Inglaterra

White Cliffs of Dover e um sudeste soalheiro

Nos escassos dias de sol ingleses é quase proibido ficar em casa. O país transforma-se e não há como não alinhar neste movimento: os calções e os chinelos saem do armário, os transportes para o litoral enchem-se e as praias, outrora cinzentas e acastanhadas, tornam-se num paraíso quase tão apetitoso quanto as Maldivas.

Não querendo perder esta súbita febre de Verão, também nós nos dirigimos ao sul no fim de Junho. Com os White Cliffs of Dover em mente, conjurámos um plano que incluía Canterbury, Dover e Rye – um mix de vilas tradicionais, falésias e praia.


Canterbury: galinhas regatadas e enchiladas

Com os nossos antecedentes trágico-cómico nos Airbnb ingleses, mal podíamos esperar para ver quem nos aguardava do outro lado da porta desta vez. Felizmente fomos recebidos por uma cadela que parecia uma vaca e com um sorriso, vindo dos donos, que apaziguou os nossos receios. Para além de simpáticos com os humanos, os nossos hosts resgatavam cães (já iam em mais de 100 resgates) e até galinhas. Quem diria que as galinhas precisavam de ser resgatadas…

Com mais de três horas de estrada e trânsito no lombo, descansámos até a barriga se queixar. Decidimos jantar na rua principal de Canterbury e usar a táctica do “restaurante com gente”. Acabámos num mexicano chamado Tacos Locos que tinha Margaritas com uns 90% de tequila e porções gigantescas!

Ainda mais cansados depois de comermos por quatro em vez de dois, fomos explorar o potencial de Canterbury. Ficámos certos que tínhamos que voltar na manhã seguinte.

Acordámos com as galinhas (literalmente) e depois de um pequeno-almoço, vegetariano e livre qualquer pecado animal, voltámos ao ataque a Canterbury. Apesar de ter um centro pequenino, é uma cidade muito catita com uma das arquitecturas mais icónicas e interessantes que já vi em Inglaterra.

Os Greyfriars Gardens também são muito merecedores de uma visita.

Canterbury é uma cidade absolutamente adorável e entrou para o top de lugares que mais gosto neste país!


Os prístinos White Cliffs of Dover

Mas o nosso destino era mesmo o mar e como tal, dirigimo-nos a alta velocidade para a St Margarets Bay, uma pequena baía com “praia” aka calhaus junto ao mar onde pudemos explorar o sopé das falésias.

Já para explorar o topo das falésias, seguimos para a entrada oficial dos White Cliffs of Dover. Assim que entramos no trilho fomos surpreendidos não pelo “branco, mais branco não há”, mas por uma vista panorâmica sobre o Porto de Dover, o porto de passageiros mais concorrido da Europa.

Ultrapassando esta parte industrial, tínhamos pela frente quilómetros de relva verdejante para palmilhar enquanto nos deslumbrávamos com o azul do mar e o branco das falésias. Tudo era paz e tranquilidade, excepto quando se ouvia uns espanhóis.

Contudo, debaixo dos nossos pés a história era outra. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Winston Churchill visitou a zona, reparou que o inimigo andava livremente pelo Estreito de Dover sem que ninguém lhe fizesse frente.

Imediatamente ordenou a instalação de artilharia pesada e a construção da “Fan Bay”, uma rede de túneis subterrâneos que funcionavam como abrigo e esconderijo estratégico que hoje pode ser visitada. Afinal de contas, em dias de sol, França vê-se lá ao fundo, a uns meros 33 quilómetros de distância.

Fazer o caminho completo de ida e volta demora cerca de três horas, mas o trilho é muito fácil e acessível. Nós no total fizemos só 90 minutos.


Dover e a alma de Inglaterra

No fim da nossa caminhada já só pensávamos no almoço. No Google Maps escrevemos uma palavra “Wetherspoons” e num segundo lá estava ele, como sempre, pronto para nos receber de braços abertos.

Para quem não conhece, o Wetherspoons é uma cadeia de pubs inglesa, mas eu acho que é muito mais do que isso: é a alma de Inglaterra. Estes pubs servem para tudo. Bebidas baratas depois do trabalho? Check! Pequeno-almoço inglês? Check! Almoço numa cidade desconhecida? Check!

Banksy em Dover

Há um certo sentimento de pertença e familiaridade neste lugar, quase como uma casa. Não tem muita classe ou glamour, mas como eles dizem “it gets the job done”. Por isso, se um dia quiseres conhecer a Inglaterra para além de Londres, este é um bom ponto de partida.

PS: O wrap de legumes grelhados é surpreendentemente bom.


Rye, um casamento e uma praia

Se há coisas boas no Instagram é ficarmos a conhecer lugares que de outra forma nunca seriam visitados por ser tão insignificantes no mapa. Sendo eu uma aficionada por casinhas tradicionais inglesas, não podia deixar de escapar a pequena vila de Rye.

Muralhas, casas com vigas, igrejas e até gelados decentes para os padrões ingleses tornam Rye num lugar muito apelativo para um passeio de domingo.

O momento mais entusiasmante do dia (provavelmente do mês) nesta vila foi um casamento. Enquanto subíamos uma das ruas principais, começámos a ouvir um sino que era agitado por um senhor vestido a rigor que anunciava ao mundo o casamento e o nome dois noivos. Tínhamos viajado 200 anos no tempo.

Não podendo deixar este dia de verão perfeito escapar sem aproveitar todos os raios de sol possíveis, fomos até à Rye Harbour Nature Reserve que apesar de não ser nada de especial tem uma praia onde consolidámos o nosso escaldão.

Dicas rápidas

Estacionamento em Canterbury: Como em todo o lado em Inglaterra, o estacionamento é pago no centro. O nosso host deu-nos a dica de estacionar no fim da Monastery Street/Havelock Street onde era grátis.

Alfacinha germinada e cultivada num cantinho à beira mar plantado, a Inês tem uma certa inquietação que não a deixa ficar muito tempo tempo no mesmo sítio. Fez Erasmus em Paris, trabalhou em Istambul e em Portugal, fez um mestrado em Creative Advertising em Milão e agora trabalha no Reino Unido. Viajar, criatividade, cozinhar, dançar e ler são algumas das suas paixões. A combinação de algumas delas deu origem a este blog, o Mudanças Constantes. Bem-vindos!

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