Argélia Archives - Mudanças Constantes https://www.mudancasconstantes.com/category/argelia/ Blog de viagens para inquietos e irrequietos Wed, 07 Aug 2024 20:33:07 +0000 en-GB hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0.2 https://www.mudancasconstantes.com/wp-content/uploads/2018/10/cropped-Untitled-design-1-32x32.png Argélia Archives - Mudanças Constantes https://www.mudancasconstantes.com/category/argelia/ 32 32 Roadtrip de duas semanas na Argélia (+ extensão deserto) https://www.mudancasconstantes.com/2024/08/07/roadtrip-duas-semanas-argelia/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=roadtrip-duas-semanas-argelia https://www.mudancasconstantes.com/2024/08/07/roadtrip-duas-semanas-argelia/#respond Wed, 07 Aug 2024 20:32:50 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9653 A Argélia não costuma figurar nas listas de melhores países para uma viagem de carro de sonho. Provavelmente, porque mais ninguém olha para aquele país gigante e pensa “giro, giro era fazermos 4000+ quilómetros em duas semanas”. Mas foi isso mesmo que pensei e apesar dos longos dias na estrada, acho que não há melhor forma de viajar pela Argélia!  Durante a viagem passámos por cidades lindas, maravilhas da natureza, desertos sem fim, ruínas romanas e ainda tivemos tempo para um mergulho furtivo no mediterrâneo. Claro que o melhor de tudo foram as pessoas que conhecemos e a sua hospitalidade. Fomos recebidos de braços abertos, com mesas a transbordar de comida deliciosa, alguns olhares curiosos e sorrisos de orelha a orelha.  Esta é a Argélia que surpreende todos os seus visitantes:  Dia 1: Argel Argel é uma das cidades mais bonitas que já visitei. Paris caiada à beira-mar! Desde as ruas estreitas e encruzilhadas do Casbah às grandes avenidas francesas, aqui misturam-se arquitecturas, culturas e histórias.  Podes encontrar o meu post sobre Argel aqui.  Dia 2: Djemila No segundo dia saímos de Argel e seguimos para Constantine, mas tínhamos uma paragem importante a fazer pelo caminho: Djemila, as melhores ruínas romanas que vimos durante toda a viagem. Aconselho-te a sair cedo de Argel para teres tempo de fazer tudo com calma, já que provavelmente vais poder ter Djemila o seu museu só para ti (ou quase!) Tempo de condução: 5.5 horas até Constantine, passando por Djemila Podes encontrar o meu post sobre Djemila aqui.  Dia 3: Constantine A cidade das pontes é linda de todos os ângulos. Vais encontrar palácios reais, pontes que abanam por todos os lados (é suposto) e até cascatas secretas dignas de um filme do Avatar.  Podes encontrar o meu post sobre Constantine aqui.  Tempo de condução: 2.5 horas de Constantine a Batna  Dia 4: Timgad & Ghoufi  Estava na altura de rumar ao deserto! Começámos numa zona verdejante, onde há ruínas romanas com fartura (incluindo o grande complexo de Timgad) e acabámos num desfiladeiro onde as únicas árvores que sobrevivem são as palmeiras.  Esta região também marca o lugar onde se travou a primeira batalha da revolução contra a colonização francesa.  Podes encontrar o meu post sobre Timgad e Ghoufi aqui.  Tempo de condução: Cerca de 4 horas de Batna a Biskra passando por Timgad e Ghoufi  Dia 5 e 6: Ghardaia e o Vale do M’zabe Nestes dias, viajámos não só no espaço, mas também no tempo. É no Vale do M’zabe que se encontram cinco aldeias cujo modo de vida dos seus habitantes e as suas práticas culturais se preservam quase intactas, ignorando muitos progressos sociais, tecnológicos e judiciais. Um lugar para absorver, reflectir e aprender.  Nota de estrada: De Biskra para Ghardaia o Google dá duas opções de caminho. Um deles é bastante mais curto, mas é um desvio, por uma “estrada” com muitas pedras que demora muito tempo a fazer – especialmente se tiveres um carro normalíssimo como nós e não um jipe.  A coisa boa é que a estrada é deserta e não tem checkpoints da polícia, por outro lado são umas duas horas de solavancos. Fica o aviso!  Podes encontrar o meu post sobre o Vale do M’zabe aqui.  Tempo de condução: 7.5 horas de Biskra a Ghardaia Dia 7 e 8: Timimoun  Chegámos ao deserto “a sério” onde os pontos de distração na estrada não passam de dunas e camelos. Timimoun, a cidade vermelha, tem uma arquitectura única e muitos mercados onde se cruzam várias culturas e etnias subsarianas.  Aconselho explorar o centro de Timimoun durante algumas horas, idealmente com alguém local e tirar um dia para ir com um guia, de jipe, ver o que os arredores têm para oferecer.  Podes encontrar o meu post sobre Timimoun aqui.  Tempo de condução: 7.5 horas de Ghardaia a Timimoun.  Dica: Para este tipo de dias longos de condução no deserto, recomendo levar comida, água e um tanque cheio de gasolina. As estradas têm muito pouca gente, por isso as pausas para casa de banho são onde quiseres!  Dia 9 e 10: Taghit  Mais uma longa viagem por milhões de grãos de areia. Antes de chegarmos a Taghit, passámos por Beni Abbès e a sua duna gigante. Em Taghit encontrámos a paz do deserto, descobrimos que é possível andar de kayak num oásis e passeámos por pedregulhos com desenhos rupestres milenares.  Aqui, seguimos os guias do alojamento local num tour que combinava um pouco de tudo. Se quiseres fazer por ti, podes encontrar o meu post sobre Taghit aqui.  Tempo de condução: 5.5 horas de Timimoun a Taghit passando por Beni Abbès  Dia 11: El Gour  Este dia foi tão cheio de aleatoriedades que é difícil de descrever. Entre cavernas subterrâneas, pôres-do-sol esquivos e esquadras da polícia em pijama, esta foi a aventura mais épica da nossa roadtrip.  Podes encontrar todos os pormenores sobre El Gour aqui.  Tempo de condução: 5.5 horas de Taghit a El Gour  Dia 12 e 13: Oran  Depois de mais de uma semana no deserto demos à costa! Chegámos a Oran já quase ao fim do dia e assim que vimos o mar pedimos aos nossos amigos para irmos dar um mergulho.  Digamos que mulheres de biquini não é exactamente ilegal, mas também está longe de ser comum. Já quase em Novembro, as praias estavam vazias e lá fomos nós, para deleite e surpresa de uns rapazes mirones que nunca devem ter visto tal coisa.  Nessa noite, como já era hábito, fomos convidados para jantar na casa de um amigo do nosso amigo onde nos esperava um banquete feito pela mãe dele, que nunca chegámos a conhecer.  Oran, mesmo assim, é a cidade mais liberal da Argélia. No dia seguinte vimos a sua influência espanhola, o centro histórico e até descobrimos uma pastelaria francesa toda chique onde decidimos gastar mais num éclair do que a média de todas as refeições diárias – afinal, tínhamos dinheiro a mais já que toda a gente nos alimentava!  Na última noite, conhecemos a “nata” da sociedade Argelina através do Couchsurfing. No topo de um hotel – onde o álcool era permitido – conversámos com um grupo de amigos, todos fluentes em inglês e francês, com estudos no estrangeiro. As raparigas expressavam-se com uma liberdade que ainda não tinha visto.  O que me surpreende na Argélia é a pacificidade com que culturas tão diferentes co-existem. Todas as pessoas mais jovens, principalmente mulheres, que anseiam por mais liberdade têm, ao mesmo tempo, um imenso respeito e até orgulho pelo lado mais tradicional do seu país.  Tempo de condução: 6 horas de El Gour a Oran com uma paragem em Sidi Bel Abbès. Dia 14: Tipaza  O último dia de estrada. Saímos cedo de Oran porque queríamos ir pela estrada junto ao mar em vez de pela auto-estrada. Asneira. Achava eu que ia ver lindas paisagens costeiras com praias idílicas, mas não foi o caso. A estrada costeira passa por mil e uma aldeias, é MUITO lenta e tem pouco interesse. Fica a dica.  A única coisa boa foi termos dado com o Aqueduto “Maurétanien de Cherchell”, mas já é tão perto de Tipaza, que podes ir pela auto-estrada à mesma e fazer só um pequeno desvio para trás.  Por fim, Tipaza, o nosso último ponto antes de voltarmos a Argel. Aqui ficam as ruínas Romanas à beira-mar. Talvez não sejam tão impressionantes como Djemila ou Timgad, mas a sua localização geográfica torna a experiência de as visitar muito mais agradável.  Recomendaram-nos o restaurante “Le Dauphin” que não desapontou! Comemos que nem uns reis com direito a camarão grelhado e calamares fresquinhos.  Por fim, seguimos para Argel, onde celebrámos os 4,200km feitos em duas semanas. Mas a noite ainda mal tinha começado! O nosso host, o Mok, que já nos tinha acolhido nas primeiras noites, levou-me a conhecer a noite de Argel onde os restaurantes se transformam em bares e os vinhos argelinos fazem furor.  Uma coisa que adoro em países muçulmanos é a vivacidade com que os homens dançam! Não podia ter pedido melhor maneira de fechar esta viagem.  Tempo de condução: 6 horas de Oran a Argel passando por Tipaza Dia 15: De volta a Argel  O último dia foi um pouco mais lento. Meia ressacada ainda fui mostrar ao meu companheiro de viagem, o centro de Argel, que ele não tinha tido a oportunidade de ver. Se tiveres tempo, aconselho um saltinho à Flaxen Beach, não por ser particularmente bonita, mas porque sabe sempre bem pôr os pés na areia e ver casais a namorar sorrateiramente.  Assim termina uma viagem de carro épica que talvez um dia figure nas famosas compilações de blogues e sites de viagens!  Como a Argélia é um país absolutamente gigante, segue a sugestão de uma semana de viagem extra, desta vez no deserto profundo. Semana Extra: Sahara Profundo  Gostei tanto da Argélia que em menos de dois anos estava de volta, desta vez para descobrir os segredos do Sahara. De Argel voámos para Djanet, onde ficámos quatro noites e de Djanet para Tamanrasset onde ficámos mais quatro noites.  Aqui, estamos em casa dos Tuareg, as gentes do deserto. A sua terra não tem princípio nem fim. As rochas, a areia, o vazio, estendem-se por uma área para além da compreensão.  Os dias são passados a descobrir paisagens indescritíveis, muitas delas com mais história que todos os museus europeus juntos. Uma viagem a um mundo que não sabias que existe!  Por fim, se gostas de caminhar, há a possibilidade de fazer uma expedição a Sefar, a maior colecção de pinturas rupestres do mundo. São seis/sete dias a caminhar e a acampar.  Fomos com esta agência e recomendo: Matrath Voyage Dicas e Informações Úteis Visto: O visto é o maior entrave a viajar para a Argélia. Se fores só para o sul tens que ir com uma agência e eles tratam de tudo. Super fácil, nem tens que pôr os pés na embaixada.  Se viajares de forma independente é mais chato. Só podes fazer o visto no país da tua nacionalidade ou residência, tens que imprimir e preencher vários papéis, ir entregar à embaixada juntamente com o passaporte e duas semanas depois tens que o ir buscar. Custa cerca de 90 euros. Como tal, é boa ideia fazer uma viagem relativamente longa para justificar o custo.  Aluguer de carro: O aluguer de carro foi uma batalha. Se és mulher, não contactes agências com o teu nome! Recebi zero respostas! O Pina lá conseguiu propostas e acabámos por escolher a Free Car – um nome original! Apesar de terem um representante de vendas que ignorava o que eu dizia quando o meu francês era melhor que o do Pina (provavelmente é o mesmo que não responde a emails de mulheres), prestaram-nos um óptimo serviço e um HYUNDAI i20 que sobreviveu à viagem toda! Pagámos 500€ por 15 dias de aluguer, um preço bastante bom quando comparado com a maioria das pessoas que conhecemos. É boa ideia tentar marcar carro com alguma antecedência. Não há muitas agências e se te calha viajar numa altura em que está a acontecer um grande evento na cidade pode ser difícil arranjar carro. Custo da gasolina: O custo da gasolina é muito baixo na Argélia, o que dá muito jeito quando se faz 4000+ quilómetros. Da primeira vez que visitei eram cerca de 14 cêntimos por litro. Creio que agora são cerca de 30 cêntimos.  Chegar ao aeroporto: A melhor forma de viajar do aeroporto para o centro da cidade é de táxi. Os preços rondam os 3-5€ no máximo. O comboio custa 80 cêntimos, mas nunca se sabe bem quanto tempo vai demorar. Nós experimentamos uma vez e arrependemos-nos. Cartão SIM: Definitivamente um bem essencial para quem quer viajar de forma independente. A cobertura de rede é melhor do que pensava, em todas as cidades e vilarejos há internet. Os Argelinos ligam para toda a gente a toda a hora, por isso ter um número local também dá imenso jeito. Comprámos...

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A Argélia não costuma figurar nas listas de melhores países para uma viagem de carro de sonho. Provavelmente, porque mais ninguém olha para aquele país gigante e pensa “giro, giro era fazermos 4000+ quilómetros em duas semanas”. Mas foi isso mesmo que pensei e apesar dos longos dias na estrada, acho que não há melhor forma de viajar pela Argélia! 

Durante a viagem passámos por cidades lindas, maravilhas da natureza, desertos sem fim, ruínas romanas e ainda tivemos tempo para um mergulho furtivo no mediterrâneo. Claro que o melhor de tudo foram as pessoas que conhecemos e a sua hospitalidade. Fomos recebidos de braços abertos, com mesas a transbordar de comida deliciosa, alguns olhares curiosos e sorrisos de orelha a orelha. 

Esta é a Argélia que surpreende todos os seus visitantes: 

Dia 1: Argel

Argel é uma das cidades mais bonitas que já visitei. Paris caiada à beira-mar! Desde as ruas estreitas e encruzilhadas do Casbah às grandes avenidas francesas, aqui misturam-se arquitecturas, culturas e histórias. 


Podes encontrar o meu post sobre Argel aqui


Dia 2: Djemila

No segundo dia saímos de Argel e seguimos para Constantine, mas tínhamos uma paragem importante a fazer pelo caminho: Djemila, as melhores ruínas romanas que vimos durante toda a viagem. Aconselho-te a sair cedo de Argel para teres tempo de fazer tudo com calma, já que provavelmente vais poder ter Djemila o seu museu só para ti (ou quase!)


Tempo de condução: 5.5 horas até Constantine, passando por Djemila

Podes encontrar o meu post sobre Djemila aqui


Dia 3: Constantine

A cidade das pontes é linda de todos os ângulos. Vais encontrar palácios reais, pontes que abanam por todos os lados (é suposto) e até cascatas secretas dignas de um filme do Avatar. 


Podes encontrar o meu post sobre Constantine aqui

Tempo de condução: 2.5 horas de Constantine a Batna 


Dia 4: Timgad & Ghoufi 

Estava na altura de rumar ao deserto! Começámos numa zona verdejante, onde há ruínas romanas com fartura (incluindo o grande complexo de Timgad) e acabámos num desfiladeiro onde as únicas árvores que sobrevivem são as palmeiras. 

Esta região também marca o lugar onde se travou a primeira batalha da revolução contra a colonização francesa. 

Podes encontrar o meu post sobre Timgad e Ghoufi aqui

Tempo de condução: Cerca de 4 horas de Batna a Biskra passando por Timgad e Ghoufi 


Dia 5 e 6: Ghardaia e o Vale do M’zabe

Nestes dias, viajámos não só no espaço, mas também no tempo. É no Vale do M’zabe que se encontram cinco aldeias cujo modo de vida dos seus habitantes e as suas práticas culturais se preservam quase intactas, ignorando muitos progressos sociais, tecnológicos e judiciais. Um lugar para absorver, reflectir e aprender. 


