Quirguistão Archives - Mudanças Constantes https://www.mudancasconstantes.com/category/quirguistao/ Blog de viagens para inquietos e irrequietos Wed, 07 Aug 2024 20:45:14 +0000 en-GB hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1.2 https://www.mudancasconstantes.com/wp-content/uploads/2018/10/cropped-Untitled-design-1-32x32.png Quirguistão Archives - Mudanças Constantes https://www.mudancasconstantes.com/category/quirguistao/ 32 32 Viajar na Ásia Central: Dicas e informações úteis https://www.mudancasconstantes.com/2020/01/02/viajar-asia-central/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=viajar-asia-central https://www.mudancasconstantes.com/2020/01/02/viajar-asia-central/#comments Thu, 02 Jan 2020 20:19:04 +0000 http://www.mudancasconstantes.com/?p=5841 Viajar na Ásia Central é uma descoberta constante. Há poucos anos estes países eram uma completa incógnita, um trava línguas difícil. Hoje em dia os “stan” ou “istão” começam a conquistar os tops de países mais promissores para viajar, particularmente para os amantes da natureza. Esta viagem começou por ser super planeada, daquelas com direito a folhas de Excel e tudo, e acabou por ser uma das viagens mais espontâneas que já fiz. Por um lado vimos mais um país do que tínhamos inicialmente pensado: o Uzbequistão. Por outro, acabámos por não fazer as duas grandes caminhadas que queríamos no Quirguistão, mas olhando para trás foi a melhor decisão que podíamos ter tomado. Como corremos três países num curto espaço de tempo, decidi resumir a experiência num só post até porque há algumas características comuns a todos estes países da Ásia Central. Ásia Central Gastronomia A primeira frase do Guia Lonely Planet sobre a Ásia Central é “ninguém vai à Ásia Central pela comida” o que descreve muito bem o estado das coisas. Nas capitais encontras facilmente restaurantes ocidentais com saladas, massas, pizzas, etc… mas a segunda frase do Lonely Planet devia ser “ninguém vai à Ásia Central pelas capitais”. Por isso, o que há é a comida dos yurts que se resume a dumplings e noodles (quando tens sorte) e pão seco, sopas desoladoras e compotas quando tens azar. No Uzbequistão o cenário é algo mais animador porque as maiores atracções estão nas cidades e o Plov (arroz com vegetais e carne) e as carnes grelhadas são a norma. Língua Como em todos os países do mundo, acabámos sempre por conseguir comunicar o que queríamos, às vezes com a ajuda do Google, outras com gestos. O Google Tradutor já consegue traduzir imagens com texto (o que dá muito jeito em menus de restaurantes). Tanto no Cazaquistão como no Quirguistão o alfabeto é o cirílico e a maioria das pessoas fala russo. Aconselho-te a aprender algumas palavras básicas e o alfabeto para facilitar não só a comunicação, mas para também perceberes onde estás. No Youtube há umas aulas de russo espectaculares. Como chegar Os preços dos voos para o Quirguistão foram o motivo da nossa aterragem no Cazaquistão. Pesquisa voos para ou Almaty ou Tashkent e depois procura voos na região. As linhas aéreas tanto do Uzbequistão como do Cazaquistão são muito boas e pontuais até porque naqueles aeroportos contam-se pelos dedos das mãos os voos diários. Também podes atravessar fronteiras de autocarro ou comboio.   Clima Diria que o clima é o factor mais importante a considerar numa viagem à Ásia Central. Nós achávamos que tínhamos acertado em cheio na melhor altura do ano, mas o Quirguistão trocou-nos as voltas. Almaty: A região de Almaty é extremamente fria no Inverno (com neve por tudo quanto é sítio) e extremamente quente no Verão. Nós fomos em Agosto – porque não era o nosso destino final – e apanhámos bastante calor, mas suportável. Se a tua intenção for visitar só esta zona, o fim da primavera e o início do Outono são ideais. Quirguistão: Tal como Almaty, o Quirguistão é extremamente frio no Inverno – quando a maioria do país está soterrado de neve – e no Verão nunca é muito quente à excepção de Bishkek, a capital. Como tal, e porque o Quirguistão é unicamente um destino de natureza, a melhor altura para visitar serão os meses de Verão: fins de Junho a início de Agosto. Isto não invalida teres que levar roupa para graus negativos porque, tal como ficou provado, nunca se sabe quando é que a neve vai aparecer. Uzbequistão: O Uzbequistão será talvez o destino mais fácil de planear porque é mais constante. Os Invernos são bastante frios, mas com dias muito limpos e certamente menos turísticos que o normal. A melhor altura para visitar é a primavera e o outono sendo que os Verões são quentíssimos. Nós fomos lá parar em Agosto e bem suámos do bigode, mas como o ar condicionado já chegou ao Uzbequistão nem sofremos muito. Dinheiro Como já tinha escrito neste post, o Revolut é sem dúvida o melhor cartão para viajar. Mesmo que só tenha levantamentos gratuitos até 200 euros, as taxas e comissões são muito inferiores aos bancos tradicionais. No Quirguistão e Uzbequistão há o problema de muitas máquinas multibanco só aceitarem VISA e por isso aconselho-te um cartão alternativo. Cazaquistão Visto: Os cidadãos portugueses não necessitam de visto de entrada para estadias que não ultrapassem os 30 dias. À chegada, tens que preencher e entregar no controlo de passaportes um pequeno formulário (agarra um ou mais na zona de controlo e preenche na fila. Se planeares entrar e sair do país é bom ter formulários vazios extra porque na fronteira por terra é uma luta para arranjar um). Este formulário é-te devolvido com um carimbo e pela tua saudinha não o percas como eu. Moeda e dinheiro: A moeda nacional é o Kazakh tenge. 1€ = 422.68. Em Almaty alguns restaurantes mais finos aceitam pagamento com cartão, mas a norma é pagar com dinheiro. Nós corremos inúmeras caixas multibanco antes de conseguirmos que uma funcionasse, mas elas existem! Também aconselho levares algum dinheiro (dólares americanos de preferência) porque para pagar tours, por exemplo, eles aceitam. Transportes: Dentro das cidades a melhor forma de te deslocares é de Táxi. A app que recomendo para o fazeres é a Yandex que funciona como o Uber e até podes pagar com cartão. O preço de uma viagem do Aeroporto para o centro são cerca de 5 ou 6 euros e viagens dentro da cidade em si, cerca de 2. Se não tiveres internet um táxi para o centro não te deverá custar mais de 10 dólares. Para a viagem Alamty – Bishkek apanhámos um táxi partilhado a partir da estação de Autocarros de Almaty. Assim que chegámos fomos abordados por outros dois turistas que já tinham andado a negociar com um taxista e precisavam de mais pessoas para encher o táxi. Nós aceitámos e 15 minutos depois já tínhamos outros três ou quatro polacos connosco e partimos assim que o táxi encheu. A viagem (que dura cerca de cinco horas) custou-nos uns 6 ou 7€ a cada. Alojamento: Os hostels em Almaty estão longe de ser os melhores do mundo, mas safam-se. Na primeira vez que estivemos na cidade ficámos no Almaty Backpackers que tem sem dúvida um grande ambiente, mas tem o grave problema de só ter duas casas de banho para imensa gente. Da segunda vez ficámos num hostel mais moderno, onde as condições eram melhores, mas sem personalidade nenhuma, que ironicamente se chamava Soul Hostel. Os quartos privados valem muito a pena. Tour: Como tínhamos pouco tempo no sul do Cazaquistão optámos por fazer uma tour através do hostel Almaty Backpackers que permite aos hóspedes juntarem-se a tours tornando o preço mais baixo. Aconselho-te a deixar a marcação da tour para a última hora porque em princípio o preço será mais baixo e como em todo o lado na Ásia “cabe sempre mais um”. Almaty: Almaty é uma cidade surpreendentemente moderna, desenvolvida e limpa – apesar de ter visto uma vaquita a atravessar a estrada no caminho do aeroporto. Durante uma tarde visitámos o Zelenyy Bazar, a Catedral da Ascenção no Parque Panfilov, o parque do Primeiro Presidente, a rua Zhybek-Zholy que está cheia de cafés, bares e restaurantes e o Central Park.  Quirguistão Visto: Não é necessário visto para cidadãos portugueses.   Moeda e dinheiro: 1€ = 77.5 Kyrgyz Som. É fácil de trocar dinheiro em Bishkek, nós fizemo-lo logo na estação de autocarros quando chegámos – onde também podes comprar um cartão SIM. Só vais encontrar multibancos nas maiores cidades do país (como Naryn, Osh ou Karakol) por isso mais vale abastecer em Bishkek. Tenta não sair do país com dinheiro Quirguiz porque vai ser quase impossível de trocar. Transporte: A aplicação Yandex também funciona em Bishkek e é a melhor opção para deslocações dentro a cidade. Para viajar no Quirguistão as marshrutkas são o segredo. Estes mini autocarros de 20 lugares vão para todos os cantos do país assim que enchem e são a forma mais barata de viajar. Podes apanhá-las nas estações de autocarro de cada cidade e apesar de não serem particularmente confortáveis acho que são a melhor opção. Bishkek a Naryn: 5 horas, cerca de 4 euros por pessoaNaryn a Kochkor (taxi partilhado): 2 horas, cerca de 4 euros por pessoa Kochkor a Bishkek: 3 horas, cerca de 3 euros por pessoa Bishkek a Almaty: 5 horas, cerca de 4 euros por pessoa CBT: traduz-se em Community Based Tourism e consiste em centros turísticos, espalhados por todo o país, que organizam tours, caminhadas e passeios para viajantes. Nós só usámos o de Naryn e correu tudo às mil maravilhas. Podes ler mais sobre o CBT aqui. Bishkek: Se há coisas boas deixadas pela União Soviética foram cidades bem planeadas e com espaços verdes. No caso de Bishkek há a enorme praça Ala-Too com museus, teatros e edifícios governamentais. Também podes optar por fazer a “tour do comunismo” e picar o ponto em todas as estátuas do Lenin, Marx e outros amigos desses tempos. Nós vimo-nos no meio de uma feira popular e como não tínhamos nada para fazer decidimos ir dar uma voltinha ao “Bishkek-eye” a grande roda de Bishkek! Bishkek também é um bom porto de partida para day trips: para o Ala-Archa National Park, Konorchek Canyon, Burana Tower e até o sanatório soviético em Issyk-Ata. Alojamento: Foi em Bishkek que ficámos num dos melhores hostels que já vi. Fomos parar ao hostel Freelander por recomendação de um viajante e era espectacular tanto a nível de instalações, como de limpeza e de simpatia. No resto das cidades o alojamento mais comum são as guest houses e no campo os yurts. Itinerário: Apesar de não termos cumprido nada do meu itinerário inicial continuo a achar que era um grande itinerário e por isso deixo-o aqui: Bishkek: 1 dia Karakol: 1 dia  Caminhada até ao lago Ala-Kul: 3 dias Karakol até Kochkor: 1 dia Caminhada até ao lago Song Kol: 3 dias Kochkor até Naryn: 1 diaTash Rabat e Kol Suu: 2 dias Uzbequistão Visto: Desde 2019 que não é preciso visto para o Uzbequistão para estadias inferiores a 30 dias. O país está a fazer um esforço enorme para dinamizar o turismo e o acesso está muito facilitado. Moeda e dinheiro: 1€ = 10555 Uzbek Som. No Uzbequistão é mais fácil encontrar caixas multibanco, mas 99% só aceita cartões Visa e nem sempre têm muito dinheiro disponível. Transporte: Em Tashkent, tal como em Almaty e Bishkek, podes usar a app Yandex para chamar taxis. Se no aeroporto os taxistas te disserem que os Yandex não têm autorização para entrar na área do aeroporto é mentira. Já para andar pelo país fora os comboios são a melhor opção. Nós conseguimos marcar online o comboio de Tashkent para Urgench mas claro que fomos parar à terceira classe. A melhor opção será ver os horários na internet e depois levar escrito num papel os comboios que queres comprar (origem, destino e hora) e apresentar esse papel ao balcão na estação de Tashken para facilitar a comunicação. Podes encontrar os horários dos comboios aqui. A estação de Tashkent tem um sistema de senhas que não funciona e por isso tens que ir lá para o molho lutar para ser atendido.   Alojamento: Os standards de alojamento no Uzbequistão são muito superiores aos dos países anteriores e os preços são particularmente bons para quem viaja com um ou dois amigos e pode partilhar quarto. Por 8€ por pessoa é normal ter um quarto com ar condicionado, casa de banho e pequeno-almoço incluído. Polícia Turística: Com os esforços para tornar o país mais atractivo para o turismo, o Uzbequistão pôs nas ruas um grande número de polícias que falam inglês e estão disponíveis para ajudar. E se dantes eles eram conhecidos pela sua corrupção, agora há um esforço consciente...

