socotra Archives - Mudanças Constantes https://www.mudancasconstantes.com/tag/socotra/ Blog de viagens para inquietos e irrequietos Tue, 31 Jan 2023 20:50:07 +0000 en-GB hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0.2 https://www.mudancasconstantes.com/wp-content/uploads/2018/10/cropped-Untitled-design-1-32x32.png socotra Archives - Mudanças Constantes https://www.mudancasconstantes.com/tag/socotra/ 32 32 3# Diários de Socotra: Se isto é o Paraíso, contem comigo https://www.mudancasconstantes.com/2022/12/25/diarios-de-socotra-detwah/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=diarios-de-socotra-detwah https://www.mudancasconstantes.com/2022/12/25/diarios-de-socotra-detwah/#respond Sun, 25 Dec 2022 11:10:37 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9238 As religiões passaram milénios a vender um conceito intangível de paraíso quando podiam simplesmente ter dito “é como Detwah”. Simples e, quase que garanto, mais eficaz. As nossas duas últimas noites em Socotra passaram-se à beira da lagoa Detwah, lagoa essa cuja existência eu desconhecia até o nosso jipe parar à sua beira. Já a ressacar por um banho de mar, estávamos mortinhos para nos enfiarmos na água, mas ainda não era ali que íamos tirar a barriga de misérias. O nosso guia tinha um outro plano. Certamente tem intervenção divina Depois de deixarmos as coisas no acampamento tínhamos mais uma curta viagem de jipe pela frente até um miradouro. Em Socotra, um miradouro significa um conjunto de pedras para escalar. Antes de partirmos perguntei ao Nic, o guia, se podia ir de chinelas. Ele respondeu “tu podes”. Depois de quase uma semana juntos, ele achou que eu era uma pequena cabra-montesa como ele, mas estava errado. Claro que teria sido muito melhor ter ido de botas de caminhada! Apesar dos nomes todos que lhe chamei, enquanto subia e descia desajeitadamente os pedregulhos em direcção à vista prometida, a verdade é que lá cheguei. Ele sabia que uma vez lá em cima, não há como não esquecer tudo o resto. Mais uma vez, vindo de uma ateia ferrenha, podiam simplesmente usar aquela paisagem como prova que Deus existe. Uma língua gigante de areia branca surge entre o mar mais cristalino do planeta e uma lagoa rodeada de montanhas rochosas. Tudo é perfeito. Depois de muitos suspiros e de termos usado todos os adjectivos possíveis para descrever aquele lugar, estava finalmente na hora de mergulhar. Posso afirmar, aqui e agora, que foi o melhor banho de praia da minha vida e a melhor praia em que alguma vez estive. Não conseguíamos parar de sorrir! Tínhamos a melhor praia do mundo para nós e para uns miúdos locais que apanham chocos e raias com as mãos e brincam com estrelas do mar. Penso que poderia ter ficado uma semana só naquele lugar. O regresso até ao acampamento foi feito a andar pela lagoa e à chegada esperava-nos um peixinho grelhado e uma sesta à sombra. Já tinha mencionado que estava no paraíso? Sobe e não olha: árvores fotogénicas e lanternas pouco fiáveis As últimas horas de sol do dia iam levar-nos à árvore mais famosa de Socotra e ao pôr do sol mais épico que vimos. Para lá chegar, tínhamos que subir durante quase uma hora até ao topo de uma rocha bem alta. Como em grupo o passo de caminhada é diferente para todos, o Nic incentivou-me a mim e ao Will a descobrir o caminho por nós próprios apenas apontando e dizendo “é naquela direcção”. Mais uma vez: asneira. Fomos por um caminho muito mais difícil e exposto que o caminho “oficial” e quando demos por nós estávamos a fazer escalada em vez de caminhar. Lá percebemos que devíamos ter ido para cima em vez de em frente e tentando não olhar para baixo, voltámos ao trilho suposto. Ultrapassando os últimos obstáculos finalmente vimos não só aquilo que estávamos ali para ver, a árvore garrafa em flor, mas a lagoa na sua plenitude. Ali ficámos embevecidos, a tirar fotografias que nunca farão justiça à realidade e a conversar até não termos mais luz. Antes de sairmos do acampamento o Nic tinha-nos avisado para levarmos as nossas lanternas. Nem todos tínhamos, mas entre telemóveis e lanternas, achávamos que estávamos preparados. Quando deixámos de ter luz natural e tivemos que ligar as lanternas começaram a surgir os problemas. Entre telemóveis cujas lanternas não ligavam e lanternas cuja bateria acabou em dez minutos (como a minha), passámos de umas seis lanternas a três. O resultado foi um belo exercício de team building e uma descida muito lenta. Teve a vantagem de ser muito mais fácil descer do que subir porque como não conseguíamos ver o abismo ao lado dos nossos pés tínhamos mais confiança. À chegada, encontrámos os nossos condutores à nossa espera que até puseram uma musiquinha para a nossa dança da vitória e celebração de sobrevivência. Claro que nessa noite dormimos que nem uma pedra, embalados por mais uma refeição deliciosa e um banho a três. “Esta é a minha aldeia” O último dia da viagem surgiu mais depressa do que devia. Por mim tinha ficado mais uma ou duas semanas afastada da “civilização”. Não querendo perder o nosso último nascer do sol, recrutei o Will e subimos até um novo pedregulho para um momento de deslumbramento e contemplação. Quando tanto o sol e o nosso grupo já tinham acordado, saímos em direção a Qalansiyah a segunda maior “cidade” de Socotra. Desta vez nós, as mulheres, tínhamos que deixar os calções e tops no acampamento e usar roupas um pouco menos reveladoras. Nesse dia éramos os convidados de honra de uma família Socotri para o almoço. E não era uma família qualquer. A família do Abdullah, que também foi nosso guia nesse dia, vive numa aldeia a uma hora e meio de barco de Qalansiyah. Na aldeia habitam apenas membros da família dele, cerca de 50 pessoas. Ali, a consanguinidade é o pão nosso de cada dia. Mas antes de lá chegarmos tínhamos a tal viagem de barco pela frente. Todos tínhamos algumas expectativas para este percurso, porque sabíamos que a probabilidade de vermos algo extraordinário era alta. Entre golfinhos, cardumes e até baleias, tudo depende da tua sorte! Nesse dia o mar não estava tipo piscina e tínhamos pouco mais de dois ou três metros de visibilidade debaixo de água. Mesmo assim, avistámos um ou dois golfinhos. Mas foi quando parámos perto de umas rochas para alguns dos nossos companheiros darem um mergulho que começámos a ver, não tão longe, mais e mais barbatanas de golfinhos a aparecer. Os nossos capitães dirigiram-se para a zona rapidamente e do nada estávamos no meio de um grupo de centenas golfinhos! Apareciam de todos os lados, em todas as direções, a fazer mil e uma acrobacias. Foi um momento incrível onde fiquei muita grata por ter escolhido uma agência que nos permitiu parar e ficar ali a testemunhar aquele momento sem pressas de regresso! Quando os últimos golfinhos passaram por nós, voltámos a ligar os motores e a fazer o troço final até à praia e aldeia de Shoab. Como estávamos com o Abdullah, tivemos o privilégio de ser os únicos com autorização para visitar a praia e aldeia de Shoab. A família dele é dona daquela parte de Socotra e como tal só recebem quem querem. Antes de atracarmos os barcos ainda fomos buscar o almoço a um primo dele: lagosta! A vida num (bonito) fim do mundo Alguns rostos sorridentes e tímidos deram-nos as boas vindas enquanto entravámos num complexo de pequenas casas rudimentares. Quatro paredes, um telhado, uma porta e duas janelas pequeninas. No chão, tapetes para nos sentarmos e, como mobília, apenas um armário. Ali dormiriam pelo menos quatro ou seis pessoas quando os turistas desaparecessem. Explicaram-nos que originalmente viviam noutra aldeia, ainda mais perto da água. Mas em 2015 Socotra foi atingida por um tornado e tiveram que fugir quando viram as suas casas destruídas pela força do vento e do mar. Durante a altura das monções não sei quanto a salvo estará esta nova localização, mas o tempo o dirá. Explicaram-nos que ali são todos primos e falam com uma naturalidade desconcertante dos casamentos entre eles. Inicialmente pensávamos que estávamos a ouvir mal, mas rapidamente concluímos que não. Para dizer a verdade, Shoab é um lugar tão remoto que seria difícil não acontecer. Visitámos a cozinha comunitária e outras casas parecidas à primeira onde fomos recebidos. E descobrimos novas técnicas para embalar bebés! Quando acabámos a visita encontrámos os famosos piratas da região. Não, não são os piratas da Somália e do filme Captain Phillips. São os miúdos que usam barris antigos como pequenos barcos e chinelas como remos. Todos os dias brincam e fazem quilómetros daquela forma. Até nos deixaram experimentar! Claro que o nossos corpinhos de adultos não foram feitos para aquilo e em menos de nada estávamos a afundar os barcos enquanto os miúdos gozavam connosco. Antes do almoço afastámo-nos um pouco da aldeia e fomos nadar debaixo de um sol escaldante. Claro que Socotra tem sempre uma surpresa preparada e durante esse banho duas tartarugas juntaram-se a nós. Secos e vestidos, fomos chamados para o almoço. E que almoço. Estava servida a melhor refeição da viagem! Já tínhamos comido lagosta num dos primeiros dias, mas estas lagostas estavam cozinhadas na perfeição e acampanhadas de um dos melhores arrozes da minha vida. Acho que podia ter comido um quilo daquele arroz sozinha. A sobremesa? Uma sesta, claro. HOLD, HOLD, HOLD Despedimo-nos da família do Abdullah a indagar como seria viver ali uma vida inteira. Na viagem de volta o vento tinha aumentado e não vimos mais vida marinha. O meu sonho de ver um tubarão-baleia tinha que ficar para a próxima. Passado uma hora e pouco começámos a avistar Qalansiyah. Os contornos da cidade pescatória tornavam-se cada vez mais definidos e a velocidade do barco não parecia abrandar. Por outro lado, estava a aumentar! Nos últimos 100 metros, quando já só me pergunto “mas que raio é que eles estão a fazer”?! Ouço-os a gritar “HOLD, HOLD, HOLD!” enquanto o nosso barco entrava a toda a velocidade pela areia dentro e nós somos projectados para a frente, uns mais preparados que outros. A Ambra foi parar às virilhas do Abdullah. Não sei se alguém lhes mostrou filmes do James Bond ou da Missão Impossível e eles acharam que era uma boa opção atracar aqueles barquitos de madeira como uma lança supersónica, mas pareciam contentíssimos com as suas competências de condução de barcos. Com os corações já a bater a um ritmo saudável, voltámos para os jipes e passámos a tarde qual bacalhau demolhado na lagoa de Detwah. Momentos introspectivos e despedidas Tínhamos chegado ao dia dos “últimos”. O último banho, o último pôr do sol, o último “duche”, o último jantar. Como o nosso voo tinha mudado de hora (o costume), na manhã seguinte já não teríamos tempo de fazer mais nada senão conduzir até ao aeroporto. Uma semana não é muito tempo, mas quando se vive 24 horas por dia na companhia das mesmas pessoas em circunstâncias como as de Socotra, há um inevitável sentimento de camaradagem no ar. Enquanto vivíamos o nosso último pôr do sol, já não estávamos só a aparvalhar, mas também a reflectir sobre aquela semana e o que nos levou a descobrir aquele estranho lugar que se tinha revelado absolutamente magnético. Depois do jantar, sentámo-nos todos mais o staff com um copo de chá na mão, enquanto um por um expressámos, com mais ou menos palavras, os nossos agradecimentos por o que aquela equipa fez por nós durante aqueles dias. A verdade é que eles trabalham incansavelmente, mesmo durante o Ramadão, para ter a certeza que nada nos faltava. Nessa noite fomos dormir um pouco mais cabisbaixos que nas noites anteriores, mas com um despertador posto para tão cedo como o costume. A viagem de Detwah até ao aeroporto foi tão bonita, com os raios de sol a penetrar pelas montanhas, que fiquei ainda mais triste por me estar a despedir daquele lugar. Já no aeroporto dissemos adeus à equipa que tão bem nos tratou durante aquela semana e ao Nic que foi uma mistura de nosso pai e amigo. Passada a segurança, que inclui umas boas apalpadelas por parte de mulheres Socotris de burca numa cabine, sentámo-nos à espera do avião enquanto encontrávamos uma ou outra pessoa com quem tínhamos trocado palavras uma semana atrás antes de embarcarmos nesta aventura. Agora cada um tinha o seu grupo. Foi aqui que percebemos que tínhamos feito a escolha certa em ir com a Welcome to Socotra. Apesar de toda a gente ter gostado da experiência, havia algumas queixas com coisas com as quais nunca tivemos que nos preocupar. Duas...