Nota de estrada: De Biskra para Ghardaia o Google dá duas opções de caminho. Um deles é bastante mais curto, mas é um desvio, por uma “estrada” com muitas pedras que demora muito tempo a fazer – especialmente se tiveres um carro normalíssimo como nós e não um jipe. 

A coisa boa é que a estrada é deserta e não tem checkpoints da polícia, por outro lado são umas duas horas de solavancos. Fica o aviso! 

Podes encontrar o meu post sobre o Vale do M’zabe aqui

Tempo de condução: 7.5 horas de Biskra a Ghardaia


Dia 7 e 8: Timimoun 

Chegámos ao deserto “a sério” onde os pontos de distração na estrada não passam de dunas e camelos. Timimoun, a cidade vermelha, tem uma arquitectura única e muitos mercados onde se cruzam várias culturas e etnias subsarianas. 


Aconselho explorar o centro de Timimoun durante algumas horas, idealmente com alguém local e tirar um dia para ir com um guia, de jipe, ver o que os arredores têm para oferecer. 

Podes encontrar o meu post sobre Timimoun aqui. 

Tempo de condução: 7.5 horas de Ghardaia a Timimoun. 

Dica: Para este tipo de dias longos de condução no deserto, recomendo levar comida, água e um tanque cheio de gasolina. As estradas têm muito pouca gente, por isso as pausas para casa de banho são onde quiseres! 


Dia 9 e 10: Taghit 

Mais uma longa viagem por milhões de grãos de areia. Antes de chegarmos a Taghit, passámos por Beni Abbès e a sua duna gigante. Em Taghit encontrámos a paz do deserto, descobrimos que é possível andar de kayak num oásis e passeámos por pedregulhos com desenhos rupestres milenares. 

Aqui, seguimos os guias do alojamento local num tour que combinava um pouco de tudo. Se quiseres fazer por ti, podes encontrar o meu post sobre Taghit aqui. 

Tempo de condução: 5.5 horas de Timimoun a Taghit passando por Beni Abbès 



Dia 11: El Gour 

Este dia foi tão cheio de aleatoriedades que é difícil de descrever. Entre cavernas subterrâneas, pôres-do-sol esquivos e esquadras da polícia em pijama, esta foi a aventura mais épica da nossa roadtrip. 


Podes encontrar todos os pormenores sobre El Gour aqui. 

Tempo de condução: 5.5 horas de Taghit a El Gour 


Dia 12 e 13: Oran 

Depois de mais de uma semana no deserto demos à costa! Chegámos a Oran já quase ao fim do dia e assim que vimos o mar pedimos aos nossos amigos para irmos dar um mergulho. 

Digamos que mulheres de biquini não é exactamente ilegal, mas também está longe de ser comum. Já quase em Novembro, as praias estavam vazias e lá fomos nós, para deleite e surpresa de uns rapazes mirones que nunca devem ter visto tal coisa. 

Nessa noite, como já era hábito, fomos convidados para jantar na casa de um amigo do nosso amigo onde nos esperava um banquete feito pela mãe dele, que nunca chegámos a conhecer. 


Oran, mesmo assim, é a cidade mais liberal da Argélia. No dia seguinte vimos a sua influência espanhola, o centro histórico e até descobrimos uma pastelaria francesa toda chique onde decidimos gastar mais num éclair do que a média de todas as refeições diárias – afinal, tínhamos dinheiro a mais já que toda a gente nos alimentava! 

Na última noite, conhecemos a “nata” da sociedade Argelina através do Couchsurfing. No topo de um hotel – onde o álcool era permitido – conversámos com um grupo de amigos, todos fluentes em inglês e francês, com estudos no estrangeiro. As raparigas expressavam-se com uma liberdade que ainda não tinha visto. 

O que me surpreende na Argélia é a pacificidade com que culturas tão diferentes co-existem. Todas as pessoas mais jovens, principalmente mulheres, que anseiam por mais liberdade têm, ao mesmo tempo, um imenso respeito e até orgulho pelo lado mais tradicional do seu país. 

Tempo de condução: 6 horas de El Gour a Oran com uma paragem em Sidi Bel Abbès.


Dia 14: Tipaza 

O último dia de estrada. Saímos cedo de Oran porque queríamos ir pela estrada junto ao mar em vez de pela auto-estrada. Asneira. Achava eu que ia ver lindas paisagens costeiras com praias idílicas, mas não foi o caso. A estrada costeira passa por mil e uma aldeias, é MUITO lenta e tem pouco interesse. Fica a dica. 

A única coisa boa foi termos dado com o Aqueduto “Maurétanien de Cherchell”, mas já é tão perto de Tipaza, que podes ir pela auto-estrada à mesma e fazer só um pequeno desvio para trás. 


Por fim, Tipaza, o nosso último ponto antes de voltarmos a Argel. Aqui ficam as ruínas Romanas à beira-mar. Talvez não sejam tão impressionantes como Djemila ou Timgad, mas a sua localização geográfica torna a experiência de as visitar muito mais agradável. 

Recomendaram-nos o restaurante “Le Dauphin” que não desapontou! Comemos que nem uns reis com direito a camarão grelhado e calamares fresquinhos. 

Por fim, seguimos para Argel, onde celebrámos os 4,200km feitos em duas semanas. Mas a noite ainda mal tinha começado! O nosso host, o Mok, que já nos tinha acolhido nas primeiras noites, levou-me a conhecer a noite de Argel onde os restaurantes se transformam em bares e os vinhos argelinos fazem furor. 

Uma coisa que adoro em países muçulmanos é a vivacidade com que os homens dançam! Não podia ter pedido melhor maneira de fechar esta viagem. 

Tempo de condução: 6 horas de Oran a Argel passando por Tipaza


Dia 15: De volta a Argel 

O último dia foi um pouco mais lento. Meia ressacada ainda fui mostrar ao meu companheiro de viagem, o centro de Argel, que ele não tinha tido a oportunidade de ver. Se tiveres tempo, aconselho um saltinho à Flaxen Beach, não por ser particularmente bonita, mas porque sabe sempre bem pôr os pés na areia e ver casais a namorar sorrateiramente. 

Assim termina uma viagem de carro épica que talvez um dia figure nas famosas compilações de blogues e sites de viagens! 

Como a Argélia é um país absolutamente gigante, segue a sugestão de uma semana de viagem extra, desta vez no deserto profundo.


Semana Extra: Sahara Profundo 

Gostei tanto da Argélia que em menos de dois anos estava de volta, desta vez para descobrir os segredos do Sahara. De Argel voámos para Djanet, onde ficámos quatro noites e de Djanet para Tamanrasset onde ficámos mais quatro noites. 

Aqui, estamos em casa dos Tuareg, as gentes do deserto. A sua terra não tem princípio nem fim. As rochas, a areia, o vazio, estendem-se por uma área para além da compreensão. 


Os dias são passados a descobrir paisagens indescritíveis, muitas delas com mais história que todos os museus europeus juntos. Uma viagem a um mundo que não sabias que existe! 

Por fim, se gostas de caminhar, há a possibilidade de fazer uma expedição a Sefar, a maior colecção de pinturas rupestres do mundo. São seis/sete dias a caminhar e a acampar. 

Fomos com esta agência e recomendo: Matrath Voyage


Dicas e Informações Úteis

Visto: O visto é o maior entrave a viajar para a Argélia. Se fores só para o sul tens que ir com uma agência e eles tratam de tudo. Super fácil, nem tens que pôr os pés na embaixada. 

Se viajares de forma independente é mais chato. Só podes fazer o visto no país da tua nacionalidade ou residência, tens que imprimir e preencher vários papéis, ir entregar à embaixada juntamente com o passaporte e duas semanas depois tens que o ir buscar. Custa cerca de 90 euros. Como tal, é boa ideia fazer uma viagem relativamente longa para justificar o custo. 

Aluguer de carro: O aluguer de carro foi uma batalha. Se és mulher, não contactes agências com o teu nome! Recebi zero respostas! O Pina lá conseguiu propostas e acabámos por escolher a Free Car – um nome original! Apesar de terem um representante de vendas que ignorava o que eu dizia quando o meu francês era melhor que o do Pina (provavelmente é o mesmo que não responde a emails de mulheres), prestaram-nos um óptimo serviço e um HYUNDAI i20 que sobreviveu à viagem toda!

Pagámos 500€ por 15 dias de aluguer, um preço bastante bom quando comparado com a maioria das pessoas que conhecemos. É boa ideia tentar marcar carro com alguma antecedência. Não há muitas agências e se te calha viajar numa altura em que está a acontecer um grande evento na cidade pode ser difícil arranjar carro.

Custo da gasolina: O custo da gasolina é muito baixo na Argélia, o que dá muito jeito quando se faz 4000+ quilómetros. Da primeira vez que visitei eram cerca de 14 cêntimos por litro. Creio que agora são cerca de 30 cêntimos. 

Chegar ao aeroporto: A melhor forma de viajar do aeroporto para o centro da cidade é de táxi. Os preços rondam os 3-5€ no máximo. O comboio custa 80 cêntimos, mas nunca se sabe bem quanto tempo vai demorar. Nós experimentamos uma vez e arrependemos-nos.

Cartão SIM: Definitivamente um bem essencial para quem quer viajar de forma independente. A cobertura de rede é melhor do que pensava, em todas as cidades e vilarejos há internet. Os Argelinos ligam para toda a gente a toda a hora, por isso ter um número local também dá imenso jeito. Comprámos da Djeezy no aeroporto: 50 GB por 16€. Outra alternativa é comprar um eSIM, mas verifica que o teu telemóvel é compatível com eSIMs.

Controlo de Passaporte: Ao chegar ao controlo de passaporte tens que preencher um formulário que inclui a morada do lugar onde vais ficar. Por isso, se tiveres um host, certifica-te que tens a morada dele e provavelmente será melhor dizeres que é teu amigo. O Couchsurfing nao é ilegal como no Irão, mas os hosts tem que registar as pessoas que ficam com eles, o que é uma chatice. Também podes mostrar o email de confirmação de um hotel como comprovativo de estadia – eu marquei um hotel com cancelamento gratuito para fazer o visto.

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De Sofá em Sofá pela Argélia #5: Taghit & El Gour https://www.mudancasconstantes.com/2024/01/31/argelia-taghit-el-gour/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=argelia-taghit-el-gour https://www.mudancasconstantes.com/2024/01/31/argelia-taghit-el-gour/#respond Wed, 31 Jan 2024 20:04:02 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9558 Taghit e El Gour deram-nos um cheirinho do potencial do Sahara Argelino. Um com as suas dunas imensas e douradas, outro pelas estruturas monumentais, esculpidas pela natureza. Dois lugares com paisagens até perder de vista e o melhor nascer e pôr-do-sol do país. Como não podia deixar de ser, esta etapa começou na estrada, com uma viagem de cinco horas de carro por estradas desertas, com a ocasional cáfila (manada de camelos) para alegrar o nosso dia. Antes de chegarmos a Taghit parámos em Beni Abbès para o melhor exercício cardio que há no deserto: subir dunas gigantes. Beni Abbès: a minha duna é maior que a tua À beira de uma duna que parece uma onda capaz de o engolir, fica o vilarejo de Beni Abbès, um pequeno oásis. Beni Abbès em si não tem muito para ver, mas é conhecido pela sua geografia única e só por isso vale a pena uma curta paragem. A “grande duna” de Beni Abbès é a mais alta numa área de 78,000 quilómetros quadrados (Portugal tem 92,000) e subi-la, mas principalmente descê-la é libertador! Taghit: Kayak no deserto? Pela primeira vez nesta viagem ficámos num alojamento pago. Não é assim tão fácil encontrar hosts no meio do deserto, e mesmo o TerreGite só apareceu depois de alguns contactos por email. Um pequeno alojamento tradicional com staff muito simpático e refeições à beira da fogueira. Como não havia muito que pudéssemos fazer por nós próprios, decidimos juntar-nos a um tour pela região no dia seguinte. O deserto está cheio de surpresas! Começámos com uma visita ao antigo ksar de Taghit, que à semelhança dos de Timimoun, agora funciona mais como estábulo. O nosso guia mal falava inglês, mas com o meu francês manhoso e a ajuda da família argelino-marroquina que nos acompanhava, lá nos entendemos. Caminhámos entre as antigas muralhas, campos de palmeiras e antes de darmos por isso estava na hora de almoço. E perguntam-nos: “querem fazer kayak”? Não é o tipo de pergunta que esperas no deserto! O almoço era à beira de um oásis grande o suficiente para andarmos de kayak de um lado para o outro e soube tão bem para refrescar! Antes de nos dirigirmos ao melhor miradouro para ver o pôr do sol, ainda fomos espreitar arte rupestre com 6000 anos que agora se funde com arte delinquente com dois ou três anos. Para o pôr do sol, subimos até ao Fort de l’éperon de onde se vê toda a cidade, as dunas e o oásis. É definitivamente a melhor forma de acabar um dia em cheio no deserto. Uma gruta espontânea A nossa viagem à Argélia já tinha tido um pouco de tudo, mas este dia foi uma verdadeira aventura com vontade própria. Vou tentar resumir, se não corro o risco de escrever cinco páginas sobre um só dia. 1º – Conduzimos até Brezina, onde nos íamos encontrar com um amigo que tínhamos conhecido há uns dias em Batna. 2º – Ele nunca tinha estado na região, mas na Argélia toda a gente conhece alguém que conhece alguém, por isso do nada tínhamos um guia e um lugar para ficar no meio de El Gour. 3º – Pelos vistos havia uma gruta que podíamos visitar antes do pôr do sol. Depois de meia hora aos solavancos num jipe, estávamos dentro de uma gruta gigante ao lado de uma barragem com uma albufeira linda! 4º – O nosso deambulo pela gruta atrasou-nos e apressámo-nos para ainda tentar apanhar as últimas horas de luz no topo do El Gour. 5º – A caminho, parámos para nos abastecermos com um frango assado e ainda fomos parados pela polícia que finalmente reparou (ou alguém lhes disse) que havia estrangeiros por ali. Depois de algumas perguntas e menções ao Ronaldo, lá nos deixaram seguir caminho. Que lugar é este?! 6º – Corremos até ao topo de uma das formações arenosas de El Gour e apesar do sol já se ter posto, as cores no horizonte fizeram valer o esforço. 7º – Íamos dormir numas tendas gigantes, no meio de El Gour. Quando já tínhamos acabado o frango e começava a hora do chá, chega um jipe da gendarmerie com quatro ou cinco guardas que deviam querer uma noite diferente. Lá fizeram umas perguntas, beberam chá com um quilo de açúcar por chávena e foram à sua vida. Achávamos que finalmente as nossas interacções com a autoridade tinham ficado por ali. 8º –  Passados quinze ou vinte minutos, já quase prontos para irmos dormir, voltam para dizer que afinal temos que nos ir registar com a polícia. Fomos para a esquadra de pijama. Entre fotocópias e registos, foi um serão muito animado. Agora sim, estávamos oficialmente livres! 9º – Dormimos na nossa tenda e acordámos cedo. Não íamos perder o nascer do sol! Subimos até ao topo de um rochedo e ali ficámos a observar a natureza a fazer a sua magia! É incrível como um lugar que descobri acidentalmente no Google Maps se tornou na experiência mais marcante que tivemos na Argélia! 10º – Estava na hora de voltarmos à estrada, desta vez em direcção a Oran, onde nos esperava um mar morno e um banho que ficou ali nas entrelinhas do permitido e proibido. Claro que nessa noite acabámos na casa de um amigo do nosso amigo, a comer uma refeição preparada pela mãe dele. Ou não estivéssemos nós na Argélia! Este dia marcou o início do fim da nossa viagem, já só nos restavam a cosmopolita Oran e a anciã Tipaza para visitar antes de voltarmos para casa. Dicas rápidas: Se quiseres fazer Taghit sem tours, estas são as referências no Google Maps: Contactos TerreGite: https://www.facebook.com/TerreGite/?locale=fr_FR | terregite@gmail.com

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Taghit e El Gour deram-nos um cheirinho do potencial do Sahara Argelino. Um com as suas dunas imensas e douradas, outro pelas estruturas monumentais, esculpidas pela natureza. Dois lugares com paisagens até perder de vista e o melhor nascer e pôr-do-sol do país.

