argelia Archives - Mudanças Constantes https://www.mudancasconstantes.com/tag/argelia/ Blog de viagens para inquietos e irrequietos Wed, 16 Aug 2023 19:29:12 +0000 en-GB hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://www.mudancasconstantes.com/wp-content/uploads/2018/10/cropped-Untitled-design-1-32x32.png argelia Archives - Mudanças Constantes https://www.mudancasconstantes.com/tag/argelia/ 32 32 De Sofá em Sofá pela Argélia #4: Timimoun https://www.mudancasconstantes.com/2023/08/11/argelia-viajar-timimoun/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=argelia-viajar-timimoun https://www.mudancasconstantes.com/2023/08/11/argelia-viajar-timimoun/#respond Fri, 11 Aug 2023 22:06:18 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9433 Timimoun. Demorei meses a atinar com este nome. A cidade vermelha representava o ponto mais a sul da nossa viagem, mas desenganem-se aqueles que pensam que este é o sul da Argélia. Para chegarmos ao “Sul Profundo” (Deep South) precisaríamos de percorrer mais 1500 quilómetros. Ficará para a próxima!   Oito horas depois de sairmos de Ghardaia, quando os nossos olhos já não conseguiam ver mais areia, lá estávamos nós em Timimoun. Chegar ali era sinónimo de vitória por nunca termos sido “apanhados” pela polícia nem escoltados. Também já não corríamos o risco de termos de voltar para trás e falhar o “sul”. Motivos mais que suficientes para celebrarmos!    Finalmente, uma mulher argelina!   Desta vez, para variar, não tínhamos um anfitrião, mas sim uma anfitriã! A Djoe era médica no único hospital de Timimoun – que serve uma área absolutamente descomunal – e a única especialista de otorrinolaringologia.   Tinha-a encontrado através do perfil de Couchsurfing do namorado dela, o Sid, que estava a tirar o doutoramento em Kuala Lumpur. Como parecíamos de confiança, fomos aprovados para ficar na casa dela, na aldeia dos médicos.   Quase todos os médicos vêm através de um programa de incentivo do governo para combater a falta de especialistas nas zonas mais remotas. Têm alojamento gratuito, contas pagas, recebem mais e trabalham 20 dias (com fins de semana) e tem 10 dias de férias a seguir. Creio que também lhes pagam algumas viagens até à cidade de onde são naturais. Não é um mau negócio!   A Djoe recebeu-nos com um grande sorriso e a falar francês. Entretanto concluímos que o inglês dela era muito melhor que o meu francês e a partir daí foi uma festa! Nunca pensei que íamos acabar a ver o pôr-do-sol no meio do deserto, com chá feito numa fogueira improvisada e a ouvir bossa nova, que ela adorava. Os argelinos não paravam de nos surpreender.   Vamos fazer um picnic noturno nas dunas!   Quase nos começámos a rir quando recebemos este convite. Claro que havia um plano aleatório preparado para a nossa chegada! Mas antes do tal picnic, íamos aproveitar a luz do dia que nos restava e passear pelo centro de Timimoun, que nos recebeu com as suas ruas semi desertas de uma sexta-feira à tarde (dia sagrado para os muçulmanos).   O nome “cidade vermelha” não foi dado ao acaso. Todos os edifícios vestem esta cor. À semelhança de Ghardaia, tudo é construído com materiais da terra, mas num formato mais tosco. Um dos problemas da região é tentar manter as aldeias históricas de pé, por que as estruturas requerem muita manutenção. Espero que consigam, este é um lugar único.  Ainda aprendemos sobre um sistema de irrigação milenar: as foggaras. Esta era uma forma de distribuição de água por diferentes terrenos agrícolas e, independentemente da classe social, todos recebiam a mesma quantidade de água.   A nossa tarde acabou no lugar com o pôr-do-sol mais épico de Timimoun, o Hotel Gourara. Este hotel, construído de forma a celebrar a arquitectura da região, é aberto ao público e o lugar perfeito para observar o sol a esconder-se entre as dunas.   E foi nessa direcção que nos lançámos para o nosso picnic. A Djoe já tinha planeado e cozinhado tudo, incluindo uma tagine de azeitonas, pão de milho, batatas fritas, salada e sabe-se lá mais o quê. Enquanto admirávamos as estrelas num céu limpo e livre de poluição luminosa, devorámos a deliciosa refeição da nossa anfitriã. Não podíamos ter pedido mais!  Estamos em África!   A Argélia é o maior país do continente africano e isso reflecte-se na diversidade dos seus povos. Aqui, as cores e os traços misturam-se e pela primeira vez sentimos que estávamos mesmo em África, à porta da casa dos Tuareg. Um dos lugares onde isso é mais visível, é nos mercados de sábado.  O mercado coberto tem banquinhas que vendem um pouco de tudo. Há remédios feitos de veneno de escorpião, maquilhagem, amendoins e tâmaras. Já no mercado ao ar livre podemos encontrar comerciantes do Niger, Mali, Líbia, Chad entre outros países da região. Vende-se roupa, brinquedos, tecnologia, frutas e legumes. Aqui as mulheres estão por todo o lado! Há azáfama, regateiam-se preços e encontrámos uma atmosfera mais descontraída do que o que tínhamos experienciado em Ghardaia.   Depois do mercado ainda visitámos algumas aldeias meio abandonadas. As casas que já estão demasiado danificadas para habitação transformam-se em estábulos. O ar degradado confere-lhes um certo charme e carisma.   