais do que três dias de estadia (tinham-me pedido 50€), decidi ir a pé. 7km com uma mochilinha às costas não faria mossa. 


Boleia 1 e 2: Balalai e deslumbramento 

Já tendo estudado o caminho e com o percurso no Google Maps, estava confiante que lá chegaria em menos de duas horas. Pequeno problema: no avião desliguei o telemóvel, que tinha um novo cartão SIM local, e quando o voltei a ligar não sabia o PIN. Tinha o telemóvel bloqueado, inútil, com um cartão que não conseguia remover. Usando a memória, fiz-me à estrada achando que alguém me ajudaria caso fosse necessário. Estava pronta para a aventura! 

A primeira coisa em que reparei foi na calmaria que se vive no Príncipe. Com apenas 9000 habitantes, há pouca gente nas ruas. Passados uns vinte ou trinta minutos de caminho, recebo a minha primeira oferta de boleia. Nem sequer estava a pedir! O rapaz ia para a capital, mas até lá passava pela estrada onde eu tinha de virar. Meti-me na parte de trás da mota e seguimos juntos durante alguns minutos para poupar as pernas.


Já não muito longe do meu acampamento, cheguei a uma bifurcação onde não sabia bem para onde tinha que virar. Decidi esperar um pouco e vi uma motinha a vir na minha direção. Pedi ajuda e não é que o condutor era o “Balalai da Polícia Judiciária?!”. Isto para mim era chinês, mas felizmente ali toda a gente se conhece e ele lá me levou direitinha à “porta” do Salaszoi. 

Uma tenda e uma família 

Fui recebida por um Ronaldo sorridente que me apresentou à minha tenda para as próximas três noites. Tinha escolhido este “Wild Camping” porque era o alojamento mais barato do Príncipe, cerca de 18€ por noite. Quando chegámos à clareira onde ficam os bungalows e as tendas nem queria acreditar: aquela tinha de ser uma das melhores vistas do mundo! Fazia-me lembrar a famosa vista do Pão de Açúcar no Brasil, mas intocada. Uma floresta impenetrável que acaba no mar, onde o sol se põe. Esta parte da Ilha do Príncipe é fora do roteiro turístico, por isso não fazia ideia de que tal lugar existia. 


Nessa noite, na companhia de um casal italiano/espanhol e do resto do staff do Salaszoi, percebi que ia ganhar uma família. A Marizete, que transportara o nosso delicioso jantar na cabeça, o Vivi que era um belo kizombeiro e conhecia toda a gente e a Linda que também ajudava na cozinha e nas limpezas. 

À conversa, com as lanternas do telemóvel a servirem de iluminação, senti que aquele era o melhor lugar do mundo. 

Percorrer o Príncipe a pé

O dia acordou mal humorado, com uma tempestade e chuva torrencial que ameaçavam os meus planos de ir descobrir as praias do nordeste a pé. Como qualquer bom país tropical, a bonança não tardou em chegar. A seguir ao pequeno almoço em casa da Marizete, partimos: eu e mais os outros dois malucos a quem vendi a ideia de fazer 25+ quilómetros a pé num dia

Demorámos cerca de duas horas e meia até avistarmos a idílica Praia Banana. No Hotel Belo Monte (um dos dois ou três resorts de luxo no Príncipe), há um miradouro com uma vista espectacular que só aguçou ainda mais o nosso desespero por um banho depois de tanto suor. 


Até lá tínhamos passado por várias pequenas aldeias com casinhas de madeira coloridas, uma Roça abandonada que conseguimos visitar (a Roça Paciência) e muita floresta. Ainda vimos algumas crianças a voltar da escola. Nem sei quantos quilómetros têm de andar para lá chegar! 


Esta região do Príncipe é maravilhosa e merece mais tempo a marinar nas suas águas mornas. A Praia Boi, Praia Macaco e Praia Grande estão já ali ao lado, mas por termos feito tudo a pé, não tivemos tempo de as visitar. 

O longo caminho de regresso estava à nossa espera.

Boleia 3 e 4: Reencontros e uma noite de festa 

Já tínhamos feito a subida tortuosa de volta ao Hotel Belo Monte e íamos bem encaminhados quando ouvimos um carro atrás de nós. Dissemos todos “Vamos pedir boleia!” e qual não foi o meu espanto ao perceber que tinha conhecido dois dos rapazes que vinham no carro no voo de Lisboa para São Tomé! Saltámos para a caixa do jipe e lá fomos até os nossos caminhos divergirem. 

De volta à caminhada, conseguimos encontrar um supermercado que não tinha água, mas tinha Compal de tudo e mais alguma coisa. Depois de andarmos mais alguns quilómetros, tentámos pedir boleia a outro jipe que ia a passar por nós, e não é que conhecíamos o condutor outra vez?! Era irmão do Vivi! Realmente, o Príncipe é uma pequena aldeia. 

Quando finalmente chegámos ao acampamento, já perto do pôr do sol, o banho frio de chuveiro improvisado ao ar livre parecia um spa de luxo. 


Menos mal cheirosos,  juntámo-nos à nossa recém família para um jantar chez-Marizete: uma sopa maravilhosa, uma moqueca de peixe que não lhe ficava nada atrás e fruta tropical. Qual Avilez qual quê? A acompanhar, vieram as caipirinhas do Ronaldo e acabámos todos a dançar kizomba. Foi a melhor noite da minha viagem.



Labirintos sofisticados, mosquitos e lugares secretos 

Os meus parceiros de caminhada despediram-se de manhã cedo e como tal tinha o dia para mim. Saí em direção à Roça Sundy para um dia a fazer aquilo que melhor se faz numa ilha paradisíaca: nada! 

A Roça Sundy é das mais bonitas e bem preservadas do país, sendo hoje em dia parte hotel de luxo, parte casa para 133 famílias que vivem nas sanzalas da roça. Parece que em breve o grupo hoteleiro HDB vai construir novas casas para estas famílias, o que significa que esta roça histórica vai provavelmente passar a ser de acesso exclusivo a turistas, tal como algumas praias já o são. É triste ver esta privatização e segregação a acontecer nos dias de hoje. 


O acesso à Praia Sundy é feito através de um caminho pela floresta muito mal indicado. Creio que a ideia seja desencorajar quem não é hóspede a visitar a praia. Com a ajuda da vista satélite do Google Maps e usando estrados de madeira que possivelmente são propriedade privada, cheguei a uma praia absolutamente VAZIA onde as únicas pessoas que se viam aqui e ali eram funcionários do hotel. 

Deixo o link para o site do resort na praia porque parece um set de filme.

Como o tempo estava meio farrusco e não apareceu ninguém nas horas que lá passei a ler e a nadar, até parecia que tinha pago 1100€ por noite pelo privilégio de estar ali. Quando a chuva apareceu, sentei-me numa das poltronas cobertas disponíveis e pus-me a imaginar que tipo de pessoas seriam os habituais clientes daquele resort. 


Na subida de regresso senti que estava picada por mosquitos e decidi parar para pôr repelente. Asneira! Em dois segundos estava coberta de mini assassinos com asas sedentos pelo meu sangue. Acelerei o passo, mas o mal estava feito: tinha uma colecção de babas infinita! 

Mas as caminhadas florestais ainda não tinham ficado por aqui. De volta ao acampamento, o Ronaldo levou-me até à Praia da Pedra Furada, que ficava mesmo por baixo do acampamento. Mais um lugar intocado com uma vista incrível sobre a Baía de Iola. 


Boleia 5 e despedidas 

A minha estadia neste pedaço de paraíso tinha chegado ao fim. É daqueles lugares tão remotos que uma pessoa nunca sabe bem quando (ou se) vai voltar. Apesar da beleza desta pequena ilha, a minha imagem mental do Príncipe parece quase um quadro. Uma família um pouco disfuncional, mas com sorrisos na cara, à volta de uma mesa a ouvir música e a brincar uns com os outros. 

A minha última boleia foi a caminho do aeroporto. Mais uma vez, foi só pedir! 

Uma nota sobre a realidade de viver no Príncipe 

Sinto que às vezes temos uma certa tendência a glamorizar a pobreza. Talvez por cada vez mais compararmos a nossa vida à de centenas ou milhares de outras nas redes sociais, das quais só vemos uma colagem de “melhores momentos”, há um certo descontentamento impossível de apaziguar.

Quão perfeita parece ser a vida de quem tem uma cabaninha à beira mar, com fruta e legumes no quintal, peixe fresco e umas galinhas a passear livremente?” “Quão felizes são aquelas pessoas com tão pouco”, uma frase feita, recorrente. 

Contudo, esquecemo-nos de ler nas entrelinhas, o que realmente significa viver num lugar como o Príncipe.

Significa perder a mãe numa travessia de barco entre São Tomé e o Príncipe. 

Significa perder um filho com poucos anos de idade, possivelmente devido a uma doença erradicada na Europa. 

Significa ficar grávida muito jovem e ter filhos para criar sem a ajuda de ninguém.

Significa ter sonhos, para nós banais, que provavelmente nunca virão a acontecer.  

Estas são algumas das histórias que foram partilhadas comigo nos poucos dias em que lá estive. A vida na pobreza é tudo menos idílica e que estes testemunhos sirvam para nos fazer apreciar um bocadinho mais aquilo que temos. 


Dicas rápidas

Alojamento: Como mencionei repetidamente, não podia recomendar mais o World’s View Wild Camping Salaszoi, Príncipe Island. Creio que os preços aumentaram desde que lá fui (inflação chega a todo o lado!), mas vale mesmo muito a pena. O conforto não é muito, mas tudo o resto é perfeito! 

Aluguer de jipe: Se conseguires, é uma boa ideia alugar um jipe para aceder mais facilmente às praias e aproveitar os dias. Creio que todos os alojamentos podem fornecer este serviço. 

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De Sofá em Sofá pela Argélia #5: Taghit & El Gour https://www.mudancasconstantes.com/2024/01/31/argelia-taghit-el-gour/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=argelia-taghit-el-gour https://www.mudancasconstantes.com/2024/01/31/argelia-taghit-el-gour/#respond Wed, 31 Jan 2024 20:04:02 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9558 Taghit e El Gour deram-nos um cheirinho do potencial do Sahara Argelino. Um com as suas dunas imensas e douradas, outro pelas estruturas monumentais, esculpidas pela natureza. Dois lugares com paisagens até perder de vista e o melhor nascer e pôr-do-sol do país. Como não podia deixar de ser, esta etapa começou na estrada, com uma viagem de cinco horas de carro por estradas desertas, com a ocasional cáfila (manada de camelos) para alegrar o nosso dia. Antes de chegarmos a Taghit parámos em Beni Abbès para o melhor exercício cardio que há no deserto: subir dunas gigantes. Beni Abbès: a minha duna é maior que a tua À beira de uma duna que parece uma onda capaz de o engolir, fica o vilarejo de Beni Abbès, um pequeno oásis. Beni Abbès em si não tem muito para ver, mas é conhecido pela sua geografia única e só por isso vale a pena uma curta paragem. A “grande duna” de Beni Abbès é a mais alta numa área de 78,000 quilómetros quadrados (Portugal tem 92,000) e subi-la, mas principalmente descê-la é libertador! Taghit: Kayak no deserto? Pela primeira vez nesta viagem ficámos num alojamento pago. Não é assim tão fácil encontrar hosts no meio do deserto, e mesmo o TerreGite só apareceu depois de alguns contactos por email. Um pequeno alojamento tradicional com staff muito simpático e refeições à beira da fogueira. Como não havia muito que pudéssemos fazer por nós próprios, decidimos juntar-nos a um tour pela região no dia seguinte. O deserto está cheio de surpresas! Começámos com uma visita ao antigo ksar de Taghit, que à semelhança dos de Timimoun, agora funciona mais como estábulo. O nosso guia mal falava inglês, mas com o meu francês manhoso e a ajuda da família argelino-marroquina que nos acompanhava, lá nos entendemos. Caminhámos entre as antigas muralhas, campos de palmeiras e antes de darmos por isso estava na hora de almoço. E perguntam-nos: “querem fazer kayak”? Não é o tipo de pergunta que esperas no deserto! O almoço era à beira de um oásis grande o suficiente para andarmos de kayak de um lado para o outro e soube tão bem para refrescar! Antes de nos dirigirmos ao melhor miradouro para ver o pôr do sol, ainda fomos espreitar arte rupestre com 6000 anos que agora se funde com arte delinquente com dois ou três anos. Para o pôr do sol, subimos até ao Fort de l’éperon de onde se vê toda a cidade, as dunas e o oásis. É definitivamente a melhor forma de acabar um dia em cheio no deserto. Uma gruta espontânea A nossa viagem à Argélia já tinha tido um pouco de tudo, mas este dia foi uma verdadeira aventura com vontade própria. Vou tentar resumir, se não corro o risco de escrever cinco páginas sobre um só dia. 1º – Conduzimos até Brezina, onde nos íamos encontrar com um amigo que tínhamos conhecido há uns dias em Batna. 2º – Ele nunca tinha estado na região, mas na Argélia toda a gente conhece alguém que conhece alguém, por isso do nada tínhamos um guia e um lugar para ficar no meio de El Gour. 3º – Pelos vistos havia uma gruta que podíamos visitar antes do pôr do sol. Depois de meia hora aos solavancos num jipe, estávamos dentro de uma gruta gigante ao lado de uma barragem com uma albufeira linda! 4º – O nosso deambulo pela gruta atrasou-nos e apressámo-nos para ainda tentar apanhar as últimas horas de luz no topo do El Gour. 5º – A caminho, parámos para nos abastecermos com um frango assado e ainda fomos parados pela polícia que finalmente reparou (ou alguém lhes disse) que havia estrangeiros por ali. Depois de algumas perguntas e menções ao Ronaldo, lá nos deixaram seguir caminho. Que lugar é este?! 6º – Corremos até ao topo de uma das formações arenosas de El Gour e apesar do sol já se ter posto, as cores no horizonte fizeram valer o esforço. 7º – Íamos dormir numas tendas gigantes, no meio de El Gour. Quando já tínhamos acabado o frango e começava a hora do chá, chega um jipe da gendarmerie com quatro ou cinco guardas que deviam querer uma noite diferente. Lá fizeram umas perguntas, beberam chá com um quilo de açúcar por chávena e foram à sua vida. Achávamos que finalmente as nossas interacções com a autoridade tinham ficado por ali. 8º –  Passados quinze ou vinte minutos, já quase prontos para irmos dormir, voltam para dizer que afinal temos que nos ir registar com a polícia. Fomos para a esquadra de pijama. Entre fotocópias e registos, foi um serão muito animado. Agora sim, estávamos oficialmente livres! 9º – Dormimos na nossa tenda e acordámos cedo. Não íamos perder o nascer do sol! Subimos até ao topo de um rochedo e ali ficámos a observar a natureza a fazer a sua magia! É incrível como um lugar que descobri acidentalmente no Google Maps se tornou na experiência mais marcante que tivemos na Argélia! 10º – Estava na hora de voltarmos à estrada, desta vez em direcção a Oran, onde nos esperava um mar morno e um banho que ficou ali nas entrelinhas do permitido e proibido. Claro que nessa noite acabámos na casa de um amigo do nosso amigo, a comer uma refeição preparada pela mãe dele. Ou não estivéssemos nós na Argélia! Este dia marcou o início do fim da nossa viagem, já só nos restavam a cosmopolita Oran e a anciã Tipaza para visitar antes de voltarmos para casa. Dicas rápidas: Se quiseres fazer Taghit sem tours, estas são as referências no Google Maps: Contactos TerreGite: https://www.facebook.com/TerreGite/?locale=fr_FR | terregite@gmail.com

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Taghit e El Gour deram-nos um cheirinho do potencial do Sahara Argelino. Um com as suas dunas imensas e douradas, outro pelas estruturas monumentais, esculpidas pela natureza. Dois lugares com paisagens até perder de vista e o melhor nascer e pôr-do-sol do país.

