São Tomé e Príncipe Archives - Mudanças Constantes https://www.mudancasconstantes.com/category/sao-tome-e-principe/ Blog de viagens para inquietos e irrequietos Fri, 21 Jun 2024 14:17:23 +0000 en-GB hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://www.mudancasconstantes.com/wp-content/uploads/2018/10/cropped-Untitled-design-1-32x32.png São Tomé e Príncipe Archives - Mudanças Constantes https://www.mudancasconstantes.com/category/sao-tome-e-principe/ 32 32 O centro de São Tomé: quantos segredos guarda a floresta? https://www.mudancasconstantes.com/2024/06/21/cascatas-sao-tome/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=cascatas-sao-tome https://www.mudancasconstantes.com/2024/06/21/cascatas-sao-tome/#respond Fri, 21 Jun 2024 14:17:13 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9618 São Tomé é perfeitamente competente como destino de praia, mas se nos ficarmos só pelas suas águas transparentes e cocos na espreguiçadeira, corremos o risco de ignorar o que de mais especial esta ilha tem para oferecer: um mundo mágico de cascatas e uma fauna e flora únicas!É possível que este seja o post mais verde que alguma vez publiquei. Dentro da imersiva floresta de São Tomé, até o céu foi substituído por ramos e folhas que cobiçam a atenção do sol e a catana é imprescindível para abrir caminho. Vamos desbravar o centro de São Tomé? Nível 1: Cascata de São Nicolau “Faz parte do pacote” disseram dois rapazes São Tomenses a rir assim que nos viram, a mim e à Catarina, a olhar para o nosso carro que deitava fumo do motor. Caso não saibas, é responsabilidade do cliente verificar se os níveis de água do carro estão dentro dos limites! Enquanto a Catarina tentava arranjar um carro de substituição, eu lá fui com os rapazes pela floresta até à cascata onde eles vendem artesanato aos poucos turistas que passam por ali. A Cascata de São Nicolau é muito bonita e de fácil acesso, uma boa carta de apresentação às cascatas de São Tomé! Nível 2: Cascata dos Túneis Esta foi a minha caminhada preferida em São Tomé e um dos melhores dias da viagem. Um acumular de surpresas e aventuras! Para encontrar esta cascata precisei de um guia que me veio buscar numa motinha que parecia pouco capaz de subir uma montanha por uma estrada de pedras e lama. Mas depois de muitos solavancos, lá chegámos inteiros e prontos para começar a caminhada. De catana em riste, o Gege levou-me pela floresta dentro enquanto me explicava a que pássaro pertencia cada chilrear que ouvíamos. À nossa volta havia plantações de cacau e de café e fui descobrindo os usos que os São Tomenses foram dando às suas plantas endémicas: umas enrolam-se para fazer um copo, outras têm folhas tão grandes que servem de guarda chuva e até há um género de feto que faz tatuagens. A caminhada não é difícil e é só no fim que faz juz ao nome: há que caminhar por um túnel escuro, cheio de água, para chegar à prometida cascata. Troquei os ténis pelas chinelas e lá fui, meia agachada pelo túnel. Tinha uma lanterna, mas a verdade é que mais vale não usar para não vermos a quantidade de seres rastejantes que circulam impavidamente a poucos centímetros da nossa cara. Do outro lado está uma cascata vinda do céu.Saída do túnel, dou por mim rodeada de paredes rochosas, mais verdes que pretas, com o musgo a tomar conta de tudo o que é superfície. Não há como não ficar embasbacado com este pequeno pedaço de magia geológica! Se estiveres indeciso/a sobre que caminhada fazer em São Tomé, esta seria definitivamente a minha recomendação. Nível 3: Cascata Vale do Rio (?) “Você é motoqueiro?” pergunta a mãe da minha amiga Arminda a um rapaz que parou em frente a nós. Desta vez tinha que arranjar o meu próprio transporte até Monte Café e foi tão simples como sair de casa a acenar às dezenas de condutores de motas que por ali passam. Alguns deles são mesmo motoqueiros (um género de taxista, mas com mota em vez de carro) e levam-te onde quiseres por um preço muito simpático. Saltei para o lugar de trás e em cerca de vinte minutos estávamos no Monte Café, onde um outro guia me esperava para começarmos a caminhada até à Cascata Vale do Rio. Pequeno à parte: A maioria das pessoas visita o Monte Café pelo seu Museu do Café, onde o preço do bilhete (3€) inclui uma visita à Roça com direito a explicação do processo de produção do café e uma bica. Ora bem, esta cascata é uma matryoshka de cascatas. O caminho até à primeira, que acho que se chama Vale do Rio, é bastante fácil mas não tão bonito como o da cascata dos túneis – a floresta não é tão densa. Mesmo assim, vão-se vendo pequenas quedas de água até chegarmos à poderosa Vale do Rio. Mas o trilho não acaba aí. A nível de dificuldade, começa é aqui! Seguiu-se a parte mais complicada de todo o percurso: subir por uma parede de lama! Não sei bem como completei esta caminhada sem me esbardalhar toda (ainda tive que atravessar um pequeno rio), mas a verdade é que meia hora depois estava a nadar numa dupla cascata cujo nome ninguém sabe bem. Que lugares maravilhosos esconde a floresta de São Tomé! Este é daqueles trilhos que só posso recomendar a quem tem experiência de caminhada, mas é um lugar com uma energia muito especial que adorei visitar. E eu que estava com algum receio da descida, acabou por ser bem mais fácil que a subida. Dica extra: se estiveres por estas bandas, existe ainda uma outra cascata (de acesso mais fácil), a cascata de Bombaim. Precisas é de um jipe para lá chegar. Casa Museu Almada NegreirosPor fim, fica a sugestão de um pequeno museu. O museu em si é possível que esteja às escuras por falhas de electricidade, mas a paisagem envolvente é linda e há poesia pintada nas paredes! Se tiveres sorte, ainda encontras uma senhora a vender biscoitos caseiros! Este é o último post sobre a minha viagem a São Tomé, se quiseres ler mais ficam aqui os links para os posts anteriores: O Norte de São ToméO Sul de São Tomé O Príncipe

The post O centro de São Tomé: quantos segredos guarda a floresta? appeared first on Mudanças Constantes.

]]>
São Tomé é perfeitamente competente como destino de praia, mas se nos ficarmos só pelas suas águas transparentes e cocos na espreguiçadeira, corremos o risco de ignorar o que de mais especial esta ilha tem para oferecer: um mundo mágico de cascatas e uma fauna e flora únicas!
É possível que este seja o post mais verde que alguma vez publiquei. Dentro da imersiva floresta de São Tomé, até o céu foi substituído por ramos e folhas que cobiçam a atenção do sol e a catana é imprescindível para abrir caminho. Vamos desbravar o centro de São Tomé?

Nível 1: Cascata de São Nicolau

“Faz parte do pacote” disseram dois rapazes São Tomenses a rir assim que nos viram, a mim e à Catarina, a olhar para o nosso carro que deitava fumo do motor. Caso não saibas, é responsabilidade do cliente verificar se os níveis de água do carro estão dentro dos limites!

Enquanto a Catarina tentava arranjar um carro de substituição, eu lá fui com os rapazes pela floresta até à cascata onde eles vendem artesanato aos poucos turistas que passam por ali.
A Cascata de São Nicolau é muito bonita e de fácil acesso, uma boa carta de apresentação às cascatas de São Tomé!


Nível 2: Cascata dos Túneis

Esta foi a minha caminhada preferida em São Tomé e um dos melhores dias da viagem. Um acumular de surpresas e aventuras!

Para encontrar esta cascata precisei de um guia que me veio buscar numa motinha que parecia pouco capaz de subir uma montanha por uma estrada de pedras e lama. Mas depois de muitos solavancos, lá chegámos inteiros e prontos para começar a caminhada.


De catana em riste, o Gege levou-me pela floresta dentro enquanto me explicava a que pássaro pertencia cada chilrear que ouvíamos. À nossa volta havia plantações de cacau e de café e fui descobrindo os usos que os São Tomenses foram dando às suas plantas endémicas: umas enrolam-se para fazer um copo, outras têm folhas tão grandes que servem de guarda chuva e até há um género de feto que faz tatuagens.