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As religiões passaram milénios a vender um conceito intangível de paraíso quando podiam simplesmente ter dito “é como Detwah”. Simples e, quase que garanto, mais eficaz.

As nossas duas últimas noites em Socotra passaram-se à beira da lagoa Detwah, lagoa essa cuja existência eu desconhecia até o nosso jipe parar à sua beira.

Já a ressacar por um banho de mar, estávamos mortinhos para nos enfiarmos na água, mas ainda não era ali que íamos tirar a barriga de misérias. O nosso guia tinha um outro plano.

Certamente tem intervenção divina

Depois de deixarmos as coisas no acampamento tínhamos mais uma curta viagem de jipe pela frente até um miradouro. Em Socotra, um miradouro significa um conjunto de pedras para escalar. Antes de partirmos perguntei ao Nic, o guia, se podia ir de chinelas. Ele respondeu “tu podes”.

Depois de quase uma semana juntos, ele achou que eu era uma pequena cabra-montesa como ele, mas estava errado. Claro que teria sido muito melhor ter ido de botas de caminhada! Apesar dos nomes todos que lhe chamei, enquanto subia e descia desajeitadamente os pedregulhos em direcção à vista prometida, a verdade é que lá cheguei.

Ele sabia que uma vez lá em cima, não há como não esquecer tudo o resto. Mais uma vez, vindo de uma ateia ferrenha, podiam simplesmente usar aquela paisagem como prova que Deus existe.


Uma língua gigante de areia branca surge entre o mar mais cristalino do planeta e uma lagoa rodeada de montanhas rochosas. Tudo é perfeito.

Depois de muitos suspiros e de termos usado todos os adjectivos possíveis para descrever aquele lugar, estava finalmente na hora de mergulhar. Posso afirmar, aqui e agora, que foi o melhor banho de praia da minha vida e a melhor praia em que alguma vez estive. Não conseguíamos parar de sorrir!


Tínhamos a melhor praia do mundo para nós e para uns miúdos locais que apanham chocos e raias com as mãos e brincam com estrelas do mar. Penso que poderia ter ficado uma semana só naquele lugar.

O regresso até ao acampamento foi feito a andar pela lagoa e à chegada esperava-nos um peixinho grelhado e uma sesta à sombra. Já tinha mencionado que estava no paraíso?



Sobe e não olha: árvores fotogénicas e lanternas pouco fiáveis

As últimas horas de sol do dia iam levar-nos à árvore mais famosa de Socotra e ao pôr do sol mais épico que vimos. Para lá chegar, tínhamos que subir durante quase uma hora até ao topo de uma rocha bem alta. Como em grupo o passo de caminhada é diferente para todos, o Nic incentivou-me a mim e ao Will a descobrir o caminho por nós próprios apenas apontando e dizendo “é naquela direcção”. Mais uma vez: asneira.

Fomos por um caminho muito mais difícil e exposto que o caminho “oficial” e quando demos por nós estávamos a fazer escalada em vez de caminhar. Lá percebemos que devíamos ter ido para cima em vez de em frente e tentando não olhar para baixo, voltámos ao trilho suposto.


Ultrapassando os últimos obstáculos finalmente vimos não só aquilo que estávamos ali para ver, a árvore garrafa em flor, mas a lagoa na sua plenitude. Ali ficámos embevecidos, a tirar fotografias que nunca farão justiça à realidade e a conversar até não termos mais luz.


Antes de sairmos do acampamento o Nic tinha-nos avisado para levarmos as nossas lanternas. Nem todos tínhamos, mas entre telemóveis e lanternas, achávamos que estávamos preparados. Quando deixámos de ter luz natural e tivemos que ligar as lanternas começaram a surgir os problemas. Entre telemóveis cujas lanternas não ligavam e lanternas cuja bateria acabou em dez minutos (como a minha), passámos de umas seis lanternas a três.

O resultado foi um belo exercício de team building e uma descida muito lenta. Teve a vantagem de ser muito mais fácil descer do que subir porque como não conseguíamos ver o abismo ao lado dos nossos pés tínhamos mais confiança.

À chegada, encontrámos os nossos condutores à nossa espera que até puseram uma musiquinha para a nossa dança da vitória e celebração de sobrevivência.

Claro que nessa noite dormimos que nem uma pedra, embalados por mais uma refeição deliciosa e um banho a três.

“Esta é a minha aldeia”

O último dia da viagem surgiu mais depressa do que devia. Por mim tinha ficado mais uma ou duas semanas afastada da “civilização”. Não querendo perder o nosso último nascer do sol, recrutei o Will e subimos até um novo pedregulho para um momento de deslumbramento e contemplação.


Quando tanto o sol e o nosso grupo já tinham acordado, saímos em direção a Qalansiyah a segunda maior “cidade” de Socotra. Desta vez nós, as mulheres, tínhamos que deixar os calções e tops no acampamento e usar roupas um pouco menos reveladoras. Nesse dia éramos os convidados de honra de uma família Socotri para o almoço. E não era uma família qualquer.

A família do Abdullah, que também foi nosso guia nesse dia, vive numa aldeia a uma hora e meio de barco de Qalansiyah. Na aldeia habitam apenas membros da família dele, cerca de 50 pessoas. Ali, a consanguinidade é o pão nosso de cada dia.


Mas antes de lá chegarmos tínhamos a tal viagem de barco pela frente. Todos tínhamos algumas expectativas para este percurso, porque sabíamos que a probabilidade de vermos algo extraordinário era alta. Entre golfinhos, cardumes e até baleias, tudo depende da tua sorte!

Nesse dia o mar não estava tipo piscina e tínhamos pouco mais de dois ou três metros de visibilidade debaixo de água. Mesmo assim, avistámos um ou dois golfinhos.

Mas foi quando parámos perto de umas rochas para alguns dos nossos companheiros darem um mergulho que começámos a ver, não tão longe, mais e mais barbatanas de golfinhos a aparecer.

Os nossos capitães dirigiram-se para a zona rapidamente e do nada estávamos no meio de um grupo de centenas golfinhos! Apareciam de todos os lados, em todas as direções, a fazer mil e uma acrobacias. Foi um momento incrível onde fiquei muita grata por ter escolhido uma agência que nos permitiu parar e ficar ali a testemunhar aquele momento sem pressas de regresso!

Quando os últimos golfinhos passaram por nós, voltámos a ligar os motores e a fazer o troço final até à praia e aldeia de Shoab.


Como estávamos com o Abdullah, tivemos o privilégio de ser os únicos com autorização para visitar a praia e aldeia de Shoab. A família dele é dona daquela parte de Socotra e como tal só recebem quem querem. Antes de atracarmos os barcos ainda fomos buscar o almoço a um primo dele: lagosta!


A vida num (bonito) fim do mundo

Alguns rostos sorridentes e tímidos deram-nos as boas vindas enquanto entravámos num complexo de pequenas casas rudimentares. Quatro paredes, um telhado, uma porta e duas janelas pequeninas. No chão, tapetes para nos sentarmos e, como mobília, apenas um armário. Ali dormiriam pelo menos quatro ou seis pessoas quando os turistas desaparecessem.

Explicaram-nos que originalmente viviam noutra aldeia, ainda mais perto da água. Mas em 2015 Socotra foi atingida por um tornado e tiveram que fugir quando viram as suas casas destruídas pela força do vento e do mar. Durante a altura das monções não sei quanto a salvo estará esta nova localização, mas o tempo o dirá.