O último lugar que posso recomendar no centro de Timimoun é este restaurante. Perto dos correios e da padaria, comemos um estufado de camelo com um couscous inacreditável. O couscous de Timimoun é especial, é feito à mão. Eu nem sabia que se podia fazer couscous à mão! A refeição para os três custou-nos 4.5€. Uma das coisas que já tínhamos reparado era que nós comíamos sempre mais do que os argelinos que estavam connosco. Claramente estamos habituados a uma quantidade de comida, particularmente de proteína, acima do normal na Argélia.   Maravilhas abandonadas nos arredores de Timimoun   Para nosso deleite, a Djoe tinha pedido ao marido de uma senhora que trabalha no hospital para nos ir mostrar os lugares mais interessantes nos arredores da cidade.   A primeira paragem foi o Ksar de Ighzer. Ksar é sinónimo de vila ou aldeia fortificada. Por serem feitos de argila e estarem ao abandono, este tipo de estrutura parece que está a derreter. Mesmo assim, é impressionante pensar que ali viviam várias famílias, havia uma mesquita e comércio.   Os ksars existem um pouco por toda esta região. São todos bastante semelhantes e um testemunho efémero da realidade de viver numa das zonas mais remotas e agressivas do nosso planeta.   Passámos por mais alguns lugares, cujo nome desconheço, com vistas lindas sobre o deserto e os seus oásis. Antes de nos dedicarmos à difícil tarefa de bebericar chá a ver o pôr-do-sol, parámos em Taguelzi, e entrámos nas ruínas da sua fortaleza. Do topo, observámos aldeias esquecidas de onde de vez em quando vinha um longo “muuuuuu” ou “bhaaaaa”. Os seus moradores originais trocaram a arquitectura da terra pelo conforto das construções modernas e as suas antigas casas passaram a ser o lugar onde guardam o gado. Pergunto-me se daqui a cinco ou dez anos, alguma destas estruturas ainda estará de pé.   Chá de menta, vizinhas inesperadas e conversas de mulheres   Moídos depois de um dia activo debaixo de um sol escaldante, parámos para um lanche e chá com vista para as dunas. Recolhendo a pouca madeira que havia, o nosso guia não oficial acendeu um fogo que teimava em pegar.   Enfiando cerca de um quilo de açúcar dentro do bule e umas folhas de menta, o chá lá se fez enquanto a Djoe nos mostrava as suas músicas brasileiras preferidas. Pode ter sido a primeira vez que Gilberto Gil ecoou no deserto argelino.   Mas não nos podíamos distrair. Tínhamos um jantar para cozinhar em casa!   Munidas de beringelas do jardim e de um panelão de farro, a Djoe e a sua amiga cozinharam-nos uma refeição deliciosa. Uma das coisas que mais gosto de cozinhar na casa das outras pessoas, é que para além de aprender receitas, há uma certa cumplicidade que se gera enquanto se picam cebolas e se descascam batatas.   Ali, sem homens por perto, pudemos conversar sobre a condição das mulheres na sociedade argelina. A maior angústia pareceu-me ser a falta de controlo sobre decisões que não deveriam pertencer a mais ninguém. Com quem namorar, com quem viver, com quem dormir… isto vindo de uma pessoa com uma família moderna (para os padrões argelinos), do norte do país, que viaja, etc.   Não existe raiva ou menosprezo pelo lado mais conservador do país nem pelas pessoas que querem viver dentro destes moldes. Existe apenas uma vontade de se ser livre de escolher.   O jantar foi servido no pátio e enquanto nos lamentávamos por esta ser a nossa última refeição juntos, ouvimos alguém a bater na porta. Era a vizinha com o maior prato de couscous que alguma vez vi na vida. E que belo couscous que era!  Na Argélia, quando alguém traz uma prenda ou comida, o saco onde essa oferta veio tem de ser devolvido com algo lá dentro. Nesse dia a vizinha ganhou uns vegetais do quintal. A Djoe, por ser médica, também vai recebendo algumas prendas, incluindo coentros, ovos e até galinhas.   Nessa noite conversámos pela noite dentro sobre socialismo, colonialismo, direitos humanos e muito mais. A nossa anfitriã era uma mulher inspiradora, cheia de garra, intelectual, de pensamento livre, altruísta e com uma grande vontade de melhorar o seu país. Foi uma honra conhecê-la.   Dicas e informações rápidas:   Tours no deserto: Se não tiveres um senhor fofinho para te levar a conhecer as várias pérolas à volta de Timimoun como nós, podes contactar alguns hotéis em Timimoun e tentar organizar um tour. Esse era o meu plano original e contactei vários através do Facebook e email. Eles não são muito rápidos a responder, por isso tentaria planear com cerca de duas semanas de antecedência.   Ksar de Draa: Só soube que este lugar existia uns dias depois, por isso não tive oportunidade de o visitar. Contudo parece-me ser um dos lugares mais curiosos da Argélia e como tal, fica aqui a minha recomendação. Suponho que os mesmos hotéis ofereçam uma tour até lá, simplesmente terás que pagar um pouco mais por que é preciso um jipe.   Centre algerien du patrimoine culturel bati en terre: Antes de sairmos em direção a Taghit ainda visitámos este centro cultural. É imperdível. Um exemplo fantástico da arquitetura da região e um lugar que tenta preservar esta forma de arte.   Conduzir até Timimoun: Conseguimos fazer a viagem toda sem nunca sermos parados num check point da polícia. Havia uma pequena possibilidade de não nos deixarem seguir para sul ou de termos de ser escoltados se fossemos “apanhados”. Felizmente não aconteceu, mas vale a pena estar preparado e ter o contacto do hotel ou host à mão caso seja necessário. Pelo que percebi, os turistas só podem ir nos autocarros diurnos de Timimoun até Ghardaia e vice-versa.