A caminhada não é difícil e é só no fim que faz juz ao nome: há que caminhar por um túnel escuro, cheio de água, para chegar à prometida cascata. Troquei os ténis pelas chinelas e lá fui, meia agachada pelo túnel. Tinha uma lanterna, mas a verdade é que mais vale não usar para não vermos a quantidade de seres rastejantes que circulam impavidamente a poucos centímetros da nossa cara.


Do outro lado está uma cascata vinda do céu.

Saída do túnel, dou por mim rodeada de paredes rochosas, mais verdes que pretas, com o musgo a tomar conta de tudo o que é superfície. Não há como não ficar embasbacado com este pequeno pedaço de magia geológica!


Se estiveres indeciso/a sobre que caminhada fazer em São Tomé, esta seria definitivamente a minha recomendação.

Nível 3: Cascata Vale do Rio (?)

“Você é motoqueiro?” pergunta a mãe da minha amiga Arminda a um rapaz que parou em frente a nós. Desta vez tinha que arranjar o meu próprio transporte até Monte Café e foi tão simples como sair de casa a acenar às dezenas de condutores de motas que por ali passam. Alguns deles são mesmo motoqueiros (um género de taxista, mas com mota em vez de carro) e levam-te onde quiseres por um preço muito simpático.

Saltei para o lugar de trás e em cerca de vinte minutos estávamos no Monte Café, onde um outro guia me esperava para começarmos a caminhada até à Cascata Vale do Rio.

Pequeno à parte: A maioria das pessoas visita o Monte Café pelo seu Museu do Café, onde o preço do bilhete (3€) inclui uma visita à Roça com direito a explicação do processo de produção do café e uma bica.


Ora bem, esta cascata é uma matryoshka de cascatas. O caminho até à primeira, que acho que se chama Vale do Rio, é bastante fácil mas não tão bonito como o da cascata dos túneis – a floresta não é tão densa. Mesmo assim, vão-se vendo pequenas quedas de água até chegarmos à poderosa Vale do Rio. Mas o trilho não acaba aí. A nível de dificuldade, começa é aqui!


Seguiu-se a parte mais complicada de todo o percurso: subir por uma parede de lama!

Não sei bem como completei esta caminhada sem me esbardalhar toda (ainda tive que atravessar um pequeno rio), mas a verdade é que meia hora depois estava a nadar numa dupla cascata cujo nome ninguém sabe bem. Que lugares maravilhosos esconde a floresta de São Tomé!


Este é daqueles trilhos que só posso recomendar a quem tem experiência de caminhada, mas é um lugar com uma energia muito especial que adorei visitar. E eu que estava com algum receio da descida, acabou por ser bem mais fácil que a subida.

Dica extra: se estiveres por estas bandas, existe ainda uma outra cascata (de acesso mais fácil), a cascata de Bombaim. Precisas é de um jipe para lá chegar.

Casa Museu Almada Negreiros
Por fim, fica a sugestão de um pequeno museu. O museu em si é possível que esteja às escuras por falhas de electricidade, mas a paisagem envolvente é linda e há poesia pintada nas paredes! Se tiveres sorte, ainda encontras uma senhora a vender biscoitos caseiros!

Este é o último post sobre a minha viagem a São Tomé, se quiseres ler mais ficam aqui os links para os posts anteriores:

O Norte de São Tomé
O Sul de São Tomé
O Príncipe

The post O centro de São Tomé: quantos segredos guarda a floresta? appeared first on Mudanças Constantes.

