Escócia

Isle of Skye: as fadas moram aqui

Quando visitei a ilha de Skye há oito anos senti que aquele era um lugar especial. Eu sou completamente céptica relativamente a tudo o que é espiritualidade, anjinhos e outras coisas não provadas pela ciência, mas de alguma forma parecia que havia ali uma energia diferente.

Na altura, um dia foi todo o tempo que tivemos (eu e os meus pais) para ver esta ilha, mas desde então sabia que haveria de regressar. Assim sendo, desta vez reservei quatro dias completos para me deixar enfeitiçar, e dia após dia Skye deixou-me estupefacta com a sua beleza em bruto. Aqui vamos nós!

As Fadas da Terra moram no Fairy Glen

A viagem de autocarro de Fort William até Portree (a vila maiorzinha em Skye) traduz-se em três horas de estradas que contornam lagos, vales e rios. Tudo debaixo de nuvens e uma chuva miudinha que é tão característica da Escócia.

À chegada a Portree, depois de ir deixar a mochila no Airbnb que ia ser o meu ninho de repouso nos dias seguintes, tinha que fazer uma escolha: deixar-me ficar no quentinho do quarto e deixar as caminhadas para o dia seguinte ou ir estrear o poncho que comprara há algumas horas.

Ganhou a segunda opção e lá fui eu para o autocarro que saía daquela que era possivelmente a única escola da ilha. Portanto lá fui eu e os miúdos do quinto ano até Uig onde fica o Fairy Glen.

Só pela paragem de autocarro do meu destino já tinha valido a pena o passeio.
Apesar das nuvens baixas, a baía de Uig era uma celebração de azuis e verdes e uma premonição daquilo que estava para vir.

Vinte e cinco minutos depois e várias paragens para fotografar ovelhas e lutar contra o vento e a chuva que ora vinham, ora iam, cheguei ao vale mais encantado de Skye. As fotografias definitivamente não conseguem captar o misticismo deste lugar e das suas colinas singulares.

Por mim tinha ficado por ali durante horas a explorar as redondezas (como se não bastasse o vale em si ainda há várias quedas de água por perto), mas tinha os minutos contados. Após uma voltinha rápida e desorientada por aquele que foi um dos lugares que mais gostei em toda a minha viagem vi-me obrigada a correr, literalmente, até à paragem de autocarro para apanhar o último serviço do dia às seis da tarde.

Claro que o autocarro só apareceu dez minutos depois e o meu suor foi em vão, mas a decisão de ir apanhar chuva e explorar a ilha em vez de ficar no bem bom foi a melhor que tomei!


As Fadas do Ar moram no Quiraing

Ao terceiro dia o sol decidiu aparecer em Skye e as rajadas de vento já não me faziam levantar voo. Apanhei o primeiro autocarro do dia em direcção ao Norte da ilha onde fica o Quiraing. Depois de trinta minutos a andar na companhia de rebanhos de ovelhas cheguei ao ponto oficial de início da caminhada. As horas que se seguiram foram absolutamente inesquecíveis.

Do início ao fim, o circuito de Quiraing é uma surpresa a cada curva. As cores, os lagos, o mar… tudo funciona numa sinfonia paisagística perfeita. O facto de ter feito a caminhada sem me cruzar com ninguém tornou a experiência ainda mais especial e fez-me pensar que as pessoas que simplesmente conduzem até ao miradouro principal do Quiraing para tirar uma fotografia sem fazerem a caminhada não sabem o que perdem!

Dica: podes encontrar o trilho que fiz aqui. Se não tiveres carro como eu, não precisas de caminhar até ao ponto de começo, podes “entrar” pelo caminho perto do cemitério (cemetery parking no google maps). O mais aconselhado é fazer a caminhada no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio. Prepara-te para ventos bastante fortes e não tentes fazer o trilho num dia de mau tempo.

Esta é definitivamente uma das melhores caminhadas que já fiz.

À tarde ainda fiz o trilho do Old Man of Storr, que é o mais famoso da ilha devido à sua curiosa formação rochosa e as suas “agulhas”. Infelizmente não me apercebi que havia dois caminhos possíveis e acabei por não subir até às famosas agulhas, mas mesmo assim não me posso queixar das vistas. Deixo aqui o link do trilho que devia ter feito.

Enquanto esperava pelo autocarro de regresso, meti conversa com a única outra pessoa que também estava à espera do último autocarro do dia e descobrimos que íamos estar as duas no mesmo hostel no dia seguinte. Muitas horas passámos na sala comum desse hostel em Inverness a conversar sobre viagens, vinte e quatro horas depois.