The post De Sofá em Sofá pela Argélia #4: Timimoun appeared first on Mudanças Constantes.

]]>
Timimoun. Demorei meses a atinar com este nome. A cidade vermelha representava o ponto mais a sul da nossa viagem, mas desenganem-se aqueles que pensam que este é o sul da Argélia. Para chegarmos ao “Sul Profundo” (Deep South) precisaríamos de percorrer mais 1500 quilómetros. Ficará para a próxima!  

Oito horas depois de sairmos de Ghardaia, quando os nossos olhos já não conseguiam ver mais areia, lá estávamos nós em Timimoun. Chegar ali era sinónimo de vitória por nunca termos sido “apanhados” pela polícia nem escoltados. Também já não corríamos o risco de termos de voltar para trás e falhar o “sul”. Motivos mais que suficientes para celebrarmos!

  

Finalmente, uma mulher argelina!  

Desta vez, para variar, não tínhamos um anfitrião, mas sim uma anfitriã! A Djoe era médica no único hospital de Timimoun – que serve uma área absolutamente descomunal – e a única especialista de otorrinolaringologia.  

Tinha-a encontrado através do perfil de Couchsurfing do namorado dela, o Sid, que estava a tirar o doutoramento em Kuala Lumpur. Como parecíamos de confiança, fomos aprovados para ficar na casa dela, na aldeia dos médicos.  


Quase todos os médicos vêm através de um programa de incentivo do governo para combater a falta de especialistas nas zonas mais remotas. Têm alojamento gratuito, contas pagas, recebem mais e trabalham 20 dias (com fins de semana) e tem 10 dias de férias a seguir. Creio que também lhes pagam algumas viagens até à cidade de onde são naturais. Não é um mau negócio!  

A Djoe recebeu-nos com um grande sorriso e a falar francês. Entretanto concluímos que o inglês dela era muito melhor que o meu francês e a partir daí foi uma festa! Nunca pensei que íamos acabar a ver o pôr-do-sol no meio do deserto, com chá feito numa fogueira improvisada e a ouvir bossa nova, que ela adorava. Os argelinos não paravam de nos surpreender.  


Vamos fazer um picnic noturno nas dunas!  

Quase nos começámos a rir quando recebemos este convite. Claro que havia um plano aleatório preparado para a nossa chegada! Mas antes do tal picnic, íamos aproveitar a luz do dia que nos restava e passear pelo centro de Timimoun, que nos recebeu com as suas ruas semi desertas de uma sexta-feira à tarde (dia sagrado para os muçulmanos).  

O nome “cidade vermelha” não foi dado ao acaso. Todos os edifícios vestem esta cor. À semelhança de Ghardaia, tudo é construído com materiais da terra, mas num formato mais tosco. Um dos problemas da região é tentar manter as aldeias históricas de pé, por que as estruturas requerem muita manutenção. Espero que consigam, este é um lugar único. 


Ainda aprendemos sobre um sistema de irrigação milenar: as foggaras. Esta era uma forma de distribuição de água por diferentes terrenos agrícolas e, independentemente da classe social, todos recebiam a mesma quantidade de água.  


A nossa tarde acabou no lugar com o pôr-do-sol mais épico de Timimoun, o Hotel Gourara. Este hotel, construído de forma a celebrar a arquitectura da região, é aberto ao público e o lugar perfeito para observar o sol a esconder-se entre as dunas.  


E foi nessa direcção que nos lançámos para o nosso picnic. A Djoe já tinha planeado e cozinhado tudo, incluindo uma tagine de azeitonas, pão de milho, batatas fritas, salada e sabe-se lá mais o quê. Enquanto admirávamos as estrelas num céu limpo e livre de poluição luminosa, devorámos a deliciosa refeição da nossa anfitriã. Não podíamos ter pedido mais! 

Estamos em África!  

A Argélia é o maior país do continente africano e isso reflecte-se na diversidade dos seus povos. Aqui, as cores e os traços misturam-se e pela primeira vez sentimos que estávamos mesmo em África, à porta da casa dos Tuareg. Um dos lugares onde isso é mais visível, é nos mercados de sábado. 

O mercado coberto tem banquinhas que vendem um pouco de tudo. Há remédios feitos de veneno de escorpião, maquilhagem, amendoins e tâmaras. Já no mercado ao ar livre podemos encontrar comerciantes do Niger, Mali, Líbia, Chad entre outros países da região. Vende-se roupa, brinquedos, tecnologia, frutas e legumes. Aqui as mulheres estão por todo o lado! Há azáfama, regateiam-se preços e encontrámos uma atmosfera mais descontraída do que o que tínhamos experienciado em Ghardaia.  