]]>
https://www.mudancasconstantes.com/2024/06/21/cascatas-sao-tome/feed/ 0
Ilha do Príncipe: à boleia da gentileza e dos sorrisos https://www.mudancasconstantes.com/2024/03/19/ilha-do-principe-sao-tome/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=ilha-do-principe-sao-tome https://www.mudancasconstantes.com/2024/03/19/ilha-do-principe-sao-tome/#comments Tue, 19 Mar 2024 21:10:21 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9586 A Ilha do Príncipe tem praias divinais, paisagens virgens, silêncio e paz absolutos. Tudo muito giro, mas para lá chegares tens que te meter numa caixinha de fósforos com asas e rezar para que as leis da física continuem a desafiar as leis da lógica. Depois de meia hora aos solavancos aterrei (inteira) num mini aeroporto.  Se São Tomé já não é particularmente barato, o Príncipe, uma ilha dedicada ao turismo de luxo, ainda é menos. Como o transporte do aeroporto até ao meu acampamento me iria custar mais do que três dias de estadia (tinham-me pedido 50€), decidi ir a pé. 7km com uma mochilinha às costas não faria mossa.  Boleia 1 e 2: Balalai e deslumbramento  Já tendo estudado o caminho e com o percurso no Google Maps, estava confiante que lá chegaria em menos de duas horas. Pequeno problema: no avião desliguei o telemóvel, que tinha um novo cartão SIM local, e quando o voltei a ligar não sabia o PIN. Tinha o telemóvel bloqueado, inútil, com um cartão que não conseguia remover. Usando a memória, fiz-me à estrada achando que alguém me ajudaria caso fosse necessário. Estava pronta para a aventura!  A primeira coisa em que reparei foi na calmaria que se vive no Príncipe. Com apenas 9000 habitantes, há pouca gente nas ruas. Passados uns vinte ou trinta minutos de caminho, recebo a minha primeira oferta de boleia. Nem sequer estava a pedir! O rapaz ia para a capital, mas até lá passava pela estrada onde eu tinha de virar. Meti-me na parte de trás da mota e seguimos juntos durante alguns minutos para poupar as pernas. Já não muito longe do meu acampamento, cheguei a uma bifurcação onde não sabia bem para onde tinha que virar. Decidi esperar um pouco e vi uma motinha a vir na minha direção. Pedi ajuda e não é que o condutor era o “Balalai da Polícia Judiciária?!”. Isto para mim era chinês, mas felizmente ali toda a gente se conhece e ele lá me levou direitinha à “porta” do Salaszoi.  Uma tenda e uma família  Fui recebida por um Ronaldo sorridente que me apresentou à minha tenda para as próximas três noites. Tinha escolhido este “Wild Camping” porque era o alojamento mais barato do Príncipe, cerca de 18€ por noite. Quando chegámos à clareira onde ficam os bungalows e as tendas nem queria acreditar: aquela tinha de ser uma das melhores vistas do mundo! Fazia-me lembrar a famosa vista do Pão de Açúcar no Brasil, mas intocada. Uma floresta impenetrável que acaba no mar, onde o sol se põe. Esta parte da Ilha do Príncipe é fora do roteiro turístico, por isso não fazia ideia de que tal lugar existia.  Nessa noite, na companhia de um casal italiano/espanhol e do resto do staff do Salaszoi, percebi que ia ganhar uma família. A Marizete, que transportara o nosso delicioso jantar na cabeça, o Vivi que era um belo kizombeiro e conhecia toda a gente e a Linda que também ajudava na cozinha e nas limpezas.  À conversa, com as lanternas do telemóvel a servirem de iluminação, senti que aquele era o melhor lugar do mundo.  Percorrer o Príncipe a pé O dia acordou mal humorado, com uma tempestade e chuva torrencial que ameaçavam os meus planos de ir descobrir as praias do nordeste a pé. Como qualquer bom país tropical, a bonança não tardou em chegar. A seguir ao pequeno almoço em casa da Marizete, partimos: eu e mais os outros dois malucos a quem vendi a ideia de fazer 25+ quilómetros a pé num dia.  Demorámos cerca de duas horas e meia até avistarmos a idílica Praia Banana. No Hotel Belo Monte (um dos dois ou três resorts de luxo no Príncipe), há um miradouro com uma vista espectacular que só aguçou ainda mais o nosso desespero por um banho depois de tanto suor.  Até lá tínhamos passado por várias pequenas aldeias com casinhas de madeira coloridas, uma Roça abandonada que conseguimos visitar (a Roça Paciência) e muita floresta. Ainda vimos algumas crianças a voltar da escola. Nem sei quantos quilómetros têm de andar para lá chegar!  Esta região do Príncipe é maravilhosa e merece mais tempo a marinar nas suas águas mornas. A Praia Boi, Praia Macaco e Praia Grande estão já ali ao lado, mas por termos feito tudo a pé, não tivemos tempo de as visitar.  O longo caminho de regresso estava à nossa espera. Boleia 3 e 4: Reencontros e uma noite de festa  Já tínhamos feito a subida tortuosa de volta ao Hotel Belo Monte e íamos bem encaminhados quando ouvimos um carro atrás de nós. Dissemos todos “Vamos pedir boleia!” e qual não foi o meu espanto ao perceber que tinha conhecido dois dos rapazes que vinham no carro no voo de Lisboa para São Tomé! Saltámos para a caixa do jipe e lá fomos até os nossos caminhos divergirem.  De volta à caminhada, conseguimos encontrar um supermercado que não tinha água, mas tinha Compal de tudo e mais alguma coisa. Depois de andarmos mais alguns quilómetros, tentámos pedir boleia a outro jipe que ia a passar por nós, e não é que conhecíamos o condutor outra vez?! Era irmão do Vivi! Realmente, o Príncipe é uma pequena aldeia.  Quando finalmente chegámos ao acampamento, já perto do pôr do sol, o banho frio de chuveiro improvisado ao ar livre parecia um spa de luxo.  Menos mal cheirosos,  juntámo-nos à nossa recém família para um jantar chez-Marizete: uma sopa maravilhosa, uma moqueca de peixe que não lhe ficava nada atrás e fruta tropical. Qual Avilez qual quê? A acompanhar, vieram as caipirinhas do Ronaldo e acabámos todos a dançar kizomba. Foi a melhor noite da minha viagem. Labirintos sofisticados, mosquitos e lugares secretos  Os meus parceiros de caminhada despediram-se de manhã cedo e como tal tinha o dia para mim. Saí em direção à Roça Sundy para um dia a fazer aquilo que melhor se faz numa ilha paradisíaca: nada!  A Roça Sundy é das mais bonitas e bem preservadas do país, sendo hoje em dia parte hotel de luxo, parte casa para 133 famílias que vivem nas sanzalas da roça. Parece que em breve o grupo hoteleiro HDB vai construir novas casas para estas famílias, o que significa que esta roça histórica vai provavelmente passar a ser de acesso exclusivo a turistas, tal como algumas praias já o são. É triste ver esta privatização e segregação a acontecer nos dias de hoje.  O acesso à Praia Sundy é feito através de um caminho pela floresta muito mal indicado. Creio que a ideia seja desencorajar quem não é hóspede a visitar a praia. Com a ajuda da vista satélite do Google Maps e usando estrados de madeira que possivelmente são propriedade privada, cheguei a uma praia absolutamente VAZIA onde as únicas pessoas que se viam aqui e ali eram funcionários do hotel.  Deixo o link para o site do resort na praia porque parece um set de filme. Como o tempo estava meio farrusco e não apareceu ninguém nas horas que lá passei a ler e a nadar, até parecia que tinha pago 1100€ por noite pelo privilégio de estar ali. Quando a chuva apareceu, sentei-me numa das poltronas cobertas disponíveis e pus-me a imaginar que tipo de pessoas seriam os habituais clientes daquele resort.  Na subida de regresso senti que estava picada por mosquitos e decidi parar para pôr repelente. Asneira! Em dois segundos estava coberta de mini assassinos com asas sedentos pelo meu sangue. Acelerei o passo, mas o mal estava feito: tinha uma colecção de babas infinita!  Mas as caminhadas florestais ainda não tinham ficado por aqui. De volta ao acampamento, o Ronaldo levou-me até à Praia da Pedra Furada, que ficava mesmo por baixo do acampamento. Mais um lugar intocado com uma vista incrível sobre a Baía de Iola.  Boleia 5 e despedidas  A minha estadia neste pedaço de paraíso tinha chegado ao fim. É daqueles lugares tão remotos que uma pessoa nunca sabe bem quando (ou se) vai voltar. Apesar da beleza desta pequena ilha, a minha imagem mental do Príncipe parece quase um quadro. Uma família um pouco disfuncional, mas com sorrisos na cara, à volta de uma mesa a ouvir música e a brincar uns com os outros.  A minha última boleia foi a caminho do aeroporto. Mais uma vez, foi só pedir!  Uma nota sobre a realidade de viver no Príncipe  Sinto que às vezes temos uma certa tendência a glamorizar a pobreza. Talvez por cada vez mais compararmos a nossa vida à de centenas ou milhares de outras nas redes sociais, das quais só vemos uma colagem de “melhores momentos”, há um certo descontentamento impossível de apaziguar. Quão perfeita parece ser a vida de quem tem uma cabaninha à beira mar, com fruta e legumes no quintal, peixe fresco e umas galinhas a passear livremente?” “Quão felizes são aquelas pessoas com tão pouco”, uma frase feita, recorrente.  Contudo, esquecemo-nos de ler nas entrelinhas, o que realmente significa viver num lugar como o Príncipe. Significa perder a mãe numa travessia de barco entre São Tomé e o Príncipe.  Significa perder um filho com poucos anos de idade, possivelmente devido a uma doença erradicada na Europa.  Significa ficar grávida muito jovem e ter filhos para criar sem a ajuda de ninguém. Significa ter sonhos, para nós banais, que provavelmente nunca virão a acontecer.   Estas são algumas das histórias que foram partilhadas comigo nos poucos dias em que lá estive. A vida na pobreza é tudo menos idílica e que estes testemunhos sirvam para nos fazer apreciar um bocadinho mais aquilo que temos.  Dicas rápidas Alojamento: Como mencionei repetidamente, não podia recomendar mais o World’s View Wild Camping Salaszoi, Príncipe Island. Creio que os preços aumentaram desde que lá fui (inflação chega a todo o lado!), mas vale mesmo muito a pena. O conforto não é muito, mas tudo o resto é perfeito!  Aluguer de jipe: Se conseguires, é uma boa ideia alugar um jipe para aceder mais facilmente às praias e aproveitar os dias. Creio que todos os alojamentos podem fornecer este serviço. 

The post Ilha do Príncipe: à boleia da gentileza e dos sorrisos appeared first on Mudanças Constantes.

]]>
A Ilha do Príncipe tem praias divinais, paisagens virgens, silêncio e paz absolutos. Tudo muito giro, mas para lá chegares tens que te meter numa caixinha de fósforos com asas e rezar para que as leis da física continuem a desafiar as leis da lógica. Depois de meia hora aos solavancos aterrei (inteira) num mini aeroporto. 

Se São Tomé já não é particularmente barato, o Príncipe, uma ilha dedicada ao turismo de luxo, ainda é menos. Como o transporte do aeroporto até ao meu acampamento me iria custar mais do que três dias de estadia (tinham-me pedido 50€), decidi ir a pé. 7km com uma mochilinha às costas não faria mossa. 


Boleia 1 e 2: Balalai e deslumbramento 

Já tendo estudado o caminho e com o percurso no Google Maps, estava confiante que lá chegaria em menos de duas horas. Pequeno problema: no avião desliguei o telemóvel, que tinha um novo cartão SIM local, e quando o voltei a ligar não sabia o PIN. Tinha o telemóvel bloqueado, inútil, com um cartão que não conseguia remover. Usando a memória, fiz-me à estrada achando que alguém me ajudaria caso fosse necessário. Estava pronta para a aventura! 

A primeira coisa em que reparei foi na calmaria que se vive no Príncipe. Com apenas 9000 habitantes, há pouca gente nas ruas. Passados uns vinte ou trinta minutos de caminho, recebo a minha primeira oferta de boleia. Nem sequer estava a pedir! O rapaz ia para a capital, mas até lá passava pela estrada onde eu tinha de virar. Meti-me na parte de trás da mota e seguimos juntos durante alguns minutos para poupar as pernas.