Como não podia deixar de ser, esta etapa começou na estrada, com uma viagem de cinco horas de carro por estradas desertas, com a ocasional cáfila (manada de camelos) para alegrar o nosso dia. Antes de chegarmos a Taghit parámos em Beni Abbès para o melhor exercício cardio que há no deserto: subir dunas gigantes.

Beni Abbès: a minha duna é maior que a tua

À beira de uma duna que parece uma onda capaz de o engolir, fica o vilarejo de Beni Abbès, um pequeno oásis. Beni Abbès em si não tem muito para ver, mas é conhecido pela sua geografia única e só por isso vale a pena uma curta paragem.


A “grande duna” de Beni Abbès é a mais alta numa área de 78,000 quilómetros quadrados (Portugal tem 92,000) e subi-la, mas principalmente descê-la é libertador!

Taghit: Kayak no deserto?

Pela primeira vez nesta viagem ficámos num alojamento pago. Não é assim tão fácil encontrar hosts no meio do deserto, e mesmo o TerreGite só apareceu depois de alguns contactos por email. Um pequeno alojamento tradicional com staff muito simpático e refeições à beira da fogueira.

Como não havia muito que pudéssemos fazer por nós próprios, decidimos juntar-nos a um tour pela região no dia seguinte. O deserto está cheio de surpresas!


Começámos com uma visita ao antigo ksar de Taghit, que à semelhança dos de Timimoun, agora funciona mais como estábulo. O nosso guia mal falava inglês, mas com o meu francês manhoso e a ajuda da família argelino-marroquina que nos acompanhava, lá nos entendemos.

Caminhámos entre as antigas muralhas, campos de palmeiras e antes de darmos por isso estava na hora de almoço. E perguntam-nos: “querem fazer kayak”? Não é o tipo de pergunta que esperas no deserto!

O almoço era à beira de um oásis grande o suficiente para andarmos de kayak de um lado para o outro e soube tão bem para refrescar!


Antes de nos dirigirmos ao melhor miradouro para ver o pôr do sol, ainda fomos espreitar arte rupestre com 6000 anos que agora se funde com arte delinquente com dois ou três anos.

Para o pôr do sol, subimos até ao Fort de l’éperon de onde se vê toda a cidade, as dunas e o oásis. É definitivamente a melhor forma de acabar um dia em cheio no deserto.


Uma gruta espontânea

A nossa viagem à Argélia já tinha tido um pouco de tudo, mas este dia foi uma verdadeira aventura com vontade própria. Vou tentar resumir, se não corro o risco de escrever cinco páginas sobre um só dia.

1º – Conduzimos até Brezina, onde nos íamos encontrar com um amigo que tínhamos conhecido há uns dias em Batna.

2º – Ele nunca tinha estado na região, mas na Argélia toda a gente conhece alguém que conhece alguém, por isso do nada tínhamos um guia e um lugar para ficar no meio de El Gour.

3º – Pelos vistos havia uma gruta que podíamos visitar antes do pôr do sol. Depois de meia hora aos solavancos num jipe, estávamos dentro de uma gruta gigante ao lado de uma barragem com uma albufeira linda!



4º – O nosso deambulo pela gruta atrasou-nos e apressámo-nos para ainda tentar apanhar as últimas horas de luz no topo do El Gour.

5º – A caminho, parámos para nos abastecermos com um frango assado e ainda fomos parados pela polícia que finalmente reparou (ou alguém lhes disse) que havia estrangeiros por ali. Depois de algumas perguntas e menções ao Ronaldo, lá nos deixaram seguir caminho.


Que lugar é este?!

6º – Corremos até ao topo de uma das formações arenosas de El Gour e apesar do sol já se ter posto, as cores no horizonte fizeram valer o esforço.


7º – Íamos dormir numas tendas gigantes, no meio de El Gour. Quando já tínhamos acabado o frango e começava a hora do chá, chega um jipe da gendarmerie com quatro ou cinco guardas que deviam querer uma noite diferente. Lá fizeram umas perguntas, beberam chá com um quilo de açúcar por chávena e foram à sua vida. Achávamos que finalmente as nossas interacções com a autoridade tinham ficado por ali.

8º –  Passados quinze ou vinte minutos, já quase prontos para irmos dormir, voltam para dizer que afinal temos que nos ir registar com a polícia. Fomos para a esquadra de pijama. Entre fotocópias e registos, foi um serão muito animado. Agora sim, estávamos oficialmente livres!

9º – Dormimos na nossa tenda e acordámos cedo. Não íamos perder o nascer do sol! Subimos até ao topo de um rochedo e ali ficámos a observar a natureza a fazer a sua magia! É incrível como um lugar que descobri acidentalmente no Google Maps se tornou na experiência mais marcante que tivemos na Argélia!


10º – Estava na hora de voltarmos à estrada, desta vez em direcção a Oran, onde nos esperava um mar morno e um banho que ficou ali nas entrelinhas do permitido e proibido. Claro que nessa noite acabámos na casa de um amigo do nosso amigo, a comer uma refeição preparada pela mãe dele. Ou não estivéssemos nós na Argélia!

Este dia marcou o início do fim da nossa viagem, já só nos restavam a cosmopolita Oran e a anciã Tipaza para visitar antes de voltarmos para casa.

Dicas rápidas:

Se quiseres fazer Taghit sem tours, estas são as referências no Google Maps:

  • Kayak Taghit | Neolithic Rock Engravings | Fort de l’éperon / Mountain of Taghit

Contactos TerreGite:

https://www.facebook.com/TerreGite/?locale=fr_FR | terregite@gmail.com

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O Sul de São Tomé: mais leve-leve não há https://www.mudancasconstantes.com/2024/01/27/sul-sao-tome-principe/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=sul-sao-tome-principe https://www.mudancasconstantes.com/2024/01/27/sul-sao-tome-principe/#respond Sat, 27 Jan 2024 20:24:08 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9530 “Vamos ver se o Hondinha se aguenta no Sul”. São Tomé pode ser um país em miniatura, mas isso não significa que a estrada que liga o norte ao sul se faz num instantinho. Para ir ao sul são precisos pelo menos três dias e uma boa dose de força na lombar para aguentar tanto solavanco. A estrada pode não estar nas melhores condições, mas as paisagens são lindas e acabas por passar por alguns dos lugares mais icónicos da ilha. Como em todo o lado, a dificuldade de acesso é proporcional à paz e tranquilidade. Acordar com o som das ondas (ou de uma tempestade tropical a cair-te em cima) e ter uma praia paradisíaca, vazia a teus pés é a norma. Seguimos para o Sul? Boca do Inferno Baptizada com o mesmo nome da sua homónima em Cascais, esta Boca do Inferno também tem rochas e ondas a rebentar num bonito espectáculo de espuma. Acrescentam-se dezenas de palmeiras e uns garotos a vender cocos e temos o lugar ideal para observar a natureza em todo o seu esplendor. Praia das Sete Ondas A minha praia preferida para banhos em São Tomé! Perfeita para aprender a surfar ou fazer carreirinhas. O bar da praia também é muito simpático, tem snacks e refeições e camas de rede. Tudo o que precisas para a prática da preguiça. Praia Micondo Mais uma praia que merece uma visita, nem que seja só para um mergulho rápido ou picnicar uma sandes de atum. Roça São João dos Angolares Possivelmente a Roça mais saborosa de São Tomé. Propriedade do chef João Carlos Silva, conhecido pelo seu programa Na Roça com os Tachos, esta Roça tem uma vista incrível e um menu de degustação que celebra os sabores da ilha. Nós só parámos em São João dos Angolares para espreitar a Roça, mas fizémo-lo com toda a pompa e circunstância. Assim que subimos a rampa de acesso, demos de caras com músicos e dançarinas que estavam ali à espera de um grupo de turistas. Como aparecemos nós, tivemos direito a uma pré-performance. No fim, até dancei com um dos cozinheiros! O menu de degustação são cerca de 35€ por pessoa, sem vinho. Pico Cão Grande 663 metros acima do nível das águas do mar, ergue-se o icónico Pico Cão Grande. A sua forma peculiar e sugestiva, domina a paisagem do sul de São Tomé. Mergulhado num mar de palmeiras e floresta tropical, o topo desta rocha vulcânica foi escalado pela primeira vez por três mulheres em 2019. Da estrada, o Pico Cão Grande dá fotografias espectaculares de todos os ângulos, mas não há nada como vê-lo a partir de um rio maravilhoso que desagua numa praia intocada. Assim que chegámos, sabia que aquele ia ser o meu lugar preferido em São Tomé, impossível de descobrir sem a ajuda da Arminda e da Catarina. Um mergulho inesquecível! Ilhéu das Rolas Num barquito de madeira faz-se a travessia de São Tomé até ao Ilhéu das Rolas em quinze minutos. Nas Rolas as árvores engoliram a terra e tudo é verde, até a água. Uma pequena comunidade vive ali, cerca de duzentas pessoas, que subsiste do pouco turismo que recebe. Tal como na ilha principal os porcos e as galinhas passeiam descontraidamente pelas ruas de terra. O ponto mais famoso do Ilhéu é o Marco do Equador, que assinala o lugar onde passa esta linha imaginária que divide o Hemisfério Norte do Sul. Chegámos lá depois de uma curta caminhada a partir do porto, ténis recomendam-se! O nosso querido “capitão” ofereceu-se para nos guiar nesse dia e, enquanto descíamos do Marco até à Praia Café, foi-nos contando a dura realidade dos habitantes da ilha. Muitas pessoas daquela comunidade trabalhavam para o resort do grupo Pestana até que, por causa do Covid, fechou sem previsão de reabertura. Hoje, três anos depois, ainda não reabriu. Enquanto o resort estava aberto havia emprego, mas era miseravelmente remunerado com o ordenado mínimo (50 a 60€ por mês). Agora, não existe emprego nem acesso ao único poço de água potável do Ilhéu, que está dentro do complexo do resort, inacessível aos habitantes locais. Na época seca a vida torna-se ainda mais difícil. Aconselho-te a explorar as várias praias do Ilhéu de barco, como a Praia Bateria, e até as partes mais remotas do Sul onde as estradas não chegam. Praia Piscina Esta é uma praia de sonho. Literalmente! Fizemos ali uma bela soneca depois de almoço. Para além de ter um areal plano, perfeito para banhos de sol e sestas, a Praia Piscina é uma obra de arte a nível da geologia e geografia. Com paisagens deslumbrantes para onde quer que se olhe, a cereja no topo do bolo é a piscina natural que se forma entre as rochas. Tem cuidado com os ouriços! Se tiveres tempo, esta seria a minha praia de eleição para passar um dia inteiro no leve-leve. Jalé Se houve um lugar que marcou a diferença nos nossos dias no Sul, foram os bungalows na praia onde ficámos duas noites. Quando digo na praia, é mesmo em cima da areia! No quarto, ouvem-se as ondas, a não ser quando as chuvas tropicais se abatem sobre o telhado. Mas com chuva ou sol, sair do bungalow de manhã para uma praia absolutamente deserta é único. As minhas memórias da Jalé são deliciosas. Um primeiro jantar, uma salada de atum feita e comida com as mãos. Pequenos-almoços na praia com o ananás mais doce do mundo. Uma despedida na Vanhá, para onde fomos à boleia numa carrinha de caixa aberta, onde vimos um por do sol mágico, onde se bebia um gin local e onde o chef do restaurante nos cozinhou uma das melhores pizzas da minha existência. Não arranjámos boleia para voltar para a Jalé, por isso caminhámos meia hora ou quarenta minutos pela floresta, a conversar sobre a vida, debaixo de um céu cheio de estrelas e galáxias. Já tenho saudades! O Nélson Num dos dias da nossa viagem, as “estradas” do sul finalmente fizeram os seus estragos no nosso Hondinha. Uma rocha escondida numa poça lamacenta deslocou o tubo de escape que estremecia por todos os lados. Estrada 1 – Hondinha 0. Antes de voltarmos para o norte, tínhamos que tratar do assunto. “Devemos arranjar um mecânico em Porto Alegre” disse a Catarina. E era verdade. Chegámos a Porto Alegre, aldeia com duas ruas e uma rotunda composta por uma escavadora enferrujada com cabras em cima. Assim que perguntámos “Há aí algum mecânico” começamos a ouvir “Oh Nelson!!” O Nelson aparece, com umas ferramentas na mão, mete-se debaixo do Hondinha e em dez minutos temos o carro arranjado. Nelson 1 – Estrada 1.São Tomé é muito isto. Dicas rápidas Roça Água Izé: Não visitei esta Roça, mas é uma das mais bonitas de São Tomé. Se tiveres tempo durante a viagem, aconselho-te a acrescentar esta paragem ao teu roteiro. Desova das tartarugas: A desova acontece entre Setembro e Abril, por isso se fores durante essa altura, podes sair do teu bungalow e ter este espectáculo da natureza aos teus pés.

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“Vamos ver se o Hondinha se aguenta no Sul”. São Tomé pode ser um país em miniatura, mas isso não significa que a estrada que liga o norte ao sul se faz num instantinho. Para ir ao sul são precisos pelo menos três dias e uma boa dose de força na lombar para aguentar tanto solavanco.