Depois do mercado ainda visitámos algumas aldeias meio abandonadas. As casas que já estão demasiado danificadas para habitação transformam-se em estábulos. O ar degradado confere-lhes um certo charme e carisma.  


O último lugar que posso recomendar no centro de Timimoun é este restaurante. Perto dos correios e da padaria, comemos um estufado de camelo com um couscous inacreditável. O couscous de Timimoun é especial, é feito à mão. Eu nem sabia que se podia fazer couscous à mão! A refeição para os três custou-nos 4.5€. Uma das coisas que já tínhamos reparado era que nós comíamos sempre mais do que os argelinos que estavam connosco. Claramente estamos habituados a uma quantidade de comida, particularmente de proteína, acima do normal na Argélia.  

Maravilhas abandonadas nos arredores de Timimoun  

Para nosso deleite, a Djoe tinha pedido ao marido de uma senhora que trabalha no hospital para nos ir mostrar os lugares mais interessantes nos arredores da cidade.  

A primeira paragem foi o Ksar de Ighzer. Ksar é sinónimo de vila ou aldeia fortificada. Por serem feitos de argila e estarem ao abandono, este tipo de estrutura parece que está a derreter. Mesmo assim, é impressionante pensar que ali viviam várias famílias, havia uma mesquita e comércio.  


Os ksars existem um pouco por toda esta região. São todos bastante semelhantes e um testemunho efémero da realidade de viver numa das zonas mais remotas e agressivas do nosso planeta.  

Passámos por mais alguns lugares, cujo nome desconheço, com vistas lindas sobre o deserto e os seus oásis. Antes de nos dedicarmos à difícil tarefa de bebericar chá a ver o pôr-do-sol, parámos em Taguelzi, e entrámos nas ruínas da sua fortaleza. Do topo, observámos aldeias esquecidas de onde de vez em quando vinha um longo “muuuuuu” ou “bhaaaaa”. Os seus moradores originais trocaram a arquitectura da terra pelo conforto das construções modernas e as suas antigas casas passaram a ser o lugar onde guardam o gado. Pergunto-me se daqui a cinco ou dez anos, alguma destas estruturas ainda estará de pé.  


Chá de menta, vizinhas inesperadas e conversas de mulheres  

Moídos depois de um dia activo debaixo de um sol escaldante, parámos para um lanche e chá com vista para as dunas. Recolhendo a pouca madeira que havia, o nosso guia não oficial acendeu um fogo que teimava em pegar.  

Enfiando cerca de um quilo de açúcar dentro do bule e umas folhas de menta, o chá lá se fez enquanto a Djoe nos mostrava as suas músicas brasileiras preferidas. Pode ter sido a primeira vez que Gilberto Gil ecoou no deserto argelino.  

Mas não nos podíamos distrair. Tínhamos um jantar para cozinhar em casa!  

Munidas de beringelas do jardim e de um panelão de farro, a Djoe e a sua amiga cozinharam-nos uma refeição deliciosa. Uma das coisas que mais gosto de cozinhar na casa das outras pessoas, é que para além de aprender receitas, há uma certa cumplicidade que se gera enquanto se picam cebolas e se descascam batatas.  

Ali, sem homens por perto, pudemos conversar sobre a condição das mulheres na sociedade argelina. A maior angústia pareceu-me ser a falta de controlo sobre decisões que não deveriam pertencer a mais ninguém. Com quem namorar, com quem viver, com quem dormir… isto vindo de uma pessoa com uma família moderna (para os padrões argelinos), do norte do país, que viaja, etc.  

Não existe raiva ou menosprezo pelo lado mais conservador do país nem pelas pessoas que querem viver dentro destes moldes. Existe apenas uma vontade de se ser livre de escolher.  

O jantar foi servido no pátio e enquanto nos lamentávamos por esta ser a nossa última refeição juntos, ouvimos alguém a bater na porta. Era a vizinha com o maior prato de couscous que alguma vez vi na vida. E que belo couscous que era! 

Na Argélia, quando alguém traz uma prenda ou comida, o saco onde essa oferta veio tem de ser devolvido com algo lá dentro. Nesse dia a vizinha ganhou uns vegetais do quintal. A Djoe, por ser médica, também vai recebendo algumas prendas, incluindo coentros, ovos e até galinhas.  

Nessa noite conversámos pela noite dentro sobre socialismo, colonialismo, direitos humanos e muito mais. A nossa anfitriã era uma mulher inspiradora, cheia de garra, intelectual, de pensamento livre, altruísta e com uma grande vontade de melhorar o seu país. Foi uma honra conhecê-la.  

Dicas e informações rápidas:  

Tours no deserto: Se não tiveres um senhor fofinho para te levar a conhecer as várias pérolas à volta de Timimoun como nós, podes contactar alguns hotéis em Timimoun e tentar organizar um tour. Esse era o meu plano original e contactei vários através do Facebook e email. Eles não são muito rápidos a responder, por isso tentaria planear com cerca de duas semanas de antecedência.  

Ksar de Draa: Só soube que este lugar existia uns dias depois, por isso não tive oportunidade de o visitar. Contudo parece-me ser um dos lugares mais curiosos da Argélia e como tal, fica aqui a minha recomendação. Suponho que os mesmos hotéis ofereçam uma tour até lá, simplesmente terás que pagar um pouco mais por que é preciso um jipe.  

