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Dia Internacional da Mulher. Para quê?

Há cerca de uma semana a notícia “Desce a esperança média de vida para as mulheres mais desfavorecidas em Inglaterra” fazia cabeçalhos em todos os jornais do país e, há dois dias, um relatório da UNDP revelava que “nove em cada dez pessoas têm preconceitos contra as mulheres”. Se a desigualdade de género fosse um vírus não havia máscaras que nos salvassem.

Sou frequentemente confrontada por pessoas, normalmente homens, que não percebem o porquê de termos um Dia Internacional da Mulher nem da necessidade de me afirmar como feminista. Afinal “já somos iguais”, afirmam eles, com uma certeza na voz que só quem vive noutro planeta consegue ter.

Para mim, o Dia Internacional da Mulher serve exactamente para isso. Para mostrar que ainda não chegámos lá. Para nos lembrarmos com factos, figuras e estatísticas – métodos de validação da verdade que parecem ter sido substituídos pela arrogância do “esta é a minha opinião” –  que ainda não há igualdade entre homens e mulheres em nenhum país do mundo em quase nenhuma área.

Melhor, se continuarmos a este ritmo, vai demorar 257 anos para atingirmos a igualdade de género no mundo. 257 anos para atingirmos aquilo que devia ser um direito básico.

Compreendo que em países europeus seja difícil alcançar a extensão do problema. Afinal, aqui parecemos todos mais ou menos iguais. Nascemos e em princípio a nossa mãe sobrevive, a Europa tem as mais baixas taxas de mortalidade materna do mundo. Vamos para a escola e, em média, até há mais mulheres a completar um curso superior apesar de não passarmos dos 25% dos licenciados em áreas STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics, dados do Reino Unido). Mas ao menos a oportunidade de escolha está lá.

Continuando a olhar para o panorama económico (já vamos ao social) é ao entrar no mercado de trabalho que o caso começa a mudar de figura. A taxa de emprego na UE é de 78.3% para homens comparado com 66.5% para mulheres, sendo que as mulheres ganham menos 14.8% por hora do que os homens. Parece que até já consigo ouvir o argumento “mas os homens têm cargos mais importantes/difíceis”. Pois têm! É mesmo esse o problema.

– As mulheres têm mais trabalhos precários estando mais vulneráveis à pobreza
– Os homens ocupam mais de 80% dos cargos nos trabalhos STEM
– As mulheres portuguesas dedicam 3 horas e 48 minutos por dia a trabalho não pago (tratar de casa e filhos)
72% das vezes é a mulher portuguesa que realiza as tarefas domésticas, comparado com 24% para o homem português
– Menos de 10% dos CEO de empresas de topo são mulheres
– Em cargos de gestão as mulheres ganham menos 23% do que os homens

Todos estes factores condicionam as nossas escolhas e oportunidades e, quando quase metade dos homens E mulheres acham que os homens são melhores líderes políticos (apesar dos inúmeros exemplares que temos demonstrarem exactamente o contrário) e mais de 40% acredita que os homens são melhores directores executivos, aquele que aparentava ser um mundo igualitário deixa de o ser.

A parte mais irónica é que por muito devastadores que estes dados pareçam, são dados do continente mais desenvolvido do mundo. E por muito que a parte económica me preocupe, é a parte social que me faz perder o sono.

Comecemos pela violência no namoro. A violência no namoro é um conceito que me assombra, porque na minha imaginação inocente um namoro, especialmente na adolescência, é uma descoberta despreocupada e inconsequente do amor. Não devia causar mais sofrimento do que um coração partido que se repara passada uma semana.

Contudo, 67% dos jovens portugueses aceita como natural pelo menos uma forma de violência no namoro. E quem é que legitima mais frequentemente a violência? Os rapazes. E quem é que é mais frequentemente a vítima? As raparigas.

Estas formas de violência começam pelo controlo, no que se veste, com quem se fala e no que se faz, passa pela perseguição e violência nas redes sociais e acaba na violência sexual, psicológica e física, sendo que 58% dos jovens dizem já ter sido vítimas de um destes tipos de comportamento.

Com estes números não é difícil percebermos como acabámos 2019 com 27 mulheres mortas às mãos da violência doméstica. Se analisarmos o problema à escala Europeia temos:

Um terço das mulheres, com mais de 15 anos, já experienciou alguma forma de abuso físico ou sexual
Uma em cada 20 mulheres foi violada
43% das mulheres experienciaram algum tipo de abuso psicológico ou comportamento controlador numa relação

Já concluímos que nem na União Europeia é muito favorável ser-se mulher. Em geral não mata mas mói, pelos vistos é com isto que nos devemos contentar. E no resto do mundo? No resto do mundo ser mulher aleija ainda mais.

– Até 70% das mulheres experienciaram violência física ou sexual por parte de um parceiro
– Estima-se que em 2017, 87000 mulheres foram mortas e mais de metade (58%) foram assassinadas por parceiros ou membros da sua família
72% de todas as vítimas de tráfico humano são do sexo feminino
– Todos os anos, 12 milhões de raparigas com menos de 18 anos casam-se, muitas vezes com homens muito mais velhos e até familiares
2/3 dos adultos analfabetos do mundo são mulheres
10% das raparigas em África não vão à escola durante o seu ciclo menstrual
– 200 milhões de mulheres e raparigas no mundo sofreram mutilação genital

Podia continuar com estas estatísticas aterradoras, mas acho que está mais que provado que no jogo da vida as mulheres começam com pontos negativos.

Este post está longe de ser um lamento por ser mulher ou um apelo à pena. É exactamente o oposto, é uma lembrança de que a luta pela igualdade de género ainda está longe de estar terminada. Que faltam leis que protejam as mulheres, que penas suspensas ou multas não são aceitáveis e que falta, acima de tudo, educação.

É difícil educar as novas gerações a ultrapassarem a barreira do género quando nós próprios somos preconceituosos. É difícil educar quando nos filmes, nos anúncios, na pornografia, nos jornais e revistas as mulheres são quase sempre menos que os homens. Quando o escrutínio a que subjugamos uma mulher é mil vezes superior e as expectativas mil vezes mais altas.

Resta-nos a todos tentar ser um bocadinho mais feministas e menos ignorantes. Porque com o machismo e misoginia perdemos todos. Literalmente. Se o buraco salarial entre homens e mulheres deixasse de existir, isso traria um crescimento de 26% (28 triliões de dólares) à economia mundial.

Depois não digam que não vos avisei 😉

Alfacinha germinada e cultivada num cantinho à beira mar plantado, a Inês tem uma certa inquietação que não a deixa ficar muito tempo tempo no mesmo sítio. Fez Erasmus em Paris, trabalhou em Istambul e em Portugal, fez um mestrado em Creative Advertising em Milão e agora trabalha no Reino Unido. Viajar, criatividade, cozinhar, dançar e ler são algumas das suas paixões. A combinação de algumas delas deu origem a este blog, o Mudanças Constantes. Bem-vindos!

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