Explicaram-nos que ali são todos primos e falam com uma naturalidade desconcertante dos casamentos entre eles. Inicialmente pensávamos que estávamos a ouvir mal, mas rapidamente concluímos que não. Para dizer a verdade, Shoab é um lugar tão remoto que seria difícil não acontecer.

Visitámos a cozinha comunitária e outras casas parecidas à primeira onde fomos recebidos. E descobrimos novas técnicas para embalar bebés! Quando acabámos a visita encontrámos os famosos piratas da região. Não, não são os piratas da Somália e do filme Captain Phillips. São os miúdos que usam barris antigos como pequenos barcos e chinelas como remos.


Todos os dias brincam e fazem quilómetros daquela forma. Até nos deixaram experimentar! Claro que o nossos corpinhos de adultos não foram feitos para aquilo e em menos de nada estávamos a afundar os barcos enquanto os miúdos gozavam connosco.

Antes do almoço afastámo-nos um pouco da aldeia e fomos nadar debaixo de um sol escaldante. Claro que Socotra tem sempre uma surpresa preparada e durante esse banho duas tartarugas juntaram-se a nós.

Secos e vestidos, fomos chamados para o almoço. E que almoço. Estava servida a melhor refeição da viagem! Já tínhamos comido lagosta num dos primeiros dias, mas estas lagostas estavam cozinhadas na perfeição e acampanhadas de um dos melhores arrozes da minha vida. Acho que podia ter comido um quilo daquele arroz sozinha.


A sobremesa? Uma sesta, claro.


HOLD, HOLD, HOLD

Despedimo-nos da família do Abdullah a indagar como seria viver ali uma vida inteira. Na viagem de volta o vento tinha aumentado e não vimos mais vida marinha. O meu sonho de ver um tubarão-baleia tinha que ficar para a próxima.

Passado uma hora e pouco começámos a avistar Qalansiyah. Os contornos da cidade pescatória tornavam-se cada vez mais definidos e a velocidade do barco não parecia abrandar. Por outro lado, estava a aumentar!

Nos últimos 100 metros, quando já só me pergunto “mas que raio é que eles estão a fazer”?! Ouço-os a gritar HOLD, HOLD, HOLD!” enquanto o nosso barco entrava a toda a velocidade pela areia dentro e nós somos projectados para a frente, uns mais preparados que outros. A Ambra foi parar às virilhas do Abdullah.

Não sei se alguém lhes mostrou filmes do James Bond ou da Missão Impossível e eles acharam que era uma boa opção atracar aqueles barquitos de madeira como uma lança supersónica, mas pareciam contentíssimos com as suas competências de condução de barcos.

Com os corações já a bater a um ritmo saudável, voltámos para os jipes e passámos a tarde qual bacalhau demolhado na lagoa de Detwah.


Momentos introspectivos e despedidas

Tínhamos chegado ao dia dos “últimos”. O último banho, o último pôr do sol, o último “duche”, o último jantar. Como o nosso voo tinha mudado de hora (o costume), na manhã seguinte já não teríamos tempo de fazer mais nada senão conduzir até ao aeroporto.

Uma semana não é muito tempo, mas quando se vive 24 horas por dia na companhia das mesmas pessoas em circunstâncias como as de Socotra, há um inevitável sentimento de camaradagem no ar. Enquanto vivíamos o nosso último pôr do sol, já não estávamos só a aparvalhar, mas também a reflectir sobre aquela semana e o que nos levou a descobrir aquele estranho lugar que se tinha revelado absolutamente magnético.


Depois do jantar, sentámo-nos todos mais o staff com um copo de chá na mão, enquanto um por um expressámos, com mais ou menos palavras, os nossos agradecimentos por o que aquela equipa fez por nós durante aqueles dias. A verdade é que eles trabalham incansavelmente, mesmo durante o Ramadão, para ter a certeza que nada nos faltava.

Nessa noite fomos dormir um pouco mais cabisbaixos que nas noites anteriores, mas com um despertador posto para tão cedo como o costume.

A viagem de Detwah até ao aeroporto foi tão bonita, com os raios de sol a penetrar pelas montanhas, que fiquei ainda mais triste por me estar a despedir daquele lugar.

Já no aeroporto dissemos adeus à equipa que tão bem nos tratou durante aquela semana e ao Nic que foi uma mistura de nosso pai e amigo. Passada a segurança, que inclui umas boas apalpadelas por parte de mulheres Socotris de burca numa cabine, sentámo-nos à espera do avião enquanto encontrávamos uma ou outra pessoa com quem tínhamos trocado palavras uma semana atrás antes de embarcarmos nesta aventura.

Agora cada um tinha o seu grupo. Foi aqui que percebemos que tínhamos feito a escolha certa em ir com a Welcome to Socotra. Apesar de toda a gente ter gostado da experiência, havia algumas queixas com coisas com as quais nunca tivemos que nos preocupar.

Duas horas depois, já em Abu Dhabi, o momento inevitável da despedida tinha chegado. Entre algumas lágrimas, fizemos promessas de nos tentarmos voltar a ver algures no tempo. Algumas reuniões já aconteceram, outras talvez nunca irão acontecer. Ficam as memórias dos momentos incríveis que partilhámos neste lugar tão único e especial que é Socotra.


O meu relato acaba aqui, espero ter conseguido transmitir um bocadinho da magia de Socotra. Se tiveres alguma dúvida ou questão, pergunta aqui ou no Instagram!

Dicas e informações úteis sobre como viajar para Socotra

Agência: A escolha que vai definir a tua viagem. Penso que hoje já haja mais alguma informação online, nomeadamente no Trip Advisor, sobre as diferentes agências que operam em Socotra. Em Abril de 2022, a ilha acabava de abrir ao turismo depois do Covid e as reviews eram escassas. Felizmente encontrei a Welcome to Socotra que, apesar de um número suspeito de cinco estrelas, me pareceu a melhor opção. Depois da minha viagem, percebi por que é que todas as reviews deles eram tão boas. Podem ser a agência mais cara da ilha, mas também é a agência que te leva a todos os sítios de difícil acesso e que tem a melhor comida. Se gostas de caminhar e queres experiênciar Socotra a sério, esta é sem dúvida a escolha certa.

Custos & dinheiro: Devo dizer que o pessoal que gere a Welcome to Socotra não foram feitos para responder a e-mails. Secos e directos, não falam com muita simpatia ou floreados. Em pessoa são cinco estrelas. Mas quando estás prestes a enviar milhares de euros para um banco no Abu Dhabi, parece um pouco suspeito.

Quando fui, e não sei se os preços continuam iguais, paguei 1650 USD por transferência bancária e depois levei mais 1170 USD para pagar o resto. Os dólares têm de ser emitidos depois de 2009.

Convém levares mais uns 70 a 100 dólares como gorjeta que são distribuídos por toda equipa no fim.

Incluído no preço está: Voo de ida e volta de Abu Dhabi para Socotra, visto do Iémen, uma semana de alojamento (tendas, colchões, almofadas e lençóis), três refeições diárias, água, transporte (jipes) e acompanhamento do guia.

Altura do ano: Socotra está fechada ao turismo de Junho a Setembro por causa da época das monções. Pessoalmente acho que ir do fim de Abril ao início de Outubro é um pouco arriscado porque ainda podes levar com o resto do mau tempo.

Eu fui no início de Abril e, apesar de ter visto a piscina infinito com pouca água, foi uma boa altura porque as árvores garrafa estavam todas floridas! Penso que do fim de Fevereiro ao início de Abril seja a melhor altura para visitar Socotra.

Voos e estadia em Abu Dhabi: Para chegares a Socotra precisas primeiro de chegar a Abu Dhabi. Só existe um voo por semana até à ilha que é marcado pela a agência e faz parte do preço.

Eu cheguei a Abu Dhabi com a Wizzair e voltei com a Emirates, mas parti de Londres. Aconselho-te a chegar um dia antes do teu vôo e a marcar o regresso um dia depois de voltares de Socotra, porque os voos para Socotra mudam de horário constantemente e mais vale prevenir que remediar. O aeroporto de Abu Dhabi tem um Permier Inn que dá imenso jeito para quem não tem muito tempo entre voos.

Fazer a mala: O clima em Socotra pode ser um pouco agreste, principalmente no que toca ao calor. É indispensável levar chapéu e boné, protector solar e idealmente tecidos leves e largos que cubra bem os ombros, peito e braços para não te transformares numa lagosta como eu. Mesmo com cuidado fiquei muito escaldada.

Se fores mulher, leva umas calças largas e uma t-shirt sem decote para os dias em que tens que voar e ir às vilas e aldeias. Não é preciso cobrir o cabelo.

Em termos práticos, uma lanterna para a cabeça é indispensável. Não há rede na ilha, por isso a bateria do telemóvel dura mais! Podes carregar o telemóvel e outros dispositivos com USB no carro, mas não vai haver tomadas. Uma power bank dá jeito.

Toalhitas biodegradáveis, champô e condicionador em barra e sabonetes também são bem vindos. Eu também levei uma máscara de snorkeling para não ter que alugar lá.

Interferência com os Estados Unidos: Se decidires ir a Socotra ficas impedindo/a de pedir o ESTA para visitares os Estados Unidos. Para visitares o país terás que ir a uma entrevista na embaixada. O lado positivo é que depois ficas com um visto de dez anos para visitar os Estados Unidos. O custo são 160$ e tens que fazer tudo com tempo porque muitas vezes são precisos vários meses até se conseguir uma entrevista.

Nota sobre o Dubai: Inicialmente o meu plano era visitar Abu Dhabi durante um ou dois dias, nomeadamente o Louvre e a famosa mesquita Sheikh Zayed Grand Mosque. Contudo, as regras COVID do Abu Dhabi era mais estritas do que as do Dubai e acabei por ter que passar lá um dia. Foi o lugar que já visitei que menos gostei. É um sítio sem graça nenhuma, sem alma. Um parque de diversões para adultos ricos. Se tiveres que lá ficar e precisares de um alojamento barato, eu fiquei no 1 World Dubai que apesar de não ser nada de especial, está bem localizado – ao lado de uma praia com vista para arranha céus… – com acesso a pé até ao metro que te leva ao aeroporto.