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Viajar na Ásia Central é uma descoberta constante. Há poucos anos estes países eram uma completa incógnita, um trava línguas difícil. Hoje em dia os “stan” ou “istão” começam a conquistar os tops de países mais promissores para viajar, particularmente para os amantes da natureza.

Esta viagem começou por ser super planeada, daquelas com direito a folhas de Excel e tudo, e acabou por ser uma das viagens mais espontâneas que já fiz. Por um lado vimos mais um país do que tínhamos inicialmente pensado: o Uzbequistão. Por outro, acabámos por não fazer as duas grandes caminhadas que queríamos no Quirguistão, mas olhando para trás foi a melhor decisão que podíamos ter tomado.

Como corremos três países num curto espaço de tempo, decidi resumir a experiência num só post até porque há algumas características comuns a todos estes países da Ásia Central.

Ásia Central

Gastronomia

A primeira frase do Guia Lonely Planet sobre a Ásia Central é “ninguém vai à Ásia Central pela comida” o que descreve muito bem o estado das coisas. Nas capitais encontras facilmente restaurantes ocidentais com saladas, massas, pizzas, etc… mas a segunda frase do Lonely Planet devia ser “ninguém vai à Ásia Central pelas capitais”. Por isso, o que há é a comida dos yurts que se resume a dumplings e noodles (quando tens sorte) e pão seco, sopas desoladoras e compotas quando tens azar.

No Uzbequistão o cenário é algo mais animador porque as maiores atracções estão nas cidades e o Plov (arroz com vegetais e carne) e as carnes grelhadas são a norma.

Língua

Como em todos os países do mundo, acabámos sempre por conseguir comunicar o que queríamos, às vezes com a ajuda do Google, outras com gestos. O Google Tradutor já consegue traduzir imagens com texto (o que dá muito jeito em menus de restaurantes). Tanto no Cazaquistão como no Quirguistão o alfabeto é o cirílico e a maioria das pessoas fala russo. Aconselho-te a aprender algumas palavras básicas e o alfabeto para facilitar não só a comunicação, mas para também perceberes onde estás. No Youtube há umas aulas de russo espectaculares.

Como chegar

Os preços dos voos para o Quirguistão foram o motivo da nossa aterragem no Cazaquistão. Pesquisa voos para ou Almaty ou Tashkent e depois procura voos na região. As linhas aéreas tanto do Uzbequistão como do Cazaquistão são muito boas e pontuais até porque naqueles aeroportos contam-se pelos dedos das mãos os voos diários. Também podes atravessar fronteiras de autocarro ou comboio.  

Clima

Diria que o clima é o factor mais importante a considerar numa viagem à Ásia Central. Nós achávamos que tínhamos acertado em cheio na melhor altura do ano, mas o Quirguistão trocou-nos as voltas.

Almaty: A região de Almaty é extremamente fria no Inverno (com neve por tudo quanto é sítio) e extremamente quente no Verão. Nós fomos em Agosto – porque não era o nosso destino final – e apanhámos bastante calor, mas suportável. Se a tua intenção for visitar só esta zona, o fim da primavera e o início do Outono são ideais.

Quirguistão: Tal como Almaty, o Quirguistão é extremamente frio no Inverno – quando a maioria do país está soterrado de neve – e no Verão nunca é muito quente à excepção de Bishkek, a capital. Como tal, e porque o Quirguistão é unicamente um destino de natureza, a melhor altura para visitar serão os meses de Verão: fins de Junho a início de Agosto. Isto não invalida teres que levar roupa para graus negativos porque, tal como ficou provado, nunca se sabe quando é que a neve vai aparecer.