Centre algerien du patrimoine culturel bati en terre: Antes de sairmos em direção a Taghit ainda visitámos este centro cultural. É imperdível. Um exemplo fantástico da arquitetura da região e um lugar que tenta preservar esta forma de arte.  

Conduzir até Timimoun: Conseguimos fazer a viagem toda sem nunca sermos parados num check point da polícia. Havia uma pequena possibilidade de não nos deixarem seguir para sul ou de termos de ser escoltados se fossemos “apanhados”. Felizmente não aconteceu, mas vale a pena estar preparado e ter o contacto do hotel ou host à mão caso seja necessário. Pelo que percebi, os turistas só podem ir nos autocarros diurnos de Timimoun até Ghardaia e vice-versa.

The post De Sofá em Sofá pela Argélia #4: Timimoun appeared first on Mudanças Constantes.

]]>
https://www.mudancasconstantes.com/2023/08/11/argelia-viajar-timimoun/feed/ 0
De Sofá em Sofá pela Argélia #3: Ghardaia e o Vale do M’zabe https://www.mudancasconstantes.com/2023/08/03/visitar-ghardaia-argelia/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=visitar-ghardaia-argelia https://www.mudancasconstantes.com/2023/08/03/visitar-ghardaia-argelia/#respond Thu, 03 Aug 2023 19:39:09 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9379 Tínhamos pela frente a jornada mais longa até então: íamos para Ghardaia. Não é de admirar termos de percorrer tantos quilómetros (500 a partir de Biskra) para alcançar este conjunto de vilarejos perdidos no Vale do M’zab. Quando lá chegamos apercebemo-nos que não viajámos apenas no espaço, mas também no tempo. Não posso dizer que as estradas argelinas sejam particularmente interessantes. Afinal, estávamos a atravessar o deserto! Há sinais de “perigo de camelo”, areia, pó e claro, os ocasionais camelos. Antes de entrarmos por uma estrada onde não havia nem uma amostra de civilização, parámos para arranjar almoço. Éramos claramente o maior acontecimento do mês em Djamaa. Para ver se atraía menos olhares de espanto embrulhei-me num lenço – acho que a minha falta de jeito só fez pior – e entrámos num restaurante de fast food. Entre francês, inglês e gestos lá nos fizemos entender e conseguimos uns wraps de frango. O rapaz que nos atendeu incluiu duas Coca-Cola grátis no saco, enquanto nos indicava com um grande sorriso, que era oferta.  Apesar de nenhum de nós gostar de Coca-Cola, o gesto aqueceu-me o coração! “Isto é hospitalidade M’zabite” O nosso anfitrião em Ghardaia tinha caído do céu. Atendendo ao meu pedido público no Couchsurfing, o Baelhadj ofereceu-se para nos hospedar. As reviews dele era tão incríveis que pensei que teríamos que lhe pagar algo por tanta amabilidade e generosidade. Afinal não, era tudo “hospitalidade M’zabite”. Para clarificar o que quero dizer por amabilidade e generosidade: Foram dois dias maravilhosos onde aprendemos muito sobre a cultura M’zabite. Isto tudo aliado à beleza destas aldeias que preservam as suas tradições e cultura como poucos lugares no mundo – para o bom e para o menos bom – tornaram este pedaço de viagem num dos mais interessantes. Para não me alongar numa descrição detalhada sobre cada momento, vou partilhar os meus lugares e interações preferidas! Beni Isgen: fundamentalismo, regras e comunidade Creio que já não existam muitos lugares no mundo como Beni Isguen. A mais pitoresca das cinco aldeias históricas do M’zab foi o nosso cartão de visita para a região. Com o sol já baixo, as cores quentes que caracterizam a arquitectura M’zabite tornavam-se ainda mais intensas. À entrada somos logo lembrados que ali há regras. Não se fotografam pessoas. Não se entra com roupas reveladoras. Não se entra sem guia. Nós tivemos a sorte de estarmos com duas pessoas locais e como já era tarde, escapámo-nos ao guia oficial e seguimos pelas ruas que permanecem iguais ao que eram há mil anos atrás. Aqui aprendemos que todas as vilas do M’zab seguem a mesma estrutura. Situadas numa colina e rodeadas por uma muralha, na parte mais baixa há um mercado, e a partir daí fluem ruas estreitas onde habitam os comerciantes e agricultores locais. Fora das muralhas ficam os cemitérios. As casas são construídas com materiais da região, como argila, sendo feitas para se adaptarem à amplitude térmica do deserto e às suas tempestades de areia. Todas as ruas vão dar à mesquita, que se situa no topo das aldeias. O minarete da mesquita, para além de chamar os fiéis para as cinco rezas diárias, também funciona como torre de controlo e costumava ser uma forma de comunicar com as outras aldeias. Para terminar a nossa visita o nosso host e o seu amigo Kacem levaram-nos até a um miradouro onde conseguimos ver o mar de palmeiras que caracteriza o oásis deste vale.  