Inglaterra

Manchester, o Peak District e um desvio

No fim de semana que fui ao Peak District era para ter ido a Milão, mas a pandemia decidiu obrigar-me a cancelar pela segunda vez uma viagem. Determinada a não ficar em casa mais um fim de semana e verificando que a previsão meteorológica prometia sol, em poucos minutos pus-me a congeminar um plano que incluía uma visita a Manchester e ao Peak District para uma longa caminhada.

As viagens de comboio no Reino Unido podem ser inimigas da conta bancária, mas ao menos ligam cidades a uma velocidade estonteante. Do lugar onde vivo (Milton Keynes) até Manchester são 250 quilómetros que se fazem em menos de duas horas de comboio. Um tirinho!

Um amigo meu que também é meu vizinho alinhou nesta aventura espontânea – talvez porque, como sempre, não fui muito clara na quantidade de passos que teríamos de dar – e lá fomos nós para norte antes que nos fechassem todos em casa outra vez.

Manchester, um charme industrial

A cidade de Manchester é algo controversa. Já há algum tempo que estava curiosa em visitá-la, mas sempre que perguntava a pessoas que já lá tinham estado a sua opinião sobre a cidade ou diziam “sim, é super interessante!” ou “não é nada de especial”. Como o melhor é mesmo vermos pelos nossos próprios olhos, fui verificar quem é que tinha razão.

Para mim, ganhou a equipa “interessante”. Apesar de só ter visto o centro, achei Manchester uma cidade muito jovem cheia de bares e vida noturna (mesmo durante uma pandemia!). Alguns dos lugares a não perder são: a Manchester Cathedral que fica ao lado da Shambles Square onde ainda podes ver o que resta da arquitectura inglesa tradicional.

Um dos ex-libris da cidade é a John Rylands Library, uma biblioteca que parece saida de um filme do Harry Potter que infelizmente estava fechada devido ao bicho maldito e a Albert Square também é muito bonita.

Na Gay Village vais encontrar imensos bares e uma bela vista sobre o canal. Ali mesmo ao lado fica também o Alan Turing Memorial. A nossa voltinha de reconhecimento a Manchester acabou no The Circus Tavern, apelidado “o bar mais pequeno da Europa”, este pub com pequenas salas é muito acolhedor e é daqueles lugares verdadeiramente ingleses onde toda a gente mete conversa.

A noite foi curta até porque tínhamos um comboio para apanhar bem cedo no dia seguinte. Afinal, estávamos ali para caminhar, não para ir a festas!

Kinder Scout and Mam Tor Circular: uma caminhada com um percalço

O dia ainda mal tinha começado e nós já estávamos em movimento. Tínhamos 17 quilómetros pela frente e queríamos evitar multidões. Sim, porque conseguimos encontrar um dia de sol para fazer esta caminhada!

Começando em Edale, uma aldeia amorosa mesmo no coração do Peak District, fomos andando em direcção à parte mais difícil do percurso: uma subida de pedregulhos por onde passa um rio – é praticamente uma cascata – e que me fez dar graças às minhas botas à prova de água. Apesar de cansativa, a primeira hora de caminhada é deslumbrante, principalmente com os tons de Outono que coloriam a vegetação.

Já no topo só a lama atrapalhou o nosso passo. Eventualmente chegámos a um ponto em que, distraídos na conversa, nos esquecemos que tínhamos um GPS para consultar e assumimos que sabíamos o caminho. Errado!

Quando demos por nós já tínhamos andado quilómetros na direcção contrária e agora havia que voltar o mais depressa possível para o trilho certo porque tínhamos um comboio marcado que não podíamos perder.

Olhando para os tempos no Google, tínhamos cerca de dez minutos de manobra e por isso pusemos as perninhas em modo turbo e caminhámos como nunca caminhámos na vida. A parte boa deste desvio inesperado foi termos encontrado lugares que não veríamos doutra forma.

A parte menos interessante foi a final, até porque teve que ser feita meio a correr naquela ânsia do “será que vamos mesmo conseguir?”. No fim, tal e qual como o Google tinha dito, chegámos à estação de comboio dez minutos antes e celebrámos o nosso sucesso sentando-nos pela primeira vez em muitas horas. Os 17 quilómetros tinham-se transformado em 23 e a aventura teve um bocadinho mais adrenalina do que era inicialmente esperado.

Mesmo assim foi uma caminhada épica e adorei voltar ao Peak District, desta vez com sol!

Dicas rápidas

Hostels vs Airbnb: Eu sou uma das maiores defensoras dos hostels, excepto em Inglaterra. Por causa do Covid os preços dos hostels estavam bastante em conta e decidimos ficar no Selina NQ1 Manchester. Devo dizer que para hostel inglês as condições são excelentes, mas eu esqueço-me sempre que este povo marca dormidas em hostels para beber até ficar um pavão histérico e depois pôr-se aos gritos no corredor a horas indecentes por razão nenhuma. Nota-se que estou traumatizada? Resumo, se queres dormir, marca um Airbnb principalmente às sextas e sábados!

Bilhetes de comboio: Em Inglaterra é sempre muito mais barato comprar ida e volta do que bilhetes separados. Se morares cá e tiveres até 30 anos compra um Railcard. O Railcard dá descontos de cerca de 30% em todos os comboios no país.

Equipamento: Para qualquer caminhada em Inglaterra convém levar botas de caminhada impermeáveis. Nem sempre vais andar por trilhos com cascatas como este, mas há muita lama em geral, por isso ténis não são aconselháveis. Para esta caminhada levei também bastões que desde que me aventurei pelas montanhas Suíças considero indispensáveis.

Alltrails: O AllTrails tornou-se rapidamente no meu site preferido para encontrar caminhadas novas, especialmente em tempos de confinamento. Quase todas as caminhadas têm o percurso para download em múltiplos formatos, incluindo GPX Track. O trilho que fiz é este. Aconselho fazer no sentido contra-relógio.

Alfacinha germinada e cultivada num cantinho à beira mar plantado, a Inês tem uma certa inquietação que não a deixa ficar muito tempo tempo no mesmo sítio. Fez Erasmus em Paris, trabalhou em Istambul e em Portugal, fez um mestrado em Creative Advertising em Milão e agora trabalha no Reino Unido. Viajar, criatividade, cozinhar, dançar e ler são algumas das suas paixões. A combinação de algumas delas deu origem a este blog, o Mudanças Constantes. Bem-vindos!

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