As Fadas da Água moram nas Fairy Pools

Foram precisas duas tentativas, uma delas obviamente falhada, para chegar às Fairy Pools. Mais uma vez, a falta de carro tornou esta jornada mais interessante porque foi preciso uma caminhada de cinco horas no total para fazer algo que se faz de carro em meia hora.

Desta vez tive que atravessar o sopé das Montanhas Cullins, sempre ao lado de um riacho que se transformava numa nova cascata a cada 100 metros. Como já estava habituada, não avistei vivalma e os passaritos e ovelhas foram, mais uma vez, a minha companhia.

Cerca de duas horas depois cheguei às Fairy Pools que me apresentaram a mais umas quantas tonalidades de azul. É fácil de perceber porque é que estas “piscinas de fadas” aparecem em todos os roteiros turísticos. Apesar das temperaturas pouco convidativas, alguns corajosos aventuram-se a mergulhar nas pequenas poças de um azul muito fotogénico. Quanto mais se anda, menos gente há e mais bonitas se tornam estas piscinas naturais.

Voltando à primeira tentativa: a previsão metereológica para a manhã da primeira tentativa não era a melhor, mas havia a possibilidade de não chover muito e portanto lá apanhei o primeiro autocarro até Sligachan onde começa a caminhada. Claro que estava a chover “cats and dogs”, como dizem aqui, e assim ficou durante duas horas que foi o tempo que tive que esperar na paragem até apanhar o autocarro seguinte.

Quando o autocarro veio não aceitavam cartões (inédito no Reino Unido), mas o condutor deixou-me entrar na mesma. No fim da viagem, quando ia levantar dinheiro para pagar o senhor deve ter sentido pena do meu ar desconsolado, frio e molhado e disse que me oferecia a viagem. Uma das vantagens de viajar sozinha!

Portree, a solução para o clima escocês

No dia da minha tentativa falhada nas Fairy Pools tive que arranjar uma solução para me entreter durante o resto do dia. Depois de um banho quente, estava na hora de encontrar uma refeição quente. Felizmente dei com o Cafe Arriba que para além de ter comida ultra saborosa e bem confecionada (com porções bem generosas) também tem uma vista para a baia de Portree que parece uma pintura.

O almoço reconfortante ajudou-me a ultrapassar o trauma da molha que apanhei e arrisquei uma pequena caminhada à volta de Portree. Para minha surpresa a chuva aguentou-se e deixou-me fazer um circuito de três quilómetros – Scorrybreac Circuit – surpreendentemente bonito e agradável.

O resto da tarde foi passado dentro de um pub a conversar com um médico do Bangladesh que conheci através do Couchsurfing.

Este é o resumo dos meus dias em Skye e não é que por mim voltava para lá já para o ano? Continua a ser um dos meus lugares preferidos!

Dicas rápidas

Alojamento: Em tempos Covidosos não havia hostels abertos em Skye, por isso tive que recorrer ao Airbnb o que até foi bom, porque depois de caminhar mais de vinte e tal quilómetros não há nada melhor que um quartinho solitário. Conta gastar entre 70 a 80 pounds por noite se optares por um Airbnb perto do centro de Portree. O alojamento no Reino Unido é bastante caro.

Transportes: A minha maior preocupação na preparação desta viagem era não ter carro. Foram muitas pesquisar no Google “Skye without a car”. Muitas diziam que não era possível, mas claro que tudo é possível. Há autocarros que ligam os principais pontos da ilha: Broadford, Sligachan, Portree e Uig. Felizmente, todos os pontos que queria visitar estavam nessa rota. É claro que requer um nível de planeamento maior, porque há poucos autocarros e começam cedo e acabam cedo. Se gostas de andar e queres mesmo visitar Portree, acho que não ter carro não é desculpa.

O Google Maps é bastante fiável no que toca aos horários dos autocarros na ilha, mas podes sempre consultar o site da citylink e da stagecoach. Podes comprar um passe diário a bordo dos autocarros stagecoach que compensa se usares mais do que dois autocarros por dia.

Refeições: A maioria das minhas refeições saíram do Coop (supermercado) de Portree. Como o quarto que aluguei não tinha cozinha, tive que inovar e cozinhar umas massas recheadas com a água a ferver vinda de um kettle e aquecer um molho de tomate com o vapor d’água. Durante o dia aconselho a levares comida suficiente porque não há muita oferta disponível.

Alfacinha germinada e cultivada num cantinho à beira mar plantado, a Inês tem uma certa inquietação que não a deixa ficar muito tempo tempo no mesmo sítio. Fez Erasmus em Paris, trabalhou em Istambul e em Portugal, fez um mestrado em Creative Advertising em Milão e agora trabalha no Reino Unido. Viajar, criatividade, cozinhar, dançar e ler são algumas das suas paixões. A combinação de algumas delas deu origem a este blog, o Mudanças Constantes. Bem-vindos!

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