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2# Diários de Socotra: Sangue de Dragão e vida selvagem https://www.mudancasconstantes.com/2022/10/23/socotra-sangue-dragao-dragoeiro/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=socotra-sangue-dragao-dragoeiro https://www.mudancasconstantes.com/2022/10/23/socotra-sangue-dragao-dragoeiro/#respond Sun, 23 Oct 2022 09:08:55 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9183 A beleza implica sacrifício e, neste caso, acordar antes das galinhas. Com os olhos semicerrados saímos das nossas tendas, directamente para os jipes que nos iam levar até ao sopé das dunas mais altas de Arher. A partir daí era sempre a subir. Não sei se já alguma vez subiste dunas, mas é ingrato. A cada passo que se dá para cima, desce-se meio. Em cinco minutos os gémeos estão a arder e o coração a sair pela boca. Problema: ainda faltavam mais vinte minutos disto até chegar ao topo. Seguimos lentamente, com as lanternas na cabeça a iluminarem-nos o caminho e, apesar de algumas paragens, chegámos antes da alvorada. A última duna é a mais inclinada e é feita praticamente de gatas. Tudo isto não interessa nada, claro. Do outro lado da duna está uma paisagem tão surreal que nem em filmes vi tal coisa. A areia, branca como cal com ondas desenhadas pelo vento. O mar, azul-turquesa, impávido e sereno. E o céu, a clarear lentamente em tons que começam no roxo, passam pelo laranja e acabam no amarelo. Nalguns vídeos o único barulho que se ouve é o da nossa respiração. Parece o cenário perfeito para um momento de silêncio e introspecção. Não no nosso grupo. Bastou recuperamos o fôlego que já tínhamos uns a pousar como a influencer russa para as fotos e outros a fazer de galos e galinhas. O nosso guia só se perguntava “que raio de pessoas é que eu juntei neste grupo”. Quando o sol já ia alto e a bateria das nossas câmeras fraquejava, iniciou-se a descida. Descer dunas é uma alegria e descer dunas do tamanho de prédios é uma alegria ainda maior. Como a Ambra tinha medo de alturas, descemos de mãos dadas mais a Thich até ao fim. Este é um lugar ao qual não me importaria de voltar mil vezes e razão mais que suficiente para ter feito com que esta viagem valesse a pena. “I’m a fish, I like to swim” Infelizmente estava na hora de dizer adeus a Arher e de nos encaminharmos para o lado oposto da ilha. Mas primeiro, tínhamos uma boa hora de snorkeling pela frente. Máscaras e barbatanas postas, fomos explorar uma Socotra subaquática. Perto da costa vimos alguns corais e peixes de mil cores. Cardumes formavam-se à nossa volta. Mais à frente tivemos uma sorte de avistar duas tartarugas que nadavam calmamente. Não creio que Socotra tenha a fauna aquática mais impressionante do mundo, mas principalmente para quem está habituado a águas europeias é um regalo para os olhos.Nessa tarde a sesta foi feita à sombra de umas palhotas à beira-mar depois de um repasto de frango frito. Agora sim, íamos para o Deserto Branco! Intimidades em grupo Tal como o nome indica, o deserto branco é composto por um mar de dunas brancas. Ao contrário das de Arher, estas são dunas baixinhas, mas prolongam-se por uma extensão tão grande que criam um mini deserto. Com camelos e tudo! Fizemos um reconhecimento inicial com um passeio até ao pôr do sol e depois seguiram-se duas actividades de grupo que normalmente se fazem em privado. Encorajadas pela nossa ligação matinal na descida das dunas, eu, a Ambra e a Thich decidimos ir por esse deserto “adentro” para encontrar um sítio que nos servisse de casa de banho. Eventualmente cada uma tomou o seu caminho e depois de algum silêncio começou-se a ouvir “eu já estou”, “eu também!”. Mais leves, voltámos ao acampamento para irmos buscar as tralhas para o banho. Este era o primeiro acampamento com um duche a sério. Até uma máscara hidratante íamos pôr! Não querendo esperar umas pelas outras e evitando desperdícios de água, lá nos metemos todas no mesmo cubículo. Nada melhor para fortalecer uma amizade que um duche a três! Pela primeira vez desde que tínhamos chegado à ilha jantámos na presença de outros grupos. Nós, que achávamos que éramos o grupo mais bem-disposto de sempre, deparámo-nos com a triste realidade de não sermos o grupo que se ria mais alto… Com o ego ferido, passámos o jantar a fingir que nos riamos muito, em jeito de competição. Eventualmente aceitámos a derrota. Com o estômago aconchegado com um maravilhoso borrego preparado pelo chefe Abdullah e o despertador programado para mais tarde que o habitual, retirámo-nos para as nossas tendas para uma noite tranquila. Nascer do sol Americano e a dura realidade de viver numa ilha quase deserta Depois de três dias a acordar cedo para ver o nascer do sol, já não conseguia imaginar os meus dias em Socotra sem esta parte da minha rotina. Neste dia só consegui arrastar mais um membro do grupo comigo, o Will, para ficar na palheta enquanto víamos o sol subir por entre as dunas. Acampamento arrumado, seguimos por uma pequena floresta de palmeiras baixas até chegarmos ao início de umas enormes salinas onde só trabalham mulheres. Não sendo um lugar onde habitualmente se levam os turistas, os homens não pareciam ser particularmente bem vindos. Depois de algum esforço, o nosso guia local conseguiu que uma senhora nos explicasse como apanhavam o sal. Acocoradas debaixo de um sol escaldante, estas mulheres passam o dia a apanhar cristais de sal à mão, usando uma folha de palmeira como vassoura para chegar aos mais longínquos. Vivem numas pequenas barracas à beira da salinas com as suas famílias. A extensão das salinas é enorme e só possível de capturar com um drone. Não ficámos muito tempo, mas foi um dos lugares que mais gostei de visitar na ilha e foi um privilégio ter esta pequena janela para a vida local. Grutas, mais desfiladeiros e a árvore perfeita O quinto dia foi feito de paragens curtas até chegarmos ao último destino: a maior floresta de dragoeiros de Socotra. Visitámos uma gruta com morcegos e um desfiladeiro com vista para as maiores montanhas da ilha. A partir daí, os até então escassos dragoeiros, começaram a ser mais e mais frequentes. Antes do almoço e da sesta rotineira, fizemos uma pequena caminhada até à árvore mais pitoresca de Socotra. Ali, o nosso guia Nic fez um referendo sobre se estaríamos felizes em trocar os confortos de ter uma casa de banho e duche nessa noite por ter o privilégio de dormir no meio da floresta de árvores sangue de dragão. Seríamos o primeiro grupo dele a fazê-lo, é um desafio logístico levar os jipes da cozinha até lá. Nem pestanejámos, dissemos imediatamente que sim, e deixámo-lo negociar com a equipa dele a parte mais chata da coisa. Almoçámos debaixo de um dragoeiro (claro) e aproveitámos a sombra e a brisa para passar pelas brasas. Acordámos com boas notícias, iríamos pernoitar num dos lugares mais especiais do mundo. Para não deixarmos de ter uma espécie de banho nesse dia, parámos num riacho com pouca força dentro de um desfiladeiro. Umas pequenas poças verdes serviram-nos de banheira onde chapinhámos enquanto tentávamos não ser comidos por mini caranguejos. Lavadinhos (o mais possível), entrámos nos jipes e em breve percebemos por que é que não é normal dormir junto à floresta de dragoeiros. A estrada é traiçoeira, mas felizmente os nossos motoristas pareciam ter treino de rally e lá nos fizeram chegar em segurança. À nossa espera estava o chefe Abdullah a fritar uma massa de pão fresca feita só durante o Ramadão. Enquanto ele fritava, nós estendíamos a massa. Dragoeiros até perder de vista e fogueiras noturnas Pouco antes do pôr do sol começámos a dirigir-nos para um miradouro natural no meio da floresta de dragoeiros. Embrenhados naquelas árvores, foi no topo de umas rochas pouco confortáveis que passámos uma hora a contemplar a paisagem enquanto os poucos turistas que também se encontravam por ali iam desaparecendo. O jantar foi um pouco mais parco que o normal por termos decidido dormir num dos lugares mais remotos da ilha, mas fomos compensados com uma ceia à volta da fogueira que reuniu viajantes e Socotris. Fomos dormir cedo na esperança de acordarmos com o sol estrelado, mesmo sabendo que a lua estava quase cheia. Só descobriríamos pelas 4 da manhã! Eu, as cabras e as árvores O alarme apitou e como era previsto, estrelas nem vê-las! A lua, por sua vez, brilhava orgulhosa no céu e só começou a esmorecer quando veio a luz do sol. A noite estrelada foi pelo cano abaixo, mas havia um amanhecer a olhar para árvores pré-históricas à minha espera. Neste dia não arranquei mais ninguém do saco-cama e como tal tive que refazer os passos do dia anterior até às rochas. Por obra e graça de espírito santo não tenho um mau sentido de orientação e lá dei com o miradouro do dia anterior, desta vez somente na companhia de uma ou outra cabra que por ali andava. Deixem-me que vos diga que quem ficou a dormir perdeu um dos mais belos amanheceres de Socotra. E tenho provas! No regresso ao acampamento, lembrei-me que tinha prometido uma aula de yoga aos meus queridos companheiros de viagem. Infelizmente só tive um participante que tinha tanto jeito como um rolo da massa! Sem sabermos bem como, estávamos de volta ao jipe para uma viagem até ao nosso último acampamento da semana. O Sallah, o melhor condutor de todos, continuava a não se importar com a nossa música e danças pecadoras e lá fomos ao som das Spice Girls até chegarmos novamente à costa, desta vez no oeste de Socotra. Pelo caminho ainda vimos uma creche de árvores Sangue de Dragão que estão em risco, porque as cabras adoram comê-las quando ainda são apenas pequenos arbustos. Não sei se este projecto vai ser muito bem sucedido uma vez que as cercas para as cabras não entrarem têm buracos (!), mas pode ser que eventualmente se arranje uma solução… Devo dizer que não estava à espera daquilo que encontrámos em Detwah, a última paragem. Não sei se foi falta de pesquisa ou se simplesmente não há fotografias de Socotra suficientes na internet, mas ninguém me tinha dito que aquela era a morada do Paraíso.