Como não podia deixar de ser, esta etapa começou na estrada, com uma viagem de cinco horas de carro por estradas desertas, com a ocasional cáfila (manada de camelos) para alegrar o nosso dia. Antes de chegarmos a Taghit parámos em Beni Abbès para o melhor exercício cardio que há no deserto: subir dunas gigantes.

Beni Abbès: a minha duna é maior que a tua

À beira de uma duna que parece uma onda capaz de o engolir, fica o vilarejo de Beni Abbès, um pequeno oásis. Beni Abbès em si não tem muito para ver, mas é conhecido pela sua geografia única e só por isso vale a pena uma curta paragem.


A “grande duna” de Beni Abbès é a mais alta numa área de 78,000 quilómetros quadrados (Portugal tem 92,000) e subi-la, mas principalmente descê-la é libertador!

Taghit: Kayak no deserto?

Pela primeira vez nesta viagem ficámos num alojamento pago. Não é assim tão fácil encontrar hosts no meio do deserto, e mesmo o TerreGite só apareceu depois de alguns contactos por email. Um pequeno alojamento tradicional com staff muito simpático e refeições à beira da fogueira.

Como não havia muito que pudéssemos fazer por nós próprios, decidimos juntar-nos a um tour pela região no dia seguinte. O deserto está cheio de surpresas!


Começámos com uma visita ao antigo ksar de Taghit, que à semelhança dos de Timimoun, agora funciona mais como estábulo. O nosso guia mal falava inglês, mas com o meu francês manhoso e a ajuda da família argelino-marroquina que nos acompanhava, lá nos entendemos.

Caminhámos entre as antigas muralhas, campos de palmeiras e antes de darmos por isso estava na hora de almoço. E perguntam-nos: “querem fazer kayak”? Não é o tipo de pergunta que esperas no deserto!

O almoço era à beira de um oásis grande o suficiente para andarmos de kayak de um lado para o outro e soube tão bem para refrescar!


Antes de nos dirigirmos ao melhor miradouro para ver o pôr do sol, ainda fomos espreitar arte rupestre com 6000 anos que agora se funde com arte delinquente com dois ou três anos.

Para o pôr do sol, subimos até ao Fort de l’éperon de onde se vê toda a cidade, as dunas e o oásis. É definitivamente a melhor forma de acabar um dia em cheio no deserto.


Uma gruta espontânea

A nossa viagem à Argélia já tinha tido um pouco de tudo, mas este dia foi uma verdadeira aventura com vontade própria. Vou tentar resumir, se não corro o risco de escrever cinco páginas sobre um só dia.

1º – Conduzimos até Brezina, onde nos íamos encontrar com um amigo que tínhamos conhecido há uns dias em Batna.

2º – Ele nunca tinha estado na região, mas na Argélia toda a gente conhece alguém que conhece alguém, por isso do nada tínhamos um guia e um lugar para ficar no meio de El Gour.

3º – Pelos vistos havia uma gruta que podíamos visitar antes do pôr do sol. Depois de meia hora aos solavancos num jipe, estávamos dentro de uma gruta gigante ao lado de uma barragem com uma albufeira linda!



4º – O nosso deambulo pela gruta atrasou-nos e apressámo-nos para ainda tentar apanhar as últimas horas de luz no topo do El Gour.

5º – A caminho, parámos para nos abastecermos com um frango assado e ainda fomos parados pela polícia que finalmente reparou (ou alguém lhes disse) que havia estrangeiros por ali. Depois de algumas perguntas e menções ao Ronaldo, lá nos deixaram seguir caminho.


Que lugar é este?!

6º – Corremos até ao topo de uma das formações arenosas de El Gour e apesar do sol já se ter posto, as cores no horizonte fizeram valer o esforço.


7º – Íamos dormir numas tendas gigantes, no meio de El Gour. Quando já tínhamos acabado o frango e começava a hora do chá, chega um jipe da gendarmerie com quatro ou cinco guardas que deviam querer uma noite diferente. Lá fizeram umas perguntas, beberam chá com um quilo de açúcar por chávena e foram à sua vida. Achávamos que finalmente as nossas interacções com a autoridade tinham ficado por ali.

8º –  Passados quinze ou vinte minutos, já quase prontos para irmos dormir, voltam para dizer que afinal temos que nos ir registar com a polícia. Fomos para a esquadra de pijama. Entre fotocópias e registos, foi um serão muito animado. Agora sim, estávamos oficialmente livres!

9º – Dormimos na nossa tenda e acordámos cedo. Não íamos perder o nascer do sol! Subimos até ao topo de um rochedo e ali ficámos a observar a natureza a fazer a sua magia! É incrível como um lugar que descobri acidentalmente no Google Maps se tornou na experiência mais marcante que tivemos na Argélia!


10º – Estava na hora de voltarmos à estrada, desta vez em direcção a Oran, onde nos esperava um mar morno e um banho que ficou ali nas entrelinhas do permitido e proibido. Claro que nessa noite acabámos na casa de um amigo do nosso amigo, a comer uma refeição preparada pela mãe dele. Ou não estivéssemos nós na Argélia!

Este dia marcou o início do fim da nossa viagem, já só nos restavam a cosmopolita Oran e a anciã Tipaza para visitar antes de voltarmos para casa.

Dicas rápidas:

Se quiseres fazer Taghit sem tours, estas são as referências no Google Maps:

  • Kayak Taghit | Neolithic Rock Engravings | Fort de l’éperon / Mountain of Taghit

Contactos TerreGite:

https://www.facebook.com/TerreGite/?locale=fr_FR | terregite@gmail.com

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De Sofá em Sofá pela Argélia #4: Timimoun https://www.mudancasconstantes.com/2023/08/11/argelia-viajar-timimoun/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=argelia-viajar-timimoun https://www.mudancasconstantes.com/2023/08/11/argelia-viajar-timimoun/#respond Fri, 11 Aug 2023 22:06:18 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9433 Timimoun. Demorei meses a atinar com este nome. A cidade vermelha representava o ponto mais a sul da nossa viagem, mas desenganem-se aqueles que pensam que este é o sul da Argélia. Para chegarmos ao “Sul Profundo” (Deep South) precisaríamos de percorrer mais 1500 quilómetros. Ficará para a próxima!   Oito horas depois de sairmos de Ghardaia, quando os nossos olhos já não conseguiam ver mais areia, lá estávamos nós em Timimoun. Chegar ali era sinónimo de vitória por nunca termos sido “apanhados” pela polícia nem escoltados. Também já não corríamos o risco de termos de voltar para trás e falhar o “sul”. Motivos mais que suficientes para celebrarmos!    Finalmente, uma mulher argelina!   Desta vez, para variar, não tínhamos um anfitrião, mas sim uma anfitriã! A Djoe era médica no único hospital de Timimoun – que serve uma área absolutamente descomunal – e a única especialista de otorrinolaringologia.   Tinha-a encontrado através do perfil de Couchsurfing do namorado dela, o Sid, que estava a tirar o doutoramento em Kuala Lumpur. Como parecíamos de confiança, fomos aprovados para ficar na casa dela, na aldeia dos médicos.   Quase todos os médicos vêm através de um programa de incentivo do governo para combater a falta de especialistas nas zonas mais remotas. Têm alojamento gratuito, contas pagas, recebem mais e trabalham 20 dias (com fins de semana) e tem 10 dias de férias a seguir. Creio que também lhes pagam algumas viagens até à cidade de onde são naturais. Não é um mau negócio!   A Djoe recebeu-nos com um grande sorriso e a falar francês. Entretanto concluímos que o inglês dela era muito melhor que o meu francês e a partir daí foi uma festa! Nunca pensei que íamos acabar a ver o pôr-do-sol no meio do deserto, com chá feito numa fogueira improvisada e a ouvir bossa nova, que ela adorava. Os argelinos não paravam de nos surpreender.   Vamos fazer um picnic noturno nas dunas!   Quase nos começámos a rir quando recebemos este convite. Claro que havia um plano aleatório preparado para a nossa chegada! Mas antes do tal picnic, íamos aproveitar a luz do dia que nos restava e passear pelo centro de Timimoun, que nos recebeu com as suas ruas semi desertas de uma sexta-feira à tarde (dia sagrado para os muçulmanos).   O nome “cidade vermelha” não foi dado ao acaso. Todos os edifícios vestem esta cor. À semelhança de Ghardaia, tudo é construído com materiais da terra, mas num formato mais tosco. Um dos problemas da região é tentar manter as aldeias históricas de pé, por que as estruturas requerem muita manutenção. Espero que consigam, este é um lugar único.  Ainda aprendemos sobre um sistema de irrigação milenar: as foggaras. Esta era uma forma de distribuição de água por diferentes terrenos agrícolas e, independentemente da classe social, todos recebiam a mesma quantidade de água.   A nossa tarde acabou no lugar com o pôr-do-sol mais épico de Timimoun, o Hotel Gourara. Este hotel, construído de forma a celebrar a arquitectura da região, é aberto ao público e o lugar perfeito para observar o sol a esconder-se entre as dunas.   E foi nessa direcção que nos lançámos para o nosso picnic. A Djoe já tinha planeado e cozinhado tudo, incluindo uma tagine de azeitonas, pão de milho, batatas fritas, salada e sabe-se lá mais o quê. Enquanto admirávamos as estrelas num céu limpo e livre de poluição luminosa, devorámos a deliciosa refeição da nossa anfitriã. Não podíamos ter pedido mais!  Estamos em África!   A Argélia é o maior país do continente africano e isso reflecte-se na diversidade dos seus povos. Aqui, as cores e os traços misturam-se e pela primeira vez sentimos que estávamos mesmo em África, à porta da casa dos Tuareg. Um dos lugares onde isso é mais visível, é nos mercados de sábado.  O mercado coberto tem banquinhas que vendem um pouco de tudo. Há remédios feitos de veneno de escorpião, maquilhagem, amendoins e tâmaras. Já no mercado ao ar livre podemos encontrar comerciantes do Niger, Mali, Líbia, Chad entre outros países da região. Vende-se roupa, brinquedos, tecnologia, frutas e legumes. Aqui as mulheres estão por todo o lado! Há azáfama, regateiam-se preços e encontrámos uma atmosfera mais descontraída do que o que tínhamos experienciado em Ghardaia.   Depois do mercado ainda visitámos algumas aldeias meio abandonadas. As casas que já estão demasiado danificadas para habitação transformam-se em estábulos. O ar degradado confere-lhes um certo charme e carisma.   O último lugar que posso recomendar no centro de Timimoun é este restaurante. Perto dos correios e da padaria, comemos um estufado de camelo com um couscous inacreditável. O couscous de Timimoun é especial, é feito à mão. Eu nem sabia que se podia fazer couscous à mão! A refeição para os três custou-nos 4.5€. Uma das coisas que já tínhamos reparado era que nós comíamos sempre mais do que os argelinos que estavam connosco. Claramente estamos habituados a uma quantidade de comida, particularmente de proteína, acima do normal na Argélia.   Maravilhas abandonadas nos arredores de Timimoun   Para nosso deleite, a Djoe tinha pedido ao marido de uma senhora que trabalha no hospital para nos ir mostrar os lugares mais interessantes nos arredores da cidade.   A primeira paragem foi o Ksar de Ighzer. Ksar é sinónimo de vila ou aldeia fortificada. Por serem feitos de argila e estarem ao abandono, este tipo de estrutura parece que está a derreter. Mesmo assim, é impressionante pensar que ali viviam várias famílias, havia uma mesquita e comércio.   Os ksars existem um pouco por toda esta região. São todos bastante semelhantes e um testemunho efémero da realidade de viver numa das zonas mais remotas e agressivas do nosso planeta.   Passámos por mais alguns lugares, cujo nome desconheço, com vistas lindas sobre o deserto e os seus oásis. Antes de nos dedicarmos à difícil tarefa de bebericar chá a ver o pôr-do-sol, parámos em Taguelzi, e entrámos nas ruínas da sua fortaleza. Do topo, observámos aldeias esquecidas de onde de vez em quando vinha um longo “muuuuuu” ou “bhaaaaa”. Os seus moradores originais trocaram a arquitectura da terra pelo conforto das construções modernas e as suas antigas casas passaram a ser o lugar onde guardam o gado. Pergunto-me se daqui a cinco ou dez anos, alguma destas estruturas ainda estará de pé.   Chá de menta, vizinhas inesperadas e conversas de mulheres   Moídos depois de um dia activo debaixo de um sol escaldante, parámos para um lanche e chá com vista para as dunas. Recolhendo a pouca madeira que havia, o nosso guia não oficial acendeu um fogo que teimava em pegar.   Enfiando cerca de um quilo de açúcar dentro do bule e umas folhas de menta, o chá lá se fez enquanto a Djoe nos mostrava as suas músicas brasileiras preferidas. Pode ter sido a primeira vez que Gilberto Gil ecoou no deserto argelino.   Mas não nos podíamos distrair. Tínhamos um jantar para cozinhar em casa!   Munidas de beringelas do jardim e de um panelão de farro, a Djoe e a sua amiga cozinharam-nos uma refeição deliciosa. Uma das coisas que mais gosto de cozinhar na casa das outras pessoas, é que para além de aprender receitas, há uma certa cumplicidade que se gera enquanto se picam cebolas e se descascam batatas.   Ali, sem homens por perto, pudemos conversar sobre a condição das mulheres na sociedade argelina. A maior angústia pareceu-me ser a falta de controlo sobre decisões que não deveriam pertencer a mais ninguém. Com quem namorar, com quem viver, com quem dormir… isto vindo de uma pessoa com uma família moderna (para os padrões argelinos), do norte do país, que viaja, etc.   Não existe raiva ou menosprezo pelo lado mais conservador do país nem pelas pessoas que querem viver dentro destes moldes. Existe apenas uma vontade de se ser livre de escolher.   O jantar foi servido no pátio e enquanto nos lamentávamos por esta ser a nossa última refeição juntos, ouvimos alguém a bater na porta. Era a vizinha com o maior prato de couscous que alguma vez vi na vida. E que belo couscous que era!  Na Argélia, quando alguém traz uma prenda ou comida, o saco onde essa oferta veio tem de ser devolvido com algo lá dentro. Nesse dia a vizinha ganhou uns vegetais do quintal. A Djoe, por ser médica, também vai recebendo algumas prendas, incluindo coentros, ovos e até galinhas.   Nessa noite conversámos pela noite dentro sobre socialismo, colonialismo, direitos humanos e muito mais. A nossa anfitriã era uma mulher inspiradora, cheia de garra, intelectual, de pensamento livre, altruísta e com uma grande vontade de melhorar o seu país. Foi uma honra conhecê-la.   Dicas e informações rápidas:   Tours no deserto: Se não tiveres um senhor fofinho para te levar a conhecer as várias pérolas à volta de Timimoun como nós, podes contactar alguns hotéis em Timimoun e tentar organizar um tour. Esse era o meu plano original e contactei vários através do Facebook e email. Eles não são muito rápidos a responder, por isso tentaria planear com cerca de duas semanas de antecedência.   Ksar de Draa: Só soube que este lugar existia uns dias depois, por isso não tive oportunidade de o visitar. Contudo parece-me ser um dos lugares mais curiosos da Argélia e como tal, fica aqui a minha recomendação. Suponho que os mesmos hotéis ofereçam uma tour até lá, simplesmente terás que pagar um pouco mais por que é preciso um jipe.   Centre algerien du patrimoine culturel bati en terre: Antes de sairmos em direção a Taghit ainda visitámos este centro cultural. É imperdível. Um exemplo fantástico da arquitetura da região e um lugar que tenta preservar esta forma de arte.   Conduzir até Timimoun: Conseguimos fazer a viagem toda sem nunca sermos parados num check point da polícia. Havia uma pequena possibilidade de não nos deixarem seguir para sul ou de termos de ser escoltados se fossemos “apanhados”. Felizmente não aconteceu, mas vale a pena estar preparado e ter o contacto do hotel ou host à mão caso seja necessário. Pelo que percebi, os turistas só podem ir nos autocarros diurnos de Timimoun até Ghardaia e vice-versa.