Uzbequistão: O Uzbequistão será talvez o destino mais fácil de planear porque é mais constante. Os Invernos são bastante frios, mas com dias muito limpos e certamente menos turísticos que o normal. A melhor altura para visitar é a primavera e o outono sendo que os Verões são quentíssimos. Nós fomos lá parar em Agosto e bem suámos do bigode, mas como o ar condicionado já chegou ao Uzbequistão nem sofremos muito.

Dinheiro

Como já tinha escrito neste post, o Revolut é sem dúvida o melhor cartão para viajar. Mesmo que só tenha levantamentos gratuitos até 200 euros, as taxas e comissões são muito inferiores aos bancos tradicionais. No Quirguistão e Uzbequistão há o problema de muitas máquinas multibanco só aceitarem VISA e por isso aconselho-te um cartão alternativo.

Cazaquistão

Visto: Os cidadãos portugueses não necessitam de visto de entrada para estadias que não ultrapassem os 30 dias.

À chegada, tens que preencher e entregar no controlo de passaportes um pequeno formulário (agarra um ou mais na zona de controlo e preenche na fila. Se planeares entrar e sair do país é bom ter formulários vazios extra porque na fronteira por terra é uma luta para arranjar um). Este formulário é-te devolvido com um carimbo e pela tua saudinha não o percas como eu.

Moeda e dinheiro: A moeda nacional é o Kazakh tenge. 1€ = 422.68. Em Almaty alguns restaurantes mais finos aceitam pagamento com cartão, mas a norma é pagar com dinheiro. Nós corremos inúmeras caixas multibanco antes de conseguirmos que uma funcionasse, mas elas existem! Também aconselho levares algum dinheiro (dólares americanos de preferência) porque para pagar tours, por exemplo, eles aceitam.

Transportes: Dentro das cidades a melhor forma de te deslocares é de Táxi. A app que recomendo para o fazeres é a Yandex que funciona como o Uber e até podes pagar com cartão. O preço de uma viagem do Aeroporto para o centro são cerca de 5 ou 6 euros e viagens dentro da cidade em si, cerca de 2. Se não tiveres internet um táxi para o centro não te deverá custar mais de 10 dólares.

Para a viagem Alamty – Bishkek apanhámos um táxi partilhado a partir da estação de Autocarros de Almaty. Assim que chegámos fomos abordados por outros dois turistas que já tinham andado a negociar com um taxista e precisavam de mais pessoas para encher o táxi. Nós aceitámos e 15 minutos depois já tínhamos outros três ou quatro polacos connosco e partimos assim que o táxi encheu. A viagem (que dura cerca de cinco horas) custou-nos uns 6 ou 7€ a cada.

Alojamento: Os hostels em Almaty estão longe de ser os melhores do mundo, mas safam-se. Na primeira vez que estivemos na cidade ficámos no Almaty Backpackers que tem sem dúvida um grande ambiente, mas tem o grave problema de só ter duas casas de banho para imensa gente.

Da segunda vez ficámos num hostel mais moderno, onde as condições eram melhores, mas sem personalidade nenhuma, que ironicamente se chamava Soul Hostel. Os quartos privados valem muito a pena.

Tour: Como tínhamos pouco tempo no sul do Cazaquistão optámos por fazer uma tour através do hostel Almaty Backpackers que permite aos hóspedes juntarem-se a tours tornando o preço mais baixo. Aconselho-te a deixar a marcação da tour para a última hora porque em princípio o preço será mais baixo e como em todo o lado na Ásia “cabe sempre mais um”.

Almaty: Almaty é uma cidade surpreendentemente moderna, desenvolvida e limpa – apesar de ter visto uma vaquita a atravessar a estrada no caminho do aeroporto. Durante uma tarde visitámos o Zelenyy Bazar, a Catedral da Ascenção no Parque Panfilov, o parque do Primeiro Presidente, a rua Zhybek-Zholy que está cheia de cafés, bares e restaurantes e o Central Park. 

Quirguistão

Visto: Não é necessário visto para cidadãos portugueses.  

Moeda e dinheiro: 1€ = 77.5 Kyrgyz Som. É fácil de trocar dinheiro em Bishkek, nós fizemo-lo logo na estação de autocarros quando chegámos – onde também podes comprar um cartão SIM. Só vais encontrar multibancos nas maiores cidades do país (como Naryn, Osh ou Karakol) por isso mais vale abastecer em Bishkek. Tenta não sair do país com dinheiro Quirguiz porque vai ser quase impossível de trocar.

Transporte: A aplicação Yandex também funciona em Bishkek e é a melhor opção para deslocações dentro a cidade. Para viajar no Quirguistão as marshrutkas são o segredo. Estes mini autocarros de 20 lugares vão para todos os cantos do país assim que enchem e são a forma mais barata de viajar. Podes apanhá-las nas estações de autocarro de cada cidade e apesar de não serem particularmente confortáveis acho que são a melhor opção.

Bishkek a Naryn: 5 horas, cerca de 4 euros por pessoa
Naryn a Kochkor (taxi partilhado): 2 horas, cerca de 4 euros por pessoa
Kochkor a Bishkek: 3 horas, cerca de 3 euros por pessoa
Bishkek a Almaty: 5 horas, cerca de 4 euros por pessoa

CBT: traduz-se em Community Based Tourism e consiste em centros turísticos, espalhados por todo o país, que organizam tours, caminhadas e passeios para viajantes. Nós só usámos o de Naryn e correu tudo às mil maravilhas. Podes ler mais sobre o CBT aqui.

Bishkek: Se há coisas boas deixadas pela União Soviética foram cidades bem planeadas e com espaços verdes. No caso de Bishkek há a enorme praça Ala-Too com museus, teatros e edifícios governamentais. Também podes optar por fazer a “tour do comunismo” e picar o ponto em todas as estátuas do Lenin, Marx e outros amigos desses tempos.

Nós vimo-nos no meio de uma feira popular e como não tínhamos nada para fazer decidimos ir dar uma voltinha ao “Bishkek-eye” a grande roda de Bishkek!

Bishkek também é um bom porto de partida para day trips: para o Ala-Archa National Park, Konorchek Canyon, Burana Tower e até o sanatório soviético em Issyk-Ata.

Alojamento: Foi em Bishkek que ficámos num dos melhores hostels que já vi. Fomos parar ao hostel Freelander por recomendação de um viajante e era espectacular tanto a nível de instalações, como de limpeza e de simpatia. No resto das cidades o alojamento mais comum são as guest houses e no campo os yurts.

Itinerário: Apesar de não termos cumprido nada do meu itinerário inicial continuo a achar que era um grande itinerário e por isso deixo-o aqui:

Bishkek: 1 dia
Karakol: 1 dia  
Caminhada até ao lago Ala-Kul: 3 dias
Karakol até Kochkor: 1 dia
Caminhada até ao lago Song Kol: 3 dias
Kochkor até Naryn: 1 dia
Tash Rabat e Kol Suu: 2 dias

Uzbequistão

Visto: Desde 2019 que não é preciso visto para o Uzbequistão para estadias inferiores a 30 dias. O país está a fazer um esforço enorme para dinamizar o turismo e o acesso está muito facilitado.

Moeda e dinheiro: 1€ = 10555 Uzbek Som. No Uzbequistão é mais fácil encontrar caixas multibanco, mas 99% só aceita cartões Visa e nem sempre têm muito dinheiro disponível.

Transporte: Em Tashkent, tal como em Almaty e Bishkek, podes usar a app Yandex para chamar taxis. Se no aeroporto os taxistas te disserem que os Yandex não têm autorização para entrar na área do aeroporto é mentira.

Já para andar pelo país fora os comboios são a melhor opção. Nós conseguimos marcar online o comboio de Tashkent para Urgench mas claro que fomos parar à terceira classe. A melhor opção será ver os horários na internet e depois levar escrito num papel os comboios que queres comprar (origem, destino e hora) e apresentar esse papel ao balcão na estação de Tashken para facilitar a comunicação. Podes encontrar os horários dos comboios aqui.

A estação de Tashkent tem um sistema de senhas que não funciona e por isso tens que ir lá para o molho lutar para ser atendido.  