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A beleza implica sacrifício e, neste caso, acordar antes das galinhas. Com os olhos semicerrados saímos das nossas tendas, directamente para os jipes que nos iam levar até ao sopé das dunas mais altas de Arher.

A partir daí era sempre a subir. Não sei se já alguma vez subiste dunas, mas é ingrato. A cada passo que se dá para cima, desce-se meio. Em cinco minutos os gémeos estão a arder e o coração a sair pela boca. Problema: ainda faltavam mais vinte minutos disto até chegar ao topo.

Seguimos lentamente, com as lanternas na cabeça a iluminarem-nos o caminho e, apesar de algumas paragens, chegámos antes da alvorada. A última duna é a mais inclinada e é feita praticamente de gatas. Tudo isto não interessa nada, claro. Do outro lado da duna está uma paisagem tão surreal que nem em filmes vi tal coisa.


A areia, branca como cal com ondas desenhadas pelo vento. O mar, azul-turquesa, impávido e sereno. E o céu, a clarear lentamente em tons que começam no roxo, passam pelo laranja e acabam no amarelo. Nalguns vídeos o único barulho que se ouve é o da nossa respiração.


Parece o cenário perfeito para um momento de silêncio e introspecção. Não no nosso grupo. Bastou recuperamos o fôlego que já tínhamos uns a pousar como a influencer russa para as fotos e outros a fazer de galos e galinhas. O nosso guia só se perguntava “que raio de pessoas é que eu juntei neste grupo”.


Quando o sol já ia alto e a bateria das nossas câmeras fraquejava, iniciou-se a descida. Descer dunas é uma alegria e descer dunas do tamanho de prédios é uma alegria ainda maior. Como a Ambra tinha medo de alturas, descemos de mãos dadas mais a Thich até ao fim.

Este é um lugar ao qual não me importaria de voltar mil vezes e razão mais que suficiente para ter feito com que esta viagem valesse a pena.



“I’m a fish, I like to swim”

Infelizmente estava na hora de dizer adeus a Arher e de nos encaminharmos para o lado oposto da ilha. Mas primeiro, tínhamos uma boa hora de snorkeling pela frente.

Máscaras e barbatanas postas, fomos explorar uma Socotra subaquática. Perto da costa vimos alguns corais e peixes de mil cores. Cardumes formavam-se à nossa volta. Mais à frente tivemos uma sorte de avistar duas tartarugas que nadavam calmamente.


Não creio que Socotra tenha a fauna aquática mais impressionante do mundo, mas principalmente para quem está habituado a águas europeias é um regalo para os olhos.
Nessa tarde a sesta foi feita à sombra de umas palhotas à beira-mar depois de um repasto de frango frito.

Agora sim, íamos para o Deserto Branco!


Intimidades em grupo

Tal como o nome indica, o deserto branco é composto por um mar de dunas brancas. Ao contrário das de Arher, estas são dunas baixinhas, mas prolongam-se por uma extensão tão grande que criam um mini deserto. Com camelos e tudo!



Fizemos um reconhecimento inicial com um passeio até ao pôr do sol e depois seguiram-se duas actividades de grupo que normalmente se fazem em privado. Encorajadas pela nossa ligação matinal na descida das dunas, eu, a Ambra e a Thich decidimos ir por esse deserto “adentro” para encontrar um sítio que nos servisse de casa de banho. Eventualmente cada uma tomou o seu caminho e depois de algum silêncio começou-se a ouvir “eu já estou”, “eu também!”.


Mais leves, voltámos ao acampamento para irmos buscar as tralhas para o banho. Este era o primeiro acampamento com um duche a sério. Até uma máscara hidratante íamos pôr! Não querendo esperar umas pelas outras e evitando desperdícios de água, lá nos metemos todas no mesmo cubículo. Nada melhor para fortalecer uma amizade que um duche a três!

Pela primeira vez desde que tínhamos chegado à ilha jantámos na presença de outros grupos. Nós, que achávamos que éramos o grupo mais bem-disposto de sempre, deparámo-nos com a triste realidade de não sermos o grupo que se ria mais alto… Com o ego ferido, passámos o jantar a fingir que nos riamos muito, em jeito de competição. Eventualmente aceitámos a derrota.

Com o estômago aconchegado com um maravilhoso borrego preparado pelo chefe Abdullah e o despertador programado para mais tarde que o habitual, retirámo-nos para as nossas tendas para uma noite tranquila.

Nascer do sol Americano e a dura realidade de viver numa ilha quase deserta

Depois de três dias a acordar cedo para ver o nascer do sol, já não conseguia imaginar os meus dias em Socotra sem esta parte da minha rotina. Neste dia só consegui arrastar mais um membro do grupo comigo, o Will, para ficar na palheta enquanto víamos o sol subir por entre as dunas.


Acampamento arrumado, seguimos por uma pequena floresta de palmeiras baixas até chegarmos ao início de umas enormes salinas onde só trabalham mulheres. Não sendo um lugar onde habitualmente se levam os turistas, os homens não pareciam ser particularmente bem vindos.

Depois de algum esforço, o nosso guia local conseguiu que uma senhora nos explicasse como apanhavam o sal. Acocoradas debaixo de um sol escaldante, estas mulheres passam o dia a apanhar cristais de sal à mão, usando uma folha de palmeira como vassoura para chegar aos mais longínquos.


Vivem numas pequenas barracas à beira da salinas com as suas famílias. A extensão das salinas é enorme e só possível de capturar com um drone. Não ficámos muito tempo, mas foi um dos lugares que mais gostei de visitar na ilha e foi um privilégio ter esta pequena janela para a vida local.


Grutas, mais desfiladeiros e a árvore perfeita

O quinto dia foi feito de paragens curtas até chegarmos ao último destino: a maior floresta de dragoeiros de Socotra. Visitámos uma gruta com morcegos e um desfiladeiro com vista para as maiores montanhas da ilha. A partir daí, os até então escassos dragoeiros, começaram a ser mais e mais frequentes.


Antes do almoço e da sesta rotineira, fizemos uma pequena caminhada até à árvore mais pitoresca de Socotra. Ali, o nosso guia Nic fez um referendo sobre se estaríamos felizes em trocar os confortos de ter uma casa de banho e duche nessa noite por ter o privilégio de dormir no meio da floresta de árvores sangue de dragão.


Seríamos o primeiro grupo dele a fazê-lo, é um desafio logístico levar os jipes da cozinha até lá. Nem pestanejámos, dissemos imediatamente que sim, e deixámo-lo negociar com a equipa dele a parte mais chata da coisa.

Almoçámos debaixo de um dragoeiro (claro) e aproveitámos a sombra e a brisa para passar pelas brasas. Acordámos com boas notícias, iríamos pernoitar num dos lugares mais especiais do mundo. Para não deixarmos de ter uma espécie de banho nesse dia, parámos num riacho com pouca força dentro de um desfiladeiro. Umas pequenas poças verdes serviram-nos de banheira onde chapinhámos enquanto tentávamos não ser comidos por mini caranguejos.


Lavadinhos (o mais possível), entrámos nos jipes e em breve percebemos por que é que não é normal dormir junto à floresta de dragoeiros. A estrada é traiçoeira, mas felizmente os nossos motoristas pareciam ter treino de rally e lá nos fizeram chegar em segurança. À nossa espera estava o chefe Abdullah a fritar uma massa de pão fresca feita só durante o Ramadão. Enquanto ele fritava, nós estendíamos a massa.


Dragoeiros até perder de vista e fogueiras noturnas

Pouco antes do pôr do sol começámos a dirigir-nos para um miradouro natural no meio da floresta de dragoeiros. Embrenhados naquelas árvores, foi no topo de umas rochas pouco confortáveis que passámos uma hora a contemplar a paisagem enquanto os poucos turistas que também se encontravam por ali iam desaparecendo.


O jantar foi um pouco mais parco que o normal por termos decidido dormir num dos lugares mais remotos da ilha, mas fomos compensados com uma ceia à volta da fogueira que reuniu viajantes e Socotris.


Fomos dormir cedo na esperança de acordarmos com o sol estrelado, mesmo sabendo que a lua estava quase cheia. Só descobriríamos pelas 4 da manhã!

Eu, as cabras e as árvores

O alarme apitou e como era previsto, estrelas nem vê-las! A lua, por sua vez, brilhava orgulhosa no céu e só começou a esmorecer quando veio a luz do sol.

A noite estrelada foi pelo cano abaixo, mas havia um amanhecer a olhar para árvores pré-históricas à minha espera. Neste dia não arranquei mais ninguém do saco-cama e como tal tive que refazer os passos do dia anterior até às rochas. Por obra e graça de espírito santo não tenho um mau sentido de orientação e lá dei com o miradouro do dia anterior, desta vez somente na companhia de uma ou outra cabra que por ali andava.

Deixem-me que vos diga que quem ficou a dormir perdeu um dos mais belos amanheceres de Socotra. E tenho provas!


No regresso ao acampamento, lembrei-me que tinha prometido uma aula de yoga aos meus queridos companheiros de viagem. Infelizmente só tive um participante que tinha tanto jeito como um rolo da massa!


Sem sabermos bem como, estávamos de volta ao jipe para uma viagem até ao nosso último acampamento da semana. O Sallah, o melhor condutor de todos, continuava a não se importar com a nossa música e danças pecadoras e lá fomos ao som das Spice Girls até chegarmos novamente à costa, desta vez no oeste de Socotra.