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Timimoun. Demorei meses a atinar com este nome. A cidade vermelha representava o ponto mais a sul da nossa viagem, mas desenganem-se aqueles que pensam que este é o sul da Argélia. Para chegarmos ao “Sul Profundo” (Deep South) precisaríamos de percorrer mais 1500 quilómetros. Ficará para a próxima!  

Oito horas depois de sairmos de Ghardaia, quando os nossos olhos já não conseguiam ver mais areia, lá estávamos nós em Timimoun. Chegar ali era sinónimo de vitória por nunca termos sido “apanhados” pela polícia nem escoltados. Também já não corríamos o risco de termos de voltar para trás e falhar o “sul”. Motivos mais que suficientes para celebrarmos!

  

Finalmente, uma mulher argelina!  

Desta vez, para variar, não tínhamos um anfitrião, mas sim uma anfitriã! A Djoe era médica no único hospital de Timimoun – que serve uma área absolutamente descomunal – e a única especialista de otorrinolaringologia.  

Tinha-a encontrado através do perfil de Couchsurfing do namorado dela, o Sid, que estava a tirar o doutoramento em Kuala Lumpur. Como parecíamos de confiança, fomos aprovados para ficar na casa dela, na aldeia dos médicos.  


Quase todos os médicos vêm através de um programa de incentivo do governo para combater a falta de especialistas nas zonas mais remotas. Têm alojamento gratuito, contas pagas, recebem mais e trabalham 20 dias (com fins de semana) e tem 10 dias de férias a seguir. Creio que também lhes pagam algumas viagens até à cidade de onde são naturais. Não é um mau negócio!  

A Djoe recebeu-nos com um grande sorriso e a falar francês. Entretanto concluímos que o inglês dela era muito melhor que o meu francês e a partir daí foi uma festa! Nunca pensei que íamos acabar a ver o pôr-do-sol no meio do deserto, com chá feito numa fogueira improvisada e a ouvir bossa nova, que ela adorava. Os argelinos não paravam de nos surpreender.  


Vamos fazer um picnic noturno nas dunas!  

Quase nos começámos a rir quando recebemos este convite. Claro que havia um plano aleatório preparado para a nossa chegada! Mas antes do tal picnic, íamos aproveitar a luz do dia que nos restava e passear pelo centro de Timimoun, que nos recebeu com as suas ruas semi desertas de uma sexta-feira à tarde (dia sagrado para os muçulmanos).  

O nome “cidade vermelha” não foi dado ao acaso. Todos os edifícios vestem esta cor. À semelhança de Ghardaia, tudo é construído com materiais da terra, mas num formato mais tosco. Um dos problemas da região é tentar manter as aldeias históricas de pé, por que as estruturas requerem muita manutenção. Espero que consigam, este é um lugar único. 


Ainda aprendemos sobre um sistema de irrigação milenar: as foggaras. Esta era uma forma de distribuição de água por diferentes terrenos agrícolas e, independentemente da classe social, todos recebiam a mesma quantidade de água.  


A nossa tarde acabou no lugar com o pôr-do-sol mais épico de Timimoun, o Hotel Gourara. Este hotel, construído de forma a celebrar a arquitectura da região, é aberto ao público e o lugar perfeito para observar o sol a esconder-se entre as dunas.  


E foi nessa direcção que nos lançámos para o nosso picnic. A Djoe já tinha planeado e cozinhado tudo, incluindo uma tagine de azeitonas, pão de milho, batatas fritas, salada e sabe-se lá mais o quê. Enquanto admirávamos as estrelas num céu limpo e livre de poluição luminosa, devorámos a deliciosa refeição da nossa anfitriã. Não podíamos ter pedido mais! 

Estamos em África!  

A Argélia é o maior país do continente africano e isso reflecte-se na diversidade dos seus povos. Aqui, as cores e os traços misturam-se e pela primeira vez sentimos que estávamos mesmo em África, à porta da casa dos Tuareg. Um dos lugares onde isso é mais visível, é nos mercados de sábado. 

O mercado coberto tem banquinhas que vendem um pouco de tudo. Há remédios feitos de veneno de escorpião, maquilhagem, amendoins e tâmaras. Já no mercado ao ar livre podemos encontrar comerciantes do Niger, Mali, Líbia, Chad entre outros países da região. Vende-se roupa, brinquedos, tecnologia, frutas e legumes. Aqui as mulheres estão por todo o lado! Há azáfama, regateiam-se preços e encontrámos uma atmosfera mais descontraída do que o que tínhamos experienciado em Ghardaia.  

Depois do mercado ainda visitámos algumas aldeias meio abandonadas. As casas que já estão demasiado danificadas para habitação transformam-se em estábulos. O ar degradado confere-lhes um certo charme e carisma.  


O último lugar que posso recomendar no centro de Timimoun é este restaurante. Perto dos correios e da padaria, comemos um estufado de camelo com um couscous inacreditável. O couscous de Timimoun é especial, é feito à mão. Eu nem sabia que se podia fazer couscous à mão! A refeição para os três custou-nos 4.5€. Uma das coisas que já tínhamos reparado era que nós comíamos sempre mais do que os argelinos que estavam connosco. Claramente estamos habituados a uma quantidade de comida, particularmente de proteína, acima do normal na Argélia.  

Maravilhas abandonadas nos arredores de Timimoun  

Para nosso deleite, a Djoe tinha pedido ao marido de uma senhora que trabalha no hospital para nos ir mostrar os lugares mais interessantes nos arredores da cidade.  

A primeira paragem foi o Ksar de Ighzer. Ksar é sinónimo de vila ou aldeia fortificada. Por serem feitos de argila e estarem ao abandono, este tipo de estrutura parece que está a derreter. Mesmo assim, é impressionante pensar que ali viviam várias famílias, havia uma mesquita e comércio.  


Os ksars existem um pouco por toda esta região. São todos bastante semelhantes e um testemunho efémero da realidade de viver numa das zonas mais remotas e agressivas do nosso planeta.  

Passámos por mais alguns lugares, cujo nome desconheço, com vistas lindas sobre o deserto e os seus oásis. Antes de nos dedicarmos à difícil tarefa de bebericar chá a ver o pôr-do-sol, parámos em Taguelzi, e entrámos nas ruínas da sua fortaleza. Do topo, observámos aldeias esquecidas de onde de vez em quando vinha um longo “muuuuuu” ou “bhaaaaa”. Os seus moradores originais trocaram a arquitectura da terra pelo conforto das construções modernas e as suas antigas casas passaram a ser o lugar onde guardam o gado. Pergunto-me se daqui a cinco ou dez anos, alguma destas estruturas ainda estará de pé.  


Chá de menta, vizinhas inesperadas e conversas de mulheres  

Moídos depois de um dia activo debaixo de um sol escaldante, parámos para um lanche e chá com vista para as dunas. Recolhendo a pouca madeira que havia, o nosso guia não oficial acendeu um fogo que teimava em pegar.  

Enfiando cerca de um quilo de açúcar dentro do bule e umas folhas de menta, o chá lá se fez enquanto a Djoe nos mostrava as suas músicas brasileiras preferidas. Pode ter sido a primeira vez que Gilberto Gil ecoou no deserto argelino.  

Mas não nos podíamos distrair. Tínhamos um jantar para cozinhar em casa!  

Munidas de beringelas do jardim e de um panelão de farro, a Djoe e a sua amiga cozinharam-nos uma refeição deliciosa. Uma das coisas que mais gosto de cozinhar na casa das outras pessoas, é que para além de aprender receitas, há uma certa cumplicidade que se gera enquanto se picam cebolas e se descascam batatas.  

Ali, sem homens por perto, pudemos conversar sobre a condição das mulheres na sociedade argelina. A maior angústia pareceu-me ser a falta de controlo sobre decisões que não deveriam pertencer a mais ninguém. Com quem namorar, com quem viver, com quem dormir… isto vindo de uma pessoa com uma família moderna (para os padrões argelinos), do norte do país, que viaja, etc.  

Não existe raiva ou menosprezo pelo lado mais conservador do país nem pelas pessoas que querem viver dentro destes moldes. Existe apenas uma vontade de se ser livre de escolher.  

O jantar foi servido no pátio e enquanto nos lamentávamos por esta ser a nossa última refeição juntos, ouvimos alguém a bater na porta. Era a vizinha com o maior prato de couscous que alguma vez vi na vida. E que belo couscous que era! 

Na Argélia, quando alguém traz uma prenda ou comida, o saco onde essa oferta veio tem de ser devolvido com algo lá dentro. Nesse dia a vizinha ganhou uns vegetais do quintal. A Djoe, por ser médica, também vai recebendo algumas prendas, incluindo coentros, ovos e até galinhas.  

Nessa noite conversámos pela noite dentro sobre socialismo, colonialismo, direitos humanos e muito mais. A nossa anfitriã era uma mulher inspiradora, cheia de garra, intelectual, de pensamento livre, altruísta e com uma grande vontade de melhorar o seu país. Foi uma honra conhecê-la.  

Dicas e informações rápidas:  

Tours no deserto: Se não tiveres um senhor fofinho para te levar a conhecer as várias pérolas à volta de Timimoun como nós, podes contactar alguns hotéis em Timimoun e tentar organizar um tour. Esse era o meu plano original e contactei vários através do Facebook e email. Eles não são muito rápidos a responder, por isso tentaria planear com cerca de duas semanas de antecedência.  

Ksar de Draa: Só soube que este lugar existia uns dias depois, por isso não tive oportunidade de o visitar. Contudo parece-me ser um dos lugares mais curiosos da Argélia e como tal, fica aqui a minha recomendação. Suponho que os mesmos hotéis ofereçam uma tour até lá, simplesmente terás que pagar um pouco mais por que é preciso um jipe.  

Centre algerien du patrimoine culturel bati en terre: Antes de sairmos em direção a Taghit ainda visitámos este centro cultural. É imperdível. Um exemplo fantástico da arquitetura da região e um lugar que tenta preservar esta forma de arte.  

Conduzir até Timimoun: Conseguimos fazer a viagem toda sem nunca sermos parados num check point da polícia. Havia uma pequena possibilidade de não nos deixarem seguir para sul ou de termos de ser escoltados se fossemos “apanhados”. Felizmente não aconteceu, mas vale a pena estar preparado e ter o contacto do hotel ou host à mão caso seja necessário. Pelo que percebi, os turistas só podem ir nos autocarros diurnos de Timimoun até Ghardaia e vice-versa.

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De Sofá em Sofá pela Argélia #3: Ghardaia e o Vale do M’zabe https://www.mudancasconstantes.com/2023/08/03/visitar-ghardaia-argelia/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=visitar-ghardaia-argelia https://www.mudancasconstantes.com/2023/08/03/visitar-ghardaia-argelia/#respond Thu, 03 Aug 2023 19:39:09 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9379 Tínhamos pela frente a jornada mais longa até então: íamos para Ghardaia. Não é de admirar termos de percorrer tantos quilómetros (500 a partir de Biskra) para alcançar este conjunto de vilarejos perdidos no Vale do M’zab. Quando lá chegamos apercebemo-nos que não viajámos apenas no espaço, mas também no tempo. Não posso dizer que as estradas argelinas sejam particularmente interessantes. Afinal, estávamos a atravessar o deserto! Há sinais de “perigo de camelo”, areia, pó e claro, os ocasionais camelos. Antes de entrarmos por uma estrada onde não havia nem uma amostra de civilização, parámos para arranjar almoço. Éramos claramente o maior acontecimento do mês em Djamaa. Para ver se atraía menos olhares de espanto embrulhei-me num lenço – acho que a minha falta de jeito só fez pior – e entrámos num restaurante de fast food. Entre francês, inglês e gestos lá nos fizemos entender e conseguimos uns wraps de frango. O rapaz que nos atendeu incluiu duas Coca-Cola grátis no saco, enquanto nos indicava com um grande sorriso, que era oferta.  Apesar de nenhum de nós gostar de Coca-Cola, o gesto aqueceu-me o coração! “Isto é hospitalidade M’zabite” O nosso anfitrião em Ghardaia tinha caído do céu. Atendendo ao meu pedido público no Couchsurfing, o Baelhadj ofereceu-se para nos hospedar. As reviews dele era tão incríveis que pensei que teríamos que lhe pagar algo por tanta amabilidade e generosidade. Afinal não, era tudo “hospitalidade M’zabite”. Para clarificar o que quero dizer por amabilidade e generosidade: Foram dois dias maravilhosos onde aprendemos muito sobre a cultura M’zabite. Isto tudo aliado à beleza destas aldeias que preservam as suas tradições e cultura como poucos lugares no mundo – para o bom e para o menos bom – tornaram este pedaço de viagem num dos mais interessantes. Para não me alongar numa descrição detalhada sobre cada momento, vou partilhar os meus lugares e interações preferidas! Beni Isgen: fundamentalismo, regras e comunidade Creio que já não existam muitos lugares no mundo como Beni Isguen. A mais pitoresca das cinco aldeias históricas do M’zab foi o nosso cartão de visita para a região. Com o sol já baixo, as cores quentes que caracterizam a arquitectura M’zabite tornavam-se ainda mais intensas. À entrada somos logo lembrados que ali há regras. Não se fotografam pessoas. Não se entra com roupas reveladoras. Não se entra sem guia. Nós tivemos a sorte de estarmos com duas pessoas locais e como já era tarde, escapámo-nos ao guia oficial e seguimos pelas ruas que permanecem iguais ao que eram há mil anos atrás. Aqui aprendemos que todas as vilas do M’zab seguem a mesma estrutura. Situadas numa colina e rodeadas por uma muralha, na parte mais baixa há um mercado, e a partir daí fluem ruas estreitas onde habitam os comerciantes e agricultores locais. Fora das muralhas ficam os cemitérios. As casas são construídas com materiais da região, como argila, sendo feitas para se adaptarem à amplitude térmica do deserto e às suas tempestades de areia. Todas as ruas vão dar à mesquita, que se situa no topo das aldeias. O minarete da mesquita, para além de chamar os fiéis para as cinco rezas diárias, também funciona como torre de controlo e costumava ser uma forma de comunicar com as outras aldeias. Para terminar a nossa visita o nosso host e o seu amigo Kacem levaram-nos até a um miradouro onde conseguimos ver o mar de palmeiras que caracteriza o oásis deste vale.  Os últimos raios de sol eram sinónimo que estava na hora de sair de Beni Esguin. Apenas os seus moradores podem ali pernoitar, não existem hotéis nem alojamento local para pessoas que não fazem parte da comunidade. Já na “nossa” casa, o jantar foi servido. Uma travessa de frango assado, arroz, batatas e salada de onde todos comemos enquanto partilhávamos ideias, histórias e culturas. Ghardaia: arquitectura islâmica sustentável Sinto que posso ter inventado um conceito ao combinar as três palavras que mencionei neste título, mas a verdade é que aprendemos tanto sobre arquitectura na nossa visita ao centro histórico de Ghardaia e como ela define a vida no M’zab, que acho que faz todo o sentido. O nome Ghardaia normalmente engloba todas as vilas e aldeias ali à volta. Ao contrário de Beni Isguen, Ghardaia já não é apenas um lugar histórico, intocado. Por fora das suas muralhas surgem casas modernas, escolas, mesquitas e hospitais. Algumas mulheres nem usam véus.  Mas passando as portas da fortaleza, lá estávamos nós outra vez, na casa dos Ibadis. O Ibadismo é um ramo do Islão, tal como o sunita e o xiita. Desta vez, mesmo estando com dois locais, tivemos de ser acompanhados por um guia. Estes guias obrigatórios trabalham para o gabinete turístico de cada aldeia. Os seus serviços são gratuitos, mas no fim podes deixar sempre uma gorjeta.  A coisa boa é que como eles nasceram e cresceram naquele meio, poderão responder a todas as tuas perguntas sobre o estilo de vida dos Ibadis.  Dentro de Ghardaia aprendemos que as casas são feitas seguindo os princípios do Ibadismo. Todas as casas parecem iguais, independentemente da classe social de quem as habita. As portas são desencontradas para permitir dar privacidade a cada família. Cada casa tem um pátio e uma estrutura bastante simples. Há entradas diferentes para homens e mulheres.  A argila é usada como isolamento térmico. No verão mantém as casas frescas, no inverno mantém as casas quentes. Os troncos das palmeiras também são usados com frequência. Aqui há um grande respeito pela terra e pelos seus recursos. Tudo é feito de uma forma sustentável e as aldeias do M’zab tornaram-se uma inspiração para vários arquitectos internacionais incluindo Le Corbusier.  Os Ibadis vivem a sua vida em comunidade. Existe um conselho de pessoas que decidem as questões comerciais, judiciais e, em geral, governamentais. Apenas os casos mais graves chegam aos tribunais argelinos.  Depois de termos absorvido toda esta informação, voltámos para o nosso oásis onde nos foi servida mais uma refeição inesquecível, cozinhada pelas mãos da mulher do Baelhadj: “pizza argelina”, também conhecida como Mahjouba.  Durante as horas mais quentes, os nossos anfitriões deixaram-nos para uma sesta à sombra. Os planos para a tarde eram ainda uma incógnita.  Jardin du Monde e uma figueira para a eternidade “Vamos plantar uma árvore!”. Não sabíamos bem se isto era uma expressão argelina, uma metáfora ou se íamos literalmente plantar uma árvore. Claro que era a terceira hipótese.  Munidos de uma pequena árvore, caminhámos até um oásis dentro do oásis. Ali, no meio do Vale do M’zab, começava a nascer uma empreitada que se desdobra em mil e um projectos.  Um centro equestre onde se faz terapia com crianças autistas. Uma guesthouse construída com o preceito da tradição e materiais sustentáveis. Um jardim com árvores e plantas de todo mundo, algumas delas plantadas pelas mãos de viajantes. Uma infinity pool com vista para um mar de palmeiras. Um lugar de paz, reflexão e comunidade.   O dono do projecto (não me lembro do nome dele), mostrou-nos cada cantinho com muito orgulho e carinho e no fim escavámos um buraco para plantar a nossa pequena árvore. Pode ser que lá voltemos um dia para ver como a nossa menina cresceu!  O pôr do sol na colina mais próxima e a vista incrível a partir do minarete local foram a cereja no topo do bolo para terminar os nossos dias em Ghardaia.  Nessa noite ainda fomos convidados para ir jantar a casa de um amigo do nosso anfitrião com quem nos tínhamos cruzado mais cedo. Comemos pratos deliciosos preparados pela mãe dele e travámos amizade com o seu papagaio falante.  Fomos até Ghardaia sem planos, não fazendo ideia do que nos esperava. Descobrimos um lugar fascinante, com uma cultura vibrante e pessoas de uma gentileza e generosidade além de tudo o que já experienciei. Obrigada!  As mulheres do M’zab Não podia terminar este post sem falar das mulheres do Vale do M’zab. É difícil exprimir os meus sentimentos relativamente a este tema, uma vez que nem tenho bem a certeza daquilo que sinto.  Parece que as mulheres são invisíveis e têm de ser invisíveis no Ibadismo. Cobrem-se com longas vestes brancas e mostram os dois olhos se forem solteiras ou apenas um olho se forem casadas.  Grande parte da sua existência é passada dentro de casa. Raramente vão ao mercado, esta é uma das muitas tarefas reservadas para os homens.  As casas estão ligadas entre si através dos telhados para que as mulheres se possam movimentar e visitar umas às outras sem passar pela rua. Todas as refeições que comemos foram preparadas por mulheres, mas nós nunca as conhecemos. Nem fotografias vimos, porque a partir da adolescência deixam de tirar fotografias.  Aos nossos olhos isto é absolutamente sufocante. Ali faz parte de uma identidade comunitária, de uma religião, de uma cultura.  Uma das maiores razões que me leva a estes lugares é tentar compreender, tentar aprender. Às vezes não sei se consigo.