A estrada pode não estar nas melhores condições, mas as paisagens são lindas e acabas por passar por alguns dos lugares mais icónicos da ilha.


Como em todo o lado, a dificuldade de acesso é proporcional à paz e tranquilidade. Acordar com o som das ondas (ou de uma tempestade tropical a cair-te em cima) e ter uma praia paradisíaca, vazia a teus pés é a norma. Seguimos para o Sul?

Boca do Inferno

Baptizada com o mesmo nome da sua homónima em Cascais, esta Boca do Inferno também tem rochas e ondas a rebentar num bonito espectáculo de espuma. Acrescentam-se dezenas de palmeiras e uns garotos a vender cocos e temos o lugar ideal para observar a natureza em todo o seu esplendor.


Praia das Sete Ondas

A minha praia preferida para banhos em São Tomé! Perfeita para aprender a surfar ou fazer carreirinhas. O bar da praia também é muito simpático, tem snacks e refeições e camas de rede. Tudo o que precisas para a prática da preguiça.

Praia Micondo

Mais uma praia que merece uma visita, nem que seja só para um mergulho rápido ou picnicar uma sandes de atum.

Roça São João dos Angolares

Possivelmente a Roça mais saborosa de São Tomé. Propriedade do chef João Carlos Silva, conhecido pelo seu programa Na Roça com os Tachos, esta Roça tem uma vista incrível e um menu de degustação que celebra os sabores da ilha. Nós só parámos em São João dos Angolares para espreitar a Roça, mas fizémo-lo com toda a pompa e circunstância.


Assim que subimos a rampa de acesso, demos de caras com músicos e dançarinas que estavam ali à espera de um grupo de turistas. Como aparecemos nós, tivemos direito a uma pré-performance. No fim, até dancei com um dos cozinheiros!

O menu de degustação são cerca de 35€ por pessoa, sem vinho.

Pico Cão Grande

663 metros acima do nível das águas do mar, ergue-se o icónico Pico Cão Grande. A sua forma peculiar e sugestiva, domina a paisagem do sul de São Tomé. Mergulhado num mar de palmeiras e floresta tropical, o topo desta rocha vulcânica foi escalado pela primeira vez por três mulheres em 2019.


Da estrada, o Pico Cão Grande dá fotografias espectaculares de todos os ângulos, mas não há nada como vê-lo a partir de um rio maravilhoso que desagua numa praia intocada. Assim que chegámos, sabia que aquele ia ser o meu lugar preferido em São Tomé, impossível de descobrir sem a ajuda da Arminda e da Catarina. Um mergulho inesquecível!

Ilhéu das Rolas

Num barquito de madeira faz-se a travessia de São Tomé até ao Ilhéu das Rolas em quinze minutos. Nas Rolas as árvores engoliram a terra e tudo é verde, até a água. Uma pequena comunidade vive ali, cerca de duzentas pessoas, que subsiste do pouco turismo que recebe. Tal como na ilha principal os porcos e as galinhas passeiam descontraidamente pelas ruas de terra.


O ponto mais famoso do Ilhéu é o Marco do Equador, que assinala o lugar onde passa esta linha imaginária que divide o Hemisfério Norte do Sul. Chegámos lá depois de uma curta caminhada a partir do porto, ténis recomendam-se!

O nosso querido “capitão” ofereceu-se para nos guiar nesse dia e, enquanto descíamos do Marco até à Praia Café, foi-nos contando a dura realidade dos habitantes da ilha. Muitas pessoas daquela comunidade trabalhavam para o resort do grupo Pestana até que, por causa do Covid, fechou sem previsão de reabertura. Hoje, três anos depois, ainda não reabriu.


Enquanto o resort estava aberto havia emprego, mas era miseravelmente remunerado com o ordenado mínimo (50 a 60€ por mês). Agora, não existe emprego nem acesso ao único poço de água potável do Ilhéu, que está dentro do complexo do resort, inacessível aos habitantes locais. Na época seca a vida torna-se ainda mais difícil.

Aconselho-te a explorar as várias praias do Ilhéu de barco, como a Praia Bateria, e até as partes mais remotas do Sul onde as estradas não chegam.

Praia Piscina

Esta é uma praia de sonho. Literalmente! Fizemos ali uma bela soneca depois de almoço. Para além de ter um areal plano, perfeito para banhos de sol e sestas, a Praia Piscina é uma obra de arte a nível da geologia e geografia. Com paisagens deslumbrantes para onde quer que se olhe, a cereja no topo do bolo é a piscina natural que se forma entre as rochas. Tem cuidado com os ouriços!

Se tiveres tempo, esta seria a minha praia de eleição para passar um dia inteiro no leve-leve.


Jalé

Se houve um lugar que marcou a diferença nos nossos dias no Sul, foram os bungalows na praia onde ficámos duas noites. Quando digo na praia, é mesmo em cima da areia! No quarto, ouvem-se as ondas, a não ser quando as chuvas tropicais se abatem sobre o telhado. Mas com chuva ou sol, sair do bungalow de manhã para uma praia absolutamente deserta é único.


As minhas memórias da Jalé são deliciosas. Um primeiro jantar, uma salada de atum feita e comida com as mãos. Pequenos-almoços na praia com o ananás mais doce do mundo. Uma despedida na Vanhá, para onde fomos à boleia numa carrinha de caixa aberta, onde vimos um por do sol mágico, onde se bebia um gin local e onde o chef do restaurante nos cozinhou uma das melhores pizzas da minha existência.

Não arranjámos boleia para voltar para a Jalé, por isso caminhámos meia hora ou quarenta minutos pela floresta, a conversar sobre a vida, debaixo de um céu cheio de estrelas e galáxias. Já tenho saudades!


O Nélson

Num dos dias da nossa viagem, as “estradas” do sul finalmente fizeram os seus estragos no nosso Hondinha. Uma rocha escondida numa poça lamacenta deslocou o tubo de escape que estremecia por todos os lados. Estrada 1 – Hondinha 0.

Antes de voltarmos para o norte, tínhamos que tratar do assunto. “Devemos arranjar um mecânico em Porto Alegre” disse a Catarina. E era verdade. Chegámos a Porto Alegre, aldeia com duas ruas e uma rotunda composta por uma escavadora enferrujada com cabras em cima. Assim que perguntámos “Há aí algum mecânico” começamos a ouvir “Oh Nelson!!”

O Nelson aparece, com umas ferramentas na mão, mete-se debaixo do Hondinha e em dez minutos temos o carro arranjado. Nelson 1 – Estrada 1.
São Tomé é muito isto.

Dicas rápidas

Roça Água Izé: Não visitei esta Roça, mas é uma das mais bonitas de São Tomé. Se tiveres tempo durante a viagem, aconselho-te a acrescentar esta paragem ao teu roteiro.

Desova das tartarugas: A desova acontece entre Setembro e Abril, por isso se fores durante essa altura, podes sair do teu bungalow e ter este espectáculo da natureza aos teus pés.

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O Norte de São Tomé e um passado desconfortável  https://www.mudancasconstantes.com/2023/09/22/o-norte-de-sao-tome/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=o-norte-de-sao-tome https://www.mudancasconstantes.com/2023/09/22/o-norte-de-sao-tome/#comments Fri, 22 Sep 2023 21:08:47 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9495 São Tomé era um sonho adiado. Um destino desconhecido para a maioria das pessoas, mas tão presente para os portugueses. As suas praias e paisagens fizeram certamente muitas capas de revistas e folhetos promocionais de agências de viagem. Esse estava longe de ser o São Tomé que eu queria conhecer.   O tal sonho foi adiado até que a minha amiga Arminda, são-tomense, voltou a casa e se ofereceu para me acolher. Agora sim, era hora de abrir o site da TAP e tirar este arquipélago da lista de espera.   Ao contrário do que é normal nas minhas viagens, pesquisei muito pouco sobre São Tomé. A falta de tempo aliada à certeza que tinha uma pessoa local para tomar conta de mim, fizeram-me partir para esta viagem sem quaisquer expectativas.   Os meus anjinhos da guarda em São Tomé   Depois de sete horas de voo – onde me deliciei a ver a Argélia do céu e a pensar numa próxima aventura até ao seu Sul Profundo – aterrei num aeroporto do tamanho de uma casa na Quinta da Marinha e, que para meu espanto, tinha Wi-Fi!   Com o grande sorriso que sempre a caracterizou, a Arminda deu-me as boas-vindas e levou-me até à sua família que me esperava com um frango guisado na mesa. Senti-me em casa.   No Norte e Centro de São Tomé escondem-se inúmeras cascatas, roças, praias e caminhadas. Sorte a minha, a Arminda conhecia a pessoa certa para me ajudar a descobrir todos esses lugares maravilhosos. A Catarina!   A Catarina é cá das minhas. Empreendedora e aventureira, criou a sua própria agência de viagens em São Tomé, país a que agora chama de casa. Foi com a ajuda dela que consegui ver tudo e mais alguma coisa nos dias que passei em São Tomé e Príncipe. Podes encontrar todos os dados dela no fim deste post.   Um jardim botânico em grande escala   Esta é uma ilha fértil, onde tudo cresce. “A comida cai-lhes na cabeça”, disse-me a Catarina logo no primeiro dia. Assim que saímos do centro de São Tomé damos de caras com uma estrada, sim, só há uma estrada principal, onde parece que a qualquer momento podemos ser engolidas pela floresta. Árvores frondosas de um verde profundo dominam a paisagem.   Antes de chegarmos ao nosso primeiro destino, passámos pela vila de Guadalupe. Em toda a ilha, a vida acontece na estrada. Há porcos e galinhas a passar. A falta de transportes públicos faz com que a maioria das pessoas se desloque a pé, de catana na cabeça ou na mão. Ao domingo estende-se a roupa à beira da estrada para secar mais rápido. Tudo se vende, tudo se troca na estrada. É impossível ficar-se aborrecido durante a viagem.   Abastecidas de água, seguimos para a Roça Diogo Vaz.   O verdadeiro preço do café e do cacau   É impossível falar as roças de São Tomé sem falar do passado colonial e dos abusos à integriade e condição humana que ali se passaram. Uma história que teimamos em suavizar e relativizar de forma a evitar o desconforto de enfrentar uma realidade que no fundo todos sabemos ser verdade: não fomos os “bons” colonizadores.  A beleza das roças, espalhadas por todo o arquipélago, pode mascarar as cicatrizes de dor e opressão infligidas àqueles que oficialmente eram os trabalhadores das roças, mas que na realidade eram escravos. Não me vou alongar muito sobre este assunto porque há outros que já o fizeram muito melhor do que eu, mas deixo aqui o link para um artigo do Público que ilustra a severidade das punições corporais, o terror psicológico e o sistema racista impenetrável que tornaram São Tomé, através da sua produção de cacau, na mais lucrativa colónia portuguesa no início do século XX.  Em São Tomé, pareceu-me que o melhor lugar para aprender sobre a história do país, é a associação CACAU, que para além de servir uns belos almoços a um bom preço, também tem uma secção cultural e histórica muito interessante.   De regresso ao cacau dos dias de hoje, este é plantado e processado recorrendo às mesmas técnicas de há cem anos atrás, mas sem sofrimento humano. Uma boa invenção, parece-me.  Na Diogo Vaz, por 10€ podes fazer uma visita guiada, conhecer os diferentes estágios de crescimento do cacau e provar o fruto em si. Lá dentro, há uma goma branca que não é usada para fazer o chocolate, mas é muito saborosa. A semente, antes de seca, é completamente diferente do sabor do cacau que todos conhecemos.  Ainda é possível visitar a fábrica, onde o cacau seca e é processado nas máquinas que ali estão há duzentos anos. No fim, ainda recebes um cafezinho e mais chocolate do que é possível comer.  Túnel de Santa Catarina   Cheias de chocolate, seguimos até ao ponto mais distante do dia, o famoso Túnel de Santa Catarina. Se tivesse sido escavado recentemente, diria que aquele túnel foi feito para o Instagram. Numa estrada de palmeiras com o mar ao lado, este túnel é o cenário perfeito para tirar fotografias!   Mucumbli  Quando começámos a viagem de regresso tive que fazer uma escolha. Ou íamos “à Santola” ou íamos ao Mucumbli. Apesar da minha alma ser mais tasca da santola, a descrição das vistas do Mucumbli seduziram-me e acho que foi a escolha certa. Estas cabaninhas de madeira e o seu restaurante têm uma das vistas mais bonitas e serenas da ilha. É simples: vê-se floresta e vê-se mar. E basta! A comida é decente, apesar de não ser barata (15/20€ por pessoa), mas vale a pena. Até podes passar para as espreguiçadeiras depois do almoço e descansar enquanto uma chuvada se abate sobre as palhotas.  Lagoa Azul  Nos intervalos da chuva, fomos até à Lagoa Azul que estava absolutamente vazia. Nadámos numa água choca até termos de nos abrigar do próximo aguaceiro. Mas a Lagoa Azul é bem mais bonita vista de cima do que de baixo, por isso agarra nuns ténis (confia em mim, de chinelos não vais fazer boa figura) e sobe até ao farol para a paisagem mais bonita do dia!  Roça Agostinho Neto  Esta foi a minha roça preferida. Não sei se pela luz incrível de pôr do sol (às quatro da tarde), pela beleza da sua arquitectura monumental, ou pelos sorrisos das miúdas espevitadas que viviam ali, só tenho boas memórias deste lugar.   Algumas roças, como é o caso desta, são uma casa para a “comunidade”. Como aconteceu com muitas outras roças, a Roça Agostinho Neto, a maior de São Tomé, foi nacionalizada em 1975 e a partir dessa altura o governo permitiu que fossem habitadas pela população local. A parte menos boa deste arranjo é que as infraestruturas se vão degradando e ninguém as arranja.   Se quiseres saber mais sobre vida passada e presente desta roça, lê este artigo.   O dia de exploração do norte de São Tomé acabou no BBC, um bar e restaurante com uma vista linda sobre o pôr do sol na cidade. No dia seguinte, seguimos para sul!  Dicas rápidas   Museu do Mar e da Pesca Artesanal: Este museu estava fechado quando lá chegámos e penso que não está aberto todos os dias, mas se estiveres perto de Morro de Peixe podes sempre tentar passar por lá e ver se consegues visitar. Fala sobre a preservação da vida aquática em São Tomé, incluindo das suas tartarugas!  Petisqueira Santola: A tal tasca que falhei, mas que fica como recomendação caso tenhas oportunidade.  O Pirata: fui a este restaurante na minha última noite em São Tomé. Mesmo em cima do mar, podes contar com comida saborosa e um atendimento muito simpático.  Viaja com Wodu: Como prometido, aqui fica o site e o Instagram da Catarina que organiza viagens em São Tomé. Toda a gente na ilha a conhece e a trata por “patroa” ou “mamã”.  