Pelo caminho ainda vimos uma creche de árvores Sangue de Dragão que estão em risco, porque as cabras adoram comê-las quando ainda são apenas pequenos arbustos. Não sei se este projecto vai ser muito bem sucedido uma vez que as cercas para as cabras não entrarem têm buracos (!), mas pode ser que eventualmente se arranje uma solução…

Devo dizer que não estava à espera daquilo que encontrámos em Detwah, a última paragem. Não sei se foi falta de pesquisa ou se simplesmente não há fotografias de Socotra suficientes na internet, mas ninguém me tinha dito que aquela era a morada do Paraíso.

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1# Diários de Socotra: Que lugar é este? https://www.mudancasconstantes.com/2022/08/22/socotra-diarios-welcome-to-socotra/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=socotra-diarios-welcome-to-socotra https://www.mudancasconstantes.com/2022/08/22/socotra-diarios-welcome-to-socotra/#respond Mon, 22 Aug 2022 21:27:03 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9114 Socotra. Que lugar é este, desconhecido pela maioria das pessoas e um sonho para outras? Apesar de ser daquelas pessoas com uma lista interminável de viagens para “fazer em breve” Socotra nem sequer constava da lista, porque não sabia que existia! Socotra entrou na minha vida através de um vídeo no YouTube e de uma conversa numa tenda beduína no deserto Wadi Rum, na Jordânia. Não fui difícil de convencer. Bastou ver este vídeo que apareceu inusitadamente na minha página de recomendações e soube imediatamente que aquela seria a minha próxima viagem. Uma ilha remota, quase deserta, com paisagens inacreditáveis e virgens. Depois de dois anos de Covid, tinha finalmente encontrado uma aventura que me enchesse a alma! Até que me apercebi que havia uma razão para a ilha ser tão intocada e desconhecida: é quase impossível de lá chegar! Com apenas um voo humanitário semanal, sem rede de transportes, ofertas de alojamento, supermercados e restaurantes ou qualquer outra infra-estrutura turística, visitar Socotra só é possível com a ajuda de uma agência. Como podes calcular, não é barato. No fim desta série de posts vou dar mais informações sobre os custos e a preparação da viagem, mas vou só mencionar rapidamente que depois de muita pesquisa escolhi ir com a Welcome to Socotra e foi a melhor decisão que podia ter feito. A vantagem de se viajar com uma agência é que só tens que pagar e aparecer. Assim foi. No dia 11 de Abril, dei por mim na porta de embarque com destino a Socotra no aeroporto de Abu Dhabi. Senhoras e Senhores, estamos prestes a embarcar para uma nova realidade Ainda nem tínhamos descolado, já parecia que estávamos num filme. Sem saber quem seriam os meus companheiros de viagem, observava todas as pessoas que entravam no avião com grande atenção. Os turistas, meio a medo, sem saberem bem o que os esperava do outro lado e os Iemenitas e Socotris de armas (não literalmente) e bagagens a transportar bens de Abu Dhabi para voltar à sua terra natal ou visitar a família. Às mulheres, de niqab, só se viam os olhos, mas faziam-se ouvir! Não se queriam sentar ao lado de homens que não fossem da sua família. Estava instalado o caos. Com muita paciência, as hospedeiras conseguiram sentar e acalmar toda a gente e em breve estávamos a ouvir uma oração em árabe antes de partir. Não sei se era por ser Ramadão ou se é sempre assim, mas para alguém como eu que tem medo de voar, uma oração não é bem-vinda! O voo foi surpreendentemente tranquilo. Ao meu lado sentava-se uma russa com unhas de gel cor de rosa bebé, a combinar com o modelito, e eu perguntava-me se ela sabia que não ia ter casa de banho durante a próxima semana. Há um estranho nicho de turismo em Socotra de influencers russas que levam 50 mudas de roupa para tirar fotografias aprumadíssimas em paisagens paradisíacas. Felizmente, nenhuma delas se encontrava no meu grupo! Só nos últimos minutos de voo é que se começou a ver a pequena ilha de Socotra. Lá estava ela: despida de prédios, estradas e indústria. Uma ilha deserta com uma pista de aterragem usada duas vezes por semana. No “aeroporto” não há muito que enganar. Apesar de sermos só umas cem pessoas, toda a gente se empurrava como se estivéssemos na linha da frente de um festival. Aqui, o objectivo é simplesmente conseguirmos um carimbo no passaporte. No meio de toda aquela azáfama, um rapaz alto e muito bronzeado vem ter comigo e diz “és a Inês”. Tinha encontrado o meu guia! Os grupos de viagem começaram a formar-se na recolha de bagagem. Era com aquelas pessoas que ía passar todos os minutos da próxima semana. Ao grupo de viajantes juntou-se ainda uma equipa de dez Socotris que se dividia entre condutores, tradutores, cozinheiros e monta/desmonta acampamentos. Com alguma timidez, trocaram-se os primeiros cumprimentos e fizemo-nos à estrada. Não havia tempo a perder, Socotra estava à nossa espera. Uma terra de cabras e árvores estranhas O aeroporto de Socotra fica ao lado da sua maior “cidade”, Hadibo. Parece que algures no tempo já houve mais gente e mais actividade económica por ali. Há construções e áreas de serviço que agora estão sob o domínio de cabras. As estradas que contornam a cidade estão cheias de lixo e a infraestrutura é quase inexistente. Consequências da guerra no continente e do isolamento geográfico da ilha. Aprendemos que tudo o que há foi construído ou pelos Emirados Árabes Unidos, ou pela Arábia Saudita. Durante o caminho até ao nosso primeiro acampamento a paisagem transformou-se completamente. Passámos de uma região plana para uma zona quase montanhosa. As estradas de alcatrão passaram a ser de terra e cada vez mais estreitas. Antes de chegarmos ao nosso destino, vimos as nossas primeiras “árvores garrafa”. Pessoalmente, acho que lhes podiam ter dado um nome mais simpático… Elas são tão fofinhas! Gordinhas e pequeninas, estas árvores são endémicas em Socotra e estão por todo o lado. Em Abril, floridas, estavam em todo o seu esplendor. A Ambra, uma italiana do grupo, apelidou-as de “ciciotello”, um nome que se chama aos miúdos quando são baixinhos e rechonchudos. Assim lhes chamámos o resto da viagem. Foi aqui que também vimos as primeiras árvores de Incenso (Frankincense) e a primeira árvore “Sangue de Dragão” (Dragoeiro), mais uma espécie endémica em Socotra e uma visão majestosa que nos iria acompanhar nos próximos dias. Piscina quase infinita e apresentações O sol já baixava quando finalmente chegámos ao lugar onde íamos pernoitar. Trocámo-nos rapidamente para os nossos biquínis numa casa de banho (buraco com paredes) e fizemos uma curta caminhada até à piscina mais famosa de Socotra. Em Abril, depois de meses sem chuva, a piscina de infinito pouco tem: o nível da água fica demasiado baixo para termos uma vista que não seja um calhau. Mesmo assim, um banho é sempre bem vindo e foi ali, numa piscina natural, no meio de uma “montanha” com vista para o mar que começámos a descobrir as personalidades do grupo. De volta ao acampamento, as tendas estavam montadas e a mesa posta. Depois de um duche rápido no buraco com a Ambra – mais ninguém teve coragem para tomar banho – sentámo-nos para a primeira de muitas refeições deliciosas, cortesia do Chef Abdullah. Nessa noite descobrimos que do nosso grupo faziam parte oito pessoas de sete nacionalidades diferentes e que éramos todos viajantes a solo. Na manhã seguinte iniciar-se-ia o ritual de acordarmos antes das cinco da manhã para vermos o nascer do sol. Sem álcool nem telemóveis, conversámos durante algumas horas e retirámo-nos para as nossas tendas. Os alarmes estavam postos para as quatro e meia da manhã. O primeiro nascer-do-sol Ainda meios a dormir e com uma lanterna na cabeça, voltámos a caminhar até à piscina infinito, desta vez com o ar frio da alvorada. Em pouco tempo estávamos completamente acordados: parecia que tínhamos entrado num filme da Disney. Foi ali que pensei pela primeira vez “estou em África!”. O céu tinha-se tornado completamente amarelo e as formas das árvores garrafa e palmeiras, ainda nas sombras conferiam à paisagem uma aura de conto de fadas. Chegados à piscina, penso que ficámos ali quase uma hora, em silêncio, a absorver aquele lugar. Esta é uma das coisas mais preciosas de Socotra. O silêncio e a lentidão do tempo. Quando voltámos estava na mesa o primeiro de muitos pequenos almoços deliciosos com pão fresco, mel, queijo, fruta e até Nutella. Colchões, lençóis e almofadas no carro, tendas levantadas, estávamos de partida para o nosso próximo mergulho! Águas esmeralda, homens das cavernas e Will Smith À semelhança da Jordânia e de muitos outros países no médio oriente, em Socotra também há desfiladeiros para explorar. Num lugar onde está sempre calor, nada nos podia fazer mais felizes que um banho refrescante, mesmo que viesse acompanhado de uma caminhada de meia hora debaixo de um sol ardente. Este foi um dos vários sítios em Socotra que serviram de inspiração para o mais recente filme do Jurassic Park e é fácil perceber porquê. A cor da água, as formas das rochas, o terreno árido, tudo praticamente intocado até aos dias de hoje. Provavelmente, não muito diferente do aspecto que tinha quando os dinossauros andavam por aí. Quanto a nós, restava-nos mergulhar, flutuar e nadar. Até descobrimos umas pequenas cascatas que nos massajaram as costas como num spa! Momento BBC Vida Selvagem: Os ingredientes para o almoço tinham sido distribuídos pelo grupo e eu fiquei responsável pelo pão. Ora, não estou habituada a ter que me preocupar onde deixo a comida quando vou ao banho. Quando o nosso guia, o Nicoló, reparou já estava um abutre egípcio a atacar esta parte do nosso almoço que eu tinha deixado ao Deus dará! Felizmente conseguiu-se salvar a maioria do pão e a partir daí tivemos mais cuidado com a nossa comida! Almoçámos na sombra de uma pequena gruta onde começámos a partilhar histórias da nossa vida. Na hora da sesta (mais uma tradição) apareceu por lá um senhor que, pelo que percebi, vivia numa caverna ali perto e que queria conversa. Problema: ninguém conseguia comunicar com ele. A maioria desistiu até que um americano decidiu simplesmente começar a falar da vida dele em inglês. Nós, já meio a passar pelas brasas, ouvimos do nada “então e a estalada do Will Smith?!”. Para além de começarmos todos a rir, acho que também pensámos que se calhar seríamos mais felizes a viver numa caverna em Socotra sem nunca termos que ver pessoas a dar estaladas umas às outras por causa de uma piada! Mais leves e frescos, regressámos ao jipe para uma viagem longa até ao sítio que mais queria visitar em Socotra: as dunas de Arher. Pelo caminho travámos amizade com uns camaleões que são os animais de estimação dos miúdos locais e que funcionam como chamariz de turistas. E não é que resulta?! Dunas da altura de prédios e um merecido mergulho Quando acordei da minha segunda sesta do dia (dêem-me um banco de trás num carro e eu adormeço instantaneamente) já estávamos na costa. O mar azul turquesa fazia-nos salivar por mais um banho. Sabíamos que o nosso poiso estava perto quando começamos a ver as enormes dunas junto às falésias. Estas dunas, algumas de cem metros ou mais, formam-se com a força do vento na altura das monções. Ao contrário do sudeste asiático, a altura das monções em Socotra caracteriza-se por ventos fortíssimos, marés vivas e temperaturas altas. A costa norte, onde ficam as dunas, torna-se completamente inabitável. Mas naquela tarde, estavam reunidas as condições para um banho épico ao pôr do sol a olhar para aquelas montanhas de areia branca. Seguiu-se o segundo duche criativo da viagem, desta vez debaixo de um tubo posicionado estrategicamente numa rocha. Soube tão bem! Adormecemos nas nossas tendas ao som das ondas do mar e debaixo de um céu estrelado. Uma amostra de vento Que rebaldaria é esta?! Acordámos com o barulho do vento e a sensação que iríamos voar mal saíssemos das tendas. Socotra tinha decidido dar-nos uma amostra da ventania que assola a ilha de Maio a Setembro. Enquanto a equipa de suporte tentava encontrar pedras suficientemente pesadas para não deixar as tendas voar, nós tentávamos tomar o pequeno-almoço sem comer areia. A partir da mesa de refeições pudemos observar calmamente a minha tenda a fugir do alinhamento e a começar a dirigir-se em direcção à praia. Até as tendas são selvagens nesta terra! Pelas oito da manhã o vento já tinha amainado e os jipes estavam à espera para nos levarem à nossa primeira grande caminhada: íamos subir ao topo de uma ridge! (não sei que nome dar a isto em português). Dava uma capa do National Geographic Não demorou muito tempo até estarmos desesperados por uma brisa que agora teimava em chegar. No dia mais quente de toda a semana, subimos pelas rochas, sem sombra, até uma das paisagens mais...