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Tínhamos pela frente a jornada mais longa até então: íamos para Ghardaia. Não é de admirar termos de percorrer tantos quilómetros (500 a partir de Biskra) para alcançar este conjunto de vilarejos perdidos no Vale do M’zab. Quando lá chegamos apercebemo-nos que não viajámos apenas no espaço, mas também no tempo.

Não posso dizer que as estradas argelinas sejam particularmente interessantes. Afinal, estávamos a atravessar o deserto! Há sinais de “perigo de camelo”, areia, pó e claro, os ocasionais camelos.


Antes de entrarmos por uma estrada onde não havia nem uma amostra de civilização, parámos para arranjar almoço. Éramos claramente o maior acontecimento do mês em Djamaa. Para ver se atraía menos olhares de espanto embrulhei-me num lenço – acho que a minha falta de jeito só fez pior – e entrámos num restaurante de fast food. Entre francês, inglês e gestos lá nos fizemos entender e conseguimos uns wraps de frango. O rapaz que nos atendeu incluiu duas Coca-Cola grátis no saco, enquanto nos indicava com um grande sorriso, que era oferta. 

Apesar de nenhum de nós gostar de Coca-Cola, o gesto aqueceu-me o coração!

“Isto é hospitalidade M’zabite”

O nosso anfitrião em Ghardaia tinha caído do céu. Atendendo ao meu pedido público no Couchsurfing, o Baelhadj ofereceu-se para nos hospedar. As reviews dele era tão incríveis que pensei que teríamos que lhe pagar algo por tanta amabilidade e generosidade. Afinal não, era tudo “hospitalidade M’zabite”.

Para clarificar o que quero dizer por amabilidade e generosidade:

  • Ficámos na casa de fim de semana do nosso anfitrião. Tínhamos a casa toda para nós. Um paraíso no meio do Vale do M’zabe.
  • Não pagámos uma única refeição. A mulher do Baelhadj preparou várias refeições deliciosas para nós.
  • Tivémos direito a visitas guiadas com os amigos dele, que ele convida por não conseguir comunicar muito bem em inglês.
  • Convivemos com vários donos de negócios locais que estão a desenvolver a região
  • Conhecemos o arquitecto da mais recente aldeia do M’zab


Foram dois dias maravilhosos onde aprendemos muito sobre a cultura M’zabite. Isto tudo aliado à beleza destas aldeias que preservam as suas tradições e cultura como poucos lugares no mundo – para o bom e para o menos bom – tornaram este pedaço de viagem num dos mais interessantes.

Para não me alongar numa descrição detalhada sobre cada momento, vou partilhar os meus lugares e interações preferidas!

Beni Isgen: fundamentalismo, regras e comunidade

Creio que já não existam muitos lugares no mundo como Beni Isguen. A mais pitoresca das cinco aldeias históricas do M’zab foi o nosso cartão de visita para a região. Com o sol já baixo, as cores quentes que caracterizam a arquitectura M’zabite tornavam-se ainda mais intensas.


À entrada somos logo lembrados que ali há regras. Não se fotografam pessoas. Não se entra com roupas reveladoras. Não se entra sem guia.

Nós tivemos a sorte de estarmos com duas pessoas locais e como já era tarde, escapámo-nos ao guia oficial e seguimos pelas ruas que permanecem iguais ao que eram há mil anos atrás.

Aqui aprendemos que todas as vilas do M’zab seguem a mesma estrutura. Situadas numa colina e rodeadas por uma muralha, na parte mais baixa há um mercado, e a partir daí fluem ruas estreitas onde habitam os comerciantes e agricultores locais. Fora das muralhas ficam os cemitérios.


As casas são construídas com materiais da região, como argila, sendo feitas para se adaptarem à amplitude térmica do deserto e às suas tempestades de areia.

Todas as ruas vão dar à mesquita, que se situa no topo das aldeias. O minarete da mesquita, para além de chamar os fiéis para as cinco rezas diárias, também funciona como torre de controlo e costumava ser uma forma de comunicar com as outras aldeias.

Para terminar a nossa visita o nosso host e o seu amigo Kacem levaram-nos até a um miradouro onde conseguimos ver o mar de palmeiras que caracteriza o oásis deste vale. 


Os últimos raios de sol eram sinónimo que estava na hora de sair de Beni Esguin. Apenas os seus moradores podem ali pernoitar, não existem hotéis nem alojamento local para pessoas que não fazem parte da comunidade.

Já na “nossa” casa, o jantar foi servido. Uma travessa de frango assado, arroz, batatas e salada de onde todos comemos enquanto partilhávamos ideias, histórias e culturas.


Ghardaia: arquitectura islâmica sustentável

Sinto que posso ter inventado um conceito ao combinar as três palavras que mencionei neste título, mas a verdade é que aprendemos tanto sobre arquitectura na nossa visita ao centro histórico de Ghardaia e como ela define a vida no M’zab, que acho que faz todo o sentido.

O nome Ghardaia normalmente engloba todas as vilas e aldeias ali à volta. Ao contrário de Beni Isguen, Ghardaia já não é apenas um lugar histórico, intocado. Por fora das suas muralhas surgem casas modernas, escolas, mesquitas e hospitais. Algumas mulheres nem usam véus. 

Mas passando as portas da fortaleza, lá estávamos nós outra vez, na casa dos Ibadis. O Ibadismo é um ramo do Islão, tal como o sunita e o xiita. Desta vez, mesmo estando com dois locais, tivemos de ser acompanhados por um guia. Estes guias obrigatórios trabalham para o gabinete turístico de cada aldeia. Os seus serviços são gratuitos, mas no fim podes deixar sempre uma gorjeta. 


A coisa boa é que como eles nasceram e cresceram naquele meio, poderão responder a todas as tuas perguntas sobre o estilo de vida dos Ibadis

Dentro de Ghardaia aprendemos que as casas são feitas seguindo os princípios do Ibadismo. Todas as casas parecem iguais, independentemente da classe social de quem as habita. As portas são desencontradas para permitir dar privacidade a cada família. Cada casa tem um pátio e uma estrutura bastante simples. Há entradas diferentes para homens e mulheres. 

A argila é usada como isolamento térmico. No verão mantém as casas frescas, no inverno mantém as casas quentes. Os troncos das palmeiras também são usados com frequência. Aqui há um grande respeito pela terra e pelos seus recursos. Tudo é feito de uma forma sustentável e as aldeias do M’zab tornaram-se uma inspiração para vários arquitectos internacionais incluindo Le Corbusier. 


Os Ibadis vivem a sua vida em comunidade. Existe um conselho de pessoas que decidem as questões comerciais, judiciais e, em geral, governamentais. Apenas os casos mais graves chegam aos tribunais argelinos. 

Depois de termos absorvido toda esta informação, voltámos para o nosso oásis onde nos foi servida mais uma refeição inesquecível, cozinhada pelas mãos da mulher do Baelhadj: “pizza argelina”, também conhecida como Mahjouba


Durante as horas mais quentes, os nossos anfitriões deixaram-nos para uma sesta à sombra. Os planos para a tarde eram ainda uma incógnita. 

Jardin du Monde e uma figueira para a eternidade

“Vamos plantar uma árvore!”. Não sabíamos bem se isto era uma expressão argelina, uma metáfora ou se íamos literalmente plantar uma árvore. Claro que era a terceira hipótese. 

Munidos de uma pequena árvore, caminhámos até um oásis dentro do oásis. Ali, no meio do Vale do M’zab, começava a nascer uma empreitada que se desdobra em mil e um projectos. 

Um centro equestre onde se faz terapia com crianças autistas. Uma guesthouse construída com o preceito da tradição e materiais sustentáveis. Um jardim com árvores e plantas de todo mundo, algumas delas plantadas pelas mãos de viajantes. Uma infinity pool com vista para um mar de palmeiras. Um lugar de paz, reflexão e comunidade.  

O dono do projecto (não me lembro do nome dele), mostrou-nos cada cantinho com muito orgulho e carinho e no fim escavámos um buraco para plantar a nossa pequena árvore. Pode ser que lá voltemos um dia para ver como a nossa menina cresceu! 

O pôr do sol na colina mais próxima e a vista incrível a partir do minarete local foram a cereja no topo do bolo para terminar os nossos dias em Ghardaia. 


Nessa noite ainda fomos convidados para ir jantar a casa de um amigo do nosso anfitrião com quem nos tínhamos cruzado mais cedo. Comemos pratos deliciosos preparados pela mãe dele e travámos amizade com o seu papagaio falante. 

Fomos até Ghardaia sem planos, não fazendo ideia do que nos esperava. Descobrimos um lugar fascinante, com uma cultura vibrante e pessoas de uma gentileza e generosidade além de tudo o que já experienciei. Obrigada! 


As mulheres do M’zab

Não podia terminar este post sem falar das mulheres do Vale do M’zab. É difícil exprimir os meus sentimentos relativamente a este tema, uma vez que nem tenho bem a certeza daquilo que sinto. 

Parece que as mulheres são invisíveis e têm de ser invisíveis no Ibadismo. Cobrem-se com longas vestes brancas e mostram os dois olhos se forem solteiras ou apenas um olho se forem casadas. 

Grande parte da sua existência é passada dentro de casa. Raramente vão ao mercado, esta é uma das muitas tarefas reservadas para os homens. 

As casas estão ligadas entre si através dos telhados para que as mulheres se possam movimentar e visitar umas às outras sem passar pela rua. Todas as refeições que comemos foram preparadas por mulheres, mas nós nunca as conhecemos. Nem fotografias vimos, porque a partir da adolescência deixam de tirar fotografias. 

Aos nossos olhos isto é absolutamente sufocante. Ali faz parte de uma identidade comunitária, de uma religião, de uma cultura. 

Uma das maiores razões que me leva a estes lugares é tentar compreender, tentar aprender. Às vezes não sei se consigo.