Alojamento: Os standards de alojamento no Uzbequistão são muito superiores aos dos países anteriores e os preços são particularmente bons para quem viaja com um ou dois amigos e pode partilhar quarto. Por 8€ por pessoa é normal ter um quarto com ar condicionado, casa de banho e pequeno-almoço incluído.

Polícia Turística: Com os esforços para tornar o país mais atractivo para o turismo, o Uzbequistão pôs nas ruas um grande número de polícias que falam inglês e estão disponíveis para ajudar. E se dantes eles eram conhecidos pela sua corrupção, agora há um esforço consciente para o evitar a todos os custos, especialmente com turistas.

Itinerário: Este itinerário foi feito um bocadinho em cima do joelho, mas até nem nos saímos mal para quatro dias.

Tashkent – 1 dia
Khiva – 1 dia
Bukhara – 1 dia
Samarkand – 1 dia

Se tivesse tido tempo, incluiria o mar Aral!

Tashkent

De todas as cidades da Ásia Central, Tashkent foi aquela onde passámos mais tempo e foi definitivamente a minha preferida. O seu metro é uma versão mais pequena e económica do metro de Moscovo e um dos pontos mais interessantes da cidade. Foi apenas em 2018 que começou a ser permitido fotografar as estações de metro e a partir de então mais turistas visitam esta “atracção”.

O bilhete de metro só custa 14 cêntimos e por esse valor podes ver todas a estações do metro! Algumas das mais interessantes são: Novza, Pakhtakhor, Mustaqilik Maydoni, Oybek, Toshkent, Alisher Navoi E Kosmonavtlar. A maioria das estações representa momentos ou figuras importantes da cultura Uzbeque.

Já fora do subsolo andámos pelo Chorsu Bazaar, Praça Amir Timur, Hotel Uzbekistan e Feira do Livro (book bazaar). Como estivemos sempre em Tashkent entre viagens, não tivemos oportunidade de ver as suas mesquitas que são muito conhecidas.

Espero que estas duas mil e duzentas palavras te tenham incentivado a tornar a Ásia Central num dos teus destinos futuros. É uma região surpreendente com muito mais para dar do que imaginamos.

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Song Kol e a vida nómada no Quirguistão https://www.mudancasconstantes.com/2019/10/01/song-kol-nomada-quirguistao/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=song-kol-nomada-quirguistao https://www.mudancasconstantes.com/2019/10/01/song-kol-nomada-quirguistao/#comments Tue, 01 Oct 2019 17:16:22 +0000 http://www.mudancasconstantes.com/?p=5699 Um dos maiores propulsores da minha viagem ao Quirguistão foi a possibilidade de contactar com uma cultura nómada. Este cantinho perdido no meio da Ásia Central é conhecido, entre viajantes, como um dos lugares mais acessíveis do mundo para aprender como é viver sem raízes assentes no chão. Depois de termos testemunhado o quão impiedoso o tempo no Quirguistão pode ser, mesmo no pico do verão, foi fácil perceber o porquê deste povo se conservar nómada. No verão, as planícies a grandes altitudes são atractivas tanto para o turismo como para a o gado e as famílias quirguizes montam os seus acampamentos de yurts em lugares bonitos, mas que nos fazem questionar a sua sanidade mental. A ideia de dormir num yurt é algo romantizada no mundo ocidental; um género de cabaninha debaixo das estrelas. O que nos esquecemos é que essa cabaninha não tem acesso a água corrente, electricidade ou aquecimento central. E é assim que se vive no Quirguistão, sem nada daquilo que tomamos por garantido. O nosso último no Quirguistão foi passado no Lago Song Kol, até onde era suposto fazermos uma caminhada de três dias, mas com uma gastroenterite e uma previsão de tempo que prometia neve decidimos mudar de planos e ir e vir no mesmo dia. Também tomámos a decisão radical de mudar de destino e terminarmos os nossos dias na Ásia Central no Uzbequistão (os voos para as Maldivas estavam demasiado caros). A parte mais impressionante foi o caminho até ao lago, primeiro porque estávamos dentro do carro e não tínhamos frio e depois porque quanto mais subíamos mais espectaculares eram as paisagens. Já no lago em si, fizemos um pequeno piquenique ao ar livre até que as nuvens tomaram conta da situação e tivemos que nos abrigar num género de tenda a jogar às cartas até ser hora de voltar!  Apesar de não ter sido uma viagem fácil – nunca pensámos que o fosse – aprendemos imenso e foram muitos os momentos em que nos rimos pela incredibilidade das situações. Afinal de contas é para isso que viajamos. Estes são os momentos que não podia deixar de partilhar: – “Se precisarem, liguem-me”: Só ficámos uma noite num hostel em Bishkek, mas isso não impediu um dos membros do staff de se tornar nosso amigo. Aquando da despedida disse “se alguma vez forem parados pela polícia ou se estiverem em sarilhos liguem-me. O meu tio é chefe de polícia e consegue tratar de tudo”. Contactos de qualidade é que a gente precisa! – Uma nova forma de beber cerveja: Esta informação pode ferir susceptibilidades, mas na Ásia Central eles bebem cerveja com palhinha. E não é uma palhinha qualquer, é daquelas compridas que até dão para fazer arte. Escusado será dizer que nos recusámos a alinhar nesta parte da cultura. – Um dia para conhecer, um dia para casar: O nosso guia pareceu achar que nós no mundo ocidental demoramos muito até nos decidirmos com quem casar. Segundo ele “conheci a minha mulher num dia e no seguinte perguntei se queria casar comigo. Aqui, namorar mais de três meses sem casamento é muito tempo”. É gente que claramente inspirou o Casados à Primeira Vista. – Uma pele de lobo na fronteira: No último dos três postos de controlo que se encontram na zona fronteiriça com a China, reparámos numa pele de lobo no gabinete dos militares. Eles pareceram contentes com a atenção e lá trouxeram a sua pele de lobo para nós mexermos. Acho que mais um bocadinho e nos tinham tentado vender a pele que pensando bem nos podia ter dado muito jeito no combate ao frio. – O papel higiénico: Temos que falar sobre o papel higiénico no Quirguistão. Nas cidades é normal, mas no campo?! Parece lixa! É a cereja no topo da experiência de casa de banho quirguiz. – Nascidos para cavalgar: Para uma rapariga da cidade é incrível ver o quão à vontade este povo se sente em cima dos cavalos. No lago Kel-Suu vimos um miúdo de quatro anos a conduzir um cavalo sozinho como se fosse um triciclo! E depois há os Jogos Nómadas que acontecem a cada dois anos onde a perícia dos cavaleiros é posta à prova em jogos que nos podem parecer algo bárbaros (como usarem cabras em vez de bolas!), mas que são um evento cultural inacreditável que adorava ver um dia. – “Agradece ao Ronaldo”: Claro que tinha que deixar o melhor para fim. Na verdade esta história passou-se na fronteira do Cazaquistão para o Quirguistão. Apanhámos um táxi partilhado de Almaty para Bishkek com uns polacos e um casal eslovena/francês que falavam russo. Quando chegámos à fronteira, ainda na parte do Cazaquistão, chego-me ao senhor que carimba passaportes e ele pede-me o papel da imigração que me tinham dado à chegada no país. F***** pensei eu. Como é óbvio (para aqueles que me conhecem) tinha deitado fora o papel – sou muito boa a deitar documentos importantes fora.  O senhor não ficou nada contente com a situação, mas o seu inglês só lhe permitia dizer “problem, problem”. Ficou com o meu passaporte e continuou a atender o resto do meu grupo. Felizmente tinha a santa eslovena que me ajudou a explicar a situação em russo e em cinco minutos ele passou do polícia mau a polícia fofinho. Depois de muitas voltas dar ao meu passaporte de perceber que sou portuguesa diz algo que acaba em Ronaldo. E eu penso “estou safa”. E estava mesmo. Fez-se o mágico som do carimbo e meio a sorrir (tanto quando o povo Cazaque consegue sorrir) diz-me “thank Ronaldo” e foi assim que entrei no Quirguistão. Obrigada Ronaldo <3 Claro que há muito mais a dizer sobre a cultura nómada como caçar com águias e os intricados padrões que decoram o interior dos yurts, mas espero que fique aqui um gostinho do que te pode esperar numa viagem ao Quirguistão.