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São Tomé era um sonho adiado. Um destino desconhecido para a maioria das pessoas, mas tão presente para os portugueses. As suas praias e paisagens fizeram certamente muitas capas de revistas e folhetos promocionais de agências de viagem. Esse estava longe de ser o São Tomé que eu queria conhecer.  

O tal sonho foi adiado até que a minha amiga Arminda, são-tomense, voltou a casa e se ofereceu para me acolher. Agora sim, era hora de abrir o site da TAP e tirar este arquipélago da lista de espera.  

Ao contrário do que é normal nas minhas viagens, pesquisei muito pouco sobre São Tomé. A falta de tempo aliada à certeza que tinha uma pessoa local para tomar conta de mim, fizeram-me partir para esta viagem sem quaisquer expectativas.  


Os meus anjinhos da guarda em São Tomé  

Depois de sete horas de voo – onde me deliciei a ver a Argélia do céu e a pensar numa próxima aventura até ao seu Sul Profundo – aterrei num aeroporto do tamanho de uma casa na Quinta da Marinha e, que para meu espanto, tinha Wi-Fi!  

Com o grande sorriso que sempre a caracterizou, a Arminda deu-me as boas-vindas e levou-me até à sua família que me esperava com um frango guisado na mesa. Senti-me em casa.  

No Norte e Centro de São Tomé escondem-se inúmeras cascatas, roças, praias e caminhadas. Sorte a minha, a Arminda conhecia a pessoa certa para me ajudar a descobrir todos esses lugares maravilhosos. A Catarina!  

A Catarina é cá das minhas. Empreendedora e aventureira, criou a sua própria agência de viagens em São Tomé, país a que agora chama de casa. Foi com a ajuda dela que consegui ver tudo e mais alguma coisa nos dias que passei em São Tomé e Príncipe. Podes encontrar todos os dados dela no fim deste post.  


Um jardim botânico em grande escala  

Esta é uma ilha fértil, onde tudo cresce. “A comida cai-lhes na cabeça”, disse-me a Catarina logo no primeiro dia. Assim que saímos do centro de São Tomé damos de caras com uma estrada, sim, só há uma estrada principal, onde parece que a qualquer momento podemos ser engolidas pela floresta. Árvores frondosas de um verde profundo dominam a paisagem.  

Antes de chegarmos ao nosso primeiro destino, passámos pela vila de Guadalupe. Em toda a ilha, a vida acontece na estrada. Há porcos e galinhas a passar. A falta de transportes públicos faz com que a maioria das pessoas se desloque a pé, de catana na cabeça ou na mão. Ao domingo estende-se a roupa à beira da estrada para secar mais rápido. Tudo se vende, tudo se troca na estrada. É impossível ficar-se aborrecido durante a viagem.  

Abastecidas de água, seguimos para a Roça Diogo Vaz.  


O verdadeiro preço do café e do cacau  

É impossível falar as roças de São Tomé sem falar do passado colonial e dos abusos à integriade e condição humana que ali se passaram. Uma história que teimamos em suavizar e relativizar de forma a evitar o desconforto de enfrentar uma realidade que no fundo todos sabemos ser verdade: não fomos os “bons” colonizadores. 

A beleza das roças, espalhadas por todo o arquipélago, pode mascarar as cicatrizes de dor e opressão infligidas àqueles que oficialmente eram os trabalhadores das roças, mas que na realidade eram escravos. Não me vou alongar muito sobre este assunto porque há outros que já o fizeram muito melhor do que eu, mas deixo aqui o link para um artigo do Público que ilustra a severidade das punições corporais, o terror psicológico e o sistema racista impenetrável que tornaram São Tomé, através da sua produção de cacau, na mais lucrativa colónia portuguesa no início do século XX. 

Em São Tomé, pareceu-me que o melhor lugar para aprender sobre a história do país, é a associação CACAU, que para além de servir uns belos almoços a um bom preço, também tem uma secção cultural e histórica muito interessante.  

De regresso ao cacau dos dias de hoje, este é plantado e processado recorrendo às mesmas técnicas de há cem anos atrás, mas sem sofrimento humano. Uma boa invenção, parece-me. 

Na Diogo Vaz, por 10€ podes fazer uma visita guiada, conhecer os diferentes estágios de crescimento do cacau e provar o fruto em si. Lá dentro, há uma goma branca que não é usada para fazer o chocolate, mas é muito saborosa. A semente, antes de seca, é completamente diferente do sabor do cacau que todos conhecemos. 

Ainda é possível visitar a fábrica, onde o cacau seca e é processado nas máquinas que ali estão há duzentos anos. No fim, ainda recebes um cafezinho e mais chocolate do que é possível comer. 


Túnel de Santa Catarina  

Cheias de chocolate, seguimos até ao ponto mais distante do dia, o famoso Túnel de Santa Catarina. Se tivesse sido escavado recentemente, diria que aquele túnel foi feito para o Instagram. Numa estrada de palmeiras com o mar ao lado, este túnel é o cenário perfeito para tirar fotografias!  


Mucumbli 

Quando começámos a viagem de regresso tive que fazer uma escolha. Ou íamos “à Santola” ou íamos ao Mucumbli. Apesar da minha alma ser mais tasca da santola, a descrição das vistas do Mucumbli seduziram-me e acho que foi a escolha certa. Estas cabaninhas de madeira e o seu restaurante têm uma das vistas mais bonitas e serenas da ilha. É simples: vê-se floresta e vê-se mar. E basta! A comida é decente, apesar de não ser barata (15/20€ por pessoa), mas vale a pena. Até podes passar para as espreguiçadeiras depois do almoço e descansar enquanto uma chuvada se abate sobre as palhotas. 


Lagoa Azul 

Nos intervalos da chuva, fomos até à Lagoa Azul que estava absolutamente vazia. Nadámos numa água choca até termos de nos abrigar do próximo aguaceiro. Mas a Lagoa Azul é bem mais bonita vista de cima do que de baixo, por isso agarra nuns ténis (confia em mim, de chinelos não vais fazer boa figura) e sobe até ao farol para a paisagem mais bonita do dia! 


Roça Agostinho Neto 

Esta foi a minha roça preferida. Não sei se pela luz incrível de pôr do sol (às quatro da tarde), pela beleza da sua arquitectura monumental, ou pelos sorrisos das miúdas espevitadas que viviam ali, só tenho boas memórias deste lugar.  

Algumas roças, como é o caso desta, são uma casa para a “comunidade”. Como aconteceu com muitas outras roças, a Roça Agostinho Neto, a maior de São Tomé, foi nacionalizada em 1975 e a partir dessa altura o governo permitiu que fossem habitadas pela população local. A parte menos boa deste arranjo é que as infraestruturas se vão degradando e ninguém as arranja.  

Se quiseres saber mais sobre vida passada e presente desta roça, lê este artigo.  

O dia de exploração do norte de São Tomé acabou no BBC, um bar e restaurante com uma vista linda sobre o pôr do sol na cidade. No dia seguinte, seguimos para sul! 


Dicas rápidas  

Museu do Mar e da Pesca Artesanal: Este museu estava fechado quando lá chegámos e penso que não está aberto todos os dias, mas se estiveres perto de Morro de Peixe podes sempre tentar passar por lá e ver se consegues visitar. Fala sobre a preservação da vida aquática em São Tomé, incluindo das suas tartarugas! 

Petisqueira Santola: A tal tasca que falhei, mas que fica como recomendação caso tenhas oportunidade. 

O Pirata: fui a este restaurante na minha última noite em São Tomé. Mesmo em cima do mar, podes contar com comida saborosa e um atendimento muito simpático. 

Viaja com Wodu: Como prometido, aqui fica o site e o Instagram da Catarina que organiza viagens em São Tomé. Toda a gente na ilha a conhece e a trata por “patroa” ou “mamã”.  

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De Sofá em Sofá pela Argélia #4: Timimoun https://www.mudancasconstantes.com/2023/08/11/argelia-viajar-timimoun/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=argelia-viajar-timimoun https://www.mudancasconstantes.com/2023/08/11/argelia-viajar-timimoun/#respond Fri, 11 Aug 2023 22:06:18 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9433 Timimoun. Demorei meses a atinar com este nome. A cidade vermelha representava o ponto mais a sul da nossa viagem, mas desenganem-se aqueles que pensam que este é o sul da Argélia. Para chegarmos ao “Sul Profundo” (Deep South) precisaríamos de percorrer mais 1500 quilómetros. Ficará para a próxima!   Oito horas depois de sairmos de Ghardaia, quando os nossos olhos já não conseguiam ver mais areia, lá estávamos nós em Timimoun. Chegar ali era sinónimo de vitória por nunca termos sido “apanhados” pela polícia nem escoltados. Também já não corríamos o risco de termos de voltar para trás e falhar o “sul”. Motivos mais que suficientes para celebrarmos!    Finalmente, uma mulher argelina!   Desta vez, para variar, não tínhamos um anfitrião, mas sim uma anfitriã! A Djoe era médica no único hospital de Timimoun – que serve uma área absolutamente descomunal – e a única especialista de otorrinolaringologia.   Tinha-a encontrado através do perfil de Couchsurfing do namorado dela, o Sid, que estava a tirar o doutoramento em Kuala Lumpur. Como parecíamos de confiança, fomos aprovados para ficar na casa dela, na aldeia dos médicos.   Quase todos os médicos vêm através de um programa de incentivo do governo para combater a falta de especialistas nas zonas mais remotas. Têm alojamento gratuito, contas pagas, recebem mais e trabalham 20 dias (com fins de semana) e tem 10 dias de férias a seguir. Creio que também lhes pagam algumas viagens até à cidade de onde são naturais. Não é um mau negócio!   A Djoe recebeu-nos com um grande sorriso e a falar francês. Entretanto concluímos que o inglês dela era muito melhor que o meu francês e a partir daí foi uma festa! Nunca pensei que íamos acabar a ver o pôr-do-sol no meio do deserto, com chá feito numa fogueira improvisada e a ouvir bossa nova, que ela adorava. Os argelinos não paravam de nos surpreender.   Vamos fazer um picnic noturno nas dunas!   Quase nos começámos a rir quando recebemos este convite. Claro que havia um plano aleatório preparado para a nossa chegada! Mas antes do tal picnic, íamos aproveitar a luz do dia que nos restava e passear pelo centro de Timimoun, que nos recebeu com as suas ruas semi desertas de uma sexta-feira à tarde (dia sagrado para os muçulmanos).   O nome “cidade vermelha” não foi dado ao acaso. Todos os edifícios vestem esta cor. À semelhança de Ghardaia, tudo é construído com materiais da terra, mas num formato mais tosco. Um dos problemas da região é tentar manter as aldeias históricas de pé, por que as estruturas requerem muita manutenção. Espero que consigam, este é um lugar único.  Ainda aprendemos sobre um sistema de irrigação milenar: as foggaras. Esta era uma forma de distribuição de água por diferentes terrenos agrícolas e, independentemente da classe social, todos recebiam a mesma quantidade de água.   A nossa tarde acabou no lugar com o pôr-do-sol mais épico de Timimoun, o Hotel Gourara. Este hotel, construído de forma a celebrar a arquitectura da região, é aberto ao público e o lugar perfeito para observar o sol a esconder-se entre as dunas.   E foi nessa direcção que nos lançámos para o nosso picnic. A Djoe já tinha planeado e cozinhado tudo, incluindo uma tagine de azeitonas, pão de milho, batatas fritas, salada e sabe-se lá mais o quê. Enquanto admirávamos as estrelas num céu limpo e livre de poluição luminosa, devorámos a deliciosa refeição da nossa anfitriã. Não podíamos ter pedido mais!  Estamos em África!   A Argélia é o maior país do continente africano e isso reflecte-se na diversidade dos seus povos. Aqui, as cores e os traços misturam-se e pela primeira vez sentimos que estávamos mesmo em África, à porta da casa dos Tuareg. Um dos lugares onde isso é mais visível, é nos mercados de sábado.  O mercado coberto tem banquinhas que vendem um pouco de tudo. Há remédios feitos de veneno de escorpião, maquilhagem, amendoins e tâmaras. Já no mercado ao ar livre podemos encontrar comerciantes do Niger, Mali, Líbia, Chad entre outros países da região. Vende-se roupa, brinquedos, tecnologia, frutas e legumes. Aqui as mulheres estão por todo o lado! Há azáfama, regateiam-se preços e encontrámos uma atmosfera mais descontraída do que o que tínhamos experienciado em Ghardaia.   Depois do mercado ainda visitámos algumas aldeias meio abandonadas. As casas que já estão demasiado danificadas para habitação transformam-se em estábulos. O ar degradado confere-lhes um certo charme e carisma.   O último lugar que posso recomendar no centro de Timimoun é este restaurante. Perto dos correios e da padaria, comemos um estufado de camelo com um couscous inacreditável. O couscous de Timimoun é especial, é feito à mão. Eu nem sabia que se podia fazer couscous à mão! A refeição para os três custou-nos 4.5€. Uma das coisas que já tínhamos reparado era que nós comíamos sempre mais do que os argelinos que estavam connosco. Claramente estamos habituados a uma quantidade de comida, particularmente de proteína, acima do normal na Argélia.   Maravilhas abandonadas nos arredores de Timimoun   Para nosso deleite, a Djoe tinha pedido ao marido de uma senhora que trabalha no hospital para nos ir mostrar os lugares mais interessantes nos arredores da cidade.   A primeira paragem foi o Ksar de Ighzer. Ksar é sinónimo de vila ou aldeia fortificada. Por serem feitos de argila e estarem ao abandono, este tipo de estrutura parece que está a derreter. Mesmo assim, é impressionante pensar que ali viviam várias famílias, havia uma mesquita e comércio.   Os ksars existem um pouco por toda esta região. São todos bastante semelhantes e um testemunho efémero da realidade de viver numa das zonas mais remotas e agressivas do nosso planeta.   Passámos por mais alguns lugares, cujo nome desconheço, com vistas lindas sobre o deserto e os seus oásis. Antes de nos dedicarmos à difícil tarefa de bebericar chá a ver o pôr-do-sol, parámos em Taguelzi, e entrámos nas ruínas da sua fortaleza. Do topo, observámos aldeias esquecidas de onde de vez em quando vinha um longo “muuuuuu” ou “bhaaaaa”. Os seus moradores originais trocaram a arquitectura da terra pelo conforto das construções modernas e as suas antigas casas passaram a ser o lugar onde guardam o gado. Pergunto-me se daqui a cinco ou dez anos, alguma destas estruturas ainda estará de pé.   Chá de menta, vizinhas inesperadas e conversas de mulheres   Moídos depois de um dia activo debaixo de um sol escaldante, parámos para um lanche e chá com vista para as dunas. Recolhendo a pouca madeira que havia, o nosso guia não oficial acendeu um fogo que teimava em pegar.   Enfiando cerca de um quilo de açúcar dentro do bule e umas folhas de menta, o chá lá se fez enquanto a Djoe nos mostrava as suas músicas brasileiras preferidas. Pode ter sido a primeira vez que Gilberto Gil ecoou no deserto argelino.   Mas não nos podíamos distrair. Tínhamos um jantar para cozinhar em casa!   Munidas de beringelas do jardim e de um panelão de farro, a Djoe e a sua amiga cozinharam-nos uma refeição deliciosa. Uma das coisas que mais gosto de cozinhar na casa das outras pessoas, é que para além de aprender receitas, há uma certa cumplicidade que se gera enquanto se picam cebolas e se descascam batatas.   Ali, sem homens por perto, pudemos conversar sobre a condição das mulheres na sociedade argelina. A maior angústia pareceu-me ser a falta de controlo sobre decisões que não deveriam pertencer a mais ninguém. Com quem namorar, com quem viver, com quem dormir… isto vindo de uma pessoa com uma família moderna (para os padrões argelinos), do norte do país, que viaja, etc.   Não existe raiva ou menosprezo pelo lado mais conservador do país nem pelas pessoas que querem viver dentro destes moldes. Existe apenas uma vontade de se ser livre de escolher.   O jantar foi servido no pátio e enquanto nos lamentávamos por esta ser a nossa última refeição juntos, ouvimos alguém a bater na porta. Era a vizinha com o maior prato de couscous que alguma vez vi na vida. E que belo couscous que era!  Na Argélia, quando alguém traz uma prenda ou comida, o saco onde essa oferta veio tem de ser devolvido com algo lá dentro. Nesse dia a vizinha ganhou uns vegetais do quintal. A Djoe, por ser médica, também vai recebendo algumas prendas, incluindo coentros, ovos e até galinhas.   Nessa noite conversámos pela noite dentro sobre socialismo, colonialismo, direitos humanos e muito mais. A nossa anfitriã era uma mulher inspiradora, cheia de garra, intelectual, de pensamento livre, altruísta e com uma grande vontade de melhorar o seu país. Foi uma honra conhecê-la.   Dicas e informações rápidas:   Tours no deserto: Se não tiveres um senhor fofinho para te levar a conhecer as várias pérolas à volta de Timimoun como nós, podes contactar alguns hotéis em Timimoun e tentar organizar um tour. Esse era o meu plano original e contactei vários através do Facebook e email. Eles não são muito rápidos a responder, por isso tentaria planear com cerca de duas semanas de antecedência.   Ksar de Draa: Só soube que este lugar existia uns dias depois, por isso não tive oportunidade de o visitar. Contudo parece-me ser um dos lugares mais curiosos da Argélia e como tal, fica aqui a minha recomendação. Suponho que os mesmos hotéis ofereçam uma tour até lá, simplesmente terás que pagar um pouco mais por que é preciso um jipe.   Centre algerien du patrimoine culturel bati en terre: Antes de sairmos em direção a Taghit ainda visitámos este centro cultural. É imperdível. Um exemplo fantástico da arquitetura da região e um lugar que tenta preservar esta forma de arte.   Conduzir até Timimoun: Conseguimos fazer a viagem toda sem nunca sermos parados num check point da polícia. Havia uma pequena possibilidade de não nos deixarem seguir para sul ou de termos de ser escoltados se fossemos “apanhados”. Felizmente não aconteceu, mas vale a pena estar preparado e ter o contacto do hotel ou host à mão caso seja necessário. Pelo que percebi, os turistas só podem ir nos autocarros diurnos de Timimoun até Ghardaia e vice-versa.

