Suíça

Pizol: Cinco (+) lagos, termas finas e estar offline

Algures a meio de Fevereiro chegou o convite: “No Verão devíamos fazer uma caminhada nas montanhas Suíças”. A proposta vinha do meu amigo Adi que na altura se encontrava na etapa final da sua viagem de dois anos de bicicleta da Noruega à África do Sul.

Sabíamos lá nós que a epidemia na China se tornaria numa pandemia mundial e que os quilómetros finais da viagem dele ficariam em águas de bacalhau e que os meus planos originais de viagem seriam todos cancelados.

Com os destinos de viagem ultra limitados devido à imposição de quarentena no regresso por parte de Inglaterra, voltar à Suíça parecia-me a opção mais apetecível. Com poucos dias de antecedência marquei os meus voos para mais uma viagem “só acredito que vai acontecer quando sair do aeroporto”.

Quatro dias de caminhadas, lagos e noites estreladas estavam prestes a começar:

O primeiro lago e uma orquestra bovina

Aterrei num país que parecia nunca ter ouvido falar de um tal COVID. Ao dirigir-me para a saída do aeroporto encontrei-me com o Adi, eu com máscara ele sem. Ainda confusa com este novo (ou antigo?) mundo, meti-me na magnífica campervan dos pais dele; aquela seria a nossa casa durante os próximos dias.

Já com compras para sobrevivermos em autonomia na bagageira fizemos a nossa primeira paragem: Walensee. Este enorme lago fica mesmo na fronteira com o Liechtenstein e a caminho do nosso destino final: Pizol. Também não sabíamos quando voltaríamos a tomar banho e achámos por bem aproveitar esta oportunidade.

Em países sem mar faz-se praia nos lagos e as margens deste estavam a rebentar pelas costuras. Lá encontrámos um cantinho na relva e, em menos de nada, estava a atirar-me não à água, mas ao pão e humus que tínhamos acabado de comprar (porque é que só me dou com pessoas que não se importam de não comer?!). Níveis de açúcar repostos o resto da tarde foi passado entre banhos de lago e banhos de sol.

No fim do dia pusemos a van à prova ao subirmos até ao lugar mais próximo do início da caminhada do dia seguinte. Era aí, perto de uma Alpine Farm, que iríamos pernoitar. Como não podia deixar de ser o jantar foi gourmet: um risotto de cogumelos e uma salada de tomate, feta e azeite balsâmico!

Sob um céu limpo e infinitas constelações adormecemos embalados ao som de uma orquestra “sinofónica” bovina ali residente.

Nas montanhas, Suíça vs. Portugal é uma luta inglória

Às seis da manhã saí disparada da “cama” para fotografar um amanhecer inacreditável. As montanhas à minha frente tinham-se tornado cor-de-rosa e atrás de mim, na Áustria, eram agora azuis. Como esta adrenalina matinal só parecia afectar um de nós fui persuadida a deixar-me dormir mais um bocadinho até serem horas de pessoas normais se levantarem. 

O sol já ia alto quando acabámos de enfiar todo o equipamento que íamos precisar para acampar nessa noite em duas mochilas. Foi a primeira vez que me apercebi onde é que me estava a meter. Digamos que caminhadas já fiz eu muitas, mas com oito ou mais quilos às costas, esta era a primeira. E deixem-me mencionar, assim só ao de leve como quem não quer a coisa, que eu não levava nem um terço do peso total entre nós.

Munida de dois bastões de caminhada de carbono (para leigos como eu, significa que são ultra leves) e de uma grande determinação de provar a mim mesma – e ao Suíço! – que ia conseguir acabar aquela caminhada com os dois pulmões ainda dentro da caixa torácica, arrancámos.  

Depois de 30 minutos sempre a subir estávamos oficialmente no início da caminhada, ao lado do Wangersee, o primeiro lago. Este simpático lago funciona para baixar os padrõezinhos dos caminhantes relativamente ao potencial deste trilho. Assim, ficamos completamente estupefactos com o que está para vir.

Ir com um “profissional” destas coisas tem os seus benefícios. Optámos por fazer o caminho no sentido contrário e acabámos por ter as montanhas e os lagos quase só para nós. Aconselho vivamente a fazer Wangersee>Baschalvasee > Schwarzsee > Schottensee > Wildsee não só para evitar fazer descidas íngremes com gravilha (nós fizemos em subida) como para deixar os lagos mais impressionantes para o fim, o que torna a caminhada muito mais entusiasmante e recompensadora.

Para além da minha inaptidão para carregar peso às costas, também estava mais que provado que o único equipamento que tinha que funcionava tinha sido cedido pela mãe do Adi. Ora vejamos: os meus óculos de sol, que só têm uma haste, foram considerados “o pior tipo de óculos de sol para caminhadas” uma vez que são “abertos”. A sola do meu sapato esquerdo descolou-se passadas duas horas de caminhada e soltou-se completamente no fim do primeiro dia. A sola do direito descolou-se uma hora depois de começarmos o segundo dia. Humilhada pelo meu corpo e equipamento, restava-me dizer: “Eu fui criada na praia, não nas montanhas. Hás-de ver que sou muito melhor a ficar estendida ao sol um dia inteiro sem me mexer”.

Pelas quatro da tarde chegámos ao nosso poiso para a noite: o Schottensee, um dos lagos mais bonitos que já vi. Nas seis horas que caminhámos para lá chegar senti-me uma formiguinha no meio daquelas montanhas, saíram-me do corpo litros de suor (e alguns palavrões ofegantes) e abracei em pleno o melhor que a natureza tem para nos dar: paz de espírito.