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Um dos maiores propulsores da minha viagem ao Quirguistão foi a possibilidade de contactar com uma cultura nómada. Este cantinho perdido no meio da Ásia Central é conhecido, entre viajantes, como um dos lugares mais acessíveis do mundo para aprender como é viver sem raízes assentes no chão.

Depois de termos testemunhado o quão impiedoso o tempo no Quirguistão pode ser, mesmo no pico do verão, foi fácil perceber o porquê deste povo se conservar nómada. No verão, as planícies a grandes altitudes são atractivas tanto para o turismo como para a o gado e as famílias quirguizes montam os seus acampamentos de yurts em lugares bonitos, mas que nos fazem questionar a sua sanidade mental.

A ideia de dormir num yurt é algo romantizada no mundo ocidental; um género de cabaninha debaixo das estrelas. O que nos esquecemos é que essa cabaninha não tem acesso a água corrente, electricidade ou aquecimento central. E é assim que se vive no Quirguistão, sem nada daquilo que tomamos por garantido.

O nosso último no Quirguistão foi passado no Lago Song Kol, até onde era suposto fazermos uma caminhada de três dias, mas com uma gastroenterite e uma previsão de tempo que prometia neve decidimos mudar de planos e ir e vir no mesmo dia. Também tomámos a decisão radical de mudar de destino e terminarmos os nossos dias na Ásia Central no Uzbequistão (os voos para as Maldivas estavam demasiado caros).

A caminho do lago

A parte mais impressionante foi o caminho até ao lago, primeiro porque estávamos dentro do carro e não tínhamos frio e depois porque quanto mais subíamos mais espectaculares eram as paisagens. Já no lago em si, fizemos um pequeno piquenique ao ar livre até que as nuvens tomaram conta da situação e tivemos que nos abrigar num género de tenda a jogar às cartas até ser hora de voltar! 

Apesar de não ter sido uma viagem fácil – nunca pensámos que o fosse – aprendemos imenso e foram muitos os momentos em que nos rimos pela incredibilidade das situações. Afinal de contas é para isso que viajamos. Estes são os momentos que não podia deixar de partilhar:

– “Se precisarem, liguem-me”: Só ficámos uma noite num hostel em Bishkek, mas isso não impediu um dos membros do staff de se tornar nosso amigo. Aquando da despedida disse “se alguma vez forem parados pela polícia ou se estiverem em sarilhos liguem-me. O meu tio é chefe de polícia e consegue tratar de tudo”. Contactos de qualidade é que a gente precisa!

– Uma nova forma de beber cerveja: Esta informação pode ferir susceptibilidades, mas na Ásia Central eles bebem cerveja com palhinha. E não é uma palhinha qualquer, é daquelas compridas que até dão para fazer arte. Escusado será dizer que nos recusámos a alinhar nesta parte da cultura.

– Um dia para conhecer, um dia para casar: O nosso guia pareceu achar que nós no mundo ocidental demoramos muito até nos decidirmos com quem casar. Segundo ele “conheci a minha mulher num dia e no seguinte perguntei se queria casar comigo. Aqui, namorar mais de três meses sem casamento é muito tempo”. É gente que claramente inspirou o Casados à Primeira Vista.

– Uma pele de lobo na fronteira: No último dos três postos de controlo que se encontram na zona fronteiriça com a China, reparámos numa pele de lobo no gabinete dos militares. Eles pareceram contentes com a atenção e lá trouxeram a sua pele de lobo para nós mexermos. Acho que mais um bocadinho e nos tinham tentado vender a pele que pensando bem nos podia ter dado muito jeito no combate ao frio.

– O papel higiénico: Temos que falar sobre o papel higiénico no Quirguistão. Nas cidades é normal, mas no campo?! Parece lixa! É a cereja no topo da experiência de casa de banho quirguiz.

– Nascidos para cavalgar: Para uma rapariga da cidade é incrível ver o quão à vontade este povo se sente em cima dos cavalos. No lago Kel-Suu vimos um miúdo de quatro anos a conduzir um cavalo sozinho como se fosse um triciclo! E depois há os Jogos Nómadas que acontecem a cada dois anos onde a perícia dos cavaleiros é posta à prova em jogos que nos podem parecer algo bárbaros (como usarem cabras em vez de bolas!), mas que são um evento cultural inacreditável que adorava ver um dia.

– “Agradece ao Ronaldo”: Claro que tinha que deixar o melhor para fim. Na verdade esta história passou-se na fronteira do Cazaquistão para o Quirguistão. Apanhámos um táxi partilhado de Almaty para Bishkek com uns polacos e um casal eslovena/francês que falavam russo. Quando chegámos à fronteira, ainda na parte do Cazaquistão, chego-me ao senhor que carimba passaportes e ele pede-me o papel da imigração que me tinham dado à chegada no país. F***** pensei eu. Como é óbvio (para aqueles que me conhecem) tinha deitado fora o papel – sou muito boa a deitar documentos importantes fora. 

O senhor não ficou nada contente com a situação, mas o seu inglês só lhe permitia dizer “problem, problem”. Ficou com o meu passaporte e continuou a atender o resto do meu grupo.

Felizmente tinha a santa eslovena que me ajudou a explicar a situação em russo e em cinco minutos ele passou do polícia mau a polícia fofinho. Depois de muitas voltas dar ao meu passaporte de perceber que sou portuguesa diz algo que acaba em Ronaldo. E eu penso “estou safa”. E estava mesmo. Fez-se o mágico som do carimbo e meio a sorrir (tanto quando o povo Cazaque consegue sorrir) diz-me “thank Ronaldo” e foi assim que entrei no Quirguistão. Obrigada Ronaldo <3

Obrigada Ronaldo <3

Claro que há muito mais a dizer sobre a cultura nómada como caçar com águias e os intricados padrões que decoram o interior dos yurts, mas espero que fique aqui um gostinho do que te pode esperar numa viagem ao Quirguistão.

Última foto cheios de frio!!