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Timimoun. Demorei meses a atinar com este nome. A cidade vermelha representava o ponto mais a sul da nossa viagem, mas desenganem-se aqueles que pensam que este é o sul da Argélia. Para chegarmos ao “Sul Profundo” (Deep South) precisaríamos de percorrer mais 1500 quilómetros. Ficará para a próxima!  

Oito horas depois de sairmos de Ghardaia, quando os nossos olhos já não conseguiam ver mais areia, lá estávamos nós em Timimoun. Chegar ali era sinónimo de vitória por nunca termos sido “apanhados” pela polícia nem escoltados. Também já não corríamos o risco de termos de voltar para trás e falhar o “sul”. Motivos mais que suficientes para celebrarmos!

  

Finalmente, uma mulher argelina!  

Desta vez, para variar, não tínhamos um anfitrião, mas sim uma anfitriã! A Djoe era médica no único hospital de Timimoun – que serve uma área absolutamente descomunal – e a única especialista de otorrinolaringologia.  

Tinha-a encontrado através do perfil de Couchsurfing do namorado dela, o Sid, que estava a tirar o doutoramento em Kuala Lumpur. Como parecíamos de confiança, fomos aprovados para ficar na casa dela, na aldeia dos médicos.  


Quase todos os médicos vêm através de um programa de incentivo do governo para combater a falta de especialistas nas zonas mais remotas. Têm alojamento gratuito, contas pagas, recebem mais e trabalham 20 dias (com fins de semana) e tem 10 dias de férias a seguir. Creio que também lhes pagam algumas viagens até à cidade de onde são naturais. Não é um mau negócio!  

A Djoe recebeu-nos com um grande sorriso e a falar francês. Entretanto concluímos que o inglês dela era muito melhor que o meu francês e a partir daí foi uma festa! Nunca pensei que íamos acabar a ver o pôr-do-sol no meio do deserto, com chá feito numa fogueira improvisada e a ouvir bossa nova, que ela adorava. Os argelinos não paravam de nos surpreender.  


Vamos fazer um picnic noturno nas dunas!  

Quase nos começámos a rir quando recebemos este convite. Claro que havia um plano aleatório preparado para a nossa chegada! Mas antes do tal picnic, íamos aproveitar a luz do dia que nos restava e passear pelo centro de Timimoun, que nos recebeu com as suas ruas semi desertas de uma sexta-feira à tarde (dia sagrado para os muçulmanos).  

O nome “cidade vermelha” não foi dado ao acaso. Todos os edifícios vestem esta cor. À semelhança de Ghardaia, tudo é construído com materiais da terra, mas num formato mais tosco. Um dos problemas da região é tentar manter as aldeias históricas de pé, por que as estruturas requerem muita manutenção. Espero que consigam, este é um lugar único. 


Ainda aprendemos sobre um sistema de irrigação milenar: as foggaras. Esta era uma forma de distribuição de água por diferentes terrenos agrícolas e, independentemente da classe social, todos recebiam a mesma quantidade de água.  


A nossa tarde acabou no lugar com o pôr-do-sol mais épico de Timimoun, o Hotel Gourara. Este hotel, construído de forma a celebrar a arquitectura da região, é aberto ao público e o lugar perfeito para observar o sol a esconder-se entre as dunas.  


E foi nessa direcção que nos lançámos para o nosso picnic. A Djoe já tinha planeado e cozinhado tudo, incluindo uma tagine de azeitonas, pão de milho, batatas fritas, salada e sabe-se lá mais o quê. Enquanto admirávamos as estrelas num céu limpo e livre de poluição luminosa, devorámos a deliciosa refeição da nossa anfitriã. Não podíamos ter pedido mais! 

Estamos em África!  

A Argélia é o maior país do continente africano e isso reflecte-se na diversidade dos seus povos. Aqui, as cores e os traços misturam-se e pela primeira vez sentimos que estávamos mesmo em África, à porta da casa dos Tuareg. Um dos lugares onde isso é mais visível, é nos mercados de sábado. 

O mercado coberto tem banquinhas que vendem um pouco de tudo. Há remédios feitos de veneno de escorpião, maquilhagem, amendoins e tâmaras. Já no mercado ao ar livre podemos encontrar comerciantes do Niger, Mali, Líbia, Chad entre outros países da região. Vende-se roupa, brinquedos, tecnologia, frutas e legumes. Aqui as mulheres estão por todo o lado! Há azáfama, regateiam-se preços e encontrámos uma atmosfera mais descontraída do que o que tínhamos experienciado em Ghardaia.  

Depois do mercado ainda visitámos algumas aldeias meio abandonadas. As casas que já estão demasiado danificadas para habitação transformam-se em estábulos. O ar degradado confere-lhes um certo charme e carisma.  


O último lugar que posso recomendar no centro de Timimoun é este restaurante. Perto dos correios e da padaria, comemos um estufado de camelo com um couscous inacreditável. O couscous de Timimoun é especial, é feito à mão. Eu nem sabia que se podia fazer couscous à mão! A refeição para os três custou-nos 4.5€. Uma das coisas que já tínhamos reparado era que nós comíamos sempre mais do que os argelinos que estavam connosco. Claramente estamos habituados a uma quantidade de comida, particularmente de proteína, acima do normal na Argélia.  

Maravilhas abandonadas nos arredores de Timimoun  

Para nosso deleite, a Djoe tinha pedido ao marido de uma senhora que trabalha no hospital para nos ir mostrar os lugares mais interessantes nos arredores da cidade.  

A primeira paragem foi o Ksar de Ighzer. Ksar é sinónimo de vila ou aldeia fortificada. Por serem feitos de argila e estarem ao abandono, este tipo de estrutura parece que está a derreter. Mesmo assim, é impressionante pensar que ali viviam várias famílias, havia uma mesquita e comércio.  


Os ksars existem um pouco por toda esta região. São todos bastante semelhantes e um testemunho efémero da realidade de viver numa das zonas mais remotas e agressivas do nosso planeta.  

Passámos por mais alguns lugares, cujo nome desconheço, com vistas lindas sobre o deserto e os seus oásis. Antes de nos dedicarmos à difícil tarefa de bebericar chá a ver o pôr-do-sol, parámos em Taguelzi, e entrámos nas ruínas da sua fortaleza. Do topo, observámos aldeias esquecidas de onde de vez em quando vinha um longo “muuuuuu” ou “bhaaaaa”. Os seus moradores originais trocaram a arquitectura da terra pelo conforto das construções modernas e as suas antigas casas passaram a ser o lugar onde guardam o gado. Pergunto-me se daqui a cinco ou dez anos, alguma destas estruturas ainda estará de pé.  


Chá de menta, vizinhas inesperadas e conversas de mulheres  

Moídos depois de um dia activo debaixo de um sol escaldante, parámos para um lanche e chá com vista para as dunas. Recolhendo a pouca madeira que havia, o nosso guia não oficial acendeu um fogo que teimava em pegar.  

Enfiando cerca de um quilo de açúcar dentro do bule e umas folhas de menta, o chá lá se fez enquanto a Djoe nos mostrava as suas músicas brasileiras preferidas. Pode ter sido a primeira vez que Gilberto Gil ecoou no deserto argelino.  

Mas não nos podíamos distrair. Tínhamos um jantar para cozinhar em casa!  

Munidas de beringelas do jardim e de um panelão de farro, a Djoe e a sua amiga cozinharam-nos uma refeição deliciosa. Uma das coisas que mais gosto de cozinhar na casa das outras pessoas, é que para além de aprender receitas, há uma certa cumplicidade que se gera enquanto se picam cebolas e se descascam batatas.  

Ali, sem homens por perto, pudemos conversar sobre a condição das mulheres na sociedade argelina. A maior angústia pareceu-me ser a falta de controlo sobre decisões que não deveriam pertencer a mais ninguém. Com quem namorar, com quem viver, com quem dormir… isto vindo de uma pessoa com uma família moderna (para os padrões argelinos), do norte do país, que viaja, etc.  

Não existe raiva ou menosprezo pelo lado mais conservador do país nem pelas pessoas que querem viver dentro destes moldes. Existe apenas uma vontade de se ser livre de escolher.  

O jantar foi servido no pátio e enquanto nos lamentávamos por esta ser a nossa última refeição juntos, ouvimos alguém a bater na porta. Era a vizinha com o maior prato de couscous que alguma vez vi na vida. E que belo couscous que era! 

Na Argélia, quando alguém traz uma prenda ou comida, o saco onde essa oferta veio tem de ser devolvido com algo lá dentro. Nesse dia a vizinha ganhou uns vegetais do quintal. A Djoe, por ser médica, também vai recebendo algumas prendas, incluindo coentros, ovos e até galinhas.  

Nessa noite conversámos pela noite dentro sobre socialismo, colonialismo, direitos humanos e muito mais. A nossa anfitriã era uma mulher inspiradora, cheia de garra, intelectual, de pensamento livre, altruísta e com uma grande vontade de melhorar o seu país. Foi uma honra conhecê-la.  

Dicas e informações rápidas:  

Tours no deserto: Se não tiveres um senhor fofinho para te levar a conhecer as várias pérolas à volta de Timimoun como nós, podes contactar alguns hotéis em Timimoun e tentar organizar um tour. Esse era o meu plano original e contactei vários através do Facebook e email. Eles não são muito rápidos a responder, por isso tentaria planear com cerca de duas semanas de antecedência.  

Ksar de Draa: Só soube que este lugar existia uns dias depois, por isso não tive oportunidade de o visitar. Contudo parece-me ser um dos lugares mais curiosos da Argélia e como tal, fica aqui a minha recomendação. Suponho que os mesmos hotéis ofereçam uma tour até lá, simplesmente terás que pagar um pouco mais por que é preciso um jipe.  

Centre algerien du patrimoine culturel bati en terre: Antes de sairmos em direção a Taghit ainda visitámos este centro cultural. É imperdível. Um exemplo fantástico da arquitetura da região e um lugar que tenta preservar esta forma de arte.  

Conduzir até Timimoun: Conseguimos fazer a viagem toda sem nunca sermos parados num check point da polícia. Havia uma pequena possibilidade de não nos deixarem seguir para sul ou de termos de ser escoltados se fossemos “apanhados”. Felizmente não aconteceu, mas vale a pena estar preparado e ter o contacto do hotel ou host à mão caso seja necessário. Pelo que percebi, os turistas só podem ir nos autocarros diurnos de Timimoun até Ghardaia e vice-versa.