Já não muito longe do meu acampamento, cheguei a uma bifurcação onde não sabia bem para onde tinha que virar. Decidi esperar um pouco e vi uma motinha a vir na minha direção. Pedi ajuda e não é que o condutor era o “Balalai da Polícia Judiciária?!”. Isto para mim era chinês, mas felizmente ali toda a gente se conhece e ele lá me levou direitinha à “porta” do Salaszoi. 

Uma tenda e uma família 

Fui recebida por um Ronaldo sorridente que me apresentou à minha tenda para as próximas três noites. Tinha escolhido este “Wild Camping” porque era o alojamento mais barato do Príncipe, cerca de 18€ por noite. Quando chegámos à clareira onde ficam os bungalows e as tendas nem queria acreditar: aquela tinha de ser uma das melhores vistas do mundo! Fazia-me lembrar a famosa vista do Pão de Açúcar no Brasil, mas intocada. Uma floresta impenetrável que acaba no mar, onde o sol se põe. Esta parte da Ilha do Príncipe é fora do roteiro turístico, por isso não fazia ideia de que tal lugar existia. 


Nessa noite, na companhia de um casal italiano/espanhol e do resto do staff do Salaszoi, percebi que ia ganhar uma família. A Marizete, que transportara o nosso delicioso jantar na cabeça, o Vivi que era um belo kizombeiro e conhecia toda a gente e a Linda que também ajudava na cozinha e nas limpezas. 

À conversa, com as lanternas do telemóvel a servirem de iluminação, senti que aquele era o melhor lugar do mundo. 

Percorrer o Príncipe a pé

O dia acordou mal humorado, com uma tempestade e chuva torrencial que ameaçavam os meus planos de ir descobrir as praias do nordeste a pé. Como qualquer bom país tropical, a bonança não tardou em chegar. A seguir ao pequeno almoço em casa da Marizete, partimos: eu e mais os outros dois malucos a quem vendi a ideia de fazer 25+ quilómetros a pé num dia

Demorámos cerca de duas horas e meia até avistarmos a idílica Praia Banana. No Hotel Belo Monte (um dos dois ou três resorts de luxo no Príncipe), há um miradouro com uma vista espectacular que só aguçou ainda mais o nosso desespero por um banho depois de tanto suor. 


Até lá tínhamos passado por várias pequenas aldeias com casinhas de madeira coloridas, uma Roça abandonada que conseguimos visitar (a Roça Paciência) e muita floresta. Ainda vimos algumas crianças a voltar da escola. Nem sei quantos quilómetros têm de andar para lá chegar! 


Esta região do Príncipe é maravilhosa e merece mais tempo a marinar nas suas águas mornas. A Praia Boi, Praia Macaco e Praia Grande estão já ali ao lado, mas por termos feito tudo a pé, não tivemos tempo de as visitar. 

O longo caminho de regresso estava à nossa espera.

Boleia 3 e 4: Reencontros e uma noite de festa 

Já tínhamos feito a subida tortuosa de volta ao Hotel Belo Monte e íamos bem encaminhados quando ouvimos um carro atrás de nós. Dissemos todos “Vamos pedir boleia!” e qual não foi o meu espanto ao perceber que tinha conhecido dois dos rapazes que vinham no carro no voo de Lisboa para São Tomé! Saltámos para a caixa do jipe e lá fomos até os nossos caminhos divergirem. 

De volta à caminhada, conseguimos encontrar um supermercado que não tinha água, mas tinha Compal de tudo e mais alguma coisa. Depois de andarmos mais alguns quilómetros, tentámos pedir boleia a outro jipe que ia a passar por nós, e não é que conhecíamos o condutor outra vez?! Era irmão do Vivi! Realmente, o Príncipe é uma pequena aldeia. 

Quando finalmente chegámos ao acampamento, já perto do pôr do sol, o banho frio de chuveiro improvisado ao ar livre parecia um spa de luxo. 


Menos mal cheirosos,  juntámo-nos à nossa recém família para um jantar chez-Marizete: uma sopa maravilhosa, uma moqueca de peixe que não lhe ficava nada atrás e fruta tropical. Qual Avilez qual quê? A acompanhar, vieram as caipirinhas do Ronaldo e acabámos todos a dançar kizomba. Foi a melhor noite da minha viagem.



Labirintos sofisticados, mosquitos e lugares secretos 

Os meus parceiros de caminhada despediram-se de manhã cedo e como tal tinha o dia para mim. Saí em direção à Roça Sundy para um dia a fazer aquilo que melhor se faz numa ilha paradisíaca: nada! 

A Roça Sundy é das mais bonitas e bem preservadas do país, sendo hoje em dia parte hotel de luxo, parte casa para 133 famílias que vivem nas sanzalas da roça. Parece que em breve o grupo hoteleiro HDB vai construir novas casas para estas famílias, o que significa que esta roça histórica vai provavelmente passar a ser de acesso exclusivo a turistas, tal como algumas praias já o são. É triste ver esta privatização e segregação a acontecer nos dias de hoje. 


O acesso à Praia Sundy é feito através de um caminho pela floresta muito mal indicado. Creio que a ideia seja desencorajar quem não é hóspede a visitar a praia. Com a ajuda da vista satélite do Google Maps e usando estrados de madeira que possivelmente são propriedade privada, cheguei a uma praia absolutamente VAZIA onde as únicas pessoas que se viam aqui e ali eram funcionários do hotel. 

Deixo o link para o site do resort na praia porque parece um set de filme.

Como o tempo estava meio farrusco e não apareceu ninguém nas horas que lá passei a ler e a nadar, até parecia que tinha pago 1100€ por noite pelo privilégio de estar ali. Quando a chuva apareceu, sentei-me numa das poltronas cobertas disponíveis e pus-me a imaginar que tipo de pessoas seriam os habituais clientes daquele resort. 


Na subida de regresso senti que estava picada por mosquitos e decidi parar para pôr repelente. Asneira! Em dois segundos estava coberta de mini assassinos com asas sedentos pelo meu sangue. Acelerei o passo, mas o mal estava feito: tinha uma colecção de babas infinita! 

Mas as caminhadas florestais ainda não tinham ficado por aqui. De volta ao acampamento, o Ronaldo levou-me até à Praia da Pedra Furada, que ficava mesmo por baixo do acampamento. Mais um lugar intocado com uma vista incrível sobre a Baía de Iola. 


Boleia 5 e despedidas 

A minha estadia neste pedaço de paraíso tinha chegado ao fim. É daqueles lugares tão remotos que uma pessoa nunca sabe bem quando (ou se) vai voltar. Apesar da beleza desta pequena ilha, a minha imagem mental do Príncipe parece quase um quadro. Uma família um pouco disfuncional, mas com sorrisos na cara, à volta de uma mesa a ouvir música e a brincar uns com os outros. 

A minha última boleia foi a caminho do aeroporto. Mais uma vez, foi só pedir! 

Uma nota sobre a realidade de viver no Príncipe 

Sinto que às vezes temos uma certa tendência a glamorizar a pobreza. Talvez por cada vez mais compararmos a nossa vida à de centenas ou milhares de outras nas redes sociais, das quais só vemos uma colagem de “melhores momentos”, há um certo descontentamento impossível de apaziguar.

Quão perfeita parece ser a vida de quem tem uma cabaninha à beira mar, com fruta e legumes no quintal, peixe fresco e umas galinhas a passear livremente?” “Quão felizes são aquelas pessoas com tão pouco”, uma frase feita, recorrente. 

Contudo, esquecemo-nos de ler nas entrelinhas, o que realmente significa viver num lugar como o Príncipe.

Significa perder a mãe numa travessia de barco entre São Tomé e o Príncipe. 

Significa perder um filho com poucos anos de idade, possivelmente devido a uma doença erradicada na Europa. 

Significa ficar grávida muito jovem e ter filhos para criar sem a ajuda de ninguém.

Significa ter sonhos, para nós banais, que provavelmente nunca virão a acontecer.  

