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Home for All: aqui fervilha a esperança de um recomeço

Dizem que depois da tempestade vem a bonança. Em Lesvos essa bonança parece teimar em chegar, mas existem alguns raios de sol que rasgam a escuridão da tempestade. E esses raios de sol são as ONG’s e os voluntários que trabalham incansavelmente para tornar a vida dos refugiados um bocadinho mais leve.

Hoje quero falar-vos de um projecto muito especial e único na ilha, a Home for All. Enquanto a maioria das organizações tenta melhorar as condições de vida dentro do campo de refugiados de Moria (que é muito legítimo e nobre), a Home for All é a única organização que tira os refugiados do campo. E porque é que isso é tão importante? Porque durante algumas horas estão de volta a um ambiente humano, digno, seguro, confortável e feliz. E não há nada mais bonito e importante que isso.

Por isso, deixem que vos conte a história deste maravilhoso projecto <3

Tudo começou, há um tempo atrás, na ilha… de Lesvos

Foi há mais ou menos quatro anos atrás que o Nikos e Katerina, donos de um restaurante à beira mar, começaram a ver pessoas a caminhar, todas molhadas, pelas praias e estradas de Lesvos. Não sabiam o que era aquele fenómeno, mas queriam ajudar.

Começaram por dar boleia a estas pessoas até a um local de registo de emigrantes. Nessa altura ainda não havia campos. Rapidamente perceberam que não era um problema passageiro, mas mal imaginavam no que se iria tornar.

A família Home for All <3

O primeiro passo foi começar a distribuir refeições pelos refugiados. Mas quando viram que as pessoas comiam sentadas no chão, decidiram ceder-lhes um espaço para usufruírem tranquilamente das suas refeições. Até que chegou o momento em que foram obrigados a escolher entre manter o seu negócio e dedicarem-se somente a alimentar os refugiados. Optaram pela segunda opção.

E nasceu a Home for All

Em quatro anos a Home for All transformou-se. De repente era preciso muito mais do que apenas alimentar as pessoas que iam chegando. Era preciso dar-lhes roupas, conforto e um porto de abrigo. E as “casas” foram-se multiplicando.

Hoje o projecto é muito maior do que o Nikos e a Katerina, apesar de serem eles, sem dúvida, o coração que põe tudo a mexer. São 4 “casas”, armazéns de roupas, doações e centenas de voluntários que se disponibilizam a ajudar durante o ano e, que garantem a continuação da Home for All. Foi aí que dei a minha contribuição.

Fui para Lesvos sem saber bem o que me esperava. Sabia que o projecto tinha uma grande componente de lidar com os refugiados e que era isso que o tornava tão emotivo. Mas, sendo eu uma pessoa algo insensível, não estava à espera que me tocasse tanto.

Um dia na vida de um voluntário

O nosso dia começava na casa dos voluntários na pequena aldeia de Katos Tritos. Depois de enfardar um iogurte grego com 8% de gordura e um pãozinho cheio de sementes de sésamo tipo turco estava pronta para trabalhar.

A nossa aldeia

Quando chegávamos ao restaurante limpávamos tudo e certificávamos-nos que estávamos prontos a receber os convidados. A comida era preparada pelos chefes de serviço: a filha da Katerina e o namorado.

Depois, o Bill (o melhor inglês de sempre depois do meu namorado) guiava a nossa van até Mória. Só lá fui duas vezes, mas chegou-me para perceber que ali não devia viver ninguém. Mas assim que os nossos grupos entravam pelas portas tanto da carrinha como do restaurante o nosso trabalho era só um: fazê-los felizes.

Começando por servir-lhes pão, massa, arroz, peixe, frango ou carneiro, passando por intensas sessões de Jenga, Mikado ou colorir e acabando na entrega de embrulhos de roupas, sapatos e higienes, durante aquelas horas não havia voluntários e refugiados. Só amizade e companheirismo.

E repetíamos tudo ao jantar. No total, cerca de 50/60 pessoas por dia são alimentadas. No verão há espaço para mais. Pode parecer uma gota de água num oceano de 8000 pessoas. Mas são, no mínimo, 1300 refeições por mês e cerca de 500 000 por ano.