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De Sofá em Sofá pela Argélia #3: Ghardaia e o Vale do M’zabe https://www.mudancasconstantes.com/2023/08/03/visitar-ghardaia-argelia/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=visitar-ghardaia-argelia https://www.mudancasconstantes.com/2023/08/03/visitar-ghardaia-argelia/#respond Thu, 03 Aug 2023 19:39:09 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9379 Tínhamos pela frente a jornada mais longa até então: íamos para Ghardaia. Não é de admirar termos de percorrer tantos quilómetros (500 a partir de Biskra) para alcançar este conjunto de vilarejos perdidos no Vale do M’zab. Quando lá chegamos apercebemo-nos que não viajámos apenas no espaço, mas também no tempo. Não posso dizer que as estradas argelinas sejam particularmente interessantes. Afinal, estávamos a atravessar o deserto! Há sinais de “perigo de camelo”, areia, pó e claro, os ocasionais camelos. Antes de entrarmos por uma estrada onde não havia nem uma amostra de civilização, parámos para arranjar almoço. Éramos claramente o maior acontecimento do mês em Djamaa. Para ver se atraía menos olhares de espanto embrulhei-me num lenço – acho que a minha falta de jeito só fez pior – e entrámos num restaurante de fast food. Entre francês, inglês e gestos lá nos fizemos entender e conseguimos uns wraps de frango. O rapaz que nos atendeu incluiu duas Coca-Cola grátis no saco, enquanto nos indicava com um grande sorriso, que era oferta.  Apesar de nenhum de nós gostar de Coca-Cola, o gesto aqueceu-me o coração! “Isto é hospitalidade M’zabite” O nosso anfitrião em Ghardaia tinha caído do céu. Atendendo ao meu pedido público no Couchsurfing, o Baelhadj ofereceu-se para nos hospedar. As reviews dele era tão incríveis que pensei que teríamos que lhe pagar algo por tanta amabilidade e generosidade. Afinal não, era tudo “hospitalidade M’zabite”. Para clarificar o que quero dizer por amabilidade e generosidade: Foram dois dias maravilhosos onde aprendemos muito sobre a cultura M’zabite. Isto tudo aliado à beleza destas aldeias que preservam as suas tradições e cultura como poucos lugares no mundo – para o bom e para o menos bom – tornaram este pedaço de viagem num dos mais interessantes. Para não me alongar numa descrição detalhada sobre cada momento, vou partilhar os meus lugares e interações preferidas! Beni Isgen: fundamentalismo, regras e comunidade Creio que já não existam muitos lugares no mundo como Beni Isguen. A mais pitoresca das cinco aldeias históricas do M’zab foi o nosso cartão de visita para a região. Com o sol já baixo, as cores quentes que caracterizam a arquitectura M’zabite tornavam-se ainda mais intensas. À entrada somos logo lembrados que ali há regras. Não se fotografam pessoas. Não se entra com roupas reveladoras. Não se entra sem guia. Nós tivemos a sorte de estarmos com duas pessoas locais e como já era tarde, escapámo-nos ao guia oficial e seguimos pelas ruas que permanecem iguais ao que eram há mil anos atrás. Aqui aprendemos que todas as vilas do M’zab seguem a mesma estrutura. Situadas numa colina e rodeadas por uma muralha, na parte mais baixa há um mercado, e a partir daí fluem ruas estreitas onde habitam os comerciantes e agricultores locais. Fora das muralhas ficam os cemitérios. As casas são construídas com materiais da região, como argila, sendo feitas para se adaptarem à amplitude térmica do deserto e às suas tempestades de areia. Todas as ruas vão dar à mesquita, que se situa no topo das aldeias. O minarete da mesquita, para além de chamar os fiéis para as cinco rezas diárias, também funciona como torre de controlo e costumava ser uma forma de comunicar com as outras aldeias. Para terminar a nossa visita o nosso host e o seu amigo Kacem levaram-nos até a um miradouro onde conseguimos ver o mar de palmeiras que caracteriza o oásis deste vale.  Os últimos raios de sol eram sinónimo que estava na hora de sair de Beni Esguin. Apenas os seus moradores podem ali pernoitar, não existem hotéis nem alojamento local para pessoas que não fazem parte da comunidade. Já na “nossa” casa, o jantar foi servido. Uma travessa de frango assado, arroz, batatas e salada de onde todos comemos enquanto partilhávamos ideias, histórias e culturas. Ghardaia: arquitectura islâmica sustentável Sinto que posso ter inventado um conceito ao combinar as três palavras que mencionei neste título, mas a verdade é que aprendemos tanto sobre arquitectura na nossa visita ao centro histórico de Ghardaia e como ela define a vida no M’zab, que acho que faz todo o sentido. O nome Ghardaia normalmente engloba todas as vilas e aldeias ali à volta. Ao contrário de Beni Isguen, Ghardaia já não é apenas um lugar histórico, intocado. Por fora das suas muralhas surgem casas modernas, escolas, mesquitas e hospitais. Algumas mulheres nem usam véus.  Mas passando as portas da fortaleza, lá estávamos nós outra vez, na casa dos Ibadis. O Ibadismo é um ramo do Islão, tal como o sunita e o xiita. Desta vez, mesmo estando com dois locais, tivemos de ser acompanhados por um guia. Estes guias obrigatórios trabalham para o gabinete turístico de cada aldeia. Os seus serviços são gratuitos, mas no fim podes deixar sempre uma gorjeta.  A coisa boa é que como eles nasceram e cresceram naquele meio, poderão responder a todas as tuas perguntas sobre o estilo de vida dos Ibadis.  Dentro de Ghardaia aprendemos que as casas são feitas seguindo os princípios do Ibadismo. Todas as casas parecem iguais, independentemente da classe social de quem as habita. As portas são desencontradas para permitir dar privacidade a cada família. Cada casa tem um pátio e uma estrutura bastante simples. Há entradas diferentes para homens e mulheres.  A argila é usada como isolamento térmico. No verão mantém as casas frescas, no inverno mantém as casas quentes. Os troncos das palmeiras também são usados com frequência. Aqui há um grande respeito pela terra e pelos seus recursos. Tudo é feito de uma forma sustentável e as aldeias do M’zab tornaram-se uma inspiração para vários arquitectos internacionais incluindo Le Corbusier.  Os Ibadis vivem a sua vida em comunidade. Existe um conselho de pessoas que decidem as questões comerciais, judiciais e, em geral, governamentais. Apenas os casos mais graves chegam aos tribunais argelinos.  Depois de termos absorvido toda esta informação, voltámos para o nosso oásis onde nos foi servida mais uma refeição inesquecível, cozinhada pelas mãos da mulher do Baelhadj: “pizza argelina”, também conhecida como Mahjouba.  Durante as horas mais quentes, os nossos anfitriões deixaram-nos para uma sesta à sombra. Os planos para a tarde eram ainda uma incógnita.  Jardin du Monde e uma figueira para a eternidade “Vamos plantar uma árvore!”. Não sabíamos bem se isto era uma expressão argelina, uma metáfora ou se íamos literalmente plantar uma árvore. Claro que era a terceira hipótese.  Munidos de uma pequena árvore, caminhámos até um oásis dentro do oásis. Ali, no meio do Vale do M’zab, começava a nascer uma empreitada que se desdobra em mil e um projectos.  Um centro equestre onde se faz terapia com crianças autistas. Uma guesthouse construída com o preceito da tradição e materiais sustentáveis. Um jardim com árvores e plantas de todo mundo, algumas delas plantadas pelas mãos de viajantes. Uma infinity pool com vista para um mar de palmeiras. Um lugar de paz, reflexão e comunidade.   O dono do projecto (não me lembro do nome dele), mostrou-nos cada cantinho com muito orgulho e carinho e no fim escavámos um buraco para plantar a nossa pequena árvore. Pode ser que lá voltemos um dia para ver como a nossa menina cresceu!  O pôr do sol na colina mais próxima e a vista incrível a partir do minarete local foram a cereja no topo do bolo para terminar os nossos dias em Ghardaia.  Nessa noite ainda fomos convidados para ir jantar a casa de um amigo do nosso anfitrião com quem nos tínhamos cruzado mais cedo. Comemos pratos deliciosos preparados pela mãe dele e travámos amizade com o seu papagaio falante.  Fomos até Ghardaia sem planos, não fazendo ideia do que nos esperava. Descobrimos um lugar fascinante, com uma cultura vibrante e pessoas de uma gentileza e generosidade além de tudo o que já experienciei. Obrigada!  As mulheres do M’zab Não podia terminar este post sem falar das mulheres do Vale do M’zab. É difícil exprimir os meus sentimentos relativamente a este tema, uma vez que nem tenho bem a certeza daquilo que sinto.  Parece que as mulheres são invisíveis e têm de ser invisíveis no Ibadismo. Cobrem-se com longas vestes brancas e mostram os dois olhos se forem solteiras ou apenas um olho se forem casadas.  Grande parte da sua existência é passada dentro de casa. Raramente vão ao mercado, esta é uma das muitas tarefas reservadas para os homens.  As casas estão ligadas entre si através dos telhados para que as mulheres se possam movimentar e visitar umas às outras sem passar pela rua. Todas as refeições que comemos foram preparadas por mulheres, mas nós nunca as conhecemos. Nem fotografias vimos, porque a partir da adolescência deixam de tirar fotografias.  Aos nossos olhos isto é absolutamente sufocante. Ali faz parte de uma identidade comunitária, de uma religião, de uma cultura.  Uma das maiores razões que me leva a estes lugares é tentar compreender, tentar aprender. Às vezes não sei se consigo.

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Tínhamos pela frente a jornada mais longa até então: íamos para Ghardaia. Não é de admirar termos de percorrer tantos quilómetros (500 a partir de Biskra) para alcançar este conjunto de vilarejos perdidos no Vale do M’zab. Quando lá chegamos apercebemo-nos que não viajámos apenas no espaço, mas também no tempo.

Não posso dizer que as estradas argelinas sejam particularmente interessantes. Afinal, estávamos a atravessar o deserto! Há sinais de “perigo de camelo”, areia, pó e claro, os ocasionais camelos.


Antes de entrarmos por uma estrada onde não havia nem uma amostra de civilização, parámos para arranjar almoço. Éramos claramente o maior acontecimento do mês em Djamaa. Para ver se atraía menos olhares de espanto embrulhei-me num lenço – acho que a minha falta de jeito só fez pior – e entrámos num restaurante de fast food. Entre francês, inglês e gestos lá nos fizemos entender e conseguimos uns wraps de frango. O rapaz que nos atendeu incluiu duas Coca-Cola grátis no saco, enquanto nos indicava com um grande sorriso, que era oferta. 

Apesar de nenhum de nós gostar de Coca-Cola, o gesto aqueceu-me o coração!

“Isto é hospitalidade M’zabite”

O nosso anfitrião em Ghardaia tinha caído do céu. Atendendo ao meu pedido público no Couchsurfing, o Baelhadj ofereceu-se para nos hospedar. As reviews dele era tão incríveis que pensei que teríamos que lhe pagar algo por tanta amabilidade e generosidade. Afinal não, era tudo “hospitalidade M’zabite”.

Para clarificar o que quero dizer por amabilidade e generosidade:

  • Ficámos na casa de fim de semana do nosso anfitrião. Tínhamos a casa toda para nós. Um paraíso no meio do Vale do M’zabe.
  • Não pagámos uma única refeição. A mulher do Baelhadj preparou várias refeições deliciosas para nós.
  • Tivémos direito a visitas guiadas com os amigos dele, que ele convida por não conseguir comunicar muito bem em inglês.
  • Convivemos com vários donos de negócios locais que estão a desenvolver a região
  • Conhecemos o arquitecto da mais recente aldeia do M’zab


Foram dois dias maravilhosos onde aprendemos muito sobre a cultura M’zabite. Isto tudo aliado à beleza destas aldeias que preservam as suas tradições e cultura como poucos lugares no mundo – para o bom e para o menos bom – tornaram este pedaço de viagem num dos mais interessantes.

Para não me alongar numa descrição detalhada sobre cada momento, vou partilhar os meus lugares e interações preferidas!

Beni Isgen: fundamentalismo, regras e comunidade

Creio que já não existam muitos lugares no mundo como Beni Isguen. A mais pitoresca das cinco aldeias históricas do M’zab foi o nosso cartão de visita para a região. Com o sol já baixo, as cores quentes que caracterizam a arquitectura M’zabite tornavam-se ainda mais intensas.


À entrada somos logo lembrados que ali há regras. Não se fotografam pessoas. Não se entra com roupas reveladoras. Não se entra sem guia.

Nós tivemos a sorte de estarmos com duas pessoas locais e como já era tarde, escapámo-nos ao guia oficial e seguimos pelas ruas que permanecem iguais ao que eram há mil anos atrás.

Aqui aprendemos que todas as vilas do M’zab seguem a mesma estrutura. Situadas numa colina e rodeadas por uma muralha, na parte mais baixa há um mercado, e a partir daí fluem ruas estreitas onde habitam os comerciantes e agricultores locais. Fora das muralhas ficam os cemitérios.


As casas são construídas com materiais da região, como argila, sendo feitas para se adaptarem à amplitude térmica do deserto e às suas tempestades de areia.

Todas as ruas vão dar à mesquita, que se situa no topo das aldeias. O minarete da mesquita, para além de chamar os fiéis para as cinco rezas diárias, também funciona como torre de controlo e costumava ser uma forma de comunicar com as outras aldeias.

Para terminar a nossa visita o nosso host e o seu amigo Kacem levaram-nos até a um miradouro onde conseguimos ver o mar de palmeiras que caracteriza o oásis deste vale. 


Os últimos raios de sol eram sinónimo que estava na hora de sair de Beni Esguin. Apenas os seus moradores podem ali pernoitar, não existem hotéis nem alojamento local para pessoas que não fazem parte da comunidade.

Já na “nossa” casa, o jantar foi servido. Uma travessa de frango assado, arroz, batatas e salada de onde todos comemos enquanto partilhávamos ideias, histórias e culturas.


Ghardaia: arquitectura islâmica sustentável

Sinto que posso ter inventado um conceito ao combinar as três palavras que mencionei neste título, mas a verdade é que aprendemos tanto sobre arquitectura na nossa visita ao centro histórico de Ghardaia e como ela define a vida no M’zab, que acho que faz todo o sentido.

O nome Ghardaia normalmente engloba todas as vilas e aldeias ali à volta. Ao contrário de Beni Isguen, Ghardaia já não é apenas um lugar histórico, intocado. Por fora das suas muralhas surgem casas modernas, escolas, mesquitas e hospitais. Algumas mulheres nem usam véus. 