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Socotra. Que lugar é este, desconhecido pela maioria das pessoas e um sonho para outras?

Apesar de ser daquelas pessoas com uma lista interminável de viagens para “fazer em breve” Socotra nem sequer constava da lista, porque não sabia que existia! Socotra entrou na minha vida através de um vídeo no YouTube e de uma conversa numa tenda beduína no deserto Wadi Rum, na Jordânia.

Não fui difícil de convencer. Bastou ver este vídeo que apareceu inusitadamente na minha página de recomendações e soube imediatamente que aquela seria a minha próxima viagem. Uma ilha remota, quase deserta, com paisagens inacreditáveis e virgens. Depois de dois anos de Covid, tinha finalmente encontrado uma aventura que me enchesse a alma!


Até que me apercebi que havia uma razão para a ilha ser tão intocada e desconhecida: é quase impossível de lá chegar! Com apenas um voo humanitário semanal, sem rede de transportes, ofertas de alojamento, supermercados e restaurantes ou qualquer outra infra-estrutura turística, visitar Socotra só é possível com a ajuda de uma agência. Como podes calcular, não é barato.

No fim desta série de posts vou dar mais informações sobre os custos e a preparação da viagem, mas vou só mencionar rapidamente que depois de muita pesquisa escolhi ir com a Welcome to Socotra e foi a melhor decisão que podia ter feito.

A vantagem de se viajar com uma agência é que só tens que pagar e aparecer. Assim foi. No dia 11 de Abril, dei por mim na porta de embarque com destino a Socotra no aeroporto de Abu Dhabi.

Senhoras e Senhores, estamos prestes a embarcar para uma nova realidade

Ainda nem tínhamos descolado, já parecia que estávamos num filme. Sem saber quem seriam os meus companheiros de viagem, observava todas as pessoas que entravam no avião com grande atenção.

Os turistas, meio a medo, sem saberem bem o que os esperava do outro lado e os Iemenitas e Socotris de armas (não literalmente) e bagagens a transportar bens de Abu Dhabi para voltar à sua terra natal ou visitar a família. Às mulheres, de niqab, só se viam os olhos, mas faziam-se ouvir! Não se queriam sentar ao lado de homens que não fossem da sua família. Estava instalado o caos.


Com muita paciência, as hospedeiras conseguiram sentar e acalmar toda a gente e em breve estávamos a ouvir uma oração em árabe antes de partir. Não sei se era por ser Ramadão ou se é sempre assim, mas para alguém como eu que tem medo de voar, uma oração não é bem-vinda!

O voo foi surpreendentemente tranquilo. Ao meu lado sentava-se uma russa com unhas de gel cor de rosa bebé, a combinar com o modelito, e eu perguntava-me se ela sabia que não ia ter casa de banho durante a próxima semana. Há um estranho nicho de turismo em Socotra de influencers russas que levam 50 mudas de roupa para tirar fotografias aprumadíssimas em paisagens paradisíacas. Felizmente, nenhuma delas se encontrava no meu grupo!

Só nos últimos minutos de voo é que se começou a ver a pequena ilha de Socotra. Lá estava ela: despida de prédios, estradas e indústria. Uma ilha deserta com uma pista de aterragem usada duas vezes por semana.


No “aeroporto” não há muito que enganar. Apesar de sermos só umas cem pessoas, toda a gente se empurrava como se estivéssemos na linha da frente de um festival. Aqui, o objectivo é simplesmente conseguirmos um carimbo no passaporte. No meio de toda aquela azáfama, um rapaz alto e muito bronzeado vem ter comigo e diz “és a Inês”. Tinha encontrado o meu guia!

Os grupos de viagem começaram a formar-se na recolha de bagagem. Era com aquelas pessoas que ía passar todos os minutos da próxima semana. Ao grupo de viajantes juntou-se ainda uma equipa de dez Socotris que se dividia entre condutores, tradutores, cozinheiros e monta/desmonta acampamentos. Com alguma timidez, trocaram-se os primeiros cumprimentos e fizemo-nos à estrada. Não havia tempo a perder, Socotra estava à nossa espera.


Uma terra de cabras e árvores estranhas

O aeroporto de Socotra fica ao lado da sua maior “cidade”, Hadibo. Parece que algures no tempo já houve mais gente e mais actividade económica por ali. Há construções e áreas de serviço que agora estão sob o domínio de cabras. As estradas que contornam a cidade estão cheias de lixo e a infraestrutura é quase inexistente. Consequências da guerra no continente e do isolamento geográfico da ilha. Aprendemos que tudo o que há foi construído ou pelos Emirados Árabes Unidos, ou pela Arábia Saudita.


Durante o caminho até ao nosso primeiro acampamento a paisagem transformou-se completamente. Passámos de uma região plana para uma zona quase montanhosa. As estradas de alcatrão passaram a ser de terra e cada vez mais estreitas.


Antes de chegarmos ao nosso destino, vimos as nossas primeiras “árvores garrafa”. Pessoalmente, acho que lhes podiam ter dado um nome mais simpático… Elas são tão fofinhas! Gordinhas e pequeninas, estas árvores são endémicas em Socotra e estão por todo o lado. Em Abril, floridas, estavam em todo o seu esplendor. A Ambra, uma italiana do grupo, apelidou-as de “ciciotello”, um nome que se chama aos miúdos quando são baixinhos e rechonchudos. Assim lhes chamámos o resto da viagem.


Foi aqui que também vimos as primeiras árvores de Incenso (Frankincense) e a primeira árvore “Sangue de Dragão” (Dragoeiro), mais uma espécie endémica em Socotra e uma visão majestosa que nos iria acompanhar nos próximos dias.


Piscina quase infinita e apresentações

O sol já baixava quando finalmente chegámos ao lugar onde íamos pernoitar. Trocámo-nos rapidamente para os nossos biquínis numa casa de banho (buraco com paredes) e fizemos uma curta caminhada até à piscina mais famosa de Socotra.

Em Abril, depois de meses sem chuva, a piscina de infinito pouco tem: o nível da água fica demasiado baixo para termos uma vista que não seja um calhau. Mesmo assim, um banho é sempre bem vindo e foi ali, numa piscina natural, no meio de uma “montanha” com vista para o mar que começámos a descobrir as personalidades do grupo.


De volta ao acampamento, as tendas estavam montadas e a mesa posta. Depois de um duche rápido no buraco com a Ambra – mais ninguém teve coragem para tomar banho – sentámo-nos para a primeira de muitas refeições deliciosas, cortesia do Chef Abdullah.

Nessa noite descobrimos que do nosso grupo faziam parte oito pessoas de sete nacionalidades diferentes e que éramos todos viajantes a solo. Na manhã seguinte iniciar-se-ia o ritual de acordarmos antes das cinco da manhã para vermos o nascer do sol. Sem álcool nem telemóveis, conversámos durante algumas horas e retirámo-nos para as nossas tendas. Os alarmes estavam postos para as quatro e meia da manhã.



O primeiro nascer-do-sol

Ainda meios a dormir e com uma lanterna na cabeça, voltámos a caminhar até à piscina infinito, desta vez com o ar frio da alvorada.

Em pouco tempo estávamos completamente acordados: parecia que tínhamos entrado num filme da Disney. Foi ali que pensei pela primeira vez “estou em África!”. O céu tinha-se tornado completamente amarelo e as formas das árvores garrafa e palmeiras, ainda nas sombras conferiam à paisagem uma aura de conto de fadas.