O restaurante e Home 1
O que este projecto me deu

Acho que os voluntários são quem mais beneficia do voluntariado. Sim, contribuímos para melhorar a vida destes refugiados durante algumas horas por dia, mas eles mudam a nossa perspectiva sempre.

Por muito cliché que pareça, a verdade é que somos mesmo muito sortudos. Por termos nascido num país seguro e, com mais ou menos dificuldades, conseguirmos viver a nossa vida sem pensar a cada dia se este será o último.

A Home for All é sobre dar um rosto à crise. Ficamos emocionados quando lemos e ouvimos sobre a crise dos refugiados? A maioria dirá que sim. Mas não os conhecemos, não sabemos as suas histórias, não falámos com eles. São facilmente esquecidos quando desligamos a televisão ou fechamos o computador.

Agora é diferente. Onde é que aquelas raparigas afegãs, com quem dancei durante horas na nossa Ladie’s Night, vão estar daqui a um ano? O que é que vai ser do Omir que veio do Irão e que adora o Ronaldo, do Umar que faz vídeos com músicas paquistanesas ou daquela miúda de 10 anos do Afeganistão de olhar espevitado e sobrancelhas fartas? Já não dá para desligar.

Grupo de refugiados que nos ajudaram a descarregar um camião cheio de doações

E chegamos ao ponto final do que este projecto me trouxe: o contacto com as crianças. Posso dizer que foi a semana mais fora da zona de conforto da minha vida porque tive que lidar com crianças! Isto pode parecer absurdo vindo de alguém que já viajou meio mundo sozinha, mas quem me conhece sabe que este é um feito incrível :p

Mas se há crianças que precisam de atenção e de esquecer o que as rodeia são estas. Um campo de refugiados não é a escola que merecem e por isso estamos lá nós para lhes devolver um pouco da infância roubada. E isso é estranhamente compensador.

Disclaimer: não, não vou começar a brincar com crianças regularmente. Esta semana foi boa mas serviu-me para o resto da vidinha.

Como podes ajudar

Se calhar não devia ter deixado a parte mais importante desde post para o fim, mas cá vai.

Primeiro, é como a Katerina diz, o ideal seria que toda a gente pudesse ser voluntária nem que seja durante uma semana só. É a melhor forma de perceber a dimensão do problema e a realidade no campo.

Melhores voluntários de sempre!! <3

Segundo, seria fazer uma doação. O projecto vive apenas de doações e voluntários. Por isso, se este natal tiveres com um espírito natalícia especialmente forte, aqui fica o link para poderes oferecer uma refeição a um refugiado.

Para além das refeições, as doações ajudam a:

Manter todas as “casas” abertas e a funcionar. O restaurante, o Internet café, e novo centro para mulheres e crianças;

– Reparar as carrinhas utilizadas para ir buscar e levar refugiados ao campo. São carrinhas velhas que dão problemas demasiadas vezes;

– Financiar novas iniciativas. O próximo projecto / objectivo é dar independência financeira a alguns refugiados. A ideia é dar-lhes máquinas e materiais necessários para praticarem os seus ofícios (há sapateiros, alfaiates, electricistas, etc…) e vender o que eles fizerem. Este projecto é o que poderá mudar efectivamente as vidas dos refugiados.

Uma coisa posso garantir: a tua doação ajudará alguém certamente.

Terceiro e último ponto: podes passar a palavra. Quando mais pessoas souberem que a Home for All existe, mais gente poderá doar e mais vidas poderão ser mudadas.

Fica aqui um cão fofo a apelar às doações

Espero que vos tenha conseguido transmitir, nem que seja só um bocadinho, a importância deste projecto apaixonante!

Alfacinha germinada e cultivada num cantinho à beira mar plantado, a Inês tem uma certa inquietação que não a deixa ficar muito tempo tempo no mesmo sítio. Fez Erasmus em Paris, trabalhou em Istambul e em Portugal, fez um mestrado em Creative Advertising em Milão e agora trabalha no Reino Unido. Viajar, criatividade, cozinhar, dançar e ler são algumas das suas paixões. A combinação de algumas delas deu origem a este blog, o Mudanças Constantes. Bem-vindos!

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