Ser obrigada a desligar

Uma das maravilhas de nos afastarmos do mundo dito “civilizado” é deixarmos de ter rede. Antes da quarentena já passava uma quantidade de tempo pouco saudável online e com a impossibilidade de sair de casa comecei a passar quase todas as horas do meu dia em frente ao computador. Ora, isto dá cabo de qualquer um.

Nas montanhas corta-se o mal pela raiz e depois de caminhar restou-nos ficar a apanhar sol e a molhar os pés na água gelada do lago (no meu caso) ou ir subir a mais picos a correr só porque sim (no caso do Adi). Se isto não é terapêutico não sei o que será.

Quando o sol começou a baixar estava na altura de fazer o jantar: massa com molho de tomate, cebola e curgete -previamente cortadas e transportadas num Tupperware; já disse que com a comida não se brinca!

Para voltarmos a encher as nossas garrafas com água potável fervemos vários litros de água do lago e para celebrar o fim do primeiro dia bebemos uns tragos do tradicional schnapps. Mais uma vez adormecemos a olhar para um céu estrelado ao som dos sinos do gado caprino desta vez.

Um último esforço e a recompensa

O último dia de caminhada começou comigo a confirmar que uma sopa Knorr de cogumelos não serve de pequeno-almoço para ninguém. Tenda, sacos cama e colchões arrumados, estávamos prontos para a recta final.

Subimos até ao Wildsee contornando as centenas de caminhantes que vinham na direcção contrária. Não há nada como uma boa fotografia de Instagram para mover multidões. Mas mais uma vez decidimos fazer a nossa própria rota e embarcar por um desvio que nos levaria ao pico do Pizol a 2,844 metros.

Como este trilho envolve andar no gelo e gravilha eu fiz uma paragem técnica enquanto o meu parceiro de caminhada ia lá ao topo “num instantinho”. Apesar de não ter chegado ao topo, adorei este trilho porque tornou a caminhada e as paisagens que oferece ainda mais diversa.

Agora já só nos faltava descer e esperar que a campervan ainda estivesse onde a tínhamos deixado. Fácil, certo?! Teria sido fácil se tivéssemos ido pelo caminho oficial, mas não. “Vamos por aqui, tem menos gente”. E porque é que será que tem menos gente? Porque tem vários troços só de gravilha fina que ao mínimo erro te iria levar a visitar as vaquinhas lá no fundo da montanha. Com o coração na boca e eventualmente lágrimas nos olhos lá fiz o trilho rogando pragas ao dia oito de agosto que já me tinha tentado matar há três anos no Sri Lanka. Moral da história: não inventes caminhos!

Para comemorar a nossa chegada intactos ao local de partida, tínhamos uma procissão intimidante de vacas à nossa espera. Felizmente ficaram-se pelos olhares desconfiados enquanto eu lhes segredava que não comia carne há imenso tempo!

Nessa tarde tomámos a decisão mais fácil da viagem: irmos a uma das melhores termas da Suíça. Tamina Therme os nossos corpos suados, dorido e sujos vão deleitar-se nas tuas águas. Todos maltrapilhos entrámos num dos lugares mais finos que já vi na vida e a recepcionista deve ter tido medo das nossas toalhas (com razão), uma vez que nos ofereceu umas quando dissemos que não queríamos pagar pelas do spa. Duas horas depois estávamos limpinhos e bem massajados pelos infinitos jactos de água e jacuzzis que estas termas naturais ofereciam.

Uma última vez, estacionámos a caravana, fizemos o jantar e desligámos com os sons da natureza.

Como não podia deixar de ser, o último dia ainda foi gozado até à última com uma visita à Tamina Gorge, um desfiladeiro na zona das águas termais (entrada: 5CHF), e um mergulho rápido num lago perto de Zurique antes do voo.

Olhando para as mais de 1600 palavras deste post pergunto-me como é que quatro dias na Suíça deram para escrever tanto. A verdade é que este ano cada viagem tem um sabor diferente; viajar deixou de ser uma garantia e passou a ser um privilégio. Aguardo ansiosamente pelo dia em que voltaremos a viajar sem restrições. Até lá, vamos viajando assim, devagarinho.

Dicas rápidas

Caminhada dos Cinco Lagos em Pizol: O acesso normal a esta caminhada é feito através de um teleférico. Fica aqui o site da região do Pizol com mais informações: Turismo Pizol

Pernoitar/estacionar no início da caminhada: O Adi foi quem descobriu o lugar onde poderíamos dormir e deixar a van para fazer a caminhada. Estas são as coordenadas GPS do lugar onde ficámos 46°58’19.0″N 9°26’15.4″E ; tem acesso a água potável. Contudo, antes de a chegarmos tivemos que preencher um formulário e deixar 20 CHF num envelope num género de casota de madeira.

Equipamento: De forma a estares mais preparado/a que eu, aqui vão umas dicas. Bastões de caminhada ajudam imenso tanto em subidas como descidas e são imprescindíveis se carregares muito peso às costas. Fiquei fã. Usa protector solar, batom do cieiro, óculos de sol e boné! O sol nas montanhas é muito mais agressivo do que noutros lugares. E sapatos/botas de caminhada que não se estejam a desfazer.

Caminhada: A caminhada em si não é muito difícil se tiveres um estilo de vida activo. Há muitos pais que levam miúdos de sete ou oito anos para esta caminhada (até mais novos) e sobrevivem todos.

Alfacinha germinada e cultivada num cantinho à beira mar plantado, a Inês tem uma certa inquietação que não a deixa ficar muito tempo tempo no mesmo sítio. Fez Erasmus em Paris, trabalhou em Istambul e em Portugal, fez um mestrado em Creative Advertising em Milão e agora trabalha no Reino Unido. Viajar, criatividade, cozinhar, dançar e ler são algumas das suas paixões. A combinação de algumas delas deu origem a este blog, o Mudanças Constantes. Bem-vindos!

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