Estas são algumas das histórias que foram partilhadas comigo nos poucos dias em que lá estive. A vida na pobreza é tudo menos idílica e que estes testemunhos sirvam para nos fazer apreciar um bocadinho mais aquilo que temos. 


Dicas rápidas

Alojamento: Como mencionei repetidamente, não podia recomendar mais o World’s View Wild Camping Salaszoi, Príncipe Island. Creio que os preços aumentaram desde que lá fui (inflação chega a todo o lado!), mas vale mesmo muito a pena. O conforto não é muito, mas tudo o resto é perfeito! 

Aluguer de jipe: Se conseguires, é uma boa ideia alugar um jipe para aceder mais facilmente às praias e aproveitar os dias. Creio que todos os alojamentos podem fornecer este serviço. 

The post Ilha do Príncipe: à boleia da gentileza e dos sorrisos appeared first on Mudanças Constantes.

]]>
https://www.mudancasconstantes.com/2024/03/19/ilha-do-principe-sao-tome/feed/ 2
O Sul de São Tomé: mais leve-leve não há https://www.mudancasconstantes.com/2024/01/27/sul-sao-tome-principe/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=sul-sao-tome-principe https://www.mudancasconstantes.com/2024/01/27/sul-sao-tome-principe/#respond Sat, 27 Jan 2024 20:24:08 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9530 “Vamos ver se o Hondinha se aguenta no Sul”. São Tomé pode ser um país em miniatura, mas isso não significa que a estrada que liga o norte ao sul se faz num instantinho. Para ir ao sul são precisos pelo menos três dias e uma boa dose de força na lombar para aguentar tanto solavanco. A estrada pode não estar nas melhores condições, mas as paisagens são lindas e acabas por passar por alguns dos lugares mais icónicos da ilha. Como em todo o lado, a dificuldade de acesso é proporcional à paz e tranquilidade. Acordar com o som das ondas (ou de uma tempestade tropical a cair-te em cima) e ter uma praia paradisíaca, vazia a teus pés é a norma. Seguimos para o Sul? Boca do Inferno Baptizada com o mesmo nome da sua homónima em Cascais, esta Boca do Inferno também tem rochas e ondas a rebentar num bonito espectáculo de espuma. Acrescentam-se dezenas de palmeiras e uns garotos a vender cocos e temos o lugar ideal para observar a natureza em todo o seu esplendor. Praia das Sete Ondas A minha praia preferida para banhos em São Tomé! Perfeita para aprender a surfar ou fazer carreirinhas. O bar da praia também é muito simpático, tem snacks e refeições e camas de rede. Tudo o que precisas para a prática da preguiça. Praia Micondo Mais uma praia que merece uma visita, nem que seja só para um mergulho rápido ou picnicar uma sandes de atum. Roça São João dos Angolares Possivelmente a Roça mais saborosa de São Tomé. Propriedade do chef João Carlos Silva, conhecido pelo seu programa Na Roça com os Tachos, esta Roça tem uma vista incrível e um menu de degustação que celebra os sabores da ilha. Nós só parámos em São João dos Angolares para espreitar a Roça, mas fizémo-lo com toda a pompa e circunstância. Assim que subimos a rampa de acesso, demos de caras com músicos e dançarinas que estavam ali à espera de um grupo de turistas. Como aparecemos nós, tivemos direito a uma pré-performance. No fim, até dancei com um dos cozinheiros! O menu de degustação são cerca de 35€ por pessoa, sem vinho. Pico Cão Grande 663 metros acima do nível das águas do mar, ergue-se o icónico Pico Cão Grande. A sua forma peculiar e sugestiva, domina a paisagem do sul de São Tomé. Mergulhado num mar de palmeiras e floresta tropical, o topo desta rocha vulcânica foi escalado pela primeira vez por três mulheres em 2019. Da estrada, o Pico Cão Grande dá fotografias espectaculares de todos os ângulos, mas não há nada como vê-lo a partir de um rio maravilhoso que desagua numa praia intocada. Assim que chegámos, sabia que aquele ia ser o meu lugar preferido em São Tomé, impossível de descobrir sem a ajuda da Arminda e da Catarina. Um mergulho inesquecível! Ilhéu das Rolas Num barquito de madeira faz-se a travessia de São Tomé até ao Ilhéu das Rolas em quinze minutos. Nas Rolas as árvores engoliram a terra e tudo é verde, até a água. Uma pequena comunidade vive ali, cerca de duzentas pessoas, que subsiste do pouco turismo que recebe. Tal como na ilha principal os porcos e as galinhas passeiam descontraidamente pelas ruas de terra. O ponto mais famoso do Ilhéu é o Marco do Equador, que assinala o lugar onde passa esta linha imaginária que divide o Hemisfério Norte do Sul. Chegámos lá depois de uma curta caminhada a partir do porto, ténis recomendam-se! O nosso querido “capitão” ofereceu-se para nos guiar nesse dia e, enquanto descíamos do Marco até à Praia Café, foi-nos contando a dura realidade dos habitantes da ilha. Muitas pessoas daquela comunidade trabalhavam para o resort do grupo Pestana até que, por causa do Covid, fechou sem previsão de reabertura. Hoje, três anos depois, ainda não reabriu. Enquanto o resort estava aberto havia emprego, mas era miseravelmente remunerado com o ordenado mínimo (50 a 60€ por mês). Agora, não existe emprego nem acesso ao único poço de água potável do Ilhéu, que está dentro do complexo do resort, inacessível aos habitantes locais. Na época seca a vida torna-se ainda mais difícil. Aconselho-te a explorar as várias praias do Ilhéu de barco, como a Praia Bateria, e até as partes mais remotas do Sul onde as estradas não chegam. Praia Piscina Esta é uma praia de sonho. Literalmente! Fizemos ali uma bela soneca depois de almoço. Para além de ter um areal plano, perfeito para banhos de sol e sestas, a Praia Piscina é uma obra de arte a nível da geologia e geografia. Com paisagens deslumbrantes para onde quer que se olhe, a cereja no topo do bolo é a piscina natural que se forma entre as rochas. Tem cuidado com os ouriços! Se tiveres tempo, esta seria a minha praia de eleição para passar um dia inteiro no leve-leve. Jalé Se houve um lugar que marcou a diferença nos nossos dias no Sul, foram os bungalows na praia onde ficámos duas noites. Quando digo na praia, é mesmo em cima da areia! No quarto, ouvem-se as ondas, a não ser quando as chuvas tropicais se abatem sobre o telhado. Mas com chuva ou sol, sair do bungalow de manhã para uma praia absolutamente deserta é único. As minhas memórias da Jalé são deliciosas. Um primeiro jantar, uma salada de atum feita e comida com as mãos. Pequenos-almoços na praia com o ananás mais doce do mundo. Uma despedida na Vanhá, para onde fomos à boleia numa carrinha de caixa aberta, onde vimos um por do sol mágico, onde se bebia um gin local e onde o chef do restaurante nos cozinhou uma das melhores pizzas da minha existência. Não arranjámos boleia para voltar para a Jalé, por isso caminhámos meia hora ou quarenta minutos pela floresta, a conversar sobre a vida, debaixo de um céu cheio de estrelas e galáxias. Já tenho saudades! O Nélson Num dos dias da nossa viagem, as “estradas” do sul finalmente fizeram os seus estragos no nosso Hondinha. Uma rocha escondida numa poça lamacenta deslocou o tubo de escape que estremecia por todos os lados. Estrada 1 – Hondinha 0. Antes de voltarmos para o norte, tínhamos que tratar do assunto. “Devemos arranjar um mecânico em Porto Alegre” disse a Catarina. E era verdade. Chegámos a Porto Alegre, aldeia com duas ruas e uma rotunda composta por uma escavadora enferrujada com cabras em cima. Assim que perguntámos “Há aí algum mecânico” começamos a ouvir “Oh Nelson!!” O Nelson aparece, com umas ferramentas na mão, mete-se debaixo do Hondinha e em dez minutos temos o carro arranjado. Nelson 1 – Estrada 1.São Tomé é muito isto. Dicas rápidas Roça Água Izé: Não visitei esta Roça, mas é uma das mais bonitas de São Tomé. Se tiveres tempo durante a viagem, aconselho-te a acrescentar esta paragem ao teu roteiro. Desova das tartarugas: A desova acontece entre Setembro e Abril, por isso se fores durante essa altura, podes sair do teu bungalow e ter este espectáculo da natureza aos teus pés.