Os últimos raios de sol eram sinónimo que estava na hora de sair de Beni Esguin. Apenas os seus moradores podem ali pernoitar, não existem hotéis nem alojamento local para pessoas que não fazem parte da comunidade. Já na “nossa” casa, o jantar foi servido. Uma travessa de frango assado, arroz, batatas e salada de onde todos comemos enquanto partilhávamos ideias, histórias e culturas. Ghardaia: arquitectura islâmica sustentável Sinto que posso ter inventado um conceito ao combinar as três palavras que mencionei neste título, mas a verdade é que aprendemos tanto sobre arquitectura na nossa visita ao centro histórico de Ghardaia e como ela define a vida no M’zab, que acho que faz todo o sentido. O nome Ghardaia normalmente engloba todas as vilas e aldeias ali à volta. Ao contrário de Beni Isguen, Ghardaia já não é apenas um lugar histórico, intocado. Por fora das suas muralhas surgem casas modernas, escolas, mesquitas e hospitais. Algumas mulheres nem usam véus.  Mas passando as portas da fortaleza, lá estávamos nós outra vez, na casa dos Ibadis. O Ibadismo é um ramo do Islão, tal como o sunita e o xiita. Desta vez, mesmo estando com dois locais, tivemos de ser acompanhados por um guia. Estes guias obrigatórios trabalham para o gabinete turístico de cada aldeia. Os seus serviços são gratuitos, mas no fim podes deixar sempre uma gorjeta.  A coisa boa é que como eles nasceram e cresceram naquele meio, poderão responder a todas as tuas perguntas sobre o estilo de vida dos Ibadis.  Dentro de Ghardaia aprendemos que as casas são feitas seguindo os princípios do Ibadismo. Todas as casas parecem iguais, independentemente da classe social de quem as habita. As portas são desencontradas para permitir dar privacidade a cada família. Cada casa tem um pátio e uma estrutura bastante simples. Há entradas diferentes para homens e mulheres.  A argila é usada como isolamento térmico. No verão mantém as casas frescas, no inverno mantém as casas quentes. Os troncos das palmeiras também são usados com frequência. Aqui há um grande respeito pela terra e pelos seus recursos. Tudo é feito de uma forma sustentável e as aldeias do M’zab tornaram-se uma inspiração para vários arquitectos internacionais incluindo Le Corbusier.  Os Ibadis vivem a sua vida em comunidade. Existe um conselho de pessoas que decidem as questões comerciais, judiciais e, em geral, governamentais. Apenas os casos mais graves chegam aos tribunais argelinos.  Depois de termos absorvido toda esta informação, voltámos para o nosso oásis onde nos foi servida mais uma refeição inesquecível, cozinhada pelas mãos da mulher do Baelhadj: “pizza argelina”, também conhecida como Mahjouba.  Durante as horas mais quentes, os nossos anfitriões deixaram-nos para uma sesta à sombra. Os planos para a tarde eram ainda uma incógnita.  Jardin du Monde e uma figueira para a eternidade “Vamos plantar uma árvore!”. Não sabíamos bem se isto era uma expressão argelina, uma metáfora ou se íamos literalmente plantar uma árvore. Claro que era a terceira hipótese.  Munidos de uma pequena árvore, caminhámos até um oásis dentro do oásis. Ali, no meio do Vale do M’zab, começava a nascer uma empreitada que se desdobra em mil e um projectos.  Um centro equestre onde se faz terapia com crianças autistas. Uma guesthouse construída com o preceito da tradição e materiais sustentáveis. Um jardim com árvores e plantas de todo mundo, algumas delas plantadas pelas mãos de viajantes. Uma infinity pool com vista para um mar de palmeiras. Um lugar de paz, reflexão e comunidade.   O dono do projecto (não me lembro do nome dele), mostrou-nos cada cantinho com muito orgulho e carinho e no fim escavámos um buraco para plantar a nossa pequena árvore. Pode ser que lá voltemos um dia para ver como a nossa menina cresceu!  O pôr do sol na colina mais próxima e a vista incrível a partir do minarete local foram a cereja no topo do bolo para terminar os nossos dias em Ghardaia.  Nessa noite ainda fomos convidados para ir jantar a casa de um amigo do nosso anfitrião com quem nos tínhamos cruzado mais cedo. Comemos pratos deliciosos preparados pela mãe dele e travámos amizade com o seu papagaio falante.  Fomos até Ghardaia sem planos, não fazendo ideia do que nos esperava. Descobrimos um lugar fascinante, com uma cultura vibrante e pessoas de uma gentileza e generosidade além de tudo o que já experienciei. Obrigada!  As mulheres do M’zab Não podia terminar este post sem falar das mulheres do Vale do M’zab. É difícil exprimir os meus sentimentos relativamente a este tema, uma vez que nem tenho bem a certeza daquilo que sinto.  Parece que as mulheres são invisíveis e têm de ser invisíveis no Ibadismo. Cobrem-se com longas vestes brancas e mostram os dois olhos se forem solteiras ou apenas um olho se forem casadas.  Grande parte da sua existência é passada dentro de casa. Raramente vão ao mercado, esta é uma das muitas tarefas reservadas para os homens.  As casas estão ligadas entre si através dos telhados para que as mulheres se possam movimentar e visitar umas às outras sem passar pela rua. Todas as refeições que comemos foram preparadas por mulheres, mas nós nunca as conhecemos. Nem fotografias vimos, porque a partir da adolescência deixam de tirar fotografias.  Aos nossos olhos isto é absolutamente sufocante. Ali faz parte de uma identidade comunitária, de uma religião, de uma cultura.  Uma das maiores razões que me leva a estes lugares é tentar compreender, tentar aprender. Às vezes não sei se consigo.