Chegados à piscina, penso que ficámos ali quase uma hora, em silêncio, a absorver aquele lugar. Esta é uma das coisas mais preciosas de Socotra. O silêncio e a lentidão do tempo.

Quando voltámos estava na mesa o primeiro de muitos pequenos almoços deliciosos com pão fresco, mel, queijo, fruta e até Nutella. Colchões, lençóis e almofadas no carro, tendas levantadas, estávamos de partida para o nosso próximo mergulho!


Águas esmeralda, homens das cavernas e Will Smith

À semelhança da Jordânia e de muitos outros países no médio oriente, em Socotra também há desfiladeiros para explorar. Num lugar onde está sempre calor, nada nos podia fazer mais felizes que um banho refrescante, mesmo que viesse acompanhado de uma caminhada de meia hora debaixo de um sol ardente.

Este foi um dos vários sítios em Socotra que serviram de inspiração para o mais recente filme do Jurassic Park e é fácil perceber porquê. A cor da água, as formas das rochas, o terreno árido, tudo praticamente intocado até aos dias de hoje. Provavelmente, não muito diferente do aspecto que tinha quando os dinossauros andavam por aí.


Quanto a nós, restava-nos mergulhar, flutuar e nadar. Até descobrimos umas pequenas cascatas que nos massajaram as costas como num spa!

Momento BBC Vida Selvagem: Os ingredientes para o almoço tinham sido distribuídos pelo grupo e eu fiquei responsável pelo pão. Ora, não estou habituada a ter que me preocupar onde deixo a comida quando vou ao banho. Quando o nosso guia, o Nicoló, reparou já estava um abutre egípcio a atacar esta parte do nosso almoço que eu tinha deixado ao Deus dará! Felizmente conseguiu-se salvar a maioria do pão e a partir daí tivemos mais cuidado com a nossa comida!

Almoçámos na sombra de uma pequena gruta onde começámos a partilhar histórias da nossa vida. Na hora da sesta (mais uma tradição) apareceu por lá um senhor que, pelo que percebi, vivia numa caverna ali perto e que queria conversa. Problema: ninguém conseguia comunicar com ele. A maioria desistiu até que um americano decidiu simplesmente começar a falar da vida dele em inglês. Nós, já meio a passar pelas brasas, ouvimos do nada “então e a estalada do Will Smith?!”. Para além de começarmos todos a rir, acho que também pensámos que se calhar seríamos mais felizes a viver numa caverna em Socotra sem nunca termos que ver pessoas a dar estaladas umas às outras por causa de uma piada!

Mais leves e frescos, regressámos ao jipe para uma viagem longa até ao sítio que mais queria visitar em Socotra: as dunas de Arher. Pelo caminho travámos amizade com uns camaleões que são os animais de estimação dos miúdos locais e que funcionam como chamariz de turistas. E não é que resulta?!



Dunas da altura de prédios e um merecido mergulho

Quando acordei da minha segunda sesta do dia (dêem-me um banco de trás num carro e eu adormeço instantaneamente) já estávamos na costa. O mar azul turquesa fazia-nos salivar por mais um banho. Sabíamos que o nosso poiso estava perto quando começamos a ver as enormes dunas junto às falésias.

Estas dunas, algumas de cem metros ou mais, formam-se com a força do vento na altura das monções. Ao contrário do sudeste asiático, a altura das monções em Socotra caracteriza-se por ventos fortíssimos, marés vivas e temperaturas altas. A costa norte, onde ficam as dunas, torna-se completamente inabitável.


Mas naquela tarde, estavam reunidas as condições para um banho épico ao pôr do sol a olhar para aquelas montanhas de areia branca.

Seguiu-se o segundo duche criativo da viagem, desta vez debaixo de um tubo posicionado estrategicamente numa rocha. Soube tão bem!


Adormecemos nas nossas tendas ao som das ondas do mar e debaixo de um céu estrelado.


Uma amostra de vento

Que rebaldaria é esta?! Acordámos com o barulho do vento e a sensação que iríamos voar mal saíssemos das tendas. Socotra tinha decidido dar-nos uma amostra da ventania que assola a ilha de Maio a Setembro.

Enquanto a equipa de suporte tentava encontrar pedras suficientemente pesadas para não deixar as tendas voar, nós tentávamos tomar o pequeno-almoço sem comer areia. A partir da mesa de refeições pudemos observar calmamente a minha tenda a fugir do alinhamento e a começar a dirigir-se em direcção à praia. Até as tendas são selvagens nesta terra!


Pelas oito da manhã o vento já tinha amainado e os jipes estavam à espera para nos levarem à nossa primeira grande caminhada: íamos subir ao topo de uma ridge! (não sei que nome dar a isto em português).


Dava uma capa do National Geographic

Não demorou muito tempo até estarmos desesperados por uma brisa que agora teimava em chegar. No dia mais quente de toda a semana, subimos pelas rochas, sem sombra, até uma das paisagens mais bonitas e cruas que já vi. A caminhada em si não é muito difícil, mas o calor torna cada passo um bocadinho mais sofrido. Mas quando escalamos a última rocha e somos confrontados com Socotra no seu estado mais puro, esquecemo-nos das t-shirts ensopadas e dos inevitáveis escalões.


Sem pressas, aproveitámos aquele lugar e começámos a descer. A descida foi muito mais divertida! Entre correr na areia e “perder-me” mais o Will (um americano) porque achávamos que sabíamos o caminho de volta, esta foi mais uma de muitas aventuras. Entretanto, percebemos que tínhamos ido demasiado para a direita e mesmo assim conseguimos ser os mais rápidos a chegar. Enquanto esperávamos pelos outros corremos até à água para refrescar e mais uma vez sentimos que estávamos no paraíso. Um sentimento que se repetiu durante a viagem toda.

Com o rebanho de novo junto, fomos almoçar.

A grande sesta de Socotra

Quando está demasiado calor não há nada melhor do que dormir a sesta à sombra e esperar que passe. Foi isso que fizemos, debaixo de umas rochas junto ao mar. Parecia uma migração de lontras.

Foi ali que vimos uma das espécies raras que já mencionei no seu habitat (anti)natural. Uma rapariga russa a tirar fotografias ao seu espectacular rabo. Aos rapazes locais quase que lhes caiam os olhos. Devem ficar fascinados com esta fauna exótica.

Pelos vistos este tipo de “conteúdos” pode pôr em risco o pouco turismo que resta na ilha, uma vez que o ministério do turismo do Iémen já levantou problemas a várias agências por causa das turistas que publicam fotos de biquíni em poses provocadoras na ilha.

Para nós, foi divertidíssimo de ver, claro, e inspirou muitas poses parvas nos dias que se seguiram!


O ponto mais a nordeste, peixes pouco inteligentes e partilhas

O fim do dia trouxe-nos uma temperatura mais simpática e a possibilidade de darmos mais que dois passos de uma vez sem suar. Partimos em direção ao nordeste de Socotra até uma praia cheia de tesouros.

Ali encontrámos ossos de baleia, esqueletos de golfinhos e tartarugas e milhares de peixe balão sem vida. Aquele era um lugar solene.


Momento BBC Vida Selvagem 2: Parece que os peixe balão não são criaturas muito inteligentes, eles suicidam-se sem querer. Quando a maré enche e os traz para a praia eles ficam stressados e incham e ao flutuar acabam por não conseguir nadar de voltar para o mar. Ali ficam, a morrer na praia, literalmente.

Quando o sol se pôs, a equipa de apoio pôde finalmente quebrar o jejum e comer tâmaras e fruta que partilharam com todos. A paragem final do dia seria numa aldeia local, para conhecermos mais a fundo a realidade de quem vive em Socotra.



A vida em Socotra e uma viagem pecaminosa

Já era de noite quando chegámos à aldeia que tinha umas dez casas e uma mesquita. Em cada “casa” vivem vinte ou mais pessoas incluindo mais crianças do que as que consegui contar. Sentámo-nos no páteo exterior a beber chá de gengibre com quilos de açúcar como é típico em todo o médio oriente e a conversar

Só os homens e as crianças interagiam connosco, as mulheres estavam noutra parte da casa à qual só as mulheres do nosso grupo tiveram acesso. Os miúdos, como todos os miúdos do mundo, brincavam e tentavam ensinar-nos a contar. O mais velho, com um inglês quase perfeito, dizia orgulhosamente que um dia haveria de ser director de um banco no continente. Esperemos que sim.

No lado das mulheres, jogava-se às cartas e faziam-se tranças. A primeira pergunta é sempre “és casada?” e a segunda “tens filhos?”. No nosso grupo ninguém era nem casada, nem mãe. Penso que ficam com pena de nós!

Na altura das despedidas já cada uma das raparigas do meu grupo tinha entre duas a três crianças pelas mãos que nos tinham adoptado como amigas.

Durante a viagem de carro até à aldeia tínhamos vindo a ouvir música e a cantar, o que não é muito bem visto durante o Ramadão. Contudo, o nosso condutor, o Salah, tomou-lhe o gosto e a viagem de volta ao acampamento foi uma loucura. Entre Britney Spears aos altos berros, o Salah em modo velocidade furiosa, e as nossas danças, penso que não podíamos ter tido uma viagem muito mais pecaminosa.

A partir desse dia o tradutor/guia local que nos acompanhou nessa viagem nunca mais pôs os pés no nosso carro. Mas lá que se divertiu, divertiu!


Um jantar Michelin

O dia tinha sido longo e quando chegámos ao acampamento estávamos todos esfaimados. E não é que à nossa espera estava uma Pasta alla Lagosta com lagosta suficiente para alimentar umas cinquenta pessoas se fosse num restaurante europeu?

É inegável que ter um líder de viagens italiano tem as suas vantagens e uma delas é ele ter ensinado os cozinheiros a fazer massa!


Durante o jantar recebemos a notícia que os despertadores iriam começar a tocar às 4:00 da manhã do dia seguinte. Parece que o melhor nascer do sol da ilha era o primeiro item da lista do nosso quarto dia em Socotra.

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