Argélia

De Sofá em Sofá pela Argélia #4: Taghit & El Gour

Taghit e El Gour deram-nos um cheirinho do potencial do Sahara Argelino. Um com as suas dunas imensas e douradas, outro pelas estruturas monumentais, esculpidas pela natureza. Dois lugares com paisagens até perder de vista e o melhor nascer e pôr-do-sol do país.

Como não podia deixar de ser, esta etapa começou na estrada, com uma viagem de cinco horas de carro por estradas desertas, com a ocasional cáfila (manada de camelos) para alegrar o nosso dia. Antes de chegarmos a Taghit parámos em Beni Abbès para o melhor exercício cardio que há no deserto: subir dunas gigantes.

Beni Abbès: a minha duna é maior que a tua

À beira de uma duna que parece uma onda capaz de o engolir, fica o vilarejo de Beni Abbès, um pequeno oásis. Beni Abbès em si não tem muito para ver, mas é conhecido pela sua geografia única e só por isso vale a pena uma curta paragem.


A “grande duna” de Beni Abbès é a mais alta numa área de 78,000 quilómetros quadrados (Portugal tem 92,000) e subi-la, mas principalmente descê-la é libertador!

Taghit: Kayak no deserto?

Pela primeira vez nesta viagem ficámos num alojamento pago. Não é assim tão fácil encontrar hosts no meio do deserto, e mesmo o TerreGite só apareceu depois de alguns contactos por email. Um pequeno alojamento tradicional com staff muito simpático e refeições à beira da fogueira.

Como não havia muito que pudéssemos fazer por nós próprios, decidimos juntar-nos a um tour pela região no dia seguinte. O deserto está cheio de surpresas!


Começámos com uma visita ao antigo ksar de Taghit, que à semelhança dos de Timimoun, agora funciona mais como estábulo. O nosso guia mal falava inglês, mas com o meu francês manhoso e a ajuda da família argelino-marroquina que nos acompanhava, lá nos entendemos.

Caminhámos entre as antigas muralhas, campos de palmeiras e antes de darmos por isso estava na hora de almoço. E perguntam-nos: “querem fazer kayak”? Não é o tipo de pergunta que esperas no deserto!

O almoço era à beira de um oásis grande o suficiente para andarmos de kayak de um lado para o outro e soube tão bem para refrescar!


Antes de nos dirigirmos ao melhor miradouro para ver o pôr do sol, ainda fomos espreitar arte rupestre com 6000 anos que agora se funde com arte delinquente com dois ou três anos.

Para o pôr do sol, subimos até ao Fort de l’éperon de onde se vê toda a cidade, as dunas e o oásis. É definitivamente a melhor forma de acabar um dia em cheio no deserto.


Uma gruta espontânea

A nossa viagem à Argélia já tinha tido um pouco de tudo, mas este dia foi uma verdadeira aventura com vontade própria. Vou tentar resumir, se não corro o risco de escrever cinco páginas sobre um só dia.

1º – Conduzimos até Brezina, onde nos íamos encontrar com um amigo que tínhamos conhecido há uns dias em Batna.

2º – Ele nunca tinha estado na região, mas na Argélia toda a gente conhece alguém que conhece alguém, por isso do nada tínhamos um guia e um lugar para ficar no meio de El Gour.

3º – Pelos vistos havia uma gruta que podíamos visitar antes do pôr do sol. Depois de meia hora aos solavancos num jipe, estávamos dentro de uma gruta gigante ao lado de uma barragem com uma albufeira linda!



4º – O nosso deambulo pela gruta atrasou-nos e apressámo-nos para ainda tentar apanhar as últimas horas de luz no topo do El Gour.

5º – A caminho, parámos para nos abastecermos com um frango assado e ainda fomos parados pela polícia que finalmente reparou (ou alguém lhes disse) que havia estrangeiros por ali. Depois de algumas perguntas e menções ao Ronaldo, lá nos deixaram seguir caminho.


Que lugar é este?!

6º – Corremos até ao topo de uma das formações arenosas de El Gour e apesar do sol já se ter posto, as cores no horizonte fizeram valer o esforço.


7º – Íamos dormir numas tendas gigantes, no meio de El Gour. Quando já tínhamos acabado o frango e começava a hora do chá, chega um jipe da gendarmerie com quatro ou cinco guardas que deviam querer uma noite diferente. Lá fizeram umas perguntas, beberam chá com um quilo de açúcar por chávena e foram à sua vida. Achávamos que finalmente as nossas interacções com a autoridade tinham ficado por ali.

8º –  Passados quinze ou vinte minutos, já quase prontos para irmos dormir, voltam para dizer que afinal temos que nos ir registar com a polícia. Fomos para a esquadra de pijama. Entre fotocópias e registos, foi um serão muito animado. Agora sim, estávamos oficialmente livres!

9º – Dormimos na nossa tenda e acordámos cedo. Não íamos perder o nascer do sol! Subimos até ao topo de um rochedo e ali ficámos a observar a natureza a fazer a sua magia! É incrível como um lugar que descobri acidentalmente no Google Maps se tornou na experiência mais marcante que tivemos na Argélia!


10º – Estava na hora de voltarmos à estrada, desta vez em direcção a Oran, onde nos esperava um mar morno e um banho que ficou ali nas entrelinhas do permitido e proibido. Claro que nessa noite acabámos na casa de um amigo do nosso amigo, a comer uma refeição preparada pela mãe dele. Ou não estivéssemos nós na Argélia!

Este dia marcou o início do fim da nossa viagem, já só nos restavam a cosmopolita Oran e a anciã Tipaza para visitar antes de voltarmos para casa.

Dicas rápidas:

Se quiseres fazer Taghit sem tours, estas são as referências no Google Maps:

  • Kayak Taghit | Neolithic Rock Engravings | Fort de l’éperon / Mountain of Taghit

Contactos TerreGite:

https://www.facebook.com/TerreGite/?locale=fr_FR | terregite@gmail.com

Alfacinha germinada e cultivada num cantinho à beira mar plantado, a Inês tem uma certa inquietação que não a deixa ficar muito tempo tempo no mesmo sítio. Fez Erasmus em Paris, trabalhou em Istambul e em Portugal, fez um mestrado em Creative Advertising em Milão e agora trabalha no Reino Unido. Viajar, criatividade, cozinhar, dançar e ler são algumas das suas paixões. A combinação de algumas delas deu origem a este blog, o Mudanças Constantes. Bem-vindos!

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