The post De Sofá em Sofá pela Argélia #3: Ghardaia e o Vale do M’zabe appeared first on Mudanças Constantes.

]]>
Tínhamos pela frente a jornada mais longa até então: íamos para Ghardaia. Não é de admirar termos de percorrer tantos quilómetros (500 a partir de Biskra) para alcançar este conjunto de vilarejos perdidos no Vale do M’zab. Quando lá chegamos apercebemo-nos que não viajámos apenas no espaço, mas também no tempo.

Não posso dizer que as estradas argelinas sejam particularmente interessantes. Afinal, estávamos a atravessar o deserto! Há sinais de “perigo de camelo”, areia, pó e claro, os ocasionais camelos.


Antes de entrarmos por uma estrada onde não havia nem uma amostra de civilização, parámos para arranjar almoço. Éramos claramente o maior acontecimento do mês em Djamaa. Para ver se atraía menos olhares de espanto embrulhei-me num lenço – acho que a minha falta de jeito só fez pior – e entrámos num restaurante de fast food. Entre francês, inglês e gestos lá nos fizemos entender e conseguimos uns wraps de frango. O rapaz que nos atendeu incluiu duas Coca-Cola grátis no saco, enquanto nos indicava com um grande sorriso, que era oferta. 

Apesar de nenhum de nós gostar de Coca-Cola, o gesto aqueceu-me o coração!

“Isto é hospitalidade M’zabite”

O nosso anfitrião em Ghardaia tinha caído do céu. Atendendo ao meu pedido público no Couchsurfing, o Baelhadj ofereceu-se para nos hospedar. As reviews dele era tão incríveis que pensei que teríamos que lhe pagar algo por tanta amabilidade e generosidade. Afinal não, era tudo “hospitalidade M’zabite”.

Para clarificar o que quero dizer por amabilidade e generosidade:

  • Ficámos na casa de fim de semana do nosso anfitrião. Tínhamos a casa toda para nós. Um paraíso no meio do Vale do M’zabe.
  • Não pagámos uma única refeição. A mulher do Baelhadj preparou várias refeições deliciosas para nós.
  • Tivémos direito a visitas guiadas com os amigos dele, que ele convida por não conseguir comunicar muito bem em inglês.
  • Convivemos com vários donos de negócios locais que estão a desenvolver a região
  • Conhecemos o arquitecto da mais recente aldeia do M’zab


Foram dois dias maravilhosos onde aprendemos muito sobre a cultura M’zabite. Isto tudo aliado à beleza destas aldeias que preservam as suas tradições e cultura como poucos lugares no mundo – para o bom e para o menos bom – tornaram este pedaço de viagem num dos mais interessantes.

Para não me alongar numa descrição detalhada sobre cada momento, vou partilhar os meus lugares e interações preferidas!

Beni Isgen: fundamentalismo, regras e comunidade

Creio que já não existam muitos lugares no mundo como Beni Isguen. A mais pitoresca das cinco aldeias históricas do M’zab foi o nosso cartão de visita para a região. Com o sol já baixo, as cores quentes que caracterizam a arquitectura M’zabite tornavam-se ainda mais intensas.


À entrada somos logo lembrados que ali há regras. Não se fotografam pessoas. Não se entra com roupas reveladoras. Não se entra sem guia.

Nós tivemos a sorte de estarmos com duas pessoas locais e como já era tarde, escapámo-nos ao guia oficial e seguimos pelas ruas que permanecem iguais ao que eram há mil anos atrás.

Aqui aprendemos que todas as vilas do M’zab seguem a mesma estrutura. Situadas numa colina e rodeadas por uma muralha, na parte mais baixa há um mercado, e a partir daí fluem ruas estreitas onde habitam os comerciantes e agricultores locais. Fora das muralhas ficam os cemitérios.


As casas são construídas com materiais da região, como argila, sendo feitas para se adaptarem à amplitude térmica do deserto e às suas tempestades de areia.

Todas as ruas vão dar à mesquita, que se situa no topo das aldeias. O minarete da mesquita, para além de chamar os fiéis para as cinco rezas diárias, também funciona como torre de controlo e costumava ser uma forma de comunicar com as outras aldeias.

Para terminar a nossa visita o nosso host e o seu amigo Kacem levaram-nos até a um miradouro onde conseguimos ver o mar de palmeiras que caracteriza o oásis deste vale. 


Os últimos raios de sol eram sinónimo que estava na hora de sair de Beni Esguin. Apenas os seus moradores podem ali pernoitar, não existem hotéis nem alojamento local para pessoas que não fazem parte da comunidade.

Já na “nossa” casa, o jantar foi servido. Uma travessa de frango assado, arroz, batatas e salada de onde todos comemos enquanto partilhávamos ideias, histórias e culturas.


Ghardaia: arquitectura islâmica sustentável

Sinto que posso ter inventado um conceito ao combinar as três palavras que mencionei neste título, mas a verdade é que aprendemos tanto sobre arquitectura na nossa visita ao centro histórico de Ghardaia e como ela define a vida no M’zab, que acho que faz todo o sentido.