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De Sofá em Sofá pela Argélia #2: Constantine, Timgad e Ghoufi https://www.mudancasconstantes.com/2023/07/24/argelia-constantine-batna-ghoufi/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=argelia-constantine-batna-ghoufi https://www.mudancasconstantes.com/2023/07/24/argelia-constantine-batna-ghoufi/#respond Mon, 24 Jul 2023 19:56:08 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9318 Djemila, Constantine, Batna, Timgad, Ghoufi e Biskra. Até fico cansada só de enumerar tantos destinos! Um verdadeiro rodopio de lugares, restaurantes, casas e pessoas que tornaram as primeiras 48 horas da nossa roadtrip numa verdadeira aventura.  Ando eu, ando eu a caminho… das ruínas! Entre o (atrasadíssimo e lentíssimo) comboio de Argel para o aeroporto, apanhar o carro, fazer compras num hipermercado e arrancarmos em direção a Constantine, o tempo passou mais rápido do que tínhamos planeado e estávamos atrasados! Antes de chegarmos a Constantine, à Cidade das Pontes, íamos fazer um desvio até às ruínas romanas de Djemila. Segundo o que encontrei online, as ruínas fechavam às cinco da tarde e, se tudo corresse bem, chegaríamos pelas 15:30/16:00. Apertado, mas tínhamos que tentar! A estrada estava em condições surpreendentemente boas, sendo que de vez em quando reparávamos num condutor parado para um casual xixi ou em dois amigos encostados a pôr a conversa em dia. Tudo é possível! Passando por um checkpoint aqui e ali, chegámos às ruínas a tempo. Foi quase uma pena termos visto Djemila primeiro, porque foram as melhores ruínas da viagem! Podem não ser tão extensas como as de Timgad, nem ter uma vista mar como Tipasa, mas estão num bonito vale, têm uma atmosfera muito própria e estão muito bem preservadas. Enquanto festejávamos o facto de termos um lugar daqueles quase só para nós, ouvimos a língua de Camões. Ali estava um grupo de portugueses, liderados pelo Pedro Moreira, que viríamos a encontrar mais duas vezes durante a viagem. Afinal, os poucos turistas que existem acabam todos nos mesmos sítios!  Quando souberam que estávamos de carro, sozinhos, perguntaram-nos logo se não estávamos a ser acompanhados pela polícia. Pelos vistos, eles tinham sido escoltados e continuariam a ser quase toda a viagem. A partir daí ganhámos uma aversão aos checkpoints da polícia. A última coisa que queríamos era ser escoltados! Íamos precisar de muita sorte para escaparmos durante as próximas duas semanas. Jantares espontâneos e passeios noturnos Tínhamos arranjado um host em Constantine à última hora, mas como ele só ia chegar a casa mais tarde, decidi tentar a minha sorte e ver se o Yacine, que também tinha conhecido através do Couchsurfing, estava disponível para um jantar espontâneo. A resposta foi um rápido “sim”, e pouco tempo depois estávamos sentados nuns banquinhos de plástico a comer espetadas com ele e um amigo dele, o Khalil. Nessa noite percebi que era a única mulher na rua, um padrāo que se repetiria durante quase toda a viagem. As horas que se seguiram, foram passadas a conversar sobre tudo e mais alguma coisa, principalmente sobre o futuro e os sonhos deles. Muitos jovens saem do país à procura de um futuro melhor, sendo que alguns acabam por perder a própria vida no caminho. Quando demos por nós, estava na altura de nos despedirmos, tirarmos selfies, e ir conhecer o nosso anfitrião para essa noite.  Com um sorriso cansado de alguém que tinha trabalhado até às dez da noite, o Amir abriu-nos a porta da sua casa. “Então. Vamos ver a cidade?”. Não estávamos nada à espera daquela pergunta! Apesar do longo dia de viagem, sabíamos tão bem quanto ele que aquela era a nossa única oportunidade de ver Constantine de noite. Aceitámos e durante uma hora, passeámos pelos melhores miradouros de Constantine, começando a perceber a maravilha geográfica que é aquela cidade. Conquistando Constantine, ponte por ponte Depois de uma noite bem dormida, estávamos prontos para conquistar Constantine. A boleia do Amir deixou-nos no centro e começámos por um pequeno almoço no Café Oxygène. A cultura do pequeno almoço e dos cafés é praticamente inexistente na Argélia, portanto apesar dos croissants serem secos, souberam a pato! Ao lado do café fica o Palácio Ahmed Bey, cujo bilhete de entrada vem acompanhado de guia. Com um jardim vibrante, cheio de laranjeiras, o maior “tesouro” deste palácio são os seus murais, pintados pelo próprio Hajj Ahmed. Estes frescos, raros na região, representam a sua peregrinação pelo Médio Oriente até chegar a Meca. Contudo o melhor de Constantine são as suas pontes e, por vezes, até o que está por baixo delas. Juntámos o Khalil, o Amir e mais uma rapariga americana que nos chegou através do Couchsurfing e lá fomos, descobrindo mercados de rua, como o Didouche Mourad, e pontes suspensas que abanam por tudo quanto é sítio.  As minhas preferidas são a Sidi M’Cid e a Mellah Slimane. Almoçámos num restaurante simples, onde as mesas se enchem de migalhas e tudo se partilha. Espetadas, almôndegas, sopa de grão de bico e umas batatas, que só de pensar nelas me cresce água na boca! Tudo maravilhoso e nós proibidos de pagar por ordem dos anfitriões. Avatar vs Velocidade Furiosa  À tarde tivemos de acelerar o passo porque a Arzu, a americana, tinha que apanhar um voo. Mas foi no meio desta correria que nos foi mostrado o melhor lugar de Constantine. Debaixo de uma ponte, a Bab El Kantra, depois de passarmos por uma data de lixo que ali se acumulou, abre-se uma paisagem tipo Avatar! Há jardins suspensos, pequenas quedas de água e um rio a passar por baixo dos nossos pés. É mágico! Foi um momento zen, de descanso, que precedeu uma das horas mais intensas da viagem. O Amir tinha-se oferecido para ir levar a Arzu ao aeroporto. Problema: não tinha visto o estado do trânsito. Entre rogar pragas aos trabalhos de construção, cantar canções típicas argelinas para não “panicar” e conduzir a uma velocidade furiosa, conseguimos deixar a moça no aeroporto a tempo! Quanto a nós, restava-nos dizer adeus e agradecer mais uma vez a hospitalidade, que já estava mais que comprovado ser uma característica inata dos Argelinos. Tiros celebratórios e hotéis moralistas O dia estava longe de ter terminado. Seguimos caminho até Batna, onde íamos passar a noite e encontrar-nos com o Norushka – que tinha conhecido através do Pedro Moreira, com quem me cruzei em Djemila.  O Norushka não nos podia acolher, mas ajudou-nos a encontrar um hotel baratucho em Batna. Para minha surpresa, Batna já era um lugar mais conservador e eu e o Pina, o meu amigo e companheiro de viagem, não podíamos ficar no mesmo quarto por não sermos casados. O dono do hotel deixou bem claro que não haveria cá escapadelas noturnas de um quarto para o outro. Sim, por que o hotel tinha câmeras! Separados por dois pisos, deixámos as mochilas nos quartos (12.5€ cada) e fomos jantar. Fomos apresentados à Chakhchoukha e ao Zviti e a nossa paixão pela gastronomia argelina foi-se aprofundando. Quanto ao Norushka apercebemo-nos logo que nos íamos dar muito bem. Apesar do cansaço, conversámos durante horas e ele felizmente mencionou que, como à meia noite íamos passar para dia 1 de Novembro – quando se comemora o início da Guerra da Argélia – ia haver tiros de celebração por toda a cidade.  Tivémos pena de não ficar para assistir, mas depois de um dia destes só queríamos ir aproveitar o nosso hotel conservador. Ao menos não nos assustamos quando à meia noite começou tudo aos tiros! Nas (esbatidas) pegadas Romanas Acordámos cedo e com algum receio que o dono do hotel nos tivesse apanhado a trocar uma pasta de dentes às dez da noite. Pequeno-almoço tomado (o melhor da viagem!), fomos apanhar o Norushka à sua vila. Ele tinha uma surpresa para nós! A dois minutos da sua casa estava um museu de estátuas romanas absolutamente incrível. Num sítio onde ninguém vai! O senhor que toma conta do museu lá nos ia transmitindo alguma informação através do Norushka e ficou deliciado com as nossas caras de parvos a olhar para aquilo tudo. Eles até têm a maior estátua romana de todo o continente africano! Mais uma vez, fomos proibidos de pagar. Mas isto era só uma amostra. Timgad era o próximo destino! Desenhada por militares, é aqui que fica o maior complexo de ruínas romanas da Argélia. Passeámos pelas suas ruas perfeitamente desenhadas e vimos colunas, um teatro, as casas dos seus habitantes e um arco monumental. Depois de tanta pedra, era hora de almoçar. A luta pela liberdade começou num desfiladeiro Parámos num pequeno restaurante a caminho daquele que pensávamos que seria o nosso destino final: o Desfiladeiro de Ghoufi (diz-se Rhoufi). Nesse restaurante vivi aquele que seria o momento mais insólito da viagem.Quando nos sentámos numa mesinha ao canto, não demorou mais do que dois segundos até o dono do restaurante se dirigir até nós para instalar um biombo à nossa volta, mais particularmente à minha volta. Com um ar meio perdido, perguntámos ao Norushka o que é que estava a acontecer e pelos vistos, estava a tentar proteger-me dos olhares de homens desconhecidos! Agradecemos o gesto, mas dissemos que não havia necessidade. Estávamos oficialmente a entrar na zona mais conservadora da Argélia.  Depois do almoço, que custou cerca de 5€ para três pessoas, acabámos numa pastelaria com éclairs e outros bolos franceses de fazer crescer água na boca, todos a menos de 1€. Íamos devorar estas maravilhas enquanto olhávamos para uma das melhores paisagens do país. Seguimos caminho pela estrada onde começou a luta pela liberdade na Argélia. A Guerra da Argélia fazia sessenta e oito anos naquele dia.  A partir daqui a paisagem tornou-se mais árida e a vegetação passou a ser quase toda composta por palmeiras carregadas de tamaras. Por fim, lá estava ele, o famoso desfiladeiro, esculpido durante milhões de anos pela natureza. Tivemos a sorte de estar com o Norushka que conhece a zona como a palma das mãos. Seguimo-lo até ao miradouro com a vista mais bonita para enfardarmos os nossos bolos.  Já no fundo do desfiladeiro, ficamos rodeados de palmeiras e de paredes de rochas sedimentares. Para além da beleza natural, ainda há um hotel em ruínas, construído pelos franceses, que parece que foi ali posto para embelezar as fotografias dos turistas.  O Norushka, sendo cá dos nossos, ainda arranjou maneira de enfiar mais uma paragem neste dia já tão preenchido. Mostrou-nos a outra face do desfiladeiro, no M’Chouneche natural park, onde as suas margens se estreitam ao ponto de mal caber lá uma pessoa. Rendidos à chakhchoukha da mãe     Com o sol já a pôr-se, finalmente estávamos a caminho de Biskra onde o nosso próximo anfitrião e a sua mãe nos esperavam. Devo dizer que nunca me hei-de esquecer desta mãe argelina, já de quase oitenta anos, que nos cozinhou a melhor refeição de toda a viagem: a Chakhchoukha de Biskra. Não sei se por simpatia ou por não me querer pôr a dormir no mesmo quarto que um homem com quem não sou casada, a mãe convidou-me para dormir no quarto dela. Nessa noite adormeci ao som do seu ressonar, aconchegada num colchão no chão. No dia seguinte seguimos para Ghardaia!    Dicas e informações úteis Preço da gasolina: Foi logo no primeiro dia, quando decidimos pôr gasolina, que descobrimos que meio depósito custava 3 euros. Não podíamos estar a fazer as contas certas! Mas não é que estávamos mesmo? O preço por litro era de 14 cêntimos. Rimo-nos, celebrámos e 4,000km depois penso que gastámos cerca de 50€ em gasolina para a viagem toda… Alojamento em Batna: O hotel que mencionei acima chama-se Hôtel El Hayat. Acho que conseguimos um preço “especial” por ter sido marcado pelo nosso amigo, pelo que percebi, é sempre mais barato se for feito em pessoa, especialmente por locais. De qualquer forma é um hotel decente e limpo, só que já sabes… não há cá marotices fora do casamento!

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Djemila, Constantine, Batna, Timgad, Ghoufi e Biskra. Até fico cansada só de enumerar tantos destinos! Um verdadeiro rodopio de lugares, restaurantes, casas e pessoas que tornaram as primeiras 48 horas da nossa roadtrip numa verdadeira aventura.

 Ando eu, ando eu a caminho… das ruínas!

Entre o (atrasadíssimo e lentíssimo) comboio de Argel para o aeroporto, apanhar o carro, fazer compras num hipermercado e arrancarmos em direção a Constantine, o tempo passou mais rápido do que tínhamos planeado e estávamos atrasados!

Antes de chegarmos a Constantine, à Cidade das Pontes, íamos fazer um desvio até às ruínas romanas de Djemila. Segundo o que encontrei online, as ruínas fechavam às cinco da tarde e, se tudo corresse bem, chegaríamos pelas 15:30/16:00. Apertado, mas tínhamos que tentar! A estrada estava em condições surpreendentemente boas, sendo que de vez em quando reparávamos num condutor parado para um casual xixi ou em dois amigos encostados a pôr a conversa em dia. Tudo é possível!


Passando por um checkpoint aqui e ali, chegámos às ruínas a tempo. Foi quase uma pena termos visto Djemila primeiro, porque foram as melhores ruínas da viagem! Podem não ser tão extensas como as de Timgad, nem ter uma vista mar como Tipasa, mas estão num bonito vale, têm uma atmosfera muito própria e estão muito bem preservadas.

Enquanto festejávamos o facto de termos um lugar daqueles quase só para nós, ouvimos a língua de Camões. Ali estava um grupo de portugueses, liderados pelo Pedro Moreira, que viríamos a encontrar mais duas vezes durante a viagem. Afinal, os poucos turistas que existem acabam todos nos mesmos sítios! 

Quando souberam que estávamos de carro, sozinhos, perguntaram-nos logo se não estávamos a ser acompanhados pela polícia. Pelos vistos, eles tinham sido escoltados e continuariam a ser quase toda a viagem. A partir daí ganhámos uma aversão aos checkpoints da polícia. A última coisa que queríamos era ser escoltados! Íamos precisar de muita sorte para escaparmos durante as próximas duas semanas.


Jantares espontâneos e passeios noturnos

Tínhamos arranjado um host em Constantine à última hora, mas como ele só ia chegar a casa mais tarde, decidi tentar a minha sorte e ver se o Yacine, que também tinha conhecido através do Couchsurfing, estava disponível para um jantar espontâneo.

A resposta foi um rápido “sim”, e pouco tempo depois estávamos sentados nuns banquinhos de plástico a comer espetadas com ele e um amigo dele, o Khalil. Nessa noite percebi que era a única mulher na rua, um padrāo que se repetiria durante quase toda a viagem.



As horas que se seguiram, foram passadas a conversar sobre tudo e mais alguma coisa, principalmente sobre o futuro e os sonhos deles. Muitos jovens saem do país à procura de um futuro melhor, sendo que alguns acabam por perder a própria vida no caminho.

Quando demos por nós, estava na altura de nos despedirmos, tirarmos selfies, e ir conhecer o nosso anfitrião para essa noite. 

Com um sorriso cansado de alguém que tinha trabalhado até às dez da noite, o Amir abriu-nos a porta da sua casa. “Então. Vamos ver a cidade?”. Não estávamos nada à espera daquela pergunta!

Apesar do longo dia de viagem, sabíamos tão bem quanto ele que aquela era a nossa única oportunidade de ver Constantine de noite. Aceitámos e durante uma hora, passeámos pelos melhores miradouros de Constantine, começando a perceber a maravilha geográfica que é aquela cidade.


Conquistando Constantine, ponte por ponte

Depois de uma noite bem dormida, estávamos prontos para conquistar Constantine. A boleia do Amir deixou-nos no centro e começámos por um pequeno almoço no Café Oxygène. A cultura do pequeno almoço e dos cafés é praticamente inexistente na Argélia, portanto apesar dos croissants serem secos, souberam a pato!

Ao lado do café fica o Palácio Ahmed Bey, cujo bilhete de entrada vem acompanhado de guia. Com um jardim vibrante, cheio de laranjeiras, o maior “tesouro” deste palácio são os seus murais, pintados pelo próprio Hajj Ahmed. Estes frescos, raros na região, representam a sua peregrinação pelo Médio Oriente até chegar a Meca.



Contudo o melhor de Constantine são as suas pontes e, por vezes, até o que está por baixo delas. Juntámos o Khalil, o Amir e mais uma rapariga americana que nos chegou através do Couchsurfing e lá fomos, descobrindo mercados de rua, como o Didouche Mourad, e pontes suspensas que abanam por tudo quanto é sítio.  As minhas preferidas são a Sidi M’Cid e a Mellah Slimane.



Almoçámos num restaurante simples, onde as mesas se enchem de migalhas e tudo se partilha. Espetadas, almôndegas, sopa de grão de bico e umas batatas, que só de pensar nelas me cresce água na boca! Tudo maravilhoso e nós proibidos de pagar por ordem dos anfitriões.