The post O Sul de São Tomé: mais leve-leve não há appeared first on Mudanças Constantes.

]]>
“Vamos ver se o Hondinha se aguenta no Sul”. São Tomé pode ser um país em miniatura, mas isso não significa que a estrada que liga o norte ao sul se faz num instantinho. Para ir ao sul são precisos pelo menos três dias e uma boa dose de força na lombar para aguentar tanto solavanco.

A estrada pode não estar nas melhores condições, mas as paisagens são lindas e acabas por passar por alguns dos lugares mais icónicos da ilha.


Como em todo o lado, a dificuldade de acesso é proporcional à paz e tranquilidade. Acordar com o som das ondas (ou de uma tempestade tropical a cair-te em cima) e ter uma praia paradisíaca, vazia a teus pés é a norma. Seguimos para o Sul?

Boca do Inferno

Baptizada com o mesmo nome da sua homónima em Cascais, esta Boca do Inferno também tem rochas e ondas a rebentar num bonito espectáculo de espuma. Acrescentam-se dezenas de palmeiras e uns garotos a vender cocos e temos o lugar ideal para observar a natureza em todo o seu esplendor.


Praia das Sete Ondas

A minha praia preferida para banhos em São Tomé! Perfeita para aprender a surfar ou fazer carreirinhas. O bar da praia também é muito simpático, tem snacks e refeições e camas de rede. Tudo o que precisas para a prática da preguiça.

Praia Micondo

Mais uma praia que merece uma visita, nem que seja só para um mergulho rápido ou picnicar uma sandes de atum.

Roça São João dos Angolares

Possivelmente a Roça mais saborosa de São Tomé. Propriedade do chef João Carlos Silva, conhecido pelo seu programa Na Roça com os Tachos, esta Roça tem uma vista incrível e um menu de degustação que celebra os sabores da ilha. Nós só parámos em São João dos Angolares para espreitar a Roça, mas fizémo-lo com toda a pompa e circunstância.


Assim que subimos a rampa de acesso, demos de caras com músicos e dançarinas que estavam ali à espera de um grupo de turistas. Como aparecemos nós, tivemos direito a uma pré-performance. No fim, até dancei com um dos cozinheiros!

O menu de degustação são cerca de 35€ por pessoa, sem vinho.

Pico Cão Grande

663 metros acima do nível das águas do mar, ergue-se o icónico Pico Cão Grande. A sua forma peculiar e sugestiva, domina a paisagem do sul de São Tomé. Mergulhado num mar de palmeiras e floresta tropical, o topo desta rocha vulcânica foi escalado pela primeira vez por três mulheres em 2019.


Da estrada, o Pico Cão Grande dá fotografias espectaculares de todos os ângulos, mas não há nada como vê-lo a partir de um rio maravilhoso que desagua numa praia intocada. Assim que chegámos, sabia que aquele ia ser o meu lugar preferido em São Tomé, impossível de descobrir sem a ajuda da Arminda e da Catarina. Um mergulho inesquecível!

Ilhéu das Rolas

Num barquito de madeira faz-se a travessia de São Tomé até ao Ilhéu das Rolas em quinze minutos. Nas Rolas as árvores engoliram a terra e tudo é verde, até a água. Uma pequena comunidade vive ali, cerca de duzentas pessoas, que subsiste do pouco turismo que recebe. Tal como na ilha principal os porcos e as galinhas passeiam descontraidamente pelas ruas de terra.


O ponto mais famoso do Ilhéu é o Marco do Equador, que assinala o lugar onde passa esta linha imaginária que divide o Hemisfério Norte do Sul. Chegámos lá depois de uma curta caminhada a partir do porto, ténis recomendam-se!

O nosso querido “capitão” ofereceu-se para nos guiar nesse dia e, enquanto descíamos do Marco até à Praia Café, foi-nos contando a dura realidade dos habitantes da ilha. Muitas pessoas daquela comunidade trabalhavam para o resort do grupo Pestana até que, por causa do Covid, fechou sem previsão de reabertura. Hoje, três anos depois, ainda não reabriu.


Enquanto o resort estava aberto havia emprego, mas era miseravelmente remunerado com o ordenado mínimo (50 a 60€ por mês). Agora, não existe emprego nem acesso ao único poço de água potável do Ilhéu, que está dentro do complexo do resort, inacessível aos habitantes locais. Na época seca a vida torna-se ainda mais difícil.

Aconselho-te a explorar as várias praias do Ilhéu de barco, como a Praia Bateria, e até as partes mais remotas do Sul onde as estradas não chegam.

Praia Piscina

Esta é uma praia de sonho. Literalmente! Fizemos ali uma bela soneca depois de almoço. Para além de ter um areal plano, perfeito para banhos de sol e sestas, a Praia Piscina é uma obra de arte a nível da geologia e geografia. Com paisagens deslumbrantes para onde quer que se olhe, a cereja no topo do bolo é a piscina natural que se forma entre as rochas. Tem cuidado com os ouriços!

Se tiveres tempo, esta seria a minha praia de eleição para passar um dia inteiro no leve-leve.


Jalé

Se houve um lugar que marcou a diferença nos nossos dias no Sul, foram os bungalows na praia onde ficámos duas noites. Quando digo na praia, é mesmo em cima da areia! No quarto, ouvem-se as ondas, a não ser quando as chuvas tropicais se abatem sobre o telhado. Mas com chuva ou sol, sair do bungalow de manhã para uma praia absolutamente deserta é único.


As minhas memórias da Jalé são deliciosas. Um primeiro jantar, uma salada de atum feita e comida com as mãos. Pequenos-almoços na praia com o ananás mais doce do mundo. Uma despedida na Vanhá, para onde fomos à boleia numa carrinha de caixa aberta, onde vimos um por do sol mágico, onde se bebia um gin local e onde o chef do restaurante nos cozinhou uma das melhores pizzas da minha existência.

Não arranjámos boleia para voltar para a Jalé, por isso caminhámos meia hora ou quarenta minutos pela floresta, a conversar sobre a vida, debaixo de um céu cheio de estrelas e galáxias. Já tenho saudades!


O Nélson

Num dos dias da nossa viagem, as “estradas” do sul finalmente fizeram os seus estragos no nosso Hondinha. Uma rocha escondida numa poça lamacenta deslocou o tubo de escape que estremecia por todos os lados. Estrada 1 – Hondinha 0.

Antes de voltarmos para o norte, tínhamos que tratar do assunto. “Devemos arranjar um mecânico em Porto Alegre” disse a Catarina. E era verdade. Chegámos a Porto Alegre, aldeia com duas ruas e uma rotunda composta por uma escavadora enferrujada com cabras em cima. Assim que perguntámos “Há aí algum mecânico” começamos a ouvir “Oh Nelson!!”

O Nelson aparece, com umas ferramentas na mão, mete-se debaixo do Hondinha e em dez minutos temos o carro arranjado. Nelson 1 – Estrada 1.
São Tomé é muito isto.

Dicas rápidas

Roça Água Izé: Não visitei esta Roça, mas é uma das mais bonitas de São Tomé. Se tiveres tempo durante a viagem, aconselho-te a acrescentar esta paragem ao teu roteiro.

Desova das tartarugas: A desova acontece entre Setembro e Abril, por isso se fores durante essa altura, podes sair do teu bungalow e ter este espectáculo da natureza aos teus pés.

The post O Sul de São Tomé: mais leve-leve não há appeared first on Mudanças Constantes.