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Köl-Suu: beleza com dor se paga https://www.mudancasconstantes.com/2019/09/17/kol-suu-quirguistao-sul/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=kol-suu-quirguistao-sul https://www.mudancasconstantes.com/2019/09/17/kol-suu-quirguistao-sul/#respond Tue, 17 Sep 2019 20:40:09 +0000 http://www.mudancasconstantes.com/?p=5628 Quando marcamos férias em Agosto não estamos bem à espera de enfrentar neve, ventos cortantes e um frio que nos gela até ao tutano. Para mal dos nossos pecados o Inverno do Quirguistão decidiu estrear-se mais cedo este ano e como tal lá tivemos que aguentar os cavalos (literalmente) e aproveitar, em hipotermia, os fabulosos lugares onde nos encontrávamos. Como sobrevivemos parece que valeu a pena, mas comecemos pelo princípio, que este dia até amanheceu com temperaturas positivas. +5º Celcius: Lago Chatyr e um aceno à China Levantámo-nos com a mesma roupa que tínhamos usado durante todo o dia anterior e não ousámos sequer pensar em mudá-la. Depois de sentirmos o frio da manhã nas nossas nalgas na casa de banho ao ar livre e de comermos mais um bocado de compota (nesta altura já não podia ver compota à frente) e pão seco, enfiámo-nos no carro enquanto nos despedíamos da anciã Tash Rabat. Pela frente tínhamos uma viagem de cinco horas até ao próximo acampamento de yurts, mas com paisagens assim a viagem até podia durar 10 horas. A primeira paragem foi no Lago Chatyr. A uns meros dois ou três quilómetros da China encontra-se este lago, de um profundo azul-mar, onde mais uma vez nos encontrámos sozinhos, tendo apenas o som dos nossos passos e respiração como companhia. Na estrada, a presença da vizinha China lembra-nos o quão agradável é não termos fronteiras físicas visíveis na Europa: centenas de quilómetros de arame farpado não alegram ninguém. Antes de enveredarmos pela estrada de gravilha que nos ia levar ao acampamento do dia, o nosso guia avisou-nos (várias vezes) que íamos passar pela última estação de serviço onde podíamos comprar vodka naquele dia. Para seu desapontamento só comprámos água. 0º Celcius: Quem precisa de uma porta quando se tem uma vista destas? Depois de passarmos rios com o carro, fotografarmos iaques e atravessarmos pontes de madeira em processo de apodrecimento, mal podíamos acreditar no que se passava diante dos nossos olhos: estava a nevar! Em pleno mês de Agosto estava a nevar! Sorridente o nosso guia dizia “olha, parece que este ano o Inverno veio mais cedo!” e nós só vimos a nossa vida a andar para trás. Era neste tempo que íamos fazer um passeio a cavalo? Pelos vistos era. Poucos minutos depois de estacionarmos já o sol se fazia sentir e lá estavam os nossos yurts, no meio da neve, a dar-nos as boas vindas. Numa primeira (de muitas) visita à casa de banho percebi que estava ali um bom trono – esta tinha mesmo uma sanita plantada no cimo de uma fossa – para apreciar a paisagem e contemplar o significado da vida. Afinal, sem porta, tinha uma vista privilegiada para as maravilhosas montanhas que nos rodeavam. Há que saber apreciar estas pequenas coisas! -10º Celcius: “É muito giro, mas podemos ir embora?!” Em menos de nada estávamos em cima dos cavalos que nos iam levar ao lago Köl-Suu. Como companhia tínhamos um guia que parecia ter idade para ser nosso filho e um cãozito que também não sabia bem ao que ia. Ora bem, o hipismo está longe de ser uma das minhas especialidades e o meu cavalo percebeu logo isso. Enquanto os outros iam ordeiramente pelo caminho suposto o meu adorava ou tentar voltar para trás ou pastar lentamente enquanto eu lhe puxava as “rédeas” (que é como quem diz corda de atacadores) para o fazer andar. As paisagens eram soberbas e nestes lugares onde raramente nos cruzamos com outros seres humanos impera uma paz única.  Por ser tão remoto e pela necessidade de uma permissão especial, o lago Köl-Suu sempre nos pareceu um sonho algo irrealista, mas agora estava mesmo ali à nossa frente. A única diferença é que no nosso sonho não estávamos em hipotermia. As mãos e os pés já estavam a passar para o mundo dos mortos e eu estava bastante certa que em breve o resto do corpo se seguiria. Permitimo-nos andar por ali uns cinco a dez minutos até que achámos que tínhamos atingido o nosso limite, iniciamos a cavalgada de volta, desta vez com animais mais motivados pois em breve iam ver-se livres de nós. Já mais à vontade, o nosso guia (que afinal tinha 15 anos) mostrou-nos algumas das suas habilidades com os cavalos e os meus amigos lá galoparam com ele planície fora. Eu fiquei-me por um trote tosco e com umas dores de pernas e rabo que duraram cerca de quatro dias a passar. Para os que estão a pensar no que aconteceu ao cãozito que vinha connosco, foi levado de volta porque só gania, uma vez que era mais ou menos da altura da camada de neve que cobria o chão. 0º Celcius: A agonia e as estrelas Viajar em lugares tão remotos como os confins da Ásia Central tem os seus prós e contras. Se por um lado estamos a explorar lugares puros e intocados, por outro temos que nos sujeitar às condições e infra-estrutura que há. Apanhar uma gastroenterite nestes países é quase certo e já apanhei muitas na vida, mas nunca tinha apanhado uma tão debilitante. Não sei se foi uma combinação de altitude com bactérias, mas o que é certo é que demorou quase uma semana até voltar a ter fome e comer normalmente. Tudo começou nesta noite. Já sabia que não estava muito bem por não ter consigo comer quase nada durante o dia todo, mas foi quando acordei com uma vontade indomável de vomitar (algo muito raro em mim) que soube que não estava bem. Não querendo ser muito gráfica, passei mais tempo na casa de banho do que na cama. Mas se era para passar horas numa casa de banho, que fosse naquela! Iluminadas pela luz da lua, à minha frente estavam umas montanhas lindíssimas e no céu brilhavam as estrelas que não se deixavam ofuscar. Que belo lugar para fazer um detox intestinal… Eventualmente foi este dia que acabou por mudar o curso da nossa viagem, porque percebemos que íamos sofrer demasiado (talvez seja esse o propósito da vodka) para aproveitar e valorizar o Quirguistão. Contudo, não há nem uma ponta de arrependimento quanto a esta viagem e há até uma grande vontade de voltar para explorar o que não conseguimos explorar. A nossa última paragem no Quirguistão foi o Lago Song Kol.    

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Quando marcamos férias em Agosto não estamos bem à espera de enfrentar neve, ventos cortantes e um frio que nos gela até ao tutano. Para mal dos nossos pecados o Inverno do Quirguistão decidiu estrear-se mais cedo este ano e como tal lá tivemos que aguentar os cavalos (literalmente) e aproveitar, em hipotermia, os fabulosos lugares onde nos encontrávamos.

Aquela típica paisagem de Agosto…

Como sobrevivemos parece que valeu a pena, mas comecemos pelo princípio, que este dia até amanheceu com temperaturas positivas.

+5º Celcius: Lago Chatyr e um aceno à China

Levantámo-nos com a mesma roupa que tínhamos usado durante todo o dia anterior e não ousámos sequer pensar em mudá-la. Depois de sentirmos o frio da manhã nas nossas nalgas na casa de banho ao ar livre e de comermos mais um bocado de compota (nesta altura já não podia ver compota à frente) e pão seco, enfiámo-nos no carro enquanto nos despedíamos da anciã Tash Rabat.

Pela frente tínhamos uma viagem de cinco horas até ao próximo acampamento de yurts, mas com paisagens assim a viagem até podia durar 10 horas. A primeira paragem foi no Lago Chatyr.

Iaques <3

A uns meros dois ou três quilómetros da China encontra-se este lago, de um profundo azul-mar, onde mais uma vez nos encontrámos sozinhos, tendo apenas o som dos nossos passos e respiração como companhia.

Na estrada, a presença da vizinha China lembra-nos o quão agradável é não termos fronteiras físicas visíveis na Europa: centenas de quilómetros de arame farpado não alegram ninguém.

Antes de enveredarmos pela estrada de gravilha que nos ia levar ao acampamento do dia, o nosso guia avisou-nos (várias vezes) que íamos passar pela última estação de serviço onde podíamos comprar vodka naquele dia. Para seu desapontamento só comprámos água.

0º Celcius: Quem precisa de uma porta quando se tem uma vista destas?

Depois de passarmos rios com o carro, fotografarmos iaques e atravessarmos pontes de madeira em processo de apodrecimento, mal podíamos acreditar no que se passava diante dos nossos olhos: estava a nevar! Em pleno mês de Agosto estava a nevar!

Sorridente o nosso guia dizia “olha, parece que este ano o Inverno veio mais cedo!” e nós só vimos a nossa vida a andar para trás. Era neste tempo que íamos fazer um passeio a cavalo? Pelos vistos era.

Cavaleiro das Trevas!

Poucos minutos depois de estacionarmos já o sol se fazia sentir e lá estavam os nossos yurts, no meio da neve, a dar-nos as boas vindas. Numa primeira (de muitas) visita à casa de banho percebi que estava ali um bom trono – esta tinha mesmo uma sanita plantada no cimo de uma fossa – para apreciar a paisagem e contemplar o significado da vida. Afinal, sem porta, tinha uma vista privilegiada para as maravilhosas montanhas que nos rodeavam.

Dentro da casa de banho…

Há que saber apreciar estas pequenas coisas!

-10º Celcius: “É muito giro, mas podemos ir embora?!”

Em menos de nada estávamos em cima dos cavalos que nos iam levar ao lago Köl-Suu. Como companhia tínhamos um guia que parecia ter idade para ser nosso filho e um cãozito que também não sabia bem ao que ia.

Ora bem, o hipismo está longe de ser uma das minhas especialidades e o meu cavalo percebeu logo isso. Enquanto os outros iam ordeiramente pelo caminho suposto o meu adorava ou tentar voltar para trás ou pastar lentamente enquanto eu lhe puxava as “rédeas” (que é como quem diz corda de atacadores) para o fazer andar.

As paisagens eram soberbas e nestes lugares onde raramente nos cruzamos com outros seres humanos impera uma paz única. 

Por ser tão remoto e pela necessidade de uma permissão especial, o lago Köl-Suu sempre nos pareceu um sonho algo irrealista, mas agora estava mesmo ali à nossa frente. A única diferença é que no nosso sonho não estávamos em hipotermia. As mãos e os pés já estavam a passar para o mundo dos mortos e eu estava bastante certa que em breve o resto do corpo se seguiria.