Avatar vs Velocidade Furiosa 

À tarde tivemos de acelerar o passo porque a Arzu, a americana, tinha que apanhar um voo. Mas foi no meio desta correria que nos foi mostrado o melhor lugar de Constantine. Debaixo de uma ponte, a Bab El Kantra, depois de passarmos por uma data de lixo que ali se acumulou, abre-se uma paisagem tipo Avatar! Há jardins suspensos, pequenas quedas de água e um rio a passar por baixo dos nossos pés. É mágico!


Foi um momento zen, de descanso, que precedeu uma das horas mais intensas da viagem.

O Amir tinha-se oferecido para ir levar a Arzu ao aeroporto. Problema: não tinha visto o estado do trânsito. Entre rogar pragas aos trabalhos de construção, cantar canções típicas argelinas para não “panicar” e conduzir a uma velocidade furiosa, conseguimos deixar a moça no aeroporto a tempo!

Quanto a nós, restava-nos dizer adeus e agradecer mais uma vez a hospitalidade, que já estava mais que comprovado ser uma característica inata dos Argelinos.

Tiros celebratórios e hotéis moralistas

O dia estava longe de ter terminado. Seguimos caminho até Batna, onde íamos passar a noite e encontrar-nos com o Norushka – que tinha conhecido através do Pedro Moreira, com quem me cruzei em Djemila. 

O Norushka não nos podia acolher, mas ajudou-nos a encontrar um hotel baratucho em Batna. Para minha surpresa, Batna já era um lugar mais conservador e eu e o Pina, o meu amigo e companheiro de viagem, não podíamos ficar no mesmo quarto por não sermos casados. O dono do hotel deixou bem claro que não haveria cá escapadelas noturnas de um quarto para o outro. Sim, por que o hotel tinha câmeras! Separados por dois pisos, deixámos as mochilas nos quartos (12.5€ cada) e fomos jantar.


Fomos apresentados à Chakhchoukha e ao Zviti e a nossa paixão pela gastronomia argelina foi-se aprofundando. Quanto ao Norushka apercebemo-nos logo que nos íamos dar muito bem. Apesar do cansaço, conversámos durante horas e ele felizmente mencionou que, como à meia noite íamos passar para dia 1 de Novembro – quando se comemora o início da Guerra da Argéliaia haver tiros de celebração por toda a cidade. 

Tivémos pena de não ficar para assistir, mas depois de um dia destes só queríamos ir aproveitar o nosso hotel conservador. Ao menos não nos assustamos quando à meia noite começou tudo aos tiros!

Nas (esbatidas) pegadas Romanas

Acordámos cedo e com algum receio que o dono do hotel nos tivesse apanhado a trocar uma pasta de dentes às dez da noite. Pequeno-almoço tomado (o melhor da viagem!), fomos apanhar o Norushka à sua vila. Ele tinha uma surpresa para nós! A dois minutos da sua casa estava um museu de estátuas romanas absolutamente incrível. Num sítio onde ninguém vai!


O senhor que toma conta do museu lá nos ia transmitindo alguma informação através do Norushka e ficou deliciado com as nossas caras de parvos a olhar para aquilo tudo. Eles até têm a maior estátua romana de todo o continente africano! Mais uma vez, fomos proibidos de pagar.

Mas isto era só uma amostra. Timgad era o próximo destino! Desenhada por militares, é aqui que fica o maior complexo de ruínas romanas da Argélia. Passeámos pelas suas ruas perfeitamente desenhadas e vimos colunas, um teatro, as casas dos seus habitantes e um arco monumental. Depois de tanta pedra, era hora de almoçar.


A luta pela liberdade começou num desfiladeiro

Parámos num pequeno restaurante a caminho daquele que pensávamos que seria o nosso destino final: o Desfiladeiro de Ghoufi (diz-se Rhoufi). Nesse restaurante vivi aquele que seria o momento mais insólito da viagem.

Quando nos sentámos numa mesinha ao canto, não demorou mais do que dois segundos até o dono do restaurante se dirigir até nós para instalar um biombo à nossa volta, mais particularmente à minha volta. Com um ar meio perdido, perguntámos ao Norushka o que é que estava a acontecer e pelos vistos, estava a tentar proteger-me dos olhares de homens desconhecidos! Agradecemos o gesto, mas dissemos que não havia necessidade. Estávamos oficialmente a entrar na zona mais conservadora da Argélia. 

Depois do almoço, que custou cerca de 5€ para três pessoas, acabámos numa pastelaria com éclairs e outros bolos franceses de fazer crescer água na boca, todos a menos de 1€. Íamos devorar estas maravilhas enquanto olhávamos para uma das melhores paisagens do país.


Seguimos caminho pela estrada onde começou a luta pela liberdade na Argélia. A Guerra da Argélia fazia sessenta e oito anos naquele dia. 

A partir daqui a paisagem tornou-se mais árida e a vegetação passou a ser quase toda composta por palmeiras carregadas de tamaras. Por fim, lá estava ele, o famoso desfiladeiro, esculpido durante milhões de anos pela natureza.

Tivemos a sorte de estar com o Norushka que conhece a zona como a palma das mãos. Seguimo-lo até ao miradouro com a vista mais bonita para enfardarmos os nossos bolos. 


Já no fundo do desfiladeiro, ficamos rodeados de palmeiras e de paredes de rochas sedimentares. Para além da beleza natural, ainda há um hotel em ruínas, construído pelos franceses, que parece que foi ali posto para embelezar as fotografias dos turistas. 

O Norushka, sendo cá dos nossos, ainda arranjou maneira de enfiar mais uma paragem neste dia já tão preenchido. Mostrou-nos a outra face do desfiladeiro, no M’Chouneche natural park, onde as suas margens se estreitam ao ponto de mal caber lá uma pessoa.


Rendidos à chakhchoukha da mãe    

Com o sol já a pôr-se, finalmente estávamos a caminho de Biskra onde o nosso próximo anfitrião e a sua mãe nos esperavam. Devo dizer que nunca me hei-de esquecer desta mãe argelina, já de quase oitenta anos, que nos cozinhou a melhor refeição de toda a viagem: a Chakhchoukha de Biskra.


Não sei se por simpatia ou por não me querer pôr a dormir no mesmo quarto que um homem com quem não sou casada, a mãe convidou-me para dormir no quarto dela. Nessa noite adormeci ao som do seu ressonar, aconchegada num colchão no chão.

No dia seguinte seguimos para Ghardaia!   

Dicas e informações úteis

Preço da gasolina: Foi logo no primeiro dia, quando decidimos pôr gasolina, que descobrimos que meio depósito custava 3 euros. Não podíamos estar a fazer as contas certas! Mas não é que estávamos mesmo? O preço por litro era de 14 cêntimos. Rimo-nos, celebrámos e 4,000km depois penso que gastámos cerca de 50€ em gasolina para a viagem toda…

Alojamento em Batna: O hotel que mencionei acima chama-se Hôtel El Hayat. Acho que conseguimos um preço “especial” por ter sido marcado pelo nosso amigo, pelo que percebi, é sempre mais barato se for feito em pessoa, especialmente por locais. De qualquer forma é um hotel decente e limpo, só que já sabes… não há cá marotices fora do casamento!

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De Sofá em Sofá pela Argélia #1: Argel https://www.mudancasconstantes.com/2023/04/03/argelia-argel-dois-dias/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=argelia-argel-dois-dias https://www.mudancasconstantes.com/2023/04/03/argelia-argel-dois-dias/#comments Mon, 03 Apr 2023 21:12:53 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9282 “Senhoras e senhores, o voo desta noite, com destino a Argel, terá a duração de duas horas e vinte minutos.” Ao ouvir esta frase invadiu-me um pensamento semelhante ao que tive durante a minha viagem a Marrocos. Em menos de nada a minha realidade ia mudar completamente. Aliás, a minha realidade já tinha mudado ainda antes de ter aterrado na Argélia. A falta de informação sobre este país tão grande, mas tão desconhecido, fez com que o meu habitual detalhado e preciso plano de viagem se resumisse a pouco mais do que uma intenção. Com zero alojamentos marcados para as próximas duas semanas, esta viagem era um ponto de interrogação. Uma introdução à “doçura” Argelina Perto das dez da noite o meu voo aterrou em Argel, num aeroporto deserto. Passado o controlo de passaporte (dicas no fim), os meus medos confirmaram-se. WiFi nem vê-la e todas as lojas de telecomunicações estavam fechadas. Tinha de usar o charme e pedir ajuda. Claro que na Argélia não é preciso charme nenhum e os primeiros rapazes que abordei nem hesitaram em dar-me o telemóvel deles para a mão para falar com o meu host. Numa mistura de inglês e francês enferrujado lá consegui comunicar com o Mokrane e dizer-lhe que tinha chegado. Mas foi quando os moços partilharam a internet deles que percebi que aquela noite não ia ser fácil. O voo do meu amigo português estava atrasadíssimo e ele teria que se desenrascar e apanhar um táxi quando eventualmente chegasse. O Mokrane tinha tido a gentileza de me ir buscar ao aeroporto mais um amigo que conduzia o carro. Foi a primeira de muitas vezes que vi pessoas a partilhar carros. Por causa do custo de vida ou não dá para ter carro, ou mesmo os que têm, muitas vezes partilham-no para dividir custos. As boleias são um lugar comum. Um prato de bulgur e um desvio Despedimo-nos do amigo/condutor e subimos até um quarto andar sem elevador. Há sempre um pequeno formigueiro na barriga antes de se abrir a porta da casa de um novo host. Como já era de esperar, tinha tudo o que era preciso e mais: um prato de bulgur e frango para mim! Enquanto degustava o meu belo jantar e a conversa fluía, apercebi-me que as peripécias da noite não terminariam por ali. Principalmente para o meu amigo. O voo dele tinha sido desviado para Oran por causa do nevoeiro. Pelas duas ou três da manhã soube que estava bem e deixei-me finalmente adormecer. Casbah: na origem de Argel Em Argel, como em todo o Magrebe, os táxis abundam e são ao preço da chuva. Apanhámos um e pedimos que nos deixasse no Alto Casbah. Enquanto subíamos por estradas cheias de curvas e contracurvas, o meu cérebro tentava absorver tudo o que os meus olhos viam. A arquitectura Haussmann que caracteriza a baixa da cidade era lentamente substituída pela arquitectura Otomana que domina o Casbah. Casbah significa “cidade rodeada por muralhas” e, neste caso, Argel tem o Casbah mais antigo do norte de África. No topo do Casbah fica o Palácio do Dey. Este palácio, que está a ser reabilitado há dezenas de anos, é uma mixórdia de arquitecturas e chegou a ser o segundo maior palácio do Império Otomano. As divisões são bastante básicas e é interessante ver o contraste quando comparado com os palácios europeus. Mas é nas ruas do Casbah que está a alma de Argel. Um labirinto de casas brancas que já viram melhores dias, pequenos negócios e pátios com miúdos a brincar. No meio destas ruas e ruelas, entrámos numa casa de carpinteiros que esculpiram partes de alguns dos mais bonitos edifícios da cidade. No topo do prédio encontra-se uma das melhores vistas sobre Argel e o Mediterrâneo. Enquanto passeávamos, passámos por uma pequena porta colorida com bolinhos em cima de uma mesa. Se há coisa que prende a minha atenção são bolos com bom aspecto e o meu host, que só me queria fazer feliz, meteu conversa com o pasteleiro. Claro que ele nos deu vários bolos a provar e ainda nos queria oferecer mais para levar! Eventualmente conseguimos pagar-lhe e seguir caminho. Paris em branco, trocas mais ou menos legais e sardinhas O alto Casbah deságua no baixo Casbah, que num sábado de manhã está absolutamente recheado de pessoas a fazer as suas compras semanais. As ruas estreitas, com parabólicas, toldos e estendais dão lugar a longas e imponentes avenidas. A prioridade do dia era trocar dinheiro. Na Argélia o dinheiro troca-se nas ruas, a uma taxa muito melhor do que a que se encontra nos bancos. É um negócio que ainda não sei bem se é legal ou não, mas a verdade é que toda a gente o faz e a polícia está bem ciente disso! Perto da Praça Port-Saïd, estão vários homens encostados a colunas. Creio que qualquer um deles te possa trocar dinheiro! A taxa de câmbio é oficial e pode ser consultada online. Fizemos uma pequena pausa no Café Tantonville’s, que tem o serviço mais antipático da Argélia, só compensado por uma bela esplanada. Demos mais umas voltas que nos levaram ao magnífico edifício dos correios e à estátua de Emir Abdekader, um símbolo da resistência argelina contra a ocupação francesa. Fico sempre surpreendida com a falta de fome que as outras pessoas têm, neste caso o Mok, quando nem pequeno almoço tínhamos tomado. Já passava das duas quando me pergunta “tens fome?” ao que respondo, “SIM”, quase sem o deixar terminar. Assim sendo, fomos a um “restaurante” que nem sei se nome tem, comer sopa de feijão, pão, sardinhas e batatas fritas. Estava em casa. A refeição para duas pessoas custou 6€, ele pareceu achar caro. As semanas que se seguiram provariam que era verdade. À tarde passeámos pelo Jardim Botânico Hamma que é uma espécie de Gulbenkian mais tropical. Cheio de famílias que procuram escapar ao cheiro a escape da cidade e casais jovens (e não tão jovens) a namorar longe dos olhares julgadores. A visita só podia terminar no Memorial aos Mártires, um dos pontos mais emblemáticos da cidade. Não é particularmente bonito, estes memoriais de guerra raramente são, mas é um símbolo importante e o palco de muitas celebrações. Soube por fontes anónimas que muitos Argelinos vêem este memorial como um pirete a França. Enquanto explorávamos o estranho centro comercial subterrâneo na zona do monumento, recebi a chamada que esperava: o meu amigo estava finalmente em Argel e pronto para se encontrar connosco. Felizmente, ele teve tanta sorte quanto eu, e as pessoas que conheceu no voo arranjaram-lhe um motorista para o levar a casa do Mok. 20 minutos depois estávamos reunidos! Finalmente juntos e um couscous como deve ser O Mok já não tinha mais forças nas pernas – parece que dou cabo de toda a gente – e decidiu ficar a descansar enquanto eu e o Pina passeávamos à beira mar a observar a vida a acontecer. O plano para as próximas semanas começava a desenhar-se ainda que com muitos espaços em branco. No regresso a casa passámos pelo supermercado. Entre gestos e um francês mal amanhado comprámos frango, courgette e cenouras. Tinha-me sido prometida uma aula de culinária: ia aprender como fazer um couscous a sério. E que couscous que foi! Parece que ninguém na Europa sabe fazer couscous como deve ser. Dá uma trabalheira! Entre espalhar o couscous, deixar absorver água, cozinha ao vapor e repetir três vezes, passa-se mais de uma hora e ainda não tínhamos nada no prato. Quando finalmente pusemos a comida na mesa nem queríamos acreditar. Foi o fim perfeito para um dia em cheio. Camarões, o reencontro e a noite de Argel É engraçado pensar no quão diferentes foram os nossos dias em Argel. O início e o fim. Quando deixámos o Mok para a caminho do aeroporto para apanharmos o carro, ele não estava particularmente convencido que conseguiriamos fazer a viagem que tinha planeado. Seriam mais de 4,000 quilómetros, durante 15 dias, que nos levariam ao coração da Argélia. Ele não conhecia ninguém que o tivesse feito de forma independente. Quando voltámos a casa dele, no penúltimo dia de viagem, com um saco de camarões grelhados vindos de Tipasa e mil e uma histórias para contar, foi uma festa. Éramos a prova (viva!) que é possível! As celebrações não se fizeram só à mesa. Fui sair com o Mok e com um amigo dele para um restaurante que às 10 da noite se transforma num bar/discoteca. Adorei! Os argelinos dançam com uma paixão inacreditável, principalmente os homens! Fiquei a saber que o vinho argelino não é nada de se deitar fora. Uma tradição algo esquecida, mas que talvez possa vir a ser recuperada. Últimos passeios, despedidas e a passagem do testemunho O dia amanheceu com a minha cabeça ainda ressacada, mas com vontade de aproveitar o último dia. Decidimos visitar o Palácio dos Reis, um dos lugares mais bem preservados e bonitos da cidade. Os azulejos são fantásticos e a sua posição à beira mar faz deste palácio um sítio muito tranquilo. Almoçámos num restaurante muito gentrificado pela primeira vez: o Sapori. Era bastante bom e se estiveres à procura de um sítio onde falam inglês e onde se come bom couscous, é definitivamente uma opção a considerar. Nessa noite íamos ficar num hotel, estava na hora de passar o testemunho: o Mok tinha uma nova couchsurfer em sua casa. Fomos todos jantar a um restaurante tradicional para nos despedirmos daqueles pratos que entretanto se tinham tornado os nossos preferidos: Chakhchoukha e Zviti. Entre muitas palavras simpáticas e abraços, dissemos “adeus” às pessoas que nos tinham acolhido como se fossemos família e partimos da Argélia com uma certeza só: haveríamos de voltar. Dicas Rápidas Alojamento: Não sendo um país muito turístico, as opções de alojamento são parcas e difíceis de encontrar online. Só marcámos alojamento durante uma noite em Argel, porque o Mok não se tinha apercebido que precisávamos de estadia durante duas noites em vez de uma. Depois de se ter desdobrado em desculpas e de se ter oferecido para pagar o nosso hotel (claro que recusámos!), ajudou-nos a encontrar um sítio para ficar à última hora. Ficámos no Hotel Best Night – melhor nome de sempre. Eles tem dois hotéis e o staff é muito simpático. Oferecem transfer para o aeroporto, o que foi ideal porque os nossos voos de regresso eram a horas diferentes. Deixaram-nos ficar no mesmo quarto porque somos estrangeiros. Creio que pagámos 65€ por uma noite. Aluguer de carro: O aluguer de carro foi mais uma batalha. Se és mulher, não contactes agências com o teu nome! Recebi zero respostas! O Pina lá conseguiu propostas e acabámos por escolher a Free Car – mais um nome original! Apesar de terem um representante de vendas que ignorava o que eu dizia quando o meu francês era melhor que o do Pina (provavelmente é o mesmo que não responde a emails de mulheres), prestaram-nos um óptimo serviço e um HYUNDAI i20 que sobreviveu à viagem toda! Pagámos 500€ por 15 dias de aluguer, um preço bastante bom quando comparado com a maioria das pessoas que conhecemos. É boa ideia tentar marcar carro com alguma antecedência. Não há muitas agências e se te calha viajar numa altura em que está a acontecer um grande evento na cidade pode ser difícil arranjar carro. Chegar ao aeroporto: A melhor forma de viajar do aeroporto para o centro da cidade é de táxi. Os preços rondam os 3-5€ no máximo. O comboio custa 80 cêntimos, mas nunca se sabe bem quanto tempo vai demorar. Nós experimentamos uma vez e arrependemos-nos. Cartão SIM: Definitivamente um bem essencial para quem quer viajar de forma independente. A cobertura de rede é melhor do que pensava, em todas as cidades e vilarejos há internet. Os Argelinos ligam para toda a gente a toda a hora, por isso ter um número local também dá imenso jeito. Comprámos da Djeezy no aeroporto: 50 GB por 16€. Controlo de...