]]>
https://www.mudancasconstantes.com/2024/01/27/sul-sao-tome-principe/feed/ 0
O Norte de São Tomé e um passado desconfortável  https://www.mudancasconstantes.com/2023/09/22/o-norte-de-sao-tome/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=o-norte-de-sao-tome https://www.mudancasconstantes.com/2023/09/22/o-norte-de-sao-tome/#comments Fri, 22 Sep 2023 21:08:47 +0000 https://www.mudancasconstantes.com/?p=9495 São Tomé era um sonho adiado. Um destino desconhecido para a maioria das pessoas, mas tão presente para os portugueses. As suas praias e paisagens fizeram certamente muitas capas de revistas e folhetos promocionais de agências de viagem. Esse estava longe de ser o São Tomé que eu queria conhecer.   O tal sonho foi adiado até que a minha amiga Arminda, são-tomense, voltou a casa e se ofereceu para me acolher. Agora sim, era hora de abrir o site da TAP e tirar este arquipélago da lista de espera.   Ao contrário do que é normal nas minhas viagens, pesquisei muito pouco sobre São Tomé. A falta de tempo aliada à certeza que tinha uma pessoa local para tomar conta de mim, fizeram-me partir para esta viagem sem quaisquer expectativas.   Os meus anjinhos da guarda em São Tomé   Depois de sete horas de voo – onde me deliciei a ver a Argélia do céu e a pensar numa próxima aventura até ao seu Sul Profundo – aterrei num aeroporto do tamanho de uma casa na Quinta da Marinha e, que para meu espanto, tinha Wi-Fi!   Com o grande sorriso que sempre a caracterizou, a Arminda deu-me as boas-vindas e levou-me até à sua família que me esperava com um frango guisado na mesa. Senti-me em casa.   No Norte e Centro de São Tomé escondem-se inúmeras cascatas, roças, praias e caminhadas. Sorte a minha, a Arminda conhecia a pessoa certa para me ajudar a descobrir todos esses lugares maravilhosos. A Catarina!   A Catarina é cá das minhas. Empreendedora e aventureira, criou a sua própria agência de viagens em São Tomé, país a que agora chama de casa. Foi com a ajuda dela que consegui ver tudo e mais alguma coisa nos dias que passei em São Tomé e Príncipe. Podes encontrar todos os dados dela no fim deste post.   Um jardim botânico em grande escala   Esta é uma ilha fértil, onde tudo cresce. “A comida cai-lhes na cabeça”, disse-me a Catarina logo no primeiro dia. Assim que saímos do centro de São Tomé damos de caras com uma estrada, sim, só há uma estrada principal, onde parece que a qualquer momento podemos ser engolidas pela floresta. Árvores frondosas de um verde profundo dominam a paisagem.   Antes de chegarmos ao nosso primeiro destino, passámos pela vila de Guadalupe. Em toda a ilha, a vida acontece na estrada. Há porcos e galinhas a passar. A falta de transportes públicos faz com que a maioria das pessoas se desloque a pé, de catana na cabeça ou na mão. Ao domingo estende-se a roupa à beira da estrada para secar mais rápido. Tudo se vende, tudo se troca na estrada. É impossível ficar-se aborrecido durante a viagem.   Abastecidas de água, seguimos para a Roça Diogo Vaz.   O verdadeiro preço do café e do cacau   É impossível falar as roças de São Tomé sem falar do passado colonial e dos abusos à integriade e condição humana que ali se passaram. Uma história que teimamos em suavizar e relativizar de forma a evitar o desconforto de enfrentar uma realidade que no fundo todos sabemos ser verdade: não fomos os “bons” colonizadores.  A beleza das roças, espalhadas por todo o arquipélago, pode mascarar as cicatrizes de dor e opressão infligidas àqueles que oficialmente eram os trabalhadores das roças, mas que na realidade eram escravos. Não me vou alongar muito sobre este assunto porque há outros que já o fizeram muito melhor do que eu, mas deixo aqui o link para um artigo do Público que ilustra a severidade das punições corporais, o terror psicológico e o sistema racista impenetrável que tornaram São Tomé, através da sua produção de cacau, na mais lucrativa colónia portuguesa no início do século XX.  Em São Tomé, pareceu-me que o melhor lugar para aprender sobre a história do país, é a associação CACAU, que para além de servir uns belos almoços a um bom preço, também tem uma secção cultural e histórica muito interessante.   De regresso ao cacau dos dias de hoje, este é plantado e processado recorrendo às mesmas técnicas de há cem anos atrás, mas sem sofrimento humano. Uma boa invenção, parece-me.  Na Diogo Vaz, por 10€ podes fazer uma visita guiada, conhecer os diferentes estágios de crescimento do cacau e provar o fruto em si. Lá dentro, há uma goma branca que não é usada para fazer o chocolate, mas é muito saborosa. A semente, antes de seca, é completamente diferente do sabor do cacau que todos conhecemos.  Ainda é possível visitar a fábrica, onde o cacau seca e é processado nas máquinas que ali estão há duzentos anos. No fim, ainda recebes um cafezinho e mais chocolate do que é possível comer.  Túnel de Santa Catarina   Cheias de chocolate, seguimos até ao ponto mais distante do dia, o famoso Túnel de Santa Catarina. Se tivesse sido escavado recentemente, diria que aquele túnel foi feito para o Instagram. Numa estrada de palmeiras com o mar ao lado, este túnel é o cenário perfeito para tirar fotografias!   Mucumbli  Quando começámos a viagem de regresso tive que fazer uma escolha. Ou íamos “à Santola” ou íamos ao Mucumbli. Apesar da minha alma ser mais tasca da santola, a descrição das vistas do Mucumbli seduziram-me e acho que foi a escolha certa. Estas cabaninhas de madeira e o seu restaurante têm uma das vistas mais bonitas e serenas da ilha. É simples: vê-se floresta e vê-se mar. E basta! A comida é decente, apesar de não ser barata (15/20€ por pessoa), mas vale a pena. Até podes passar para as espreguiçadeiras depois do almoço e descansar enquanto uma chuvada se abate sobre as palhotas.  Lagoa Azul  Nos intervalos da chuva, fomos até à Lagoa Azul que estava absolutamente vazia. Nadámos numa água choca até termos de nos abrigar do próximo aguaceiro. Mas a Lagoa Azul é bem mais bonita vista de cima do que de baixo, por isso agarra nuns ténis (confia em mim, de chinelos não vais fazer boa figura) e sobe até ao farol para a paisagem mais bonita do dia!  Roça Agostinho Neto  Esta foi a minha roça preferida. Não sei se pela luz incrível de pôr do sol (às quatro da tarde), pela beleza da sua arquitectura monumental, ou pelos sorrisos das miúdas espevitadas que viviam ali, só tenho boas memórias deste lugar.   Algumas roças, como é o caso desta, são uma casa para a “comunidade”. Como aconteceu com muitas outras roças, a Roça Agostinho Neto, a maior de São Tomé, foi nacionalizada em 1975 e a partir dessa altura o governo permitiu que fossem habitadas pela população local. A parte menos boa deste arranjo é que as infraestruturas se vão degradando e ninguém as arranja.   Se quiseres saber mais sobre vida passada e presente desta roça, lê este artigo.   O dia de exploração do norte de São Tomé acabou no BBC, um bar e restaurante com uma vista linda sobre o pôr do sol na cidade. No dia seguinte, seguimos para sul!  Dicas rápidas   Museu do Mar e da Pesca Artesanal: Este museu estava fechado quando lá chegámos e penso que não está aberto todos os dias, mas se estiveres perto de Morro de Peixe podes sempre tentar passar por lá e ver se consegues visitar. Fala sobre a preservação da vida aquática em São Tomé, incluindo das suas tartarugas!  Petisqueira Santola: A tal tasca que falhei, mas que fica como recomendação caso tenhas oportunidade.  O Pirata: fui a este restaurante na minha última noite em São Tomé. Mesmo em cima do mar, podes contar com comida saborosa e um atendimento muito simpático.  Viaja com Wodu: Como prometido, aqui fica o site e o Instagram da Catarina que organiza viagens em São Tomé. Toda a gente na ilha a conhece e a trata por “patroa” ou “mamã”.  

The post O Norte de São Tomé e um passado desconfortável  appeared first on Mudanças Constantes.