Mas passando as portas da fortaleza, lá estávamos nós outra vez, na casa dos Ibadis. O Ibadismo é um ramo do Islão, tal como o sunita e o xiita. Desta vez, mesmo estando com dois locais, tivemos de ser acompanhados por um guia. Estes guias obrigatórios trabalham para o gabinete turístico de cada aldeia. Os seus serviços são gratuitos, mas no fim podes deixar sempre uma gorjeta. 


A coisa boa é que como eles nasceram e cresceram naquele meio, poderão responder a todas as tuas perguntas sobre o estilo de vida dos Ibadis

Dentro de Ghardaia aprendemos que as casas são feitas seguindo os princípios do Ibadismo. Todas as casas parecem iguais, independentemente da classe social de quem as habita. As portas são desencontradas para permitir dar privacidade a cada família. Cada casa tem um pátio e uma estrutura bastante simples. Há entradas diferentes para homens e mulheres. 

A argila é usada como isolamento térmico. No verão mantém as casas frescas, no inverno mantém as casas quentes. Os troncos das palmeiras também são usados com frequência. Aqui há um grande respeito pela terra e pelos seus recursos. Tudo é feito de uma forma sustentável e as aldeias do M’zab tornaram-se uma inspiração para vários arquitectos internacionais incluindo Le Corbusier. 


Os Ibadis vivem a sua vida em comunidade. Existe um conselho de pessoas que decidem as questões comerciais, judiciais e, em geral, governamentais. Apenas os casos mais graves chegam aos tribunais argelinos. 

Depois de termos absorvido toda esta informação, voltámos para o nosso oásis onde nos foi servida mais uma refeição inesquecível, cozinhada pelas mãos da mulher do Baelhadj: “pizza argelina”, também conhecida como Mahjouba


Durante as horas mais quentes, os nossos anfitriões deixaram-nos para uma sesta à sombra. Os planos para a tarde eram ainda uma incógnita. 

Jardin du Monde e uma figueira para a eternidade

“Vamos plantar uma árvore!”. Não sabíamos bem se isto era uma expressão argelina, uma metáfora ou se íamos literalmente plantar uma árvore. Claro que era a terceira hipótese. 

Munidos de uma pequena árvore, caminhámos até um oásis dentro do oásis. Ali, no meio do Vale do M’zab, começava a nascer uma empreitada que se desdobra em mil e um projectos. 

Um centro equestre onde se faz terapia com crianças autistas. Uma guesthouse construída com o preceito da tradição e materiais sustentáveis. Um jardim com árvores e plantas de todo mundo, algumas delas plantadas pelas mãos de viajantes. Uma infinity pool com vista para um mar de palmeiras. Um lugar de paz, reflexão e comunidade.  

O dono do projecto (não me lembro do nome dele), mostrou-nos cada cantinho com muito orgulho e carinho e no fim escavámos um buraco para plantar a nossa pequena árvore. Pode ser que lá voltemos um dia para ver como a nossa menina cresceu! 

O pôr do sol na colina mais próxima e a vista incrível a partir do minarete local foram a cereja no topo do bolo para terminar os nossos dias em Ghardaia. 


Nessa noite ainda fomos convidados para ir jantar a casa de um amigo do nosso anfitrião com quem nos tínhamos cruzado mais cedo. Comemos pratos deliciosos preparados pela mãe dele e travámos amizade com o seu papagaio falante. 

Fomos até Ghardaia sem planos, não fazendo ideia do que nos esperava. Descobrimos um lugar fascinante, com uma cultura vibrante e pessoas de uma gentileza e generosidade além de tudo o que já experienciei. Obrigada! 


As mulheres do M’zab

Não podia terminar este post sem falar das mulheres do Vale do M’zab. É difícil exprimir os meus sentimentos relativamente a este tema, uma vez que nem tenho bem a certeza daquilo que sinto. 

Parece que as mulheres são invisíveis e têm de ser invisíveis no Ibadismo. Cobrem-se com longas vestes brancas e mostram os dois olhos se forem solteiras ou apenas um olho se forem casadas. 

Grande parte da sua existência é passada dentro de casa. Raramente vão ao mercado, esta é uma das muitas tarefas reservadas para os homens. 

As casas estão ligadas entre si através dos telhados para que as mulheres se possam movimentar e visitar umas às outras sem passar pela rua. Todas as refeições que comemos foram preparadas por mulheres, mas nós nunca as conhecemos. Nem fotografias vimos, porque a partir da adolescência deixam de tirar fotografias. 

Aos nossos olhos isto é absolutamente sufocante. Ali faz parte de uma identidade comunitária, de uma religião, de uma cultura. 

Uma das maiores razões que me leva a estes lugares é tentar compreender, tentar aprender. Às vezes não sei se consigo.

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De Sofá em Sofá pela Argélia #2: Constantine, Timgad e Ghoufi https://www.mudancasconstantes.com/2023/07/24/argelia-constantine-batna-ghoufi/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=argelia-constantine-batna-ghoufi https://www.mudancasconstantes.com/2023/07/24/argelia-constantine-batna-ghoufi/#respond Mon, 24 Jul 2023 19:56:08 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9318 Djemila, Constantine, Batna, Timgad, Ghoufi e Biskra. Até fico cansada só de enumerar tantos destinos! Um verdadeiro rodopio de lugares, restaurantes, casas e pessoas que tornaram as primeiras 48 horas da nossa roadtrip numa verdadeira aventura.  Ando eu, ando eu a caminho… das ruínas! Entre o (atrasadíssimo e lentíssimo) comboio de Argel para o aeroporto, apanhar o carro, fazer compras num hipermercado e arrancarmos em direção a Constantine, o tempo passou mais rápido do que tínhamos planeado e estávamos atrasados! Antes de chegarmos a Constantine, à Cidade das Pontes, íamos fazer um desvio até às ruínas romanas de Djemila. Segundo o que encontrei online, as ruínas fechavam às cinco da tarde e, se tudo corresse bem, chegaríamos pelas 15:30/16:00. Apertado, mas tínhamos que tentar! A estrada estava em condições surpreendentemente boas, sendo que de vez em quando reparávamos num condutor parado para um casual xixi ou em dois amigos encostados a pôr a conversa em dia. Tudo é possível! Passando por um checkpoint aqui e ali, chegámos às ruínas a tempo. Foi quase uma pena termos visto Djemila primeiro, porque foram as melhores ruínas da viagem! Podem não ser tão extensas como as de Timgad, nem ter uma vista mar como Tipasa, mas estão num bonito vale, têm uma atmosfera muito própria e estão muito bem preservadas. Enquanto festejávamos o facto de termos um lugar daqueles quase só para nós, ouvimos a língua de Camões. Ali estava um grupo de portugueses, liderados pelo Pedro Moreira, que viríamos a encontrar mais duas vezes durante a viagem. Afinal, os poucos turistas que existem acabam todos nos mesmos sítios!  Quando souberam que estávamos de carro, sozinhos, perguntaram-nos logo se não estávamos a ser acompanhados pela polícia. Pelos vistos, eles tinham sido escoltados e continuariam a ser quase toda a viagem. A partir daí ganhámos uma aversão aos checkpoints da polícia. A última coisa que queríamos era ser escoltados! Íamos precisar de muita sorte para escaparmos durante as próximas duas semanas. Jantares espontâneos e passeios noturnos Tínhamos arranjado um host em Constantine à última hora, mas como ele só ia chegar a casa mais tarde, decidi tentar a minha sorte e ver se o Yacine, que também tinha conhecido através do Couchsurfing, estava disponível para um jantar espontâneo. A resposta foi um rápido “sim”, e pouco tempo depois estávamos sentados nuns banquinhos de plástico a comer espetadas com ele e um amigo dele, o Khalil. Nessa noite percebi que era a única mulher na rua, um padrāo que se repetiria durante quase toda a viagem. As horas que se seguiram, foram passadas a conversar sobre tudo e mais alguma coisa, principalmente sobre o futuro e os sonhos deles. Muitos jovens saem do país à procura de um futuro melhor, sendo que alguns acabam por perder a própria vida no caminho. Quando demos por nós, estava na altura de nos despedirmos, tirarmos selfies, e ir conhecer o nosso anfitrião para essa noite.  Com um sorriso cansado de alguém que tinha trabalhado até às dez da noite, o Amir abriu-nos a porta da sua casa. “Então. Vamos ver a cidade?”. Não estávamos nada à espera daquela pergunta! Apesar do longo dia de viagem, sabíamos tão bem quanto ele que aquela era a nossa única oportunidade de ver Constantine de noite. Aceitámos e durante uma hora, passeámos pelos melhores miradouros de Constantine, começando a perceber a maravilha geográfica que é aquela cidade. Conquistando Constantine, ponte por ponte Depois de uma noite bem dormida, estávamos prontos para conquistar Constantine. A boleia do Amir deixou-nos no centro e começámos por um pequeno almoço no Café Oxygène. A cultura do pequeno almoço e dos cafés é praticamente inexistente na Argélia, portanto apesar dos croissants serem secos, souberam a pato! Ao lado do café fica o Palácio Ahmed Bey, cujo bilhete de entrada vem acompanhado de guia. Com um jardim vibrante, cheio de laranjeiras, o maior “tesouro” deste palácio são os seus murais, pintados pelo próprio Hajj Ahmed. Estes frescos, raros na região, representam a sua peregrinação pelo Médio Oriente até chegar a Meca. Contudo o melhor de Constantine são as suas pontes e, por vezes, até o que está por baixo delas. Juntámos o Khalil, o Amir e mais uma rapariga americana que nos chegou através do Couchsurfing e lá fomos, descobrindo mercados de rua, como o Didouche Mourad, e pontes suspensas que abanam por tudo quanto é sítio.  As minhas preferidas são a Sidi M’Cid e a Mellah Slimane. Almoçámos num restaurante simples, onde as mesas se enchem de migalhas e tudo se partilha. Espetadas, almôndegas, sopa de grão de bico e umas batatas, que só de pensar nelas me cresce água na boca! Tudo maravilhoso e nós proibidos de pagar por ordem dos anfitriões. Avatar vs Velocidade Furiosa  À tarde tivemos de acelerar o passo porque a Arzu, a americana, tinha que apanhar um voo. Mas foi no meio desta correria que nos foi mostrado o melhor lugar de Constantine. Debaixo de uma ponte, a Bab El Kantra, depois de passarmos por uma data de lixo que ali se acumulou, abre-se uma paisagem tipo Avatar! Há jardins suspensos, pequenas quedas de água e um rio a passar por baixo dos nossos pés. É mágico! Foi um momento zen, de descanso, que precedeu uma das horas mais intensas da viagem. O Amir tinha-se oferecido para ir levar a Arzu ao aeroporto. Problema: não tinha visto o estado do trânsito. Entre rogar pragas aos trabalhos de construção, cantar canções típicas argelinas para não “panicar” e conduzir a uma velocidade furiosa, conseguimos deixar a moça no aeroporto a tempo! Quanto a nós, restava-nos dizer adeus e agradecer mais uma vez a hospitalidade, que já estava mais que comprovado ser uma característica inata dos Argelinos. Tiros celebratórios e hotéis moralistas O dia estava longe de ter terminado. Seguimos caminho até Batna, onde íamos passar a noite e encontrar-nos com o Norushka – que tinha conhecido através do Pedro Moreira, com quem me cruzei em Djemila.  O Norushka não nos podia acolher, mas ajudou-nos a encontrar um hotel baratucho em Batna. Para minha surpresa, Batna já era um lugar mais conservador e eu e o Pina, o meu amigo e companheiro de viagem, não podíamos ficar no mesmo quarto por não sermos casados. O dono do hotel deixou bem claro que não haveria cá escapadelas noturnas de um quarto para o outro. Sim, por que o hotel tinha câmeras! Separados por dois pisos, deixámos as mochilas nos quartos (12.5€ cada) e fomos jantar. Fomos apresentados à Chakhchoukha e ao Zviti e a nossa paixão pela gastronomia argelina foi-se aprofundando. Quanto ao Norushka apercebemo-nos logo que nos íamos dar muito bem. Apesar do cansaço, conversámos durante horas e ele felizmente mencionou que, como à meia noite íamos passar para dia 1 de Novembro – quando se comemora o início da Guerra da Argélia – ia haver tiros de celebração por toda a cidade.  Tivémos pena de não ficar para assistir, mas depois de um dia destes só queríamos ir aproveitar o nosso hotel conservador. Ao menos não nos assustamos quando à meia noite começou tudo aos tiros! Nas (esbatidas) pegadas Romanas Acordámos cedo e com algum receio que o dono do hotel nos tivesse apanhado a trocar uma pasta de dentes às dez da noite. Pequeno-almoço tomado (o melhor da viagem!), fomos apanhar o Norushka à sua vila. Ele tinha uma surpresa para nós! A dois minutos da sua casa estava um museu de estátuas romanas absolutamente incrível. Num sítio onde ninguém vai! O senhor que toma conta do museu lá nos ia transmitindo alguma informação através do Norushka e ficou deliciado com as nossas caras de parvos a olhar para aquilo tudo. Eles até têm a maior estátua romana de todo o continente africano! Mais uma vez, fomos proibidos de pagar. Mas isto era só uma amostra. Timgad era o próximo destino! Desenhada por militares, é aqui que fica o maior complexo de ruínas romanas da Argélia. Passeámos pelas suas ruas perfeitamente desenhadas e vimos colunas, um teatro, as casas dos seus habitantes e um arco monumental. Depois de tanta pedra, era hora de almoçar. A luta pela liberdade começou num desfiladeiro Parámos num pequeno restaurante a caminho daquele que pensávamos que seria o nosso destino final: o Desfiladeiro de Ghoufi (diz-se Rhoufi). Nesse restaurante vivi aquele que seria o momento mais insólito da viagem.Quando nos sentámos numa mesinha ao canto, não demorou mais do que dois segundos até o dono do restaurante se dirigir até nós para instalar um biombo à nossa volta, mais particularmente à minha volta. Com um ar meio perdido, perguntámos ao Norushka o que é que estava a acontecer e pelos vistos, estava a tentar proteger-me dos olhares de homens desconhecidos! Agradecemos o gesto, mas dissemos que não havia necessidade. Estávamos oficialmente a entrar na zona mais conservadora da Argélia.  Depois do almoço, que custou cerca de 5€ para três pessoas, acabámos numa pastelaria com éclairs e outros bolos franceses de fazer crescer água na boca, todos a menos de 1€. Íamos devorar estas maravilhas enquanto olhávamos para uma das melhores paisagens do país. Seguimos caminho pela estrada onde começou a luta pela liberdade na Argélia. A Guerra da Argélia fazia sessenta e oito anos naquele dia.  A partir daqui a paisagem tornou-se mais árida e a vegetação passou a ser quase toda composta por palmeiras carregadas de tamaras. Por fim, lá estava ele, o famoso desfiladeiro, esculpido durante milhões de anos pela natureza. Tivemos a sorte de estar com o Norushka que conhece a zona como a palma das mãos. Seguimo-lo até ao miradouro com a vista mais bonita para enfardarmos os nossos bolos.  Já no fundo do desfiladeiro, ficamos rodeados de palmeiras e de paredes de rochas sedimentares. Para além da beleza natural, ainda há um hotel em ruínas, construído pelos franceses, que parece que foi ali posto para embelezar as fotografias dos turistas.  O Norushka, sendo cá dos nossos, ainda arranjou maneira de enfiar mais uma paragem neste dia já tão preenchido. Mostrou-nos a outra face do desfiladeiro, no M’Chouneche natural park, onde as suas margens se estreitam ao ponto de mal caber lá uma pessoa. Rendidos à chakhchoukha da mãe     Com o sol já a pôr-se, finalmente estávamos a caminho de Biskra onde o nosso próximo anfitrião e a sua mãe nos esperavam. Devo dizer que nunca me hei-de esquecer desta mãe argelina, já de quase oitenta anos, que nos cozinhou a melhor refeição de toda a viagem: a Chakhchoukha de Biskra. Não sei se por simpatia ou por não me querer pôr a dormir no mesmo quarto que um homem com quem não sou casada, a mãe convidou-me para dormir no quarto dela. Nessa noite adormeci ao som do seu ressonar, aconchegada num colchão no chão. No dia seguinte seguimos para Ghardaia!    Dicas e informações úteis Preço da gasolina: Foi logo no primeiro dia, quando decidimos pôr gasolina, que descobrimos que meio depósito custava 3 euros. Não podíamos estar a fazer as contas certas! Mas não é que estávamos mesmo? O preço por litro era de 14 cêntimos. Rimo-nos, celebrámos e 4,000km depois penso que gastámos cerca de 50€ em gasolina para a viagem toda… Alojamento em Batna: O hotel que mencionei acima chama-se Hôtel El Hayat. Acho que conseguimos um preço “especial” por ter sido marcado pelo nosso amigo, pelo que percebi, é sempre mais barato se for feito em pessoa, especialmente por locais. De qualquer forma é um hotel decente e limpo, só que já sabes… não há cá marotices fora do casamento!