Permitimo-nos andar por ali uns cinco a dez minutos até que achámos que tínhamos atingido o nosso limite, iniciamos a cavalgada de volta, desta vez com animais mais motivados pois em breve iam ver-se livres de nós.

Já mais à vontade, o nosso guia (que afinal tinha 15 anos) mostrou-nos algumas das suas habilidades com os cavalos e os meus amigos lá galoparam com ele planície fora. Eu fiquei-me por um trote tosco e com umas dores de pernas e rabo que duraram cerca de quatro dias a passar.

Para os que estão a pensar no que aconteceu ao cãozito que vinha connosco, foi levado de volta porque só gania, uma vez que era mais ou menos da altura da camada de neve que cobria o chão.

0º Celcius: A agonia e as estrelas

Viajar em lugares tão remotos como os confins da Ásia Central tem os seus prós e contras. Se por um lado estamos a explorar lugares puros e intocados, por outro temos que nos sujeitar às condições e infra-estrutura que há.

Apanhar uma gastroenterite nestes países é quase certo e já apanhei muitas na vida, mas nunca tinha apanhado uma tão debilitante. Não sei se foi uma combinação de altitude com bactérias, mas o que é certo é que demorou quase uma semana até voltar a ter fome e comer normalmente.

Tudo começou nesta noite. Já sabia que não estava muito bem por não ter consigo comer quase nada durante o dia todo, mas foi quando acordei com uma vontade indomável de vomitar (algo muito raro em mim) que soube que não estava bem. Não querendo ser muito gráfica, passei mais tempo na casa de banho do que na cama.

Espelho meu, espelho meu, haverá casa de banho mais bela do que eu?

Mas se era para passar horas numa casa de banho, que fosse naquela! Iluminadas pela luz da lua, à minha frente estavam umas montanhas lindíssimas e no céu brilhavam as estrelas que não se deixavam ofuscar. Que belo lugar para fazer um detox intestinal…

Eventualmente foi este dia que acabou por mudar o curso da nossa viagem, porque percebemos que íamos sofrer demasiado (talvez seja esse o propósito da vodka) para aproveitar e valorizar o Quirguistão. Contudo, não há nem uma ponta de arrependimento quanto a esta viagem e há até uma grande vontade de voltar para explorar o que não conseguimos explorar.

A nossa última paragem no Quirguistão foi o Lago Song Kol.

 

 

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Tash Rabat: nos confins de um país nos confins do mundo https://www.mudancasconstantes.com/2019/09/08/tash-rabat-naryn-quirguistao/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=tash-rabat-naryn-quirguistao https://www.mudancasconstantes.com/2019/09/08/tash-rabat-naryn-quirguistao/#comments Sun, 08 Sep 2019 13:36:06 +0000 http://www.mudancasconstantes.com/?p=5599 Numa viagem em que tudo depende do tempo e onde o tempo é tudo menos previsível, manter os planos em aberto é a chave. O Quirguistão é um dos países mais montanhosos do mundo (com uma elevação média de 3000 metros!) e portanto aquela velha máxima das “quatro estações num dia” não podia ser mais verdade, sendo que a estação Inverno tem primazia sobre as outras. A previsão de chuva para a nossa caminha de três dias ao lago Ala-Kul desfez o meu belo plano de Excel e trocou-nos as voltas. Pondo todas as opções em cima da mesa decidimos atravessar o país de norte a sul num dia, de Bishkek a Naryn, e a partir daí arrancarmos para a uma das zonas mais remotas do país: Tash Rabat e o Lago de Köl Suu. A Deusa do CBT O Quirguistão despertou em mim o meu lado mais insensato: chegámos a Naryn sem nada marcado. Saímos da nossa marshrutka directamente para o CBT de Naryn com esperança que alguém nos ajudasse. CBT traduz-se em Community Based Tourism e é o resultado de um esforço comunitário para usar o turismo como uma forma de rendimento sustentável, dinamizando uma região e melhorando a qualidade de vida dos seus habitantes. Em 15 minutos tínhamos os próximos três dias planeados. A gestora daquele CBT – cujo nome não me lembro e como tal chamar-lhe-ei “a Deusa” – é possivelmente a pessoa mais eficiente do mundo. Depois de ter olhado para nós e decidido que “não éramos caminhantes confiantes” explicou-nos rapidamente o plano que tinha desenhado. Nós só tivemos tempo de acenar com a cabeça. Como íamos estar na zona fronteiriça com a China era obrigatório ter uma permissão específica que normalmente deve ser tratada com uma semana de antecedência. Mas nada era impossível para a Deusa e em duas ou três horas tínhamos nas mãos o papelinho mágico que nos abriria as portas para o último pedaço de Quirguistão antes da China. Por fim, ainda nos disse que o melhor lugar para comer em Naryn era no bazar e, apesar de nos terem apresentado um menu em Quirguiz que nem o Google conseguia descodificar, lá nos serviram aquela que foi de facto a nossa melhor refeição no Quirguistão. E mais barata: 4.5€ para três pessoas! Tash Rabat e um gostinho de vida nómada Na manhã seguinte conhecemos o Mirlan que ia ser o nosso condutor, e um bocadinho guia, durante os três dias seguintes. Tivemos sorte porque ele desenrascava bem o inglês e era aberto às nossas questões sobre o Quirguistão e também curioso sobre os costumes Europeus. Afinal só tinha 32 anos, apesar dos quatro filhos. A estrada até Tash Rabat foi-nos mostrando o potencial das paisagens do Quirguistão e quando o carro parou foi como se um novo mundo se tivesse desvendado à frente dos nossos olhos: rodeados por montanhas altas e verdejantes estavam cerca de 10 yurts que seriam o nosso lar por um dia.   Para nos ajudar a imaginar como seria este recôndito tesouro na altura da Rota da Seda ainda somos presenteados com uma “caravancerai” um género de hospedaria para viajantes e mercadores com mais de 500 anos, recentemente restaurada, e cujo interior é tão enigmático que nem historiadores sabem bem o que por ali se passou.  Rapidamente fomos nós que nos tornámos na maior atracção de Tash Rabat sendo requisitados para fotos e para conversas que não entendíamos. Ao almoço fomos apresentados à duvidosa cozinha nómada que consiste em caldos com batatas cozidas, especiarias e carne. A comida podia não ser a mais inspirada, mas o ambiente deu asas a uma intensa conversa sobre crises de petróleo e desvantagens do capitalismo – quem diria que mentes brilhantes se cruzariam nos confins do Quirguistão. O resto do dia foi passado a caminhar na companhia de um cãozito que apelidamos de “saucisson” e que adorava tentar caçar marmotas. Apesar de não termos feito o percurso completo (tínhamos começado muito tarde) as paisagens nunca desapontam. O meu momento preferido foi já quase ao pôr-do-sol, quando as nuvens finalmente dispersaram e, duma montanha, me sentei a processar a imensidão daquilo tudo que estava a ver, sem distracções e em silêncio absoluto. À mesa, sem telemóveis Acho seguro afirmar que a 3000 metros de altitude nunca está calor. Assim que o sol se pôs começámos a perceber que não estávamos minimamente preparados para o frio que íamos sentir durante as duas próximas noites até porque tanto para comer, como para ir à casa de banho, tínhamos que sair de perto da única fonte de calor que havia: o “forno” a lenha instalado em cada yurt. Mas se há vantagens no sofrimento humano é o sentimento de união que se forma no grupo que sofre. Ao jantar, enquanto descongelávamos no yurt comunitário onde eram servidas as refeições, conhecemos um casal de franceses e outro com uma holandesa e um espanhol. A tertúlia durou a noite inteira até sermos literalmente expulsos porque desligaram as luzes. No fim, todos reflectimos sobre as maravilhas de conversar sem a presença de telemóveis e como nos sentimos mais presentes no momento, sem a necessidade de o partilhar com mais ninguém. A noite prometia chegar aos zero graus, mas embalada pela conversa e cerveja a 3000 metros, dormi que nem uma pedra, debaixo dos sete quilos de cobertores que tinha em cima. Dicas rápidas Marshrutka Bishkek – Naryn: Pelas 8 da manhã fomos até à estação de autocarros de Bishkek (Western Bus Station) para apanhar a marshrutka (um mini-bus que leva cerca de 15 a 20 pessoas) até Naryn. No Quirguistão nada tem horários e os autocarros e táxis partilhados partem quando estão cheios. Nós pagámos cerca de 4€ cada por uma viagem de 5 horas e pouco. Viagem pelo CBT ou de forma independente: o CBT de Naryn é conhecido como sendo um dos melhores do país e de facto tudo correu às mil maravilhas connosco. O preço para três dias de tour e duas noites com tudo incluído (incluindo o passeio a cavalo) foi de 110€ por pessoa + 25€ por pessoa para a permissão da fronteira com a China. Viajar de forma independente pode ser mais barato, mas também é mais incerto e demorado. De qualquer forma é possível e nós até vimos pessoas que fizeram a viagem até Tash Rabat à boleia. Caminhada Tash-Rabat – Chatyr Lake: Se vieres com a ideia de fazer a caminhada até ao topo da montanha que tem uma vista espectacular para o Lago Chatyr, começa cedo. Nós queríamos fazer essa caminhada, mas demora cerca de 8 ou 9 horas ida e volta por isso é um projecto de dia inteiro. Também dá para fazer a cavalo e também há a opção de fazer a descida até ao lago, mas a Deusa disse que era muito difícil!