]]>
São Tomé era um sonho adiado. Um destino desconhecido para a maioria das pessoas, mas tão presente para os portugueses. As suas praias e paisagens fizeram certamente muitas capas de revistas e folhetos promocionais de agências de viagem. Esse estava longe de ser o São Tomé que eu queria conhecer.  

O tal sonho foi adiado até que a minha amiga Arminda, são-tomense, voltou a casa e se ofereceu para me acolher. Agora sim, era hora de abrir o site da TAP e tirar este arquipélago da lista de espera.  

Ao contrário do que é normal nas minhas viagens, pesquisei muito pouco sobre São Tomé. A falta de tempo aliada à certeza que tinha uma pessoa local para tomar conta de mim, fizeram-me partir para esta viagem sem quaisquer expectativas.  


Os meus anjinhos da guarda em São Tomé  

Depois de sete horas de voo – onde me deliciei a ver a Argélia do céu e a pensar numa próxima aventura até ao seu Sul Profundo – aterrei num aeroporto do tamanho de uma casa na Quinta da Marinha e, que para meu espanto, tinha Wi-Fi!  

Com o grande sorriso que sempre a caracterizou, a Arminda deu-me as boas-vindas e levou-me até à sua família que me esperava com um frango guisado na mesa. Senti-me em casa.  

No Norte e Centro de São Tomé escondem-se inúmeras cascatas, roças, praias e caminhadas. Sorte a minha, a Arminda conhecia a pessoa certa para me ajudar a descobrir todos esses lugares maravilhosos. A Catarina!  

A Catarina é cá das minhas. Empreendedora e aventureira, criou a sua própria agência de viagens em São Tomé, país a que agora chama de casa. Foi com a ajuda dela que consegui ver tudo e mais alguma coisa nos dias que passei em São Tomé e Príncipe. Podes encontrar todos os dados dela no fim deste post.  


Um jardim botânico em grande escala  

Esta é uma ilha fértil, onde tudo cresce. “A comida cai-lhes na cabeça”, disse-me a Catarina logo no primeiro dia. Assim que saímos do centro de São Tomé damos de caras com uma estrada, sim, só há uma estrada principal, onde parece que a qualquer momento podemos ser engolidas pela floresta. Árvores frondosas de um verde profundo dominam a paisagem.  

Antes de chegarmos ao nosso primeiro destino, passámos pela vila de Guadalupe. Em toda a ilha, a vida acontece na estrada. Há porcos e galinhas a passar. A falta de transportes públicos faz com que a maioria das pessoas se desloque a pé, de catana na cabeça ou na mão. Ao domingo estende-se a roupa à beira da estrada para secar mais rápido. Tudo se vende, tudo se troca na estrada. É impossível ficar-se aborrecido durante a viagem.  

Abastecidas de água, seguimos para a Roça Diogo Vaz.  


O verdadeiro preço do café e do cacau  

É impossível falar as roças de São Tomé sem falar do passado colonial e dos abusos à integriade e condição humana que ali se passaram. Uma história que teimamos em suavizar e relativizar de forma a evitar o desconforto de enfrentar uma realidade que no fundo todos sabemos ser verdade: não fomos os “bons” colonizadores. 

A beleza das roças, espalhadas por todo o arquipélago, pode mascarar as cicatrizes de dor e opressão infligidas àqueles que oficialmente eram os trabalhadores das roças, mas que na realidade eram escravos. Não me vou alongar muito sobre este assunto porque há outros que já o fizeram muito melhor do que eu, mas deixo aqui o link para um artigo do Público que ilustra a severidade das punições corporais, o terror psicológico e o sistema racista impenetrável que tornaram São Tomé, através da sua produção de cacau, na mais lucrativa colónia portuguesa no início do século XX. 

Em São Tomé, pareceu-me que o melhor lugar para aprender sobre a história do país, é a associação CACAU, que para além de servir uns belos almoços a um bom preço, também tem uma secção cultural e histórica muito interessante.  

De regresso ao cacau dos dias de hoje, este é plantado e processado recorrendo às mesmas técnicas de há cem anos atrás, mas sem sofrimento humano. Uma boa invenção, parece-me. 

Na Diogo Vaz, por 10€ podes fazer uma visita guiada, conhecer os diferentes estágios de crescimento do cacau e provar o fruto em si. Lá dentro, há uma goma branca que não é usada para fazer o chocolate, mas é muito saborosa. A semente, antes de seca, é completamente diferente do sabor do cacau que todos conhecemos. 

Ainda é possível visitar a fábrica, onde o cacau seca e é processado nas máquinas que ali estão há duzentos anos. No fim, ainda recebes um cafezinho e mais chocolate do que é possível comer. 


Túnel de Santa Catarina  

Cheias de chocolate, seguimos até ao ponto mais distante do dia, o famoso Túnel de Santa Catarina. Se tivesse sido escavado recentemente, diria que aquele túnel foi feito para o Instagram. Numa estrada de palmeiras com o mar ao lado, este túnel é o cenário perfeito para tirar fotografias!  


Mucumbli 

Quando começámos a viagem de regresso tive que fazer uma escolha. Ou íamos “à Santola” ou íamos ao Mucumbli. Apesar da minha alma ser mais tasca da santola, a descrição das vistas do Mucumbli seduziram-me e acho que foi a escolha certa. Estas cabaninhas de madeira e o seu restaurante têm uma das vistas mais bonitas e serenas da ilha. É simples: vê-se floresta e vê-se mar. E basta! A comida é decente, apesar de não ser barata (15/20€ por pessoa), mas vale a pena. Até podes passar para as espreguiçadeiras depois do almoço e descansar enquanto uma chuvada se abate sobre as palhotas. 


Lagoa Azul 

Nos intervalos da chuva, fomos até à Lagoa Azul que estava absolutamente vazia. Nadámos numa água choca até termos de nos abrigar do próximo aguaceiro. Mas a Lagoa Azul é bem mais bonita vista de cima do que de baixo, por isso agarra nuns ténis (confia em mim, de chinelos não vais fazer boa figura) e sobe até ao farol para a paisagem mais bonita do dia! 


Roça Agostinho Neto 

Esta foi a minha roça preferida. Não sei se pela luz incrível de pôr do sol (às quatro da tarde), pela beleza da sua arquitectura monumental, ou pelos sorrisos das miúdas espevitadas que viviam ali, só tenho boas memórias deste lugar.  

Algumas roças, como é o caso desta, são uma casa para a “comunidade”. Como aconteceu com muitas outras roças, a Roça Agostinho Neto, a maior de São Tomé, foi nacionalizada em 1975 e a partir dessa altura o governo permitiu que fossem habitadas pela população local. A parte menos boa deste arranjo é que as infraestruturas se vão degradando e ninguém as arranja.  

Se quiseres saber mais sobre vida passada e presente desta roça, lê este artigo.  

O dia de exploração do norte de São Tomé acabou no BBC, um bar e restaurante com uma vista linda sobre o pôr do sol na cidade. No dia seguinte, seguimos para sul! 


Dicas rápidas  

Museu do Mar e da Pesca Artesanal: Este museu estava fechado quando lá chegámos e penso que não está aberto todos os dias, mas se estiveres perto de Morro de Peixe podes sempre tentar passar por lá e ver se consegues visitar. Fala sobre a preservação da vida aquática em São Tomé, incluindo das suas tartarugas! 

Petisqueira Santola: A tal tasca que falhei, mas que fica como recomendação caso tenhas oportunidade. 

O Pirata: fui a este restaurante na minha última noite em São Tomé. Mesmo em cima do mar, podes contar com comida saborosa e um atendimento muito simpático. 

Viaja com Wodu: Como prometido, aqui fica o site e o Instagram da Catarina que organiza viagens em São Tomé. Toda a gente na ilha a conhece e a trata por “patroa” ou “mamã”.  

The post O Norte de São Tomé e um passado desconfortável  appeared first on Mudanças Constantes.

]]>
https://www.mudancasconstantes.com/2023/09/22/o-norte-de-sao-tome/feed/ 1