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Djemila, Constantine, Batna, Timgad, Ghoufi e Biskra. Até fico cansada só de enumerar tantos destinos! Um verdadeiro rodopio de lugares, restaurantes, casas e pessoas que tornaram as primeiras 48 horas da nossa roadtrip numa verdadeira aventura.

 Ando eu, ando eu a caminho… das ruínas!

Entre o (atrasadíssimo e lentíssimo) comboio de Argel para o aeroporto, apanhar o carro, fazer compras num hipermercado e arrancarmos em direção a Constantine, o tempo passou mais rápido do que tínhamos planeado e estávamos atrasados!

Antes de chegarmos a Constantine, à Cidade das Pontes, íamos fazer um desvio até às ruínas romanas de Djemila. Segundo o que encontrei online, as ruínas fechavam às cinco da tarde e, se tudo corresse bem, chegaríamos pelas 15:30/16:00. Apertado, mas tínhamos que tentar! A estrada estava em condições surpreendentemente boas, sendo que de vez em quando reparávamos num condutor parado para um casual xixi ou em dois amigos encostados a pôr a conversa em dia. Tudo é possível!


Passando por um checkpoint aqui e ali, chegámos às ruínas a tempo. Foi quase uma pena termos visto Djemila primeiro, porque foram as melhores ruínas da viagem! Podem não ser tão extensas como as de Timgad, nem ter uma vista mar como Tipasa, mas estão num bonito vale, têm uma atmosfera muito própria e estão muito bem preservadas.

Enquanto festejávamos o facto de termos um lugar daqueles quase só para nós, ouvimos a língua de Camões. Ali estava um grupo de portugueses, liderados pelo Pedro Moreira, que viríamos a encontrar mais duas vezes durante a viagem. Afinal, os poucos turistas que existem acabam todos nos mesmos sítios! 

Quando souberam que estávamos de carro, sozinhos, perguntaram-nos logo se não estávamos a ser acompanhados pela polícia. Pelos vistos, eles tinham sido escoltados e continuariam a ser quase toda a viagem. A partir daí ganhámos uma aversão aos checkpoints da polícia. A última coisa que queríamos era ser escoltados! Íamos precisar de muita sorte para escaparmos durante as próximas duas semanas.


Jantares espontâneos e passeios noturnos

Tínhamos arranjado um host em Constantine à última hora, mas como ele só ia chegar a casa mais tarde, decidi tentar a minha sorte e ver se o Yacine, que também tinha conhecido através do Couchsurfing, estava disponível para um jantar espontâneo.

A resposta foi um rápido “sim”, e pouco tempo depois estávamos sentados nuns banquinhos de plástico a comer espetadas com ele e um amigo dele, o Khalil. Nessa noite percebi que era a única mulher na rua, um padrāo que se repetiria durante quase toda a viagem.



As horas que se seguiram, foram passadas a conversar sobre tudo e mais alguma coisa, principalmente sobre o futuro e os sonhos deles. Muitos jovens saem do país à procura de um futuro melhor, sendo que alguns acabam por perder a própria vida no caminho.

Quando demos por nós, estava na altura de nos despedirmos, tirarmos selfies, e ir conhecer o nosso anfitrião para essa noite. 

Com um sorriso cansado de alguém que tinha trabalhado até às dez da noite, o Amir abriu-nos a porta da sua casa. “Então. Vamos ver a cidade?”. Não estávamos nada à espera daquela pergunta!

Apesar do longo dia de viagem, sabíamos tão bem quanto ele que aquela era a nossa única oportunidade de ver Constantine de noite. Aceitámos e durante uma hora, passeámos pelos melhores miradouros de Constantine, começando a perceber a maravilha geográfica que é aquela cidade.


Conquistando Constantine, ponte por ponte

Depois de uma noite bem dormida, estávamos prontos para conquistar Constantine. A boleia do Amir deixou-nos no centro e começámos por um pequeno almoço no Café Oxygène. A cultura do pequeno almoço e dos cafés é praticamente inexistente na Argélia, portanto apesar dos croissants serem secos, souberam a pato!

Ao lado do café fica o Palácio Ahmed Bey, cujo bilhete de entrada vem acompanhado de guia. Com um jardim vibrante, cheio de laranjeiras, o maior “tesouro” deste palácio são os seus murais, pintados pelo próprio Hajj Ahmed. Estes frescos, raros na região, representam a sua peregrinação pelo Médio Oriente até chegar a Meca.



Contudo o melhor de Constantine são as suas pontes e, por vezes, até o que está por baixo delas. Juntámos o Khalil, o Amir e mais uma rapariga americana que nos chegou através do Couchsurfing e lá fomos, descobrindo mercados de rua, como o Didouche Mourad, e pontes suspensas que abanam por tudo quanto é sítio.  As minhas preferidas são a Sidi M’Cid e a Mellah Slimane.



Almoçámos num restaurante simples, onde as mesas se enchem de migalhas e tudo se partilha. Espetadas, almôndegas, sopa de grão de bico e umas batatas, que só de pensar nelas me cresce água na boca! Tudo maravilhoso e nós proibidos de pagar por ordem dos anfitriões.


Avatar vs Velocidade Furiosa 

À tarde tivemos de acelerar o passo porque a Arzu, a americana, tinha que apanhar um voo. Mas foi no meio desta correria que nos foi mostrado o melhor lugar de Constantine. Debaixo de uma ponte, a Bab El Kantra, depois de passarmos por uma data de lixo que ali se acumulou, abre-se uma paisagem tipo Avatar! Há jardins suspensos, pequenas quedas de água e um rio a passar por baixo dos nossos pés. É mágico!


Foi um momento zen, de descanso, que precedeu uma das horas mais intensas da viagem.

O Amir tinha-se oferecido para ir levar a Arzu ao aeroporto. Problema: não tinha visto o estado do trânsito. Entre rogar pragas aos trabalhos de construção, cantar canções típicas argelinas para não “panicar” e conduzir a uma velocidade furiosa, conseguimos deixar a moça no aeroporto a tempo!

Quanto a nós, restava-nos dizer adeus e agradecer mais uma vez a hospitalidade, que já estava mais que comprovado ser uma característica inata dos Argelinos.

Tiros celebratórios e hotéis moralistas

O dia estava longe de ter terminado. Seguimos caminho até Batna, onde íamos passar a noite e encontrar-nos com o Norushka – que tinha conhecido através do Pedro Moreira, com quem me cruzei em Djemila. 

O Norushka não nos podia acolher, mas ajudou-nos a encontrar um hotel baratucho em Batna. Para minha surpresa, Batna já era um lugar mais conservador e eu e o Pina, o meu amigo e companheiro de viagem, não podíamos ficar no mesmo quarto por não sermos casados. O dono do hotel deixou bem claro que não haveria cá escapadelas noturnas de um quarto para o outro. Sim, por que o hotel tinha câmeras! Separados por dois pisos, deixámos as mochilas nos quartos (12.5€ cada) e fomos jantar.


Fomos apresentados à Chakhchoukha e ao Zviti e a nossa paixão pela gastronomia argelina foi-se aprofundando. Quanto ao Norushka apercebemo-nos logo que nos íamos dar muito bem. Apesar do cansaço, conversámos durante horas e ele felizmente mencionou que, como à meia noite íamos passar para dia 1 de Novembro – quando se comemora o início da Guerra da Argéliaia haver tiros de celebração por toda a cidade. 

Tivémos pena de não ficar para assistir, mas depois de um dia destes só queríamos ir aproveitar o nosso hotel conservador. Ao menos não nos assustamos quando à meia noite começou tudo aos tiros!

Nas (esbatidas) pegadas Romanas

Acordámos cedo e com algum receio que o dono do hotel nos tivesse apanhado a trocar uma pasta de dentes às dez da noite. Pequeno-almoço tomado (o melhor da viagem!), fomos apanhar o Norushka à sua vila. Ele tinha uma surpresa para nós! A dois minutos da sua casa estava um museu de estátuas romanas absolutamente incrível. Num sítio onde ninguém vai!


O senhor que toma conta do museu lá nos ia transmitindo alguma informação através do Norushka e ficou deliciado com as nossas caras de parvos a olhar para aquilo tudo. Eles até têm a maior estátua romana de todo o continente africano! Mais uma vez, fomos proibidos de pagar.

Mas isto era só uma amostra. Timgad era o próximo destino! Desenhada por militares, é aqui que fica o maior complexo de ruínas romanas da Argélia. Passeámos pelas suas ruas perfeitamente desenhadas e vimos colunas, um teatro, as casas dos seus habitantes e um arco monumental. Depois de tanta pedra, era hora de almoçar.


A luta pela liberdade começou num desfiladeiro

Parámos num pequeno restaurante a caminho daquele que pensávamos que seria o nosso destino final: o Desfiladeiro de Ghoufi (diz-se Rhoufi). Nesse restaurante vivi aquele que seria o momento mais insólito da viagem.

Quando nos sentámos numa mesinha ao canto, não demorou mais do que dois segundos até o dono do restaurante se dirigir até nós para instalar um biombo à nossa volta, mais particularmente à minha volta. Com um ar meio perdido, perguntámos ao Norushka o que é que estava a acontecer e pelos vistos, estava a tentar proteger-me dos olhares de homens desconhecidos! Agradecemos o gesto, mas dissemos que não havia necessidade. Estávamos oficialmente a entrar na zona mais conservadora da Argélia. 

Depois do almoço, que custou cerca de 5€ para três pessoas, acabámos numa pastelaria com éclairs e outros bolos franceses de fazer crescer água na boca, todos a menos de 1€. Íamos devorar estas maravilhas enquanto olhávamos para uma das melhores paisagens do país.


Seguimos caminho pela estrada onde começou a luta pela liberdade na Argélia. A Guerra da Argélia fazia sessenta e oito anos naquele dia. 

A partir daqui a paisagem tornou-se mais árida e a vegetação passou a ser quase toda composta por palmeiras carregadas de tamaras. Por fim, lá estava ele, o famoso desfiladeiro, esculpido durante milhões de anos pela natureza.

Tivemos a sorte de estar com o Norushka que conhece a zona como a palma das mãos. Seguimo-lo até ao miradouro com a vista mais bonita para enfardarmos os nossos bolos. 


Já no fundo do desfiladeiro, ficamos rodeados de palmeiras e de paredes de rochas sedimentares. Para além da beleza natural, ainda há um hotel em ruínas, construído pelos franceses, que parece que foi ali posto para embelezar as fotografias dos turistas. 

O Norushka, sendo cá dos nossos, ainda arranjou maneira de enfiar mais uma paragem neste dia já tão preenchido. Mostrou-nos a outra face do desfiladeiro, no M’Chouneche natural park, onde as suas margens se estreitam ao ponto de mal caber lá uma pessoa.


Rendidos à chakhchoukha da mãe    

Com o sol já a pôr-se, finalmente estávamos a caminho de Biskra onde o nosso próximo anfitrião e a sua mãe nos esperavam. Devo dizer que nunca me hei-de esquecer desta mãe argelina, já de quase oitenta anos, que nos cozinhou a melhor refeição de toda a viagem: a Chakhchoukha de Biskra.


Não sei se por simpatia ou por não me querer pôr a dormir no mesmo quarto que um homem com quem não sou casada, a mãe convidou-me para dormir no quarto dela. Nessa noite adormeci ao som do seu ressonar, aconchegada num colchão no chão.

No dia seguinte seguimos para Ghardaia!   

Dicas e informações úteis

Preço da gasolina: Foi logo no primeiro dia, quando decidimos pôr gasolina, que descobrimos que meio depósito custava 3 euros. Não podíamos estar a fazer as contas certas! Mas não é que estávamos mesmo? O preço por litro era de 14 cêntimos. Rimo-nos, celebrámos e 4,000km depois penso que gastámos cerca de 50€ em gasolina para a viagem toda…

Alojamento em Batna: O hotel que mencionei acima chama-se Hôtel El Hayat. Acho que conseguimos um preço “especial” por ter sido marcado pelo nosso amigo, pelo que percebi, é sempre mais barato se for feito em pessoa, especialmente por locais. De qualquer forma é um hotel decente e limpo, só que já sabes… não há cá marotices fora do casamento!

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