O nome Ghardaia normalmente engloba todas as vilas e aldeias ali à volta. Ao contrário de Beni Isguen, Ghardaia já não é apenas um lugar histórico, intocado. Por fora das suas muralhas surgem casas modernas, escolas, mesquitas e hospitais. Algumas mulheres nem usam véus. 

Mas passando as portas da fortaleza, lá estávamos nós outra vez, na casa dos Ibadis. O Ibadismo é um ramo do Islão, tal como o sunita e o xiita. Desta vez, mesmo estando com dois locais, tivemos de ser acompanhados por um guia. Estes guias obrigatórios trabalham para o gabinete turístico de cada aldeia. Os seus serviços são gratuitos, mas no fim podes deixar sempre uma gorjeta. 


A coisa boa é que como eles nasceram e cresceram naquele meio, poderão responder a todas as tuas perguntas sobre o estilo de vida dos Ibadis

Dentro de Ghardaia aprendemos que as casas são feitas seguindo os princípios do Ibadismo. Todas as casas parecem iguais, independentemente da classe social de quem as habita. As portas são desencontradas para permitir dar privacidade a cada família. Cada casa tem um pátio e uma estrutura bastante simples. Há entradas diferentes para homens e mulheres. 

A argila é usada como isolamento térmico. No verão mantém as casas frescas, no inverno mantém as casas quentes. Os troncos das palmeiras também são usados com frequência. Aqui há um grande respeito pela terra e pelos seus recursos. Tudo é feito de uma forma sustentável e as aldeias do M’zab tornaram-se uma inspiração para vários arquitectos internacionais incluindo Le Corbusier. 


Os Ibadis vivem a sua vida em comunidade. Existe um conselho de pessoas que decidem as questões comerciais, judiciais e, em geral, governamentais. Apenas os casos mais graves chegam aos tribunais argelinos. 

Depois de termos absorvido toda esta informação, voltámos para o nosso oásis onde nos foi servida mais uma refeição inesquecível, cozinhada pelas mãos da mulher do Baelhadj: “pizza argelina”, também conhecida como Mahjouba


Durante as horas mais quentes, os nossos anfitriões deixaram-nos para uma sesta à sombra. Os planos para a tarde eram ainda uma incógnita. 

Jardin du Monde e uma figueira para a eternidade

“Vamos plantar uma árvore!”. Não sabíamos bem se isto era uma expressão argelina, uma metáfora ou se íamos literalmente plantar uma árvore. Claro que era a terceira hipótese. 

Munidos de uma pequena árvore, caminhámos até um oásis dentro do oásis. Ali, no meio do Vale do M’zab, começava a nascer uma empreitada que se desdobra em mil e um projectos. 

Um centro equestre onde se faz terapia com crianças autistas. Uma guesthouse construída com o preceito da tradição e materiais sustentáveis. Um jardim com árvores e plantas de todo mundo, algumas delas plantadas pelas mãos de viajantes. Uma infinity pool com vista para um mar de palmeiras. Um lugar de paz, reflexão e comunidade.  

O dono do projecto (não me lembro do nome dele), mostrou-nos cada cantinho com muito orgulho e carinho e no fim escavámos um buraco para plantar a nossa pequena árvore. Pode ser que lá voltemos um dia para ver como a nossa menina cresceu! 

O pôr do sol na colina mais próxima e a vista incrível a partir do minarete local foram a cereja no topo do bolo para terminar os nossos dias em Ghardaia. 


Nessa noite ainda fomos convidados para ir jantar a casa de um amigo do nosso anfitrião com quem nos tínhamos cruzado mais cedo. Comemos pratos deliciosos preparados pela mãe dele e travámos amizade com o seu papagaio falante. 

Fomos até Ghardaia sem planos, não fazendo ideia do que nos esperava. Descobrimos um lugar fascinante, com uma cultura vibrante e pessoas de uma gentileza e generosidade além de tudo o que já experienciei. Obrigada! 


As mulheres do M’zab

Não podia terminar este post sem falar das mulheres do Vale do M’zab. É difícil exprimir os meus sentimentos relativamente a este tema, uma vez que nem tenho bem a certeza daquilo que sinto. 

Parece que as mulheres são invisíveis e têm de ser invisíveis no Ibadismo. Cobrem-se com longas vestes brancas e mostram os dois olhos se forem solteiras ou apenas um olho se forem casadas. 

Grande parte da sua existência é passada dentro de casa. Raramente vão ao mercado, esta é uma das muitas tarefas reservadas para os homens. 

As casas estão ligadas entre si através dos telhados para que as mulheres se possam movimentar e visitar umas às outras sem passar pela rua. Todas as refeições que comemos foram preparadas por mulheres, mas nós nunca as conhecemos. Nem fotografias vimos, porque a partir da adolescência deixam de tirar fotografias. 

Aos nossos olhos isto é absolutamente sufocante. Ali faz parte de uma identidade comunitária, de uma religião, de uma cultura. 

Uma das maiores razões que me leva a estes lugares é tentar compreender, tentar aprender. Às vezes não sei se consigo.

The post De Sofá em Sofá pela Argélia #3: Ghardaia e o Vale do M’zabe appeared first on Mudanças Constantes.

]]>
https://www.mudancasconstantes.com/2023/08/03/visitar-ghardaia-argelia/feed/ 0