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Numa viagem em que tudo depende do tempo e onde o tempo é tudo menos previsível, manter os planos em aberto é a chave. O Quirguistão é um dos países mais montanhosos do mundo (com uma elevação média de 3000 metros!) e portanto aquela velha máxima das “quatro estações num dia” não podia ser mais verdade, sendo que a estação Inverno tem primazia sobre as outras.

A previsão de chuva para a nossa caminha de três dias ao lago Ala-Kul desfez o meu belo plano de Excel e trocou-nos as voltas. Pondo todas as opções em cima da mesa decidimos atravessar o país de norte a sul num dia, de Bishkek a Naryn, e a partir daí arrancarmos para a uma das zonas mais remotas do país: Tash Rabat e o Lago de Köl Suu.

A nossa linda marshrutka
A Deusa do CBT

O Quirguistão despertou em mim o meu lado mais insensato: chegámos a Naryn sem nada marcado. Saímos da nossa marshrutka directamente para o CBT de Naryn com esperança que alguém nos ajudasse.

CBT traduz-se em Community Based Tourism e é o resultado de um esforço comunitário para usar o turismo como uma forma de rendimento sustentável, dinamizando uma região e melhorando a qualidade de vida dos seus habitantes.

Em 15 minutos tínhamos os próximos três dias planeados. A gestora daquele CBT – cujo nome não me lembro e como tal chamar-lhe-ei “a Deusa” – é possivelmente a pessoa mais eficiente do mundo. Depois de ter olhado para nós e decidido que “não éramos caminhantes confiantes” explicou-nos rapidamente o plano que tinha desenhado. Nós só tivemos tempo de acenar com a cabeça.

Tash Rabat seria a primeira paragem

Como íamos estar na zona fronteiriça com a China era obrigatório ter uma permissão específica que normalmente deve ser tratada com uma semana de antecedência. Mas nada era impossível para a Deusa e em duas ou três horas tínhamos nas mãos o papelinho mágico que nos abriria as portas para o último pedaço de Quirguistão antes da China.

Estrada para Tash Rabat a poucos quilómetros da fronteira com a China

Por fim, ainda nos disse que o melhor lugar para comer em Naryn era no bazar e, apesar de nos terem apresentado um menu em Quirguiz que nem o Google conseguia descodificar, lá nos serviram aquela que foi de facto a nossa melhor refeição no Quirguistão. E mais barata: 4.5€ para três pessoas!

Tash Rabat e um gostinho de vida nómada

Na manhã seguinte conhecemos o Mirlan que ia ser o nosso condutor, e um bocadinho guia, durante os três dias seguintes. Tivemos sorte porque ele desenrascava bem o inglês e era aberto às nossas questões sobre o Quirguistão e também curioso sobre os costumes Europeus. Afinal só tinha 32 anos, apesar dos quatro filhos.

A estrada até Tash Rabat foi-nos mostrando o potencial das paisagens do Quirguistão e quando o carro parou foi como se um novo mundo se tivesse desvendado à frente dos nossos olhos: rodeados por montanhas altas e verdejantes estavam cerca de 10 yurts que seriam o nosso lar por um dia.  

Para nos ajudar a imaginar como seria este recôndito tesouro na altura da Rota da Seda ainda somos presenteados com uma “caravancerai” um género de hospedaria para viajantes e mercadores com mais de 500 anos, recentemente restaurada, e cujo interior é tão enigmático que nem historiadores sabem bem o que por ali se passou. 

Rapidamente fomos nós que nos tornámos na maior atracção de Tash Rabat sendo requisitados para fotos e para conversas que não entendíamos. Ao almoço fomos apresentados à duvidosa cozinha nómada que consiste em caldos com batatas cozidas, especiarias e carne.

Demasiado entusiasmo para a comida que vinha aí…

A comida podia não ser a mais inspirada, mas o ambiente deu asas a uma intensa conversa sobre crises de petróleo e desvantagens do capitalismo – quem diria que mentes brilhantes se cruzariam nos confins do Quirguistão.

A cozinha

O resto do dia foi passado a caminhar na companhia de um cãozito que apelidamos de “saucisson” e que adorava tentar caçar marmotas. Apesar de não termos feito o percurso completo (tínhamos começado muito tarde) as paisagens nunca desapontam.

O meu momento preferido foi já quase ao pôr-do-sol, quando as nuvens finalmente dispersaram e, duma montanha, me sentei a processar a imensidão daquilo tudo que estava a ver, sem distracções e em silêncio absoluto.

À mesa, sem telemóveis

Acho seguro afirmar que a 3000 metros de altitude nunca está calor. Assim que o sol se pôs começámos a perceber que não estávamos minimamente preparados para o frio que íamos sentir durante as duas próximas noites até porque tanto para comer, como para ir à casa de banho, tínhamos que sair de perto da única fonte de calor que havia: o “forno” a lenha instalado em cada yurt.

O yurt comum

Mas se há vantagens no sofrimento humano é o sentimento de união que se forma no grupo que sofre. Ao jantar, enquanto descongelávamos no yurt comunitário onde eram servidas as refeições, conhecemos um casal de franceses e outro com uma holandesa e um espanhol. A tertúlia durou a noite inteira até sermos literalmente expulsos porque desligaram as luzes. No fim, todos reflectimos sobre as maravilhas de conversar sem a presença de telemóveis e como nos sentimos mais presentes no momento, sem a necessidade de o partilhar com mais ninguém.

A noite prometia chegar aos zero graus, mas embalada pela conversa e cerveja a 3000 metros, dormi que nem uma pedra, debaixo dos sete quilos de cobertores que tinha em cima.

Dicas rápidas

Marshrutka Bishkek – Naryn: Pelas 8 da manhã fomos até à estação de autocarros de Bishkek (Western Bus Station) para apanhar a marshrutka (um mini-bus que leva cerca de 15 a 20 pessoas) até Naryn. No Quirguistão nada tem horários e os autocarros e táxis partilhados partem quando estão cheios. Nós pagámos cerca de 4€ cada por uma viagem de 5 horas e pouco.

Viagem pelo CBT ou de forma independente: o CBT de Naryn é conhecido como sendo um dos melhores do país e de facto tudo correu às mil maravilhas connosco. O preço para três dias de tour e duas noites com tudo incluído (incluindo o passeio a cavalo) foi de 110€ por pessoa + 25€ por pessoa para a permissão da fronteira com a China. Viajar de forma independente pode ser mais barato, mas também é mais incerto e demorado. De qualquer forma é possível e nós até vimos pessoas que fizeram a viagem até Tash Rabat à boleia.

Caminhada Tash-Rabat – Chatyr Lake: Se vieres com a ideia de fazer a caminhada até ao topo da montanha que tem uma vista espectacular para o Lago Chatyr, começa cedo. Nós queríamos fazer essa caminhada, mas demora cerca de 8 ou 9 horas ida e volta por isso é um projecto de dia inteiro. Também dá para fazer a cavalo e também há a opção de fazer a descida até ao lago, mas a Deusa disse que era muito difícil!

Um adeus da nossa amiga “Claquette”

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