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“Senhoras e senhores, o voo desta noite, com destino a Argel, terá a duração de duas horas e vinte minutos.” Ao ouvir esta frase invadiu-me um pensamento semelhante ao que tive durante a minha viagem a Marrocos. Em menos de nada a minha realidade ia mudar completamente.

Aliás, a minha realidade já tinha mudado ainda antes de ter aterrado na Argélia. A falta de informação sobre este país tão grande, mas tão desconhecido, fez com que o meu habitual detalhado e preciso plano de viagem se resumisse a pouco mais do que uma intenção. Com zero alojamentos marcados para as próximas duas semanas, esta viagem era um ponto de interrogação.

Uma introdução à “doçura” Argelina

Perto das dez da noite o meu voo aterrou em Argel, num aeroporto deserto. Passado o controlo de passaporte (dicas no fim), os meus medos confirmaram-se. WiFi nem vê-la e todas as lojas de telecomunicações estavam fechadas. Tinha de usar o charme e pedir ajuda. Claro que na Argélia não é preciso charme nenhum e os primeiros rapazes que abordei nem hesitaram em dar-me o telemóvel deles para a mão para falar com o meu host.

Numa mistura de inglês e francês enferrujado lá consegui comunicar com o Mokrane e dizer-lhe que tinha chegado. Mas foi quando os moços partilharam a internet deles que percebi que aquela noite não ia ser fácil. O voo do meu amigo português estava atrasadíssimo e ele teria que se desenrascar e apanhar um táxi quando eventualmente chegasse.

O Mokrane tinha tido a gentileza de me ir buscar ao aeroporto mais um amigo que conduzia o carro. Foi a primeira de muitas vezes que vi pessoas a partilhar carros. Por causa do custo de vida ou não dá para ter carro, ou mesmo os que têm, muitas vezes partilham-no para dividir custos. As boleias são um lugar comum.

Um prato de bulgur e um desvio

Despedimo-nos do amigo/condutor e subimos até um quarto andar sem elevador. Há sempre um pequeno formigueiro na barriga antes de se abrir a porta da casa de um novo host. Como já era de esperar, tinha tudo o que era preciso e mais: um prato de bulgur e frango para mim!

Enquanto degustava o meu belo jantar e a conversa fluía, apercebi-me que as peripécias da noite não terminariam por ali. Principalmente para o meu amigo. O voo dele tinha sido desviado para Oran por causa do nevoeiro. Pelas duas ou três da manhã soube que estava bem e deixei-me finalmente adormecer.

Casbah: na origem de Argel

Em Argel, como em todo o Magrebe, os táxis abundam e são ao preço da chuva. Apanhámos um e pedimos que nos deixasse no Alto Casbah. Enquanto subíamos por estradas cheias de curvas e contracurvas, o meu cérebro tentava absorver tudo o que os meus olhos viam. A arquitectura Haussmann que caracteriza a baixa da cidade era lentamente substituída pela arquitectura Otomana que domina o Casbah. Casbah significa “cidade rodeada por muralhas” e, neste caso, Argel tem o Casbah mais antigo do norte de África.

No topo do Casbah fica o Palácio do Dey. Este palácio, que está a ser reabilitado há dezenas de anos, é uma mixórdia de arquitecturas e chegou a ser o segundo maior palácio do Império Otomano. As divisões são bastante básicas e é interessante ver o contraste quando comparado com os palácios europeus.


Mas é nas ruas do Casbah que está a alma de Argel. Um labirinto de casas brancas que já viram melhores dias, pequenos negócios e pátios com miúdos a brincar. No meio destas ruas e ruelas, entrámos numa casa de carpinteiros que esculpiram partes de alguns dos mais bonitos edifícios da cidade. No topo do prédio encontra-se uma das melhores vistas sobre Argel e o Mediterrâneo.


Enquanto passeávamos, passámos por uma pequena porta colorida com bolinhos em cima de uma mesa. Se há coisa que prende a minha atenção são bolos com bom aspecto e o meu host, que só me queria fazer feliz, meteu conversa com o pasteleiro. Claro que ele nos deu vários bolos a provar e ainda nos queria oferecer mais para levar! Eventualmente conseguimos pagar-lhe e seguir caminho.


Paris em branco, trocas mais ou menos legais e sardinhas

O alto Casbah deságua no baixo Casbah, que num sábado de manhã está absolutamente recheado de pessoas a fazer as suas compras semanais. As ruas estreitas, com parabólicas, toldos e estendais dão lugar a longas e imponentes avenidas.

A prioridade do dia era trocar dinheiro. Na Argélia o dinheiro troca-se nas ruas, a uma taxa muito melhor do que a que se encontra nos bancos. É um negócio que ainda não sei bem se é legal ou não, mas a verdade é que toda a gente o faz e a polícia está bem ciente disso! Perto da Praça Port-Saïd, estão vários homens encostados a colunas. Creio que qualquer um deles te possa trocar dinheiro! A taxa de câmbio é oficial e pode ser consultada online.


Fizemos uma pequena pausa no Café Tantonville’s, que tem o serviço mais antipático da Argélia, só compensado por uma bela esplanada. Demos mais umas voltas que nos levaram ao magnífico edifício dos correios e à estátua de Emir Abdekader, um símbolo da resistência argelina contra a ocupação francesa.


Fico sempre surpreendida com a falta de fome que as outras pessoas têm, neste caso o Mok, quando nem pequeno almoço tínhamos tomado. Já passava das duas quando me pergunta “tens fome?” ao que respondo, “SIM”, quase sem o deixar terminar. Assim sendo, fomos a um “restaurante” que nem sei se nome tem, comer sopa de feijão, pão, sardinhas e batatas fritas. Estava em casa. A refeição para duas pessoas custou 6€, ele pareceu achar caro. As semanas que se seguiram provariam que era verdade.


À tarde passeámos pelo Jardim Botânico Hamma que é uma espécie de Gulbenkian mais tropical. Cheio de famílias que procuram escapar ao cheiro a escape da cidade e casais jovens (e não tão jovens) a namorar longe dos olhares julgadores.

A visita só podia terminar no Memorial aos Mártires, um dos pontos mais emblemáticos da cidade. Não é particularmente bonito, estes memoriais de guerra raramente são, mas é um símbolo importante e o palco de muitas celebrações. Soube por fontes anónimas que muitos Argelinos vêem este memorial como um pirete a França.


Enquanto explorávamos o estranho centro comercial subterrâneo na zona do monumento, recebi a chamada que esperava: o meu amigo estava finalmente em Argel e pronto para se encontrar connosco. Felizmente, ele teve tanta sorte quanto eu, e as pessoas que conheceu no voo arranjaram-lhe um motorista para o levar a casa do Mok. 20 minutos depois estávamos reunidos!

Finalmente juntos e um couscous como deve ser

O Mok já não tinha mais forças nas pernas – parece que dou cabo de toda a gente – e decidiu ficar a descansar enquanto eu e o Pina passeávamos à beira mar a observar a vida a acontecer. O plano para as próximas semanas começava a desenhar-se ainda que com muitos espaços em branco.


No regresso a casa passámos pelo supermercado. Entre gestos e um francês mal amanhado comprámos frango, courgette e cenouras. Tinha-me sido prometida uma aula de culinária: ia aprender como fazer um couscous a sério.

E que couscous que foi! Parece que ninguém na Europa sabe fazer couscous como deve ser. Dá uma trabalheira! Entre espalhar o couscous, deixar absorver água, cozinha ao vapor e repetir três vezes, passa-se mais de uma hora e ainda não tínhamos nada no prato. Quando finalmente pusemos a comida na mesa nem queríamos acreditar. Foi o fim perfeito para um dia em cheio.


Camarões, o reencontro e a noite de Argel

É engraçado pensar no quão diferentes foram os nossos dias em Argel. O início e o fim. Quando deixámos o Mok para a caminho do aeroporto para apanharmos o carro, ele não estava particularmente convencido que conseguiriamos fazer a viagem que tinha planeado. Seriam mais de 4,000 quilómetros, durante 15 dias, que nos levariam ao coração da Argélia. Ele não conhecia ninguém que o tivesse feito de forma independente.

Quando voltámos a casa dele, no penúltimo dia de viagem, com um saco de camarões grelhados vindos de Tipasa e mil e uma histórias para contar, foi uma festa. Éramos a prova (viva!) que é possível!

As celebrações não se fizeram só à mesa. Fui sair com o Mok e com um amigo dele para um restaurante que às 10 da noite se transforma num bar/discoteca. Adorei! Os argelinos dançam com uma paixão inacreditável, principalmente os homens! Fiquei a saber que o vinho argelino não é nada de se deitar fora. Uma tradição algo esquecida, mas que talvez possa vir a ser recuperada.

Últimos passeios, despedidas e a passagem do testemunho

O dia amanheceu com a minha cabeça ainda ressacada, mas com vontade de aproveitar o último dia. Decidimos visitar o Palácio dos Reis, um dos lugares mais bem preservados e bonitos da cidade. Os azulejos são fantásticos e a sua posição à beira mar faz deste palácio um sítio muito tranquilo.


Almoçámos num restaurante muito gentrificado pela primeira vez: o Sapori. Era bastante bom e se estiveres à procura de um sítio onde falam inglês e onde se come bom couscous, é definitivamente uma opção a considerar.

Nessa noite íamos ficar num hotel, estava na hora de passar o testemunho: o Mok tinha uma nova couchsurfer em sua casa. Fomos todos jantar a um restaurante tradicional para nos despedirmos daqueles pratos que entretanto se tinham tornado os nossos preferidos: Chakhchoukha e Zviti.

Entre muitas palavras simpáticas e abraços, dissemos “adeus” às pessoas que nos tinham acolhido como se fossemos família e partimos da Argélia com uma certeza só: haveríamos de voltar.

Dicas Rápidas

Alojamento: Não sendo um país muito turístico, as opções de alojamento são parcas e difíceis de encontrar online. Só marcámos alojamento durante uma noite em Argel, porque o Mok não se tinha apercebido que precisávamos de estadia durante duas noites em vez de uma. Depois de se ter desdobrado em desculpas e de se ter oferecido para pagar o nosso hotel (claro que recusámos!), ajudou-nos a encontrar um sítio para ficar à última hora.

Ficámos no Hotel Best Night – melhor nome de sempre. Eles tem dois hotéis e o staff é muito simpático. Oferecem transfer para o aeroporto, o que foi ideal porque os nossos voos de regresso eram a horas diferentes. Deixaram-nos ficar no mesmo quarto porque somos estrangeiros. Creio que pagámos 65€ por uma noite.

Aluguer de carro: O aluguer de carro foi mais uma batalha. Se és mulher, não contactes agências com o teu nome! Recebi zero respostas! O Pina lá conseguiu propostas e acabámos por escolher a Free Car – mais um nome original! Apesar de terem um representante de vendas que ignorava o que eu dizia quando o meu francês era melhor que o do Pina (provavelmente é o mesmo que não responde a emails de mulheres), prestaram-nos um óptimo serviço e um HYUNDAI i20 que sobreviveu à viagem toda!

Pagámos 500€ por 15 dias de aluguer, um preço bastante bom quando comparado com a maioria das pessoas que conhecemos. É boa ideia tentar marcar carro com alguma antecedência. Não há muitas agências e se te calha viajar numa altura em que está a acontecer um grande evento na cidade pode ser difícil arranjar carro.

Chegar ao aeroporto: A melhor forma de viajar do aeroporto para o centro da cidade é de táxi. Os preços rondam os 3-5€ no máximo. O comboio custa 80 cêntimos, mas nunca se sabe bem quanto tempo vai demorar. Nós experimentamos uma vez e arrependemos-nos.

Cartão SIM: Definitivamente um bem essencial para quem quer viajar de forma independente. A cobertura de rede é melhor do que pensava, em todas as cidades e vilarejos há internet. Os Argelinos ligam para toda a gente a toda a hora, por isso ter um número local também dá imenso jeito. Comprámos da Djeezy no aeroporto: 50 GB por 16€.

Controlo de Passaporte: Ao chegar ao controlo de passaporte tens que preencher um formulário que inclui a morada do lugar onde vais ficar. Por isso, se tiveres um host, certifica-te que tens a morada dele e provavelmente será melhor dizeres que é teu amigo. O Couchsurfing nao é ilegal como no Irão, mas os hosts tem que registar as pessoas que ficam com eles, o que é uma chatice. Também podes mostrar o email de confirmação de um hotel como comprovativo de estadia – eu marquei um hotel com cancelamento gratuito